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Salve.

Boa tarde, Alberto Gonçalves. Hoje queres responder a uma carta que diz respeito à Marcha de Orgulho LGBT.

Exatamente. Olá, Miguel. Antes disso, devo esclarecer que regularmente recebo e-mail, recebo cartas por e-mail, recebo mensagens, recebo comentários àquilo que digo no "Ideias Feitas". O problema é que as pessoas, ou as cartas e as mensagens que são simpáticas, educadas e cordiais, são de pessoas que normalmente concordam com o que eu disse. As pessoas que discordam do que eu disse, normalmente não são muito educadas, nem muito simpáticas, nem nada cordiais. Este caso é uma exceção e é por isso que, ao contrário do que é costume, acho que nunca respondi aqui a nenhuma carta do gênero, ou nenhum e-mail do gênero, venho responder a A. O nome foi-me pedido que não o divulgasse. E A. tem 23 anos e é homossexual. É assim que inicia a sua carta e o primeiro parágrafo diz o seguinte, passo a citar: "Parece-me que o seu comentário", portanto, o meu, "assenta numa premissa discutível, a ideia de que porque Portugal possui uma legislação relativamente favorável às pessoas LGBTQIA+, já não existe nada a que resistir. A meu ver, esta conclusão confunde igualdade legal com igualdade social. O facto de uma pessoa ter direitos formalmente reconhecidos não significa necessariamente que esteja livre de preconceitos, discriminação ou pressão social. Na minha própria experiência", e presumo que seja disto que A. está a falar quando fala de discriminação e pressão social, "na minha própria experiência", diz ele, "quando ando de mão dada com meu namorado na rua, recebo frequentemente olhares de reprovação e, por vezes, comentários desnecessários que dificilmente seriam dirigidos a um casal heterossexual". Ora bem, fim de citação. Eu não me limitei, no "Ideias Feitas" de há uns dias, a falar apenas da igualdade legal. Falei do que A. chama de igualdade social, para notar que uma pessoa em Portugal, em geral, pode levar a sua vida sossegada, independentemente da respectiva orientação sexual. Haverá aqui e ali preconceitos e, ainda mais vago, olhares de reprovação? Pois, com certeza que sim, imagino que sim. Mas os preconceitos, feliz ou infelizmente, pertencem à esfera privada de quem os tem e é livre de os ter, desde que isso não comprometa terceiros ou não viole a legislação. Não me parece que faça sentido sequer sonhar com um mundo sem preconceitos, sejam estes ou outros quaisquer. E sobretudo, também não me parece que os preconceitos do indivíduo, isto acho que é o mais importante, por condenáveis que sejam, desapareçam apenas porque umas tantas pessoas marcharam na rua a gritar slogans. Eu não sei se o A. acredita nisto. Eu não acredito. Até acho que pode agravar esses preconceitos, essas marchas, mas também não há de ser por aí. Acho que, na melhor das hipóteses, é indiferente aos preconceitos a existência dos protestos na rua. A cabeça das pessoas não se muda por causa disso. Outra coisa que o A. diz é o seguinte: "O seu comentário interpreta a palavra resistência de forma excessivamente literal. Quando movimentos sociais falam em resistir, muitas vezes referem-se à persistência de preconceitos, ao receio de retrocessos políticos ou à necessidade de preservar direitos conquistados." Fechar aspas. Aqui lamento, mas não sou eu quem interpreta a palavra resistência de forma literal, são os movimentos gay que o fazem. E foi isso que eu também notei, ou tentei notar no "Ideias Feitas" em questão. O exagero da terminologia face a uma realidade comparativamente moderada, moderadíssima até. A dramatização não foi minha, a dramatização é dos organizadores, ou dos patrocinadores, ou de alguns participantes destes movimentos. Mais uma coisa que o A. diz é o seguinte: "Parece-me redutor apresentar a questão como uma escolha entre duas realidades, ou um país é semelhante ao Irão, onde a homossexualidade é criminalizada, ou então não existem razões para protesto. Entre esses extremos, existe uma vasta gama de experiências sociais que merecem discussão." Foi isto que o A. disse. Agora sou eu a falar. O A. tem toda a razão. Eu referi os exemplos do Irão, referi também o exemplo de Gaza, por mera redução ao absurdo e porque são dois lugares ou dois regimes que muitos dos que reivindicam direitos para os homossexuais são capazes de louvar noutros contextos. Eu acho que não faz sentido participar numa terça-feira na Marcha LGBT e na quinta-feira desfilar contra as guerras que poderiam libertar Gaza e o Irão de regimes que tratam a homossexualidade como um crime. Eu acho que não faz sentido. Não estou a dizer que o A., a pessoa que me escreveu, acha que faz, mas só lhe peço para pensar nisso. Por fim, e já para terminar, Miguel, o A. diz: "Considero injusta a sugestão de que os ativistas LGBTQIA+ apenas procuram novas causas para justificar a própria existência. Ao longo da história, praticamente todos os movimentos sociais continuaram a existir após alcançarem conquistas importantes." E isto é verdade. E seria uma longa conversa, que não cabe aqui no "Ideias Feitas", até decidirmos se o prolongamento dessa existência foi ou não nocivo para as próprias causas após as conquistas importantes iniciais. Eu, por exemplo, tendo a suspeitar que a partir de certo ponto, a persistência, a insistência dos movimentos, aquilo a que se chama institucionalização dos movimentos, acaba por prejudicar as causas pelas quais esses movimentos começaram por se bater. Depois de estar cumprido o objetivo inicial da igualdade, e que faz todo sentido, como é natural, insistir nisso, insistir para lá disso, sobretudo para lá disso, acaba-se por trazer de volta elementos de discriminação, que não importa se são positivos e opostos à discriminação negativa que havia. O facto é que são fatores de discriminação, fatores de distinção numa sociedade que julgo que os movimentos, pelo menos na origem, desejavam que fosse igualitária. E isto só reforça divisões sociais que se pensavam extintas. Acho que estes movimentos, depois de cumprirem as funções para as quais foram criados, acabam por criar divisões desnecessárias prejudiciais às próprias causas que defendem e não só. Isto não pode ir mais longe, era uma conversa que poderia durar muito. Não sei se terei resposta, mas não posso continuar no "Ideias Feitas" sempre a responder às pessoas. Foi uma exceção, porque a carta foi particularmente educada e pertinente também. Há aqui pontos que dão que pensar. Dito isto, Miguel, bom fim de semana e até segunda-feira e um abraço.

Fica a resposta dada. Até segunda-feira, Alberto, no "Ideias Feitas" de hoje.

O que têm em comum Sérgio Sousa Pinto e Miguel Pinheiro?

Ora lá está. Cá está a prova do crime.

A frontalidade e o espírito crítico sobre a política e a atualidade.

Tudo aquilo que me interessa é a liberdade. E não gosto desta coisa de pessoas que vivem possuídas de certezas absolutas, quererem apropriar-se da lei para impor as suas concessões aos outros.

Realpolitik.

Não conseguimos resolver o problema do SNS, eu achei que ia dar.

Não devias pôr o SNS como o tempo inteiro.

Desculpa, tens toda a razão. Vou tentar fazer melhor.

Para ouvir na Rádio Observador, à quarta-feira, depois do jornal do meio-dia e em todas as plataformas de podcast. O Realpolitik tem o apoio da AIMAP, a metalomecânica responsável por 24 mil milhões de euros de exportações.

Reza a lenda que em 66 os jogadores comeram bacalhau antes de todos os jogos, menos antes do fatídico contra a Inglaterra. E em 2016, um jogador tinha a barriga cheia de bacalhau quando nos encheu de orgulho.

Chegou o bacalhau da sorte, um bacalhau para todos comermos antes de Portugal jogar, para dar sorte e alimentar a fome de vencer. Disponível e pronto a comer na cozinha Continente. Continente, parceiro alimentar das nossas seleções. Rádio Observador, são 07h