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Altura de desfazer ideias feitas. Junta-se a nós o Alberto Gonçalves. Alberto, bem-vindo.
Muito boa tarde.
Olá, Alberto Gonçalves, boa tarde. Hoje falamos aqui de Covid-19 e de negócios que envolvem o Covid-19?
Sim, ontem o "Correio da Manhã", não sei se foi só o "Correio da Manhã", mas o "Correio da Manhã" certamente divulgou uma lista e fez um pequeno artigo, demasiado breve, aliás, para a importância do caso, sobre os ajustes diretos entre o Estado e algumas empresas a propósito de compras alusivas ou a propósito, ou justificadas pela Covid-19. Esta história dos ajustes diretos já começou em maio ou até em abril, salvo erro, e na altura a ministra da Saúde justificou a ausência de concursos públicos, justificou estes ajustes diretos com urgência, o que até certo ponto se entendia. A epidemia estava a começar, o SNS afinal não estava assim tão bem preparado, era necessário material, etc. Só que nessa altura, mesmo já em abril, maio, urgência já era um conceito vago, porque houve adjudicações sem concurso que previam entrega de material já para 2021. Portanto, não havia talvez necessidade de fintar a obrigação de concurso público. Se os produtos eram para chegar passados 10, 11, 12, 13 meses, talvez a urgência fosse um bocado relativa. Isto já sem falar naqueles famosos ventiladores encomendados à China, também com caráter de enorme urgência, por definição. Mas que chegavam aos 10 ou 20 ou 30 de cada vez, eram 1.100 e tal ventiladores e chegavam aos pouquinhos e até hoje eu não sei se algum dia eles chegaram, de facto, ou que percentagem de ventiladores chegou, de facto. Ainda sobre a urgência. Passaram-se, entretanto, desde maio, junho, julho, agosto, setembro, quatro, cinco meses e os ajustes diretos, que na altura em maio rondavam os €90 milhões, agora estão nos €260 milhões. E foi essa a revelação que o "Correio da Manhã", pelo menos o "Correio da Manhã", insisto, fez ontem. Ou seja, já acrescem mais 170 milhões ao valor que causou um pequeníssimo escândalo em maio. Ou seja, mesmo após o confinamento e nos meses de verão, em que houve poucos casos comparativamente e pouquíssimos internamentos e muito menos mortos, aliás, mortos, felizmente, continua a haver muito poucos. Ao longo destes meses, pelos vistos, a urgência continuou e até aparentemente tornou-se mais urgente, porque os gastos subiram em ajustes diretos, em dispensa de concurso público. Portanto, a urgência foi sempre crescendo, não se percebe bem com que justificação. Boa parte destes contratos tem a ver com máscaras. Também há contratos que se referem à compra de testes e àqueles fatos impermeáveis de proteção. Mas depois há outro tipo de contratos alusivos nesta dimensão da Covid, justificados pela Covid, e são contratos de concertos musicais, por exemplo, de espetáculos de dança. Eu não percebo como é que se justifica. A parte da ausência de concurso público, eu percebo, que se uma câmara quer contratar o artista X ou Y, não vai abrir um concurso para que os artistas concorram. Mas não se percebe como é que a Covid-19 pode ser invocada a este pretexto. E a Câmara de Faro, salvo erro, mandou comprar umas motocicletas também a propósito da Covid. Portanto, a Covid tem as costas larguíssimas. Estes contratos, não os espetáculos musicais ou as motocicletas, mas os contratos principais, são na ordem dos €10 milhões, nove milhões, sete milhões, em ordem crescente, andará por aí. E alguns deles são empresas chinesas. Tudo bem, mas há intermediários no meio disto e há quem se lembre, por exemplo, naquela altura de maio, também se falou do contrato direto, claro, com ajuste direto, de uma empresa chinesa cujo intermediário em Portugal era um antigo candidato do PS à Câmara de Cascais, que tem uma empresa ligada a materiais médicos e que muito oportunamente apareceu a promover essa ligação entre o Estado e uma empresa chinesa e fez um contrato na altura de nove milhões, que era um dos contratos cujos produtos eram para ser entregues só em janeiro do próximo ano, um dos tais contratos urgentes que dispensaram concurso público. E se procurarmos bem as empresas referidas no contrato ou os intermediários caseiros dessas empresas, que muitas vezes as empresas são chinesas, eu tenho a impressão que se revelariam agradáveis surpresas. Não sei se seriam sempre ex-candidatos do PS a autarquias, mas talvez se revelassem outras proximidades, pelo menos curiosas. Mas isto se não soubéssemos estar a lidar com gente acima de qualquer suspeita, gente seríssima. E se não fosse isso, poderíamos até ficar com a impressão ou com a suspeita de que as regras para usar máscaras, estas regras em vigor, cada vez mais apertadas, e estas recomendações de álcool gel e esta histeria em volta da app StayAway Covid, e estas aflições todas que vêm tolhendo o cidadão comum, que não tem acesso a estes negócios, que estas recomendações, estas regras e este massacre do cidadão seria mais ditado por um negócio do que pela ciência. Agora, felizmente, todos nós confiamos na honestidade e na integridade das pessoas do Estado que estão à frente destas coisas.
Muito obrigado, Alberto Gonçalves. Encontro marcado amanhã, aqui, à mesma hora, na Rádio Observador. Alberto Gonçalves a desfazer ideias feitas.
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