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"Ideias Feitas" com Alberto Gonçalves. Bem-vindo, Alberto. Hoje queres falar sobre o terceiro atentado contra Donald Trump.
Olá, Luís. É verdade, já há mais de ano e meio, salvo erro, que não havia um atentado, uma tentativa de atentado contra Donald Trump. E portanto, por causa disso, há mais de ano e meio que naturalmente não ouvíamos os milhões de negacionistas especializados em negar atentados ou tentativas de atentados contra Donald Trump. No sábado à noite, como se sabe, aconteceu num hotel de Washington a terceira tentativa de atentado contra o homem e os negacionistas voltaram à carga e voltaram em força. Os argumentos ou os delírios, com certeza é a palavra mais adequada, são os de sempre. Os mais moderados dentro dos negacionistas preocupam-se muito menos com o facto de o presidente dos Estados Unidos ser alvo da intenção homicida de um sujeito do que com a possibilidade, como eles dizem, retirar dividendos políticos do episódio. Ou seja, até os seminegacionistas, aqueles que no limite, com muito esforço, admitem que a tentativa de atentado foi real, não estão por aí além interessados nos malefícios físicos de que o presidente dos Estados Unidos voltou a escapar por um triz, embora nas primeiras vezes fosse apenas candidato, e sim nos benefícios políticos que ele pode obter. Esse é que é o problema, é o que os aflige. O que os aflige não é a violência enquanto arma política, é a política propriamente dita, desde que a política possa beneficiar o senhor Trump. Mas a maioria dos negacionistas dos atentados e das tentativas de atentados contra Trump não é moderada de maneira nenhuma, é da linha dura e nunca sequer coloca a hipótese de o atentado não ter sido um inside job, um trabalhinho organizado pela própria administração Trump, de modo a fazer com que o chefe passe por vítima e ganhe popularidade antes das eleições de novembro, e faça esquecer o impasse no conflito com o Irão, e desvie as atenções do aumento do preço dos combustíveis e essas coisas todas. E a fim de provar, isto com imensas aspas, que o atentado foi uma simulação, os negacionistas trazem logo inúmeras evidências, todas ridículas, todas absurdas, todas provas cabais de que a entourage de Trump já sabia que o falso atentado ia acontecer. Os teóricos das conspirações, não só neste caso, mas como em geral, vivem destas revelações a que só eles, uns poucos milhões, têm acesso. Mas nada disto sequer é o ponto fundamental em toda a história. O que me parece ser o ponto fundamental nesta história recorrente é o fato de tanta gente fingir não acreditar que haja atentados contra a vida de Trump, quando essa mesma gente passa o tempo a desejar a morte de Trump. Se calhar, digo eu, considerar em público que uma pessoa em particular é o mal encarnado, é responsável por todas as desgraças do mundo, repetir que essa pessoa nem sequer devia ter nascido, que é um monstro abominável a quem se deve negar o estatuto de ser humano, se calhar isso, continuo a dizer eu, torna provável que diversos taradinhos resolvam fazer justiça pelas próprias mãos e consigam acabar com a origem de tanto sofrimento. Os negacionistas dos atentados contra Trump criam as condições para que os atentados contra Trump aconteçam e, pior do que isso, se banalizem. Ainda na quinta-feira, o alegado comediante Jimmy Kimmel fez uma piada premonitória, ao que parece, ou quase, com o brilho de Melania Trump, o brilho de quem está à espera, não de um filho, mas de se tornar viúva. Foi esta a graçola do senhor Kimmel. E quando até a comédia ou a baixa comédia especula com gozo acerca da morte iminente de um estadista, não é extraordinário, não é surpreendente que esteja criado o clima para caçar o dito estadista a tiro. E o famoso Trump Derangement Syndrome, que afeta meio mundo, anônimos das redes sociais, afeta comentadores televisivos e, como se vê, afeta comediantes sem graça nenhuma, não é apenas um problema psiquiátrico sem consequências, porque espalhar tanto ódio em cima de alguém não só legitima o ódio, como inevitavelmente leva um ou outro indivíduo com propensões equívocas para herói a crer que esse ódio seja consequente e se materialize. Só pra terminar, Luís, o ambiente em que se vive torna plausível e torna até provável a recorrência, a repetição destes atentados contra Donald Trump ou contra apoiantes de Trump, como o Charlie Kirk, esse atentado funcionou, infelizmente. E os que negam a veracidade dos atentados contribuem para que os atentados aconteçam. Ou seja, do ponto de vista moral, não jurídico, obviamente, mas do ponto de vista moral, os negacionistas são cúmplices.
"Os negacionistas dos atentados contra Trump" é o título da tua crônica de hoje. Alberto Gonçalves, um abraço, até amanhã.
Um abraço, Luís. Até amanhã.