Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Vamos desfazer ideias feitas, como sempre, com o Alberto Gonçalves e já de olhos postos em setembro. É nessa altura que decorre a Festa do Avante, no início do mês. Alberto Gonçalves, queres falar aqui dos artistas que vão atuar? Olá.
Olá, Vanessa, boa tarde. Quero porque o cartaz foi revelado recentemente, o cartaz da Festa do Avante, que será, como disseste, no início de setembro. E lá vem uma série de artistas, a grande maioria eu não conheço de todo, francamente, mas vem alguns que eu conheço, o Jorge Palma, o Rui Reininho, o vocalista do Tim, dos Xutos & Pontapés, Paulo de Carvalho, salvo erro, quatro ou cinco artistas que eu conheço. Mas esse não é o ponto. O ponto é que pela primeira vez, desde que eu me lembro, ou pela segunda vez, se contarmos o ano passado, os artistas que participam na Festa do Avante, ou seja, na festa do Partido Comunista, são criticados por fazê-lo. Não são criticados por toda a gente, com certeza, não. Desde logo pelos comunistas, que até os irão ver. Há muita outra gente à esquerda que talvez não os vá ver, mas acha muito bem que eles participem. Mas há gente, pela primeira vez ou pela segunda vez, repito, que acha errado que se participe numa festa de um partido que, com mais hesitações ou menos hesitações, mas no fundo, nós sabemos que apoia o regime do senhor Putin e a ofensiva do senhor Putin na Ucrânia. Isto é interessante por vários motivos. Eu devo dizer, a mim não me incomoda nada que os artistas vão à Festa do Avante ou vão à festa do Partido Nacional Socialista, se o houvesse, ou qualquer coisa do gênero. Por mim, isso é lá com eles e é o nome deles que fica em jogo nestas coisas. Não sou adepto de cancelamentos, como agora se pratica. É interessante que algumas das pessoas que se calhar são adeptas de cancelar estes artistas ou gostariam de os ver pelo menos penalizados de alguma maneira por eles se associarem ao Partido Comunista, só resolveram fazê-lo depois desta questão da Ucrânia, da Rússia e do senhor Putin. Ou seja, só depois da invasão da Ucrânia é que o Partido Comunista passou a adquirir, em certos setores da sociedade portuguesa, um lado sombrio, negativo, reprovável. Não digo que não houvesse gente que sempre percebeu o que o Partido Comunista era, mas há mais gente agora a percebê-lo, só por causa da invasão da Ucrânia ou do apoio à invasão da Ucrânia, ou do apoio dissimulado à invasão da Ucrânia. Eu não estou a desvalorizar a gravidade da invasão da Ucrânia, muito pelo contrário. O que eu quero dizer, ou o que eu gostaria de dizer, é apenas que o Partido Comunista não se estreou agora ou não se estreou em 2022 a apoiar regimes que agridem, que invadem países soberanos, que maltratam as pessoas, que desprezam os direitos humanos mais básicos e que reduzem sociedades e povos a escombros ou à miséria ou à fome. Não, o Partido Comunista é assim e é isto desde que existe. Não vou agora fazer um inventário do cadastro do Partido Comunista ao longo de 100 anos de existência ou perto disso, mas não vale a pena. As pessoas, se não sabem, deveriam saber, e eu acho que sabem. Mas o Partido Comunista sempre esteve do lado oposto às democracias, com todos os defeitos que as democracias têm e tudo isso, mas a verdade é que é o melhor regime com exceção de todos os outros. O Partido Comunista sempre esteve com todos os outros regimes, aqueles que não são democráticos. E é curioso que para uma certa parte da população, só a invasão da Ucrânia é que justifica a excomunhão do Partido Comunista. Até agora, a relação mais do que próxima com a União Soviética, os apoios, a desvalorização dos Gulag, das fomes, incluindo na Ucrânia, a invasão dos países satélites da Hungria, da Checoslováquia, a influência nas guerras em África. Tudo isso não serviu de motivo para que centenas, seguramente algumas centenas de artistas que já passaram pela Festa do Avante, fossem de 2022 para trás censurados ou criticados, melhor dizendo, por terem participado na Festa do Avante. Até aí não havia nenhum problema, até aí o PCP não tinha qualquer problema. Havia ali anticorpos, a não ser das pessoas que eram declaradamente anticomunistas e que não gostavam de partidos não democráticos, assumidamente, claro. Mas para uma certa faixa da população, ali não havia problema absolutamente nenhum. Esse problema começou só com a invasão da Ucrânia. É uma maneira de ver as coisas. Não percebo, sinceramente, por que a invasão da Ucrânia atingiu esta semiunanimidade. Acho que é justa, claro que sim, mas não percebo por que só agora é que muita gente começou a perceber qual era a essência do Partido Comunista. Pessoas que diziam, inclusivamente, ainda há dois anos, há quatro, há oito, ou seja, quando foi da formação da Geringonça, que o Partido Comunista, pessoas até que se diziam direita ou que se dizem direita, diziam que o Partido Comunista é essencial ao sistema democrático português. Lembro-me desta frase, com pequenas variações, ser pronunciada por muita gente. Essas pessoas agora, ou algumas dessas pessoas agora, já não acham, se calhar, ou já não acham bem serem ouvidas em público a dizer que o Partido Comunista é essencial para o sistema democrático português. Tudo isso por causa da Ucrânia. Todo o mal que o comunismo e o Partido Comunista Português foi sempre um partido particularmente ortodoxo e o partido mais ortodoxo do Ocidente e mais próximo de Moscovo do Ocidente, todo o mal que a União Soviética e que Moscovo e que o comunismo em geral fizeram ao mundo pelo menos desde 1917, nada disso pareceu incomodar essas pessoas. Só a partir de agora que essas pessoas se sentem incomodadas. Por que isto é assim? Sinceramente, não consigo explicar. Tenho uma ideia ou duas, mas são arriscadas demais ou estão pouco sedimentadas para eu as revelar aqui. Mas que é assim, é assim. Quanto aos artistas do Avante, muito bem, vão lá cantar e festejar, com certeza, a invasão da Ucrânia, mas também que não se esqueçam que vão festejar muitas mortes que precederam a invasão da Ucrânia, muitas e muitas mortes, alguns milhões.
O Avante celebra o senhor Putin e 100 anos de terror é o título do Ideias Feitas de hoje com o Alberto Gonçalves. Alberto, para a semana há mais. Até lá.
Há mais, com certeza. Até segunda.
E é uma semana importante. Deveremos ter a Jornada Mundial da Juventude, provavelmente.
Da Jornada Mundial da Juventude.
Pensava, se não nos dá tema eletrónico.
Sim, sou capaz. Sim, provavelmente, sobretudo por causa daquele artista que agora fez um número na escadaria lá do palco.
O Dal Segundo. Sim.
Exatamente, o Dal Segundo.
A ver, vamos ver se há ou não mais adoções de protesto até segunda.