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"Ideias Feitas" com Alberto Gonçalves. Bem-vindo, Alberto. Hoje queres voltar a um tema que tem estado na ordem do dia: a liberdade de expressão. Neste caso, a liberdade de expressão no Reino Unido.
Olá, Ricardo. Boa tarde. No Reino Unido não tem estado tanto na ordem do dia, infelizmente.
Exato.
Mas já lá chego. Eu estava para falar só especificamente do caso de uma senhora chamada Rose Doherty, uma senhora escocesa de 75 anos que foi presa agora em setembro, pela segunda vez, por protestar pacificamente à porta de um hospital em Glasgow. Ela é conhecida por defender o diálogo com mulheres que vão abortar ou que pensam abortar. Tudo pacífico, menos a intervenção da polícia. A senhora foi depois libertada sob fiança e aguarda julgamento. E depois lembrei-me que também podia falar do caso de Pete North, que é um cidadão do Yorkshire que foi preso por, nas palavras da própria polícia, ter publicado alguma coisa na internet que alguém não apreciou e que a brigada dos crimes de ódio, foi a expressão da polícia, achou por bem detê-lo por instigar ao ódio racial. E os escritos em causa deste senhor Peter North consistiam num insulto à Palestina, à Hamas e ao Islão. Depois também me lembrei que não ficaria satisfeito se não falasse do caso de uma senhora chamada Deborah Anderson, que é uma cidadã americana de 70 anos, que está reformada e em tratamento contra o câncer com quimioterapia e que vive na Inglaterra, em Slough. Em junho passado, ela foi visitada e interrogada em sua casa por um oficial da polícia, devido a um post qualquer nas redes sociais que ofendeu ou ameaçou alguém. E o post era um elogio a Donald Trump. E também não queria esquecer, este caso foi um bocadinho mais falado, do caso de Graham Linehan, que é um comediante britânico de 57 anos, criou séries televisivas, uma delas eu até conheço, era "The IT Crowd", salvo erro. E em setembro passado também foi detido ao chegar ao aeroporto de Heathrow após desembarcar de um voo que vinha do Arizona. E a sua prisão foi motivada por posts em redes sociais sobre questões transgênero. Hoje está em liberdade condicional a aguardar julgamento. Mas não dá para falar de casos individuais, porque no Reino Unido atual há mais de 12 mil pessoas por ano a serem detidas por estes posts online. E mais de mil casos resultam em condenações e em sentenças. As interrogações, os interrogatórios, melhor dizendo, as condenações e as sentenças vão sempre no mesmo sentido, ou seja, contra opiniões que não são de esquerda. A título de mero exemplo, Ricardo, uma tiktoker, pelos vistos isto é uma profissão agora, uma tiktoker britânica de esquerda publicou após a morte de Charlie Kirk um vídeo a pedir o assassínio de todos eles, e não lhe aconteceu nada. Este pesadelo ou esta espécie de distopia em tempo real já vem do tempo dos conservadores e, de facto, vem, infelizmente, mas ainda ameaça agravar-se sob este governo trabalhista. A Ofcom, que é, como já disse outra vez a propósito da coisa americana, é a que lá decide, regula os serviços de comunicação no Reino Unido, está a tentar impor um regime de restrições e multas que, na prática, a realizar-se, acabará com os podcasts, com o YouTube, praticamente, ou com a conversa livre no YouTube, para evitar conteúdo ofensivo. E nós já sabemos o que isso quer dizer. Entretanto, o senhor Starmer, que é o primeiro-ministro, cada vez radicaliza mais o seu discurso, não contra isto, obviamente, contra esta perseguição ou este controle da liberdade de expressão, mas contra aquilo que ele chama de extrema-direita e contra a xenofobia, ou seja, contra os britânicos propriamente ditos, que estão a começar a cansar-se e que nas sondagens fazem com que o senhor Starmer seja o primeiro-ministro mais impopular de sempre. O que é de admirar é que ainda há 15 dias, meio mundo, inclusive em Portugal, tenha estado a decretar o fim da liberdade de expressão nos Estados Unidos, só porque um apresentador de variedades teve o programa suspenso por uma semana. Sobre o assalto às liberdades e à democracia que está acontecendo no Reino Unido, apenas tem havido silêncio, e silêncio é aquilo que o senhor Starmer e os demais poderes no Reino Unido, pelos vistos, querem impor.
Obrigado, Alberto. Amanhã há mais "Ideias Feitas" aqui na Rádio Observador, a fechar a hora das 18h. O "Ideias Feitas" conta com o apoio do azeite Talismã