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O Ideias Feitas. Ideias Feitas na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto. Bem-vindo.
Olá, Ricardo. Obrigado.
E já estiveste a ler o livro de Mário Centeno?
Ainda não tive a oportunidade, mal possa vou devorá-lo, com certeza. Vou ser eu e provavelmente milhões de portugueses, pelo menos centenas de milhares. Já desta deixa, mas há dias, de facto, o doutor Centeno lançou um livro e que certamente, pelo menos é o meu desejo, será um grande êxito de vendas. E na sessão de apresentação do livro, que é isso que mais me importa aqui, ele respondeu a umas perguntas e uma delas sobre as comparações que eventualmente se podem fazer entre as ambições dele e as de Pedro Passos Coelho, e o tipo de intervenções que ambos têm tido. E com o enfado das pessoas intelectualmente superiores, o doutor Centeno recusou qualquer semelhança com Pedro Passos Coelho e disse, e passo a citar, que: "Essa comparação é despropositada porque o passado de ambos é completamente diferente." E depois esclareceu um dos aspectos em que se diferencia do ex-líder do PSD e ex-primeiro-ministro. Vou voltar a citar: "A minha dedicação à vida acadêmica não tem paralelo com nenhuma figura que vocês vejam, em particular o doutor Passos Coelho." Fim de citação. E com isto, o doutor Centeno, acho eu, quis esclarecer aos portugueses que o seu nível de brilhantismo não tem equivalente no país, quiçá no mundo, pelo menos no país não parece ter. E se ele anda por aí a dar uns palpites sobre o rumo de Portugal, é apenas porque sendo um iluminado, sente a necessidade, em termos de consciência, de orientar as massas no caminho do bem, e não porque ponha sequer a hipótese de um dia vir a ser primeiro-ministro. Ele diz que não gostaria nada de vir a ser primeiro-ministro. O que ele faz para nos ajudar e nada mais. Aliás, foi só por altruísmo que um acadêmico do calibre dele, do gabarito dele, anda há não sei quantos anos a aceitar cargos públicos e políticos, incluindo um particular cargo que é público e não devia ser político. E foi só também por altruísmo que o doutor Centeno ponderou submeter-se ao sacrifício de suceder ao doutor Costa como primeiro-ministro, na altura da admissão daquilo. Foi só por altruísmo que o doutor Centeno ficou, pelos vistos, ao que consta, bastante irritado quando não foi designado para suceder ao doutor Costa, o que teria evitado que o país tivesse entrado, para usar uma expressão que ele usou, numa instabilidade, uma instabilidade escusada. Portanto, o que move o doutor Centeno é obviamente o serviço público e a responsabilidade institucional, e nunca ambição pessoal ou jogos políticos, ou essas coisas menores. A verdade é que um país perante isto não merece uma personalidade como a do doutor Centeno, mas tem a sorte de ter uma personalidade como a do doutor Centeno. O ideal, se calhar, era acabar-se com as eleições. Não sei se serão em 2029, conforme o previsto, ou se serão antes, mas acabava-se com as eleições e colocava-se já o doutor Centeno a mandar nisto tudo com plenos e ilimitados poderes. Claro que ele não quer nada disso, mas estou certo que em nome do bem comum, ele faria mais esse sacrifício. Ele está habituado a fazer sacrifícios, a sacrificar-se por nós. Agora, para terminar, vou tentar falar só um bocadinho mais a sério, o que dado este tema não é muito fácil. É um facto que o doutor Centeno não se compara a Pedro Passos Coelho, que foi, se tivermos em conta o contexto em que governou, o melhor primeiro-ministro que tivemos em décadas e que quando hoje fala e não fala muito, é ouvido e tudo aquilo que diz tem repercussões. O doutor Centeno foi um ministro das Finanças discutível, questionável, e foi um governador do Banco de Portugal que em nome da decência nunca deveria ter sido. Além disso, tem-se fartado de falar e fora do impacto nas tricas partidárias, sobretudo dentro do PS, ninguém liga grande coisa àquilo que ele diz. Eu, por exemplo, soube por estes dias que o homem tem um espaço de comentário regular num canal televisivo e juro pela saúde da minha mãezinha que não sabia e que jamais vi alguém tocar no assunto. Nunca ninguém me apareceu a dizer: "Epá, viste o que o Centeno disse ontem?" Não, sinceramente não. Outro ponto em que o doutor Centeno não se compara a Pedro Passos Coelho é na soberba. O homem está realmente convencido de que é um gênio ou perto disso, um gênio que se digna oferecer-nos a sua sabedoria a nós, um povo inculto, e oferecer também a sua sabedoria a uma classe política que ele julga estar muitíssimo abaixo do seu nível. Sinceramente, continuando a sério, se atendermos aos antecedentes, eu não acho nada improvável o doutor Centeno chegar a líder do PS e com jeitinho a primeiro-ministro. Não seria nada de extraordinário e nem é essa possibilidade que acho que esteja em causa. O que está em causa é um sujeito com o currículo político dele achar que paira acima de alguém, em particular, como ele diz, de Pedro Passos Coelho. Eu acho que no máximo o doutor Centeno compara-se com o doutor José Luís Carneiro ou com rivais na corrida à Secretaria-Geral do partido, sei lá, como a doutora Alexandra Leitão e outras pessoas que andam para lá a ver se substituem, se são chefe no lugar do chefe. E nem assim tenho a certeza, mesmo comparado com estas pessoas, de que a comparação seja particularmente favorável ao doutor Centeno. Ele acha que sim, está no direito dele.
Obrigado, Alberto e até amanhã.
Até amanhã, Ricardo.
Um abraço.
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