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Mais um Ideias Feitas com o Alberto Gonçalves. Alberto, boa tarde. Hoje o teu tema são os assuntos não debatidos no debate de ontem entre todos os líderes partidários.
No de ontem e nos demais. Para quem se queixava dos demais, dos anteriores, ou daquele modelo de debate, o de ontem veio provar que o modelo pode piorar, porque se nos primeiros debates, nos frente a frente, havia alguns casos, excesso de conflito ou noutros casos excesso de aborrecimento, o de ontem foi uma espécie de sucessão de tempos de antena, em que cada um falava à vez e houve muito poucos momentos de debate. Eu tive que ver, pediram para eu comentar num canal televisivo, portanto vi o debate na íntegra. Faltam-me ali os cinco minutos finais, a menos que nos cinco minutos finais, que não me consta, tenha havido alguma alteração extraordinária, das quase duas horas que vi, foi isso que se passou, uma sucessão de tempos de antena com muito poucas trocas de argumentos entre os candidatos. Houve ali uma coisa ou outra, um momento ou outro em que se confrontou o primeiro-ministro, mas realmente muito pouco mais. E depois tematicamente, o debate de ontem foi dividido sobretudo em duas partes e quase metade do debate foi dedicado a decidir, ou apurar, ou investigar, ou tentar perceber que alianças os partidos estariam dispostos a admitir, que alianças estarão dispostos a recusar. Isto decorre naturalmente do precedente criado pelo doutor Costa em 2015, que a partir de agora não interessa muito quem ganhe eleições, interessam as alianças que se constroem depois delas ou antes delas. Portanto, boa parte do debate foi à volta disso. Outra parte do debate, ou a maioria do resto do debate, foi dedicado ao Serviço Nacional de Saúde. E é extraordinário, não que o Serviço Nacional de Saúde não seja um tema importante e pertinente, e ainda bem que esteve no debate. Os partidos à direita ou mais à direita acham que o Serviço Nacional de Saúde não funciona devidamente, que parece que é a impressão geral das pessoas. Os partidos à esquerda acham que o Serviço Nacional de Saúde é o melhor do mundo e só não é mais o melhor do mundo, porque ainda não se despejou dinheiro suficiente em cima dele. Portanto, se ele não está bem com o dinheiro todo que se despejou, despejando-se mais dinheiro, ele há de melhorar, naturalmente. São duas visões antagônicas e é disso que constam os debates. O que eu achei mais curioso, e isso já tinha achado em todos os debates frente a frente, é o fato de mesmo num debate de campanha em geral e sobretudo num debate em que o foco da saúde está tão presente, a Covid não existe. Já falamos disso aqui, eu sei, mas continua a acontecer. A Covid ou as políticas da Covid não existem. Fala-se ocasionalmente, ontem, por exemplo, como nos debates anteriores, às vezes vem à baila a palavra pandemia, mas é sempre para falar da pandemia, como se a pandemia provocasse o que provoca por si só, e não fossem as políticas ditas de combate à pandemia, que têm consequências econômicas, na saúde, etc. E isso não ocorre, aquelas pessoas vivem num mundo em que com certeza sabem que existe Covid, eu estou a presumir isso, que nenhuma daquelas pessoas desconhece o que se tem passado nestes dois anos, mas é realmente extraordinário que sendo a Covid e as políticas para a Covid a notícia absoluta ou o fato da atualidade absolutamente dominante nestes praticamente dois anos, haver um debate para umas eleições legislativas, ou uma série de debates e uma campanha além dos debates, em que esse tema não existe, é totalmente posto de parte. Houve ali um breve momento em que o João Cotrim Figueiredo da IL falou no assunto para confrontar o António Costa com as políticas da Covid. Pareceu uma coisa muito breve que foi depressa deixada de lado. De resto, não. Os partidos ou acham que as políticas da Covid, ou ditas de combate à Covid, são absolutamente inatacáveis, e alguns partidos acredito que achem isso, desde logo à cabeça o PS. O Bloco de Esquerda também já o afirmou, que esteve em todos os momentos ao lado do PS. O PSD também presumo que não tenha nada a contestar, porque pese o doutor Costa tenha atacado o doutor Rio por não acreditar na pandemia, aquela coisa extravagante que o doutor Costa disse ao doutor Rio no debate, o PSD também esteve sempre ao lado do governo na matéria. Mas há partidos, e a IL é um deles, por exemplo, que têm tido ocasionalmente uma postura de crítica face às medidas restritivas, face às discriminações impostas pelos certificados de vacinação, face a essas coisas todas, já há muito tempo. E agora numa altura em que existe uma variante que já é mais ou menos consensual no mundo científico, que vai varrer boa parte da população dos países onde ela está e que são grande parte dos países do mundo e no Ocidente, sobretudo para já. Ou seja, num contexto assim, essas medidas, essas restrições, essas discriminações, que já eram abusivas, agora além de abusivas e de inúteis, são ridículas, são caricatas. No entanto, ninguém discute o seu fim, ninguém discute a possibilidade do seu fim, ninguém as discute, ponto. E o debate de ontem foi mais um momento em que se esteve duas horas e uma hora das quais, ou quase uma hora das quais a discutir a saúde em Portugal, e não se discute aquilo que se tem feito a pretexto da saúde. Já dei aqui o exemplo daquelas histórias do Twilight Zone ou de certos filmes de ficção científica, parece que é uma realidade alternativa em que aquela gente vive. E é uma realidade alternativa porque eles querem que assim seja. Para além de alguns partidos acharem muito bem tudo o que se tem passado, mesmo os partidos que não acham assim tão bem, que não concordam tanto assim, têm medo. Não têm medo da Covid, como alguma parte da população tem, um medo absolutamente irracional, histérico da Covid. Têm medo de tocar no assunto e que esse assunto seja delicado demais para o eleitorado que potencialmente pode votar no partido X ou Y. É esse o problema. E para mim, enquanto eleitor, agora apenas enquanto eleitor, faz alguma impressão que um partido limite o alcance da sua campanha, do seu programa e da sua mensagem apenas aos assuntos que não são polêmicos ou que têm um potencial de polêmica reduzido. Se o partido X, apesar de achar estas medidas restritivas e discriminatórias nocivas, por exemplo, não vai falar no assunto porque acha que isso pode alienar uma parte do seu eleitorado potencial. Um partido que vive com este receio, ou os partidos que vivem com este receio ou com este medo de beliscar um setor do eleitorado que eles entendem ser majoritário, pelos vistos, porque se entendessem que fosse minoritário, não teriam problemas em falar no assunto. Como acham que é majoritário e que pode prejudicá-los mais do que beneficiá-los, não falam do assunto. Isso é um ato, vamos dizer, de covardia, pelo menos é um ato incompreensível e que não convence uma parte significativa da população e que cada vez eu acho que é maior, que está a achar que tudo isto que se está a passar a pretexto da Covid, que já ultrapassou os limites e a cada dia que passa ultrapassa mais e cada dia que passa eu estou em crer que há mais pessoas a achar que isto é insustentável, que não se pode continuar assim com uma série de medidas e de regras que saem da cabeça do doutor Costa e dos conselhos dos ministros que o rodeiam nos conselhos de ministros e que são despejadas em cima de nós sem uma explicação e que muitas delas, a grande maioria delas, nunca fizeram sentido absolutamente nenhum. No contexto atual, o sentido é zero. Os países mais vacinados do mundo e com medidas mais rigorosas do mundo, Austrália e Israel, por exemplo, Israel já vai na quarta dose, são os países que têm mais casos per capita do mundo neste momento com esta variante. Ou seja, já nada pode impedir o avanço desta variante a não ser quando ela própria decidir começar a descer. Não há motivo nenhum para o que se passa e não há motivo nenhum para que uma campanha política seja toda ela seguida ou toda ela levada a cabo, mantendo a Covid ao lado, quando a Covid é o tema. Infelizmente, é o tema e as políticas da Covid são o tema destes dois anos. E eram há dois anos, há um ano, há seis meses e são no agora. E agora talvez se justificasse discutir isto mais do que nunca. Eles não discutem.
E fica esse teu repto, Alberto Gonçalves. Amanhã contamos novamente contigo para desfazer ideias falsas.
Até amanhã. Obrigado.
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