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"Ideias Feitas" é a crónica diária do Alberto Gonçalves. Olá, bem-vindo.

Olá, Maria.

Olá.

Boa tarde.

Boa tarde. Hoje vamos falar de desporto. Isto porque já elegeste o momento mais divertido deste mundial, apesar de ainda não ter terminado. Há por aí um comentador de futebol muito entusiasmado a falar de Maradona. Conta-nos tudo, Alberto.

Eu já chego lá, Maria. Mas uma coisa que eu acho que este mundial mostrou foi a capacidade das pessoas que seguem futebol e que veem o mundial, se excitarem e se entusiasmarem é cada vez maior e que hoje em dia, portanto, a excitação é muito fácil. E desde logo, toda a gente se excita, pelo que eu tenho visto e lido, com a qualidade do futebol jogado. Do pouco que vi, foram uns cinco ou seis jogos.

Já viste mais que eu.

Vi dois inteiros. Devemos rivalizar em termos de assiduidade no mundial. Mas do que vi, a qualidade do futebol pareceu miserável. Já sem falar nas outras coisas que ajudam a arruinar aquilo, que é as pausas para publicidade, a que eles chamam pausas para hidratação. Aquilo está sempre parado, o jogo. E se não para por isso, no intervalo, naturalmente, para por causa do VAR, que é uma coisa que eu acho absurda e que arruína, em definitivo, o que dantes era um entretenimento.

São as tecnologias.

Agora pretende ser o método científico de apuramento, se foi golo, se não foi golo, se o nariz do sujeito estava à frente ou o pezinho estava mais atrás. Aquilo não tem graça absolutamente nenhuma. E depois há outros motivos de excitação, as pessoas excitam-se a tomar partido, seja em que jogo for, que até pode ser o Paraguai e Ilhas Faroé, e as pessoas tomam partido aceso, aguerrido por uma das equipas, não sei porquê, por carga de água, mas gostam de fazer isso. As pessoas têm que torcer por alguém. E neste último jogo, o jogo de ontem entre a Argentina e Inglaterra, pareceu-me que essa excitação e esse tomar de partido atingiu o auge. Uns apoiavam Inglaterra, porque os argentinos, pelos vistos, foi o que eu vi por aí, são racistas. E agora, se é para decidir os jogos em função de juízos de caráter, acho que não nos devíamos ficar pelo racismo, mas devíamos ir mais longe e apurar o nível de cada jogador em matéria de altruísmo ou de egoísmo, de modéstia ou de soberba, de honestidade ou desonestidade, e por aí fora. Virtudes e defeitos não faltam. E no meio de tantas estatísticas que hoje poluem o futebol, há estatísticas para tudo. Já agora, acrescentavam-se outras que me dissem com exatidão a alma dos futebolistas. E se calhar nem era preciso ver os jogos, que de facto são um suplício. A equipa com a mais elevada taxa de pureza e de bondade ganharia a taça, estava o caso arrumado. Isto entre os que apoiavam Inglaterra. Os que apoiavam a Argentina era por causa das Malvinas e alguns jogadores argentinos até ergueram uma faixa no final do jogo a dizer que as Malvinas pertencem à Argentina. Acontece que as ilhas em questão nem se chamam Malvinas, chamam-se Falkland e não pertencem à Argentina. Houve uma guerra pela disputa daquilo. Foi uma guerra entre um regime democrático, o regime do Reino Unido, na altura, evidentemente, e uma ditadura protofascista e particularmente sanguinária, que era a ditadura dos militares, dita de extrema-direita da Argentina. E além disso, se é para levar a sério aquela cantilena sobre a autodeterminação dos povos, houve um referendo em 2013, não foi assim há muito tempo, e quase todos os habitantes das ilhas preferiram continuar sob a alçada do Reino Unido. Entre 1500 e tal habitantes ou votantes registados, houve três pessoas que votaram pela separação das Falkland do Reino Unido. Mas pronto, no meio de tanta excitação em volta dos jogos em geral e do Inglaterra e Argentina em particular, não houve ninguém tão excitado quanto o comentador da bola, Luís Freitas Lobo, a falar de Maradona. Eu vi isto porque me enviaram um vídeo precisamente com isto, com esse excerto da transmissão, acho que era da Sport TV.

Tem que ir ver.

Não, vê que é imperdível.

Tu dizes é que é imperdível.

A fim de comparar Maradona favoravelmente face a Messi, o senhor Freitas Lobo entrou num transe qualquer, baixou-lhe ali um espírito e desatou a lembrar que Maradona foi muito mais que um mero jogador de futebol. Que ele era um revolucionário. Isto estou a citar o senhor Freitas Lobo. Maradona era um revolucionário, Maradona tatuou o rosto de Che Guevara. Presumo que tenha posto a imagem de Che Guevara no corpo do Maradona, não tenha tatuado o rosto do próprio Che Guevara, que já não foi a tempo. Maradona era visita regular de Fidel, Maradona enfrentava o capitalismo e o imperialismo americano. Maradona era amigo dos pobres, sacrificou-se, deu tudo, entregou tudo e era, em suma, disse o senhor Freitas Lobo, um deus humano. Ora bem, eu por acaso até concordo que Maradona foi melhor jogador que o Messi. Eu vi muito mais vezes jogar o Maradona do que vi o Messi, mas parece-me que até jogava melhor. Não é isso que vem ao caso. E era de certeza, também concordo, uma figura mais exótica, uma figura com impacto social maior. Agora, chamar amigo dos pobres a quem defendia um regime como o de Cuba, que mantém a população na miséria há mais de meio século, é capaz de ser um bocadinho de exagero. E se o Maradona sacrificou e deu tudo que tinha, só que eu saiba, foi à Camorra napolitana, a quem comprava a cocaína ou a traficantes que não teriam a ver com a Camorra. Também não quero difamar excessivamente a máfia lá do sítio. E não me lembro, por fim, de Maradona ter combatido o imperialismo americano. Eu sei que ele serviu de modelo de propaganda ou de garoto-propaganda, como dizem os brasileiros, do tal regime fascista dos militares argentinos, que só criticou depois do regime cair, mas aí é muito fácil. Agora, eu tinha uma ideia da personagem do senhor Freitas Lobo e desconfiava que o senhor Freitas Lobo é daquelas pessoas que se orgulha de respirar futebol, transpirar futebol, viver futebol, almoçar futebol e por aí fora. Agora, ficou-se a saber, ou eu fiquei a saber, pelo menos, a minha ideia era vaga sobre o sujeito em causa, mas ficou-se a saber que o senhor Freitas Lobo, como não tem tempo para mais nada, só vive em função do futebol, nunca deve ter lido dois livros sérios ou três e por isso não diz coisa com coisa. Mas um facto é inegável, pelo menos para mim, o singelo minuto, isto dura apenas 57 segundos, salvo erro. Este singelo minuto do senhor Freitas Lobo a louvar Maradona para além de todos os limites, foi mais divertido do que o imenso aborrecimento que foi este mundial, pelo menos do que eu vi. E se houver outros momentos divertidos, também agradeço que mandem os vídeos, que eu até posso fazer outro "Ideias Feitas" sobre o assunto.

Exato. Não ficamos por aqui ainda. Há muito jogo por jogar, como costumam dizer os atletas.

Acho que só há um jogo agora. Há dois jogos.

São 90 minutos, Alberto, muitos vídeos podem surgir daí.

E estes 90 minutos agora com o VAR, isto às vezes vai aos 140. Por isso, o futebol tem 90 minutos, é um dogma que deixou de existir ou uma verdade que deixou de ser real.

Exatamente, já não é uma verdade absoluta.

Deixou de ser absoluta, exato, a palavra é essa.

Deixou, exatamente. E até lá fica entregue o momento mais divertido deste mundial 2026. Muito obrigada, Alberto. Estão desfeitas as ideias de hoje. Amanhã há mais a desfazer. Até lá.

Até amanhã, Maria. Até amanhã.