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Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio também em 98.7, na Grande Lisboa, e 98.4, no Grande Porto.
Bem-vindos ao programa "Imimperdíveis", hoje com Afonso Romano, 30 anos, conhecido por Fonzo Romano. É animador de grandes filmes de Hollywood como "O Rei Leão", "Os Vingadores", "Os Guardiões da Galáxia", série "Star Wars". Anima os personagens, dá vida a personagens como o Simba, como o Hulk, como o Baby Yoda e muitos outros. Tem uma vida fascinante e um percurso imperdível. Bem-vindo, Afonso.
Olá, Laurinda, muito obrigado por me ter no programa. Fico muito honrado.
Obrigada.
E agora com aquela grande introdução.
Não, isto é só um bocadinho, porque, de facto, eu acho que todos nós temos um fascínio muito grande por isto, por tudo o que é esta indústria, e sobretudo também esta indústria que anima, que cria e dá vida a personagens, que no fundo é aquilo que o Afonso faz. Se calhar ia começar por isso. Como é que uma pessoa pega no Simba ou no Baby Yoda e faz esses shots e lhes dá vida? No fundo, é quase insuflá-los.
Exato.
Insufra vida.
Explicar o que é a arte da animação é realmente pensar que damos vida a algo que não tem vida. Em 3D, que é o caso da minha área, eu não faço 2D, é só 3D, os modelos em 3D já existem, por isso podemos pensar neles como uns bonecos, marionetes, que existem dentro do programa, e eu dou-lhes vida ao mexê-los, ao fazê-los se mover. Imaginando uma marionete que dá pra mexer aqui o braço, ali o outro braço e a cabeça, eu tenho uma espécie de controles no computador que uso para movimentar através do tempo.
Afonso, por exemplo, eu sei que shots de cinco segundos ou de 10 segundos em cinema podem demorar meses a fazer. Isso por quê?
Exato. Animar é uma arte muito híbrida, no sentido em que é ao mesmo tempo artístico e técnico. A parte técnica é o programa de 3D, que se eu lhe mostrasse, o chamado Autodesk Maya, é um monstro, é muito complicado. Mas é apenas a ferramenta que eu uso pra animar. Ou seja, não é por saber usar uma caneta que eu vou escrever um grande romance, certo?
Exato. E, portanto, a arte aí.
Sim, aí a arte, o estudo que eu tenho é principalmente na parte da arte, porque a técnica aparece com o tempo e com experiência, e uma pessoa às tantas já se esquece das regras do programa, já faz tudo naturalmente. E realmente acho que a arte é a parte mais difícil da arte de animação e que demora mais.
Já começou por abordar uma metáfora que é: "essa tecnologia é quase um monstro". Primeiro, como é que acede, conhece e faz esse monstro parecer menos monstruoso? Ou seja, como é que perde o susto desse monstro? E qual é a sua formação de base ou quando é que isso nasceu em si? Se calhar começamos aqui por partes. Esta tecnologia é um monstro, não é? Em que sentido?
Eu chamei-lhe monstro, mas disse que olhando pra ela sem conhecimento, parece um monstro. Uma pessoa aprendendo deixa de ser um monstro e passa a ser nosso amigo. É nossa ferramenta de trabalho e não me custa nada, por assim dizer, todos os dias usar estes softwares.
Mas quando diz monstro é porque é ultracomplexo.
Exato, é uma arte muito avançada. Certo, sim.
Andamos um bocadinho pra trás e o Afonso tem 30 anos, começou tudo isto nos primeiros anos dos seus 20 anos, portanto, 22, 23 anos. Eu já o entrevistei nessa altura.
Certo.
Queria saber como é que isto começou em si, como é que foi esta vontade de aprender e de chegar a esta animação, animar personagens, dar vida a personagens, avatars, figuras.
Não, nunca foi um objetivo que eu tive claro. Aliás, eu na escola e mesmo no início da universidade, sempre fui a pessoa que não sabia o que queria seguir. Sabia que queria algo criativo, era a única pista que eu tinha sobre o meu futuro, mas não sabia exatamente o quê. Eu tentei ser ator. Eu estudei na Lusófona e o curso foi de Cinema, mas Cinema como arte em geral, desde a iluminação à escrita de guião, storyboarding, enfim, tudo. E houve uma disciplina que era o 3D, em que eu apaixonei-me completamente, porque dá-me uma liberdade de expressão que não é possível em mais lado nenhum. Em 3D, o que eu puder imaginar e conseguir fazer, pode se tornar realidade.
Isso é extraordinário.
Sim, é incrível quando me apercebi do poder que tinha nas mãos. Aliás, eu estudava o suficiente pra passar os exames, mas o meu tempo livre eu passava a ver tutoriais no YouTube e blogs de pessoas que trabalhavam nisto e por aí fora. E às tantas apareceu-me o Erasmus, que pra mim foi uma experiência que mudou a vida, tanto pessoalmente como profissionalmente, porque eu vim pra Inglaterra, na Universidade de Salford, em Manchester, e o meu curso passou de ser apenas Cinema e passou a ser 3D, ou seja, todo o meu tempo ia pro 3D. Agora, dentro do 3D, há mais uma data de coisas que eu não sabia qual iria fazer ainda na altura, e demorou-me dois anos de curso até eu ter completamente claro na minha cabeça que queria ser animador.
Isso é muito interessante, Afonso, porque primeiro eu esqueci de dizer que não está em Portugal, está no Reino Unido. Penso que está em Londres agora.
Sim, em Londres.
Acho que isso é bom também para nos situarmos. Depois disse aqui uma coisa interessante que é: "O Erasmus mudou a minha vida pessoal e profissional". E é engraçado, porque para muitas pessoas, o Erasmus, para muitos jovens universitários, o Erasmus é só uma experiência relacional, social, de diversidade, em que eles até nem se preocupam muito com as notas e muda qualquer coisa na paisagem interior, mas não faz assim tanta diferença na evolução da carreira, o que não aconteceu consigo. Consigo foi esse Erasmus que fez um antes e um depois na sua vida.
Exato. No meu caso, o Erasmus abriu umas portas que eu não as tinha abertas em Portugal. Não é que não houvesse cursos, mas eu estava no curso de Cinema e eu, de repente, quis mudar. O Erasmus deu-me essa possibilidade. E em Inglaterra conheci pessoas com as mesmas ambições e sonhos que eu, que me motivaram bastante. Atenção, meu Erasmus também foi um Erasmus normal, em que fiz grandes amigos para a vida, diverti-me muito e fiz aquela experiência de ir pro desconhecido. Eu antes disso vivia em casa dos meus pais, porque ir pra universidade era uma caminhada de 10 minutos, minha casa. Então ir sozinho pra outro país foi uma experiência muito importante na minha vida, que me fez crescer e fazer com que soubesse viver sozinho, lutar por mim.
Isso porque também a vida em casa não era só a facilidade de ser uma casa próxima da universidade, mas a vida em casa dos seus pais, se calhar, também era uma vida fácil, divertida e criativa, porque os seus pais criaram uma agência de modelos e são pessoas que, por natureza e definição, eles próprios foram modelos, não sei se ainda continuam a ser, mas é uma vida também muito imprevista, é uma vida muito diferente e muito mais criativa. Qual foi a influência e também o impacto que teve esta opção da sua vida? Qual foi o impacto que esta vida de família teve nas suas opções? E depois, qual foi o impacto que a sua opção teve na família?
Certo. Eu devo muito quem sou à minha família. E eu acho que seguir o caminho que segui foi muito possível e até motivado pela minha família. Meu pai sempre nos disse, a mim e ao meu irmão, que até os 30 devíamos estudar e descobrirmos a nós próprios, e descobrir mais e querer mais, nunca pararmos de ter fome de conhecimento e de curiosidade. E foi nessa mentalidade que eu me senti livre pra poder explorar vários caminhos. Aliás, eu disse alguns, falei de ser ator, mas eu também estudei web design enquanto estudava na universidade. Eu, na altura, tudo que podia agarrar, agarrava pra ver o que é que gostava mais. E realmente essa mentalidade ajudou muito.
Isso é uma atitude incrível, uma abertura incrível. A sua mãe chama-se Mi, o seu pai é conhecido como Torromán, portanto a Mi e Torromán. No fundo, foram pais que deram toda a liberdade e responsabilidade aos próprios filhos. É isso que está a dizer?
Exato.
Não tiveram expectativas próprias, não obrigaram os filhos a gerir as expectativas que tinham sobre eles.
Sim, eles sempre tiveram expectativas altas pra nós, mas não criaram expectativas por nós. Ou seja, eles querem que sejamos bem-sucedidos e, acima de tudo, felizes. Mas nunca foi sobre "vai pra esta área porque dá mais dinheiro" ou "vai pra aquela, porque há mais emprego". E os meus pais foram muito abertos a isso. Eu quando voltei de Manchester, eu tinha dito que em Manchester é que descobri mesmo o que eu gostava. O meu curso em Manchester era 3D em geral, e eu descobri que gostava de animação. Há uma escola americana que chama Animation Mentor, que é 100% online e o curso é de um ano e meio. E eu voltei de Manchester a dizer aos meus pais que eu queria fazer essa escola porque eu queria ser animador. E acho que depois de ver o filho dois anos em Manchester, se calhar muitos pais esperavam que voltasse e quisesse logo começar a trabalhar.
E aprovar, Afonso. Aprovar. A dar de volta, digamos assim.
Exato. E eu quando falei do curso ao meu pai, não o convenci facilmente, mas finalmente o convenci e gastei mais um ano e meio da minha vida. Foi um investimento, mas tive mais um ano e meio da minha vida a estudar online. Eu acho que pra um pai ver o filho ter aulas no computador, acho que se calhar hoje em dia é normal, com o Covid. Mas há oito anos atrás, se calhar era um bocadinho estranho.
Ou se calhar um bocadinho duvidoso, qualquer coisa que parecia até um bocadinho quase preguiça ou além de um pouco esforço, não é?
Exato, podia parecer isso, mas os meus pais confiaram em mim e eu retribuí com total esforço no curso. Eu até me lembro de irmos pro Algarve, todos em família, só que o meu curso não parava, não é? Não estava de férias. E o que fazíamos era os meus pais e o meu irmão iam pra praia, eu ficava a trabalhar em casa até às 19:00 e às 19:00 ia dar o meu mergulhinho e se calhar à noite voltava a trabalhar, voltava a animar.
Mas valeu a pena, Afonso, porque os seus clientes chamam-se Marvel, Disney. E portanto, isto quer dizer que valeu a pena o esforço, não é?
Claro que sim, eu estou super orgulhoso da minha carreira e eu nunca poderia ter esperado um sucesso tão rápido, porque o meu primeiro filme, como fizemos a nossa entrevista há anos atrás, foi "Guardiões da Galáxia", da Marvel. E quem é que pode dizer que o primeiro filme foi esse? Claro que há outras pessoas também, mas é um ótimo filme pra começar, é muito grande. Eu estava à espera que demorasse bastantes mais anos a chegar a um filme dessa categoria. Mas tive professores dessa tal escola online que confiaram em mim E recomendaram-me ao estúdio e cheguei a trabalhar lado a lado com o meu mentor, que foi um sonho na altura. Era como se estivesse a trabalhar ao lado de uma pessoa famosa. Imagine que alguém, quando quer ser jogador de futebol e começa a jogar na equipe, joga ao lado do Cristiano Ronaldo. Foi um bocado essa .
Espetacular. Eu acho que nada melhor do que bons mestres, de fato. Bons mestres e depois também bons discípulos, digamos assim.
Sim, isto é uma área criativa, mas tem muito trabalho por trás e costuma-se dizer quem gosta do que faz não trabalha uma hora na vida, algo assim. Não é bem assim, verdade, ainda é trabalho, mas durante o estudo eu dedicava o meu tempo livre a isto. A minha diversão era melhorar na animação.
É o seu recreio. No fundo, é quando nós estamos a trabalhar nos nossos talentos e quando a nossa demanda interior coincide com aquilo que é a nossa missão no mundo, realmente não há melhor.
Exato.
Já agora, podemos fazer aqui uma lista dos filmes todos. Começou logo pela porta grande com "Os Guardiões da Galáxia". Depois, a seguir.
Antes de ir ao depois, vou ao antes. Porque "Os Guardiões da Galáxia" foi o meu primeiro filme, mas eu antes disso também fiz alguns anúncios em Portugal, mas os anúncios foram para Angola. E fiz uma série de televisão que se calhar alguém reconhece, que se chamou "Babar", que é um elefante. Eu costumava ver o "Babar" quando era criança e depois cresci e trabalhei no "Babar". Trabalhei uns meses em França e depois mudei-me para Londres e "Os Guardiões da Galáxia" foi o meu grande primeiro filme e talvez, até hoje, ainda o meu favorito de ter trabalhado. Foi uma experiência genial, não se compara.
Por quê?
O que sempre me motivou, para além da criatividade, foi a comédia, foi querer fazer as pessoas rir. E quem vê "Os Guardiões da Galáxia" dizem que é mesmo um filme à Afonso. Ou seja, aquele tipo de humor é o meu tipo de humor. Os meus pais quando viram, disseram que parecia que o filme tinha sido escrito por mim.
Que lindo.
E fazer parte de um projeto tão...
Tão à sua medida?
Tão à minha medida, exato. Foi incrível. E é engraçado que hoje em dia uma pessoa diz "Os Guardiões da Galáxia" e toda a gente conhece e gosta, mas eu quando fui convidado para trabalhar no filme, ninguém sabia o que era "Os Guardiões da Galáxia", nem eu. Até eu lembro-me de olhar para aquilo e achei um bocado esquisito, mas é a Marvel.
Por isso vou aceitar. Senão deixa de ser louco.
E foi uma grande surpresa.
Que espetáculo. E a seguir aos "Guardiões da Galáxia"?
O filme que eu fiz a seguir foi o "Exodus: Gods and Kings", que é um filme com o Christian Bale, uma história bíblica sobre Moisés.
Qual era o personagem que animava? Ou os personagens?
Aí não foi tanto em personagens, porque as personagens eram todas humanas, mas havia muitos cavalos.
Ok.
Eles não tinham dinheiro para tantos cavalos nas filmagens. Aliás, muitos dos cavalos têm um destino muito triste no filme, que nenhum cavalo verdadeiro merecia. Há uma cena em que há um grande desmoronamento numa montanha e muitos cavalos a cair e a morrer, e são umas imagens um bocado violentas. E eu estive a fazer alguns cavalos a sofrer, que não foi nada agradável, porque eu adoro animais. Também fiz cavalos a afogarem-se. Enfim, o "Exodus" foi muito sobre cavalos para mim.
Ok, então e depois do "Exodus"?
Depois do "Exodus" foi o que se pode dizer que foi o grande filme na minha carreira em termos de marcos, porque ganhamos o Oscar, a minha equipa ganhou o Oscar de melhores efeitos especiais.
Eu já devia ter dito isso na entrada, Afonso. Depois vou pôr isso no título, talvez. Mas diga, desculpe, interrompi.
Sim, ganhamos o Oscar e não fui eu que ganhei o Oscar, somos uma equipe enorme. Eu tive muita sorte de fazer parte dela, estava no meu início de carreira e aprendi muito com os tais mestres que trabalhavam ao meu lado. E aí as personagens foram desde o Balu, ao Bagheera, ao Shere Khan, aos lobos. Enfim, fiz um bocadinho de tudo, fiz a selva inteira.
Estamos a falar exatamente de "O Livro da Selva". Isso é espetacular.
Eu acho que animei toda a gente, menos o Mogli.
Mas o Mogli aí não era animável, não é? Ou era?
Não, mas há alguns shots em que uma pessoa pensa que é o ator do Mogli. Eu agora não me estou a lembrar de nenhum, mas de certeza que isso não há no filme. Os shots em que não era possível gravar com o ator, tem que ser em 3D.
Então todos os animais, todos, absolutamente todos, foram animados e tocou em todos?
Todos não.
Não, tocaram em todos.
Sim, certo. Tudo que se vê no filme de animal é tudo animado em 3D.
Ok. Eu percebi que, de certa forma, tinha ajudado a dar vida a todos ou quase todos.
Sim, foi um ano de vida no filme e cheguei a ter shots com todos os animais, quase todos.
Portanto, o Afonso não fica só com a Bagheera e o outro com o Balu. Vocês vão fazendo em equipe, trabalhando em equipe.
Sim, dependendo dos filmes e dos estúdios, às vezes cada personagem tem uma equipe de animadores que principalmente trabalha com essa personagem, mas naquele filme foi um bocado toda a gente anima toda a gente.
Afonso, isso é tão giro. Realmente é fascinante. Percebe-se que todos nós tenhamos este fascínio pela indústria do cinema, da animação e do 3D, que é o presente e o futuro. Mas quando está a animar e está a fazer aqueles gestos, aquela maneira como eles falam, a maneira como põem o pé. Humanizar, no fundo. Há uns que são muito queridos, há outros que são mais duros, há outros mais céticos, mas tudo aquilo é muito humano e deve ser fabuloso fazer isso.
Sim, é incrível, principalmente animais, porque tem que ser muito baseados na verdade, em como eles se mexem. E sempre que faço um filme de animais, seja "O Rei Leão", "O Livro da Selva", ou mesmo animais que não existem, mas que parecem-se a outros, eu vou chegar lá mais à frente. Mas vejo muitas referências online, tiro filmes do YouTube para ver frame a frame, imagem a imagem, como é que o animal se mexe. E isso é a parte técnica de animar o animal corretamente. Depois, por cima, vem dar a personalidade ao animal, dar-lhe vida. E a parte mais humana, porque os animais realmente não se mexem ou não se expressam como humanos, mas nós animando, temos que fazer um bocadinho como humanos para o sentimento passar para o outro lado do ecrã. Se é que isso faz sentido.
Isso é fabuloso. E realmente é uma grande arte, combinada com uma grande técnica, de fato. Percebo isso. Vamos fazer uma breve pausa e voltamos já a seguir esta conversa, que é de fato imperdível. Até já, Afonso.
Até já.
Bem-vindos à segunda parte do programa "Imperdíveis". Hoje, à conversa com o Afonso Romano, 30 anos, mais conhecido por Fonzo Romano. É animador de grandes filmes de Hollywood, como "O Rei Leão", "Vingadores", "Guardiões da Galáxia", "Star Wars", "O Livro da Selva". Aliás, a equipa toda do "Livro da Selva" ganhou um Oscar e, portanto, vale a pena.
É verdade, não foi um Oscar qualquer, foi o Oscar de melhor efeitos especiais, que é o único que interessa pra mim.
Claro, exatamente. A sua equipa no "Livro da Selva" ganhou o Oscar. O Afonso teve a sua cota parte mais que merecida nesse Oscar. Como é que você se sente? Já agora, porque também há este fascínio dos Oscars e apesar de nós sabermos o que é esta indústria, também os compromissos que às vezes pode haver pra se chegar a um Oscar, mas, na verdade, isso é outros níveis. Mas a este nível, de quem só está ali a fazer o seu trabalho e a sua paixão, receber um Oscar é espetacular, não é?
É, pareceu surreal. Como é óbvio, eu não fui à cerimônia, foi o nosso representante, o nosso supervisor, o Andy Jones, que pra ele foi o segundo Oscar, que já o tinha ganho com o "Avatar".
Muito bem.
É das melhores pessoas que eu já conheci na indústria, como pessoa e como profissional. É incrível. Mas quando fomos nomeados pra Oscar, aliás, o "Guardiões da Galáxia" também já tinha sido nomeado, então eu já tinha estado ali agarrado à televisão a ver se ganhava. Mas foi um momento muito mágico que senti, me senti no topo do mundo da animação, por assim dizer. Claro que não é assim tão simples. Aliás, há muitos prêmios e o Oscar não é o único pra animação, e há prêmios até com mais importância que o Oscar dentro da indústria. Mas o Oscar é aquele prêmio que se tiver uma foto com o Oscar, que eu tenho, que eu segurei, que eles levaram lá para o estúdio. É muito pesado.
É muito pesado?
É mais pesado do que uma pessoa está à espera. Mas ganhar o Oscar é uma coisa que, dizendo aos amigos ou à família, ou mesmo numa entrevista de trabalho, te eleva um bocadinho. É um reconhecimento mundial pro teu trabalho. Como é óbvio que eu sozinho não ganhava o Oscar. E foi uma fase muito inicial da minha carreira, foi no meu segundo ano, e não tinha grandes responsabilidades no filme. Quem ganhou o Oscar foram os grandes mestres que trabalhavam comigo.
E quantas pessoas eram uma equipa, por exemplo, pra fazer a animação em 3D do "Rei Leão" ou do "Livro da Selva"? Estávamos a falar do "Livro da Selva". Quantas pessoas aí trabalham nessa equipa?
São muitas, há vários departamentos. O meu departamento é o departamento de animação e no caso do "Livro da Selva", acho que chegamos a ser 60, 80 animadores, não me lembro bem do número exato. Mas embora seja uma equipa grande, une-se muito. São pessoas de todo o mundo que vêm pra mesma cidade, pro mesmo cubículo, a trabalhar durante um ano, e ficamos muito coesos. Mas claro que vendo a lista de créditos de qualquer filme que tenha efeitos especiais, se uma pessoa ficar a ver tanto tempo.
Eu fico.
Quando chega a nossa vez.
Vejo até ao fim. Sempre.
É sempre uma lista enorme.
É uma lista enorme, é impressionante.
E este era o meu departamento, há vários departamentos, é apenas multiplicar o número às centenas, senão mesmo um milhar de pessoas que trabalham no filme.
Afonso, mas isso também quer dizer que é um mundo, é um universo altamente competitivo, até talvez ferozmente competitivo e, portanto, difícil de entrar, ou não?
Claro que sim, que é competitivo entre estúdios pra ganhar os prêmios, mas eu acho que com os meus colegas eu nunca senti competitividade. É uma indústria muito positiva pra se trabalhar. Toda a gente se quer ajudar.
É muito animada.
Sim, exato, é uma indústria muito animada.
Mas toda gente quer ajudar, isso é extraordinário.
É, eu lembro-me de no "Livro da Selva", eu estar a ter dificuldade com um pássaro, que era a primeira vez que eu estava a animar um pássaro, e a maneira como as asas dobram Enfim, animar um pássaro não é simples e eu estava a ter alguma dificuldade, o que mostrava também a minha tensa experiência. E depois do trabalho, eu fiquei a trabalhar extra no pássaro e dois animadores que podiam ter ido para casa, viram que eu estava com dificuldades e vieram me ajudar e ficaram comigo uma, duas horas, numa experiência que eu não me esqueço, mas também não foi única, houve vários casos de entreajuda. Aliás, mais à frente, no "Rei Leão", senti que fui eu essa pessoa que vinha falar com as pessoas que nunca tinham animado animais antes e ajudei os chamados júniors da nossa indústria.
Ou seja, é dar de volta aquilo que recebeu e no fundo é esta matemática infalível da confiança que gera confiança. Põem confiança em si, ajudam a si, depois vai dar confiança a outros e nesse sistema de vasos comunicantes que faz multiplicar os talentos de todos, não é?
Exato. Nós somos uma equipa e queremos fazer o melhor filme possível e não fazia sentido nenhum deixar a pessoa ao nosso lado ter um shot que vai ficar menos bom e que vai fazer o filme parecer pior do que ajudar, e ele não nos vai roubar o trabalho por saber o que nós sabemos.
Ou seja, no fundo é quase como uma orquestra, não é? Uma orquestra com aqueles mais de todos músicos e estão todos a tocar para o mesmo fim, todos por todos. Mesmo que alguns não gostem uns dos outros, mas não interessa o resultado final. E interessante também pensar que o Afonso tem agora 30 anos, começou isto aos 22, 23. De facto, fez aqui uma progressão na carreira absolutamente admirável, mas pergunto se os seus colegas e estas pessoas e estes que considera mestres, se são pessoas muito mais velhas ou se isto é uma arte, uma tecnologia e uma técnica em que se pode ser já um mestre assim nesta sua idade.
Há pessoas que chegam a níveis bem superiores a mim com muitos menos anos que eu. Eu acho que a idade, na minha indústria, não interessa tanto. Aliás, como é um emprego relativamente novo, há pessoas que embora tenham 50 anos, se calhar só começaram a animar há 10. E há pessoas que começaram a animar com YouTube e com tutoriais desde os 12 anos, que chegam aos 20 anos e já têm um grande nível. Eu já conheci bastantes pequenos génios mais novos que eu e que sabem muito mais que eu.
Se bem o conheço, a humildade fica-lhe bem, mas sempre que entrevisto alguém, vou falar com outras pessoas que o conhecem e que as pessoas dizem que o Afonso é muito bom naquilo que faz e, portanto, percebo que não venha dizer bem de si. Mas eu acho que a sua carreira diz sobre si. Afonso, eu não resisto a perguntar-lhe como é que se estuda, o que é que se estuda para animar animais que não existem ou animais reais, imagina um leão, um rinoceronte. Como é que se faz? Como é que é esse estudo?
Bem, nós quando começamos um shot com animal, há realmente muito estudo por trás para termos a certeza que o animal vai mexer exatamente como mexe na realidade. Há animais que, como dizem, não existem na realidade e uma pessoa pode inventar mais, mas mesmo aí é preciso ser baseado em algo real. Por exemplo, no "Mandalorian", na série de "Star Wars", há uma cena com um tipo de rinoceronte que não existe na realidade, é um rinoceronte com um corno enorme maior que a cabeça e é muito peludo. Ou seja, eu não vou saber como é que esse rinoceronte se mexeria na realidade. Mas usei muitas referências não só de rinocerontes, mas também de elefantes e hipopótamos, para perceber como é que isso funciona. E nas cenas que eu tinha que animar, que eu estou muito orgulhoso dessas cenas, para mim foram as cenas mais engraçadas da série, é quando o Baby Yoda, e cuidado com os spoilers aqui, o Baby Yoda levanta com a força esse animal e ele fica a flutuar e está a dar patadas e cornadas no ar e tentar livrar-se da força que está a ser usada.
E aí de onde se inspirou?
Como é óbvio, não há nenhum rinoceronte voador na realidade, e tive que ser um pouco criativo na referência que fui buscar. Eu vi hipopótamos a nadar debaixo d'água para perceber como é que as patas e o corpo todo se mexe nesse tipo de movimentos. Vi também rinocerontes e elefantes a serem levados por gruas em África, que às vezes ficam com as patas soltas e vi que reação é que eles tinham. E claro, rinocerontes a tentar acertar, dar cornadas em coisas. Foi muito útil, claro.
Isso é muito interessante. E, por exemplo, um leão no "Rei Leão", um leão que pare, que corre, que muda de rumo, ou um dinossauro, que nós não sabemos exatamente como é que eles eram.
Sim, o dinossauro é uma questão que é parecida com a do rinoceronte, que é uma coisa que não existe. Mas, por exemplo, um leão ou mesmo um cão, uma coisa que uma pessoa está habituada a ver em casa ou no zoológico ou na televisão. Leões reais, uma pessoa sabe, mesmo que não tenha estudado, sabe mais ou menos ver se um leão está bem ou mal animado. E nós fazemos uma espécie de Frankenstein de referências, no sentido em que vamos buscar vídeos do YouTube, vídeos que nós próprios fazemos. Eu fiz a minha própria referência já alguma vez em zoológico ou, no meu caso, em África, mas isso é história para outro dia. E fazemos um Frankenstein com tudo o que precisamos. Às vezes, se calhar, é como é que a pata, quando ele está a subir uma rocha, que forma é que a pata faz e as unhas Quais são as poses que tem que ter, como é que o pulso impulsiona o peso do leão, por exemplo. Temos que encontrar isso e muitas vezes são dois dias de trabalho em que eu passo no YouTube, mas estou a trabalhar, à procura das referências perfeitas para utilizar no meu shot.
E só mais uma pergunta que tem a ver com os dinossauros, que nós nunca vimos um dinossauro. Qual é a referência? É sempre o "Jurassic Park"? É sempre ir buscar a alguma coisa que já foi feita?
É engraçado. Eu nunca animei um dinossauro, mas é engraçado que hoje em dia eu sei que quem anima dinossauros, seja para um filme, para uma série, para um videojogo, usa muito como referência os dinossauros que foram animados. Mas esses dinossauros também não tiveram referência real. E imagino que os animadores que fizeram essas animações, se calhar, não estudaram referência real, mas estudaram o esqueleto e como é que as coisas dobram. E certeza que tiveram ajuda de cientistas que sabem bastante do caso.
Muito interessante.
Mas se calhar, na realidade, eles mexiam-se de maneira bem diferente. Uma coisa engraçada sobre o "Jurassic Park" é que se descobriu que os dinossauros não têm escamas, têm penas. Os velociraptors têm penas. Mas são coisas que na altura não se sabia e se fizesse o "Jurassic Park" hoje, o primeiro, certeza que se meteria penas nos dinossauros.
Interessante isso. Outra coisa muito interessante que diz é: há uns anos, isto é uma profissão que não existia. E muitas vezes nós dizemos aos jovens que agora têm menos de 20 anos ou estão ali em cima dos 20 anos, que eles vão, se calhar, trabalhar em profissões ou que ainda não existem, algumas até que eles vão criar. Não deixa de ser fabuloso isto. No fundo, o Afonso, com 30 anos agora, mas aos 22, 23, começou a trabalhar numa profissão que ainda era uma profissão de muito poucos.
Exato. E se calhar daqui a uns anos é obsoleta. Uma pessoa tem que se constantemente renovar e aprender, e não pode ficar para trás da tecnologia, nem das gerações.
Mas acha que há possibilidade da obsolescência disto que é a linha da frente na indústria cinematográfica, esta animação 3D, este dar vida a avatares, a figuras e a animais? Acha que pode ficar obsoleta?
Eu acho que a arte da animação nunca na vida vai ficar obsoleta, mas como a fazemos hoje em dia, é capaz de ficar. A tecnologia evolui e tal como eu estava a dizer, o programa Maya, daqui a 10 anos, se calhar, é outro programa e eu vou ter que aprender se quero continuar a trabalhar.
Ou seja, o programa Maya, se bem me lembro, é aquele que diz que é um monstro.
Sim.
E que de repente já não é assim tão monstro, já está mais simplificado na sua cabeça, mas pode vir um monstro muito mais temível à frente, e uma tecnologia. E acha que é fácil para vocês, para si, sente que é fácil uma pessoa estar nessa reciclagem permanente e ganhar novas competências, ainda que seja na mesma área?
Se é fácil? Há sempre que fazer um esforço. Uma pessoa não se pode acomodar e deixar de evoluir. Acho que uma pessoa tem que estar sempre em cima do que está a acontecer na sua indústria. Eu estou sempre a ver notícias sobre tecnologia e a arte da animação. Mas sim, eu estou preparado, aliás, sempre estive, desde que comecei a estudar, para evoluir para a próxima coisa que virá. Aliás, há grandes mestres da animação. Quem criou a animação foi em 2D. Os desenhos animados, literalmente animados. E essa arte, embora haja muitas produções ainda com ela, pode-se dizer que hoje em dia é menos usada, o 3D é mais normal. Então todos esses animadores, muitos deles tiveram que, quase à força, fazer a transição do 2D para o 3D, e a arte da animação não mudou. Todos os princípios que tinham continuam, mas é mais adaptar-se à tecnologia. Eu animo no computador, mas há uma coisa que se chama motion capture, não sei se a Laurinda sabe o que é.
Eu não sei, mas se calhar algumas das pessoas ou todas as pessoas que estão a ouvir, se calhar, sabem. Mas eu confesso, amigo.
Se visse uma foto, certeza que sabia. É quando uma pessoa está vestida toda de verde e tem uma data de bolinhas espalhadas pelo corpo e mexe-se, e esse movimento passa para uma personagem em 3D. Chama-se captura de movimento.
Isso não sabia.
Eu sempre tive muita curiosidade em relação a isso e fiz um curso de duplo de cinema, literalmente duplo para estar nas filmagens. E era um curso que era especializado em lutas com armas, ou seja, espadas, escudos e por aí fora. Sempre foi uma coisa que me fascinou. E aproveitei a desculpa para estar, de certa forma, ligado à minha área, porque trouxe muitas vantagens. Sempre que há, nos projetos em que eu trabalho, a necessidade de fazer motion capture, eu sou sempre a pessoa "to go", porque sou a pessoa que tem experiência e sabe o que está a fazer. Por exemplo, é o expert. No filme dos Vingadores, não sei se a Laurinda viu, mas há uma guerra gigante no fim do filme, que é uma batalha épica com milhares de personagens. E como é óbvio, uma pessoa não podia estar a animar cada personagem individualmente. Então tivemos que fazer uma biblioteca de movimentos baseados em motion capture e nessa batalha, de 10 mil personagens, vamos dizer, 5 mil são baseados no meu movimento, ou seja, posso dizer que eu estou ali 5 mil vezes naquela batalha. Eu às vezes até vejo o filme e reconheço um movimento ou outro.
Que giro. Isso é verdadeiramente fascinante. E já agora, porque estamos aqui quase a chegar ao fim, queria lhe perguntar: nesta indústria cinematográfica, seja na sua área ou noutra área, o que mais o fascina a si? Para além daquilo que faz e daquilo que já conquistou.
Na indústria? É o que nós estamos a criar. Eu trabalho em cinema, mas sou um grande fã de cinema e de séries. Aliás, a minha área também se estende a videojogos. A área de trabalho também é tudo animado. E eu consumo muito de tudo isso, de filmes e de séries.
Sim, a TV já está on-demand. As pessoas já veem pouca televisão e o que veem escolhem. Temos aqui dois minutos e eu acho que todos nós queremos aproveitar a possibilidade de ter uma pessoa como o Afonso, que vê muitas séries, para nos dizer quais são as melhores séries que estão neste momento e que são imperdíveis.
Séries imperdíveis. Eu comecei a ver há pouco tempo uma série que se chama "The Great". É sobre a Catarina, a Grande, que era uma imperatriz russa. E o tal humor que eu tinha falado de "Guardians of the Galaxy" está presente nessa série. É muito engraçada. E também outro aditivo que eu gosto muito, eu sou um fã de história enorme, eu adoro história. E estou a aprender muito com a série. Aliás, eu acabo a série e vou pro YouTube ver vídeos a sério sobre os acontecimentos da série, porque a série é um bocadinho nogoso.
Então mais outra. Ainda temos tempo para falar mais uma ou duas.
Mais uma ou duas. Uma série que me influenciou muito, a mim e ao meu irmão, o Gustavo. Ele fez comigo o curso do Body Combat para o cinema. E nós começamos a pensar fazer essa experiência por causa da série que nós víamos juntos, que era o "Spartacus", que é sobre gladiadores romanos, uma revolução de gladiadores. E outra vez, é uma série que se aprende imenso sobre o Império Romano, que obviamente me fascina. Está no meu apelido. Gosto de pensar que sou os meus antepassados.
Exatamente. Afonso, temos 15 segundos, quer dizer ainda mais uma série?
Quinze segundos pra outra série. "His Dark Materials". É da HBO e eu vi dizer que é muito boa.
Muito bem. Agradeço imenso. Eu, por mim, ficava a conversar consigo ainda um bom bocado, mas acabou a nossa hora de conversa. Gostei muito de voltar. Neste caso, não o vejo, não estou consigo. Da outra vez foi uma brevíssima entrevista de três ou quatro minutos. Agora pudemos conversar quase uma hora. Agradeço imenso. Desejo-lhe as maiores felicidades e espero que também este seu percurso seja muito inspirador pra quem nos ouve, sobretudo pras gerações mais novas e criativas nas suas áreas.
Espero que sim. E obrigado pelo convite. Adorei mais uma vez ser entrevistado por si. Foi um grande prazer.
Obrigada, Afonso. O prazer foi meu. Obrigada.
Obrigada. Adeus.