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Desespera. Ideias Feitas na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.
Olá, Ricardo. Boa tarde.
E nem tu resistes a um prognóstico?
Eu devo confessar que a escolha do tema de hoje foi por falta de outros temas, mas sobrou-me este. E realmente, como toda a gente está a falar de futebol, acho que também não fica mal entrar no clima e falar também. Porque imagino que os portugueses em peso, neste momento, ou pelo menos uma parte muito significativa dos portugueses, esteja num estado de grande ansiedade por causa da estreia, não é preciso dizer o que é, mas da estreia da seleção de futebol no Campeonato do Mundo. E não é motivo para isso, digo eu, porque é facílimo prever o que vai acontecer neste jogo e depois nos jogos seguintes, até se concluir a participação nacional no Mundial, que certeza que os portugueses querem que se conclua o mais tarde possível. E como a duração do Ideias Feitas é limitada, eu não me vou por aqui fazer previsões até ao jogo final, que também não seria difícil. E o jogo final não tem que ser necessariamente o jogo da final, mas sei exatamente o que se vai passar hoje e acho que é fácil qualquer pessoa saber o que se vai passar jogo a jogo. E é este conhecimento que para as pessoas que não sabem ou que não arriscam fazer previsões, que eu quero partilhar com os ouvintes. E por isso o meu prognóstico é o seguinte: no jogo de hoje, que é contra o Congo, a seleção portuguesa pode, isto é chocante para muitos, mas a seleção portuguesa pode ganhar, pode empatar ou pode perder. Acho que até aqui não vou falhar. Para esta parte não me engano. E acho que no que eu vou dizer a seguir também dificilmente me enganarei, porque se Portugal ganhar e ganhar por goleada ou pelo menos a jogar bem, toda a gente vai entrar em êxtase, vai pendurar bandeirinhas nas janelas, nas varandas e nas marquises. Vai dizer que sempre soube que a equipa Todos Nós é a melhor geração de sempre, que é um portento, uma coisa sem igual na história da modalidade e uma clara favorita a ser campeã do mundo. E fica provado, de uma vez por todas, que, como dizem os nossos políticos, como vocês estavam a falar agora da ligação da política com o futebol. Como dizem os nossos políticos, aqueles que não têm muita vergonha na cara, somos tão bons quanto os melhores e em tudo. Aliás, somos em tudo melhores que os melhores. Isto se Portugal ganhar hoje, claro. E se essa vitória incluir uma boa exibição de Cristiano Ronaldo, toda a gente vai dizer que se trata, evidentemente, do melhor futebolista da história e quiçá, do mais importante ser humano desde Cristo ou desde Buda. Se, por outro lado, Portugal ganhar à rasca e jogar muito mal ou jogar mal, toda a gente vai dizer que a seleção teve sorte, que precisa de melhorar imenso, que provavelmente seria aconselhável remover o Cristiano Ronaldo do 11 titular, já que a sua presença pode comprometer, eu não sei se os termos são exatos, mas pode comprometer a fluidez do coletivo. Acho que talvez se diga assim, se não se diz assim.
Sim. Estás no ponto.
Estou mais ou menos lá. Se Portugal empatar, é uma outra hipótese, os comentários serão mais ou menos semelhantes aos anteriores, da tal vitória chocha, embora se acrescente a palavra deceção. E, de qualquer maneira, onde multiplicar-se-ão os avisos de que nada está perdido e que a gloriosa seleção das Quinas ainda dispõe de dois jogos para corrigir a má imagem deixada em campo. E também se dirá que Cristiano Ronaldo não deve jogar de início em circunstância nenhuma. E, por fim, e a terceira possibilidade, não há mais, se a seleção perder com o Congo, o país vai descer a um luto provisório até ao jogo seguinte. Toda a gente vai repetir que sempre soube que a seleção não tem condições para disputar o Campeonato do Mundo com as equipas topo, que o treinador não sabe o que faz, que devia ser despedido com justa causa e já, e que mais vale a seleção ser eliminada na fase de grupos para não se prolongar esta vergonha. Vergonha será uma palavra com certeza bastante repetida. E sobre Cristiano Ronaldo, todos lembrarão, em caso de derrota, repito, que ele está acabado há uns 10 anos, que já se devia ter reformado, que a teimosia em estender a carreira está a destruir o seu legado e a própria equipa, e que tem de sair dos titulares e dos suplentes com a maior urgência. Portanto, aconteça o que acontecer hoje, um destes três, mais ou menos três, três e meio estados de alma, vai contaminar os portugueses que ligam estas coisas até ao jogo seguinte, que fui ver, será no dia 23 contra o Uzbequistão. Este mundial é particularmente surreal. E consoante o resultado da exibição, esse segundo jogo vai confirmar as impressões do primeiro ou vai revertê-las por completo até ao terceiro jogo, que é com a Colômbia, e por aí fora, até Portugal sair do campeonato. Se por milagre Portugal sair do campeonato vitorioso, for campeão do mundo, ou se for à final e tiver uma derrota honrosa, decreta-se que ninguém no universo se compara a nós enquanto povo. O doutor Montenegro fará 32 discursos, o doutor Seguro 47. Isto no caso de Portugal ganhar ou quase ganhar o mundial. Se sair em desgraça, como já saiu tantas vezes, culpa-se os jogadores, o treinador, evidentemente o Cristiano Ronaldo e em ambos os casos continuaremos pobres. Continuaremos com os salários que temos, continuaremos com o fisco que temos, continuaremos com as dificuldades em arranjar casa, que muitas pessoas têm. Continuaremos com essas chatices todas, mas, e esse é o lado bom, continuaremos mais ricos que o Congo.
Até amanhã, Alberto.
Até amanhã, Ricardo.
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São 16h59 em Portugal continental e na Madeira, menos uma hora nos Açores, 11 da manhã em Houston