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Vincent Van Gogh, genial pintor neerlandês, é assim que agora se diz, ai de quem diga holandês, continua a dar o que falar 131 anos após a sua morte. Ele que teve uma vida breve, suicidou-se aos 37 anos, e só após a sua morte é que a obra foi reconhecida.

De resto, é um clássico entre artistas, esse reconhecimento tardio.

Sim, pelo menos é esse o mito romântico. Eu acho que os artistas mais famosos de hoje, se calar, comem o seu camarãozinho, bebem o seu champanhe. Mas é verdade que ainda impera esta ideia romântica do artista genial e louco. E Van Gogh é um dos responsáveis, salvo seja, pela popularidade desta ideia.

A responsabilidade não é dele, coitado, que nem sempre conseguia lidar com os problemas que tinha, mas daqueles que depois venderam esta imagem do gênio louco.

Venderam, dizes bem, Judite. Venderam e continuam a vender hoje. A maioria das pessoas poderá não saber identificar um quadro de Van Gogh, mas sabe quase de certeza que o pintor cortou a orelha. E isto acontece porque as narrativas sobre os artistas são quase tão importantes para alimentar o mito quanto a própria obra.

E isso continua a acontecer ainda hoje.

Ainda hoje. E às descaradas. Veja-se o exemplo desta galeria londrina, a Courtauld, que tem uma exposição de autorretratos de Van Gogh.

Mas isso deve ser interessante.

Sim, sem dúvida. Mas como as galerias e os museus não se contentam em cobrar as visitas, já sabemos que no final há as recordações, os souvenirs, as T-shirts, os ímanes, as canecas e as canetas alusivas aos quadros ou aos artistas.

Sim, eu gosto muito de algumas dessas recordações, por acaso.

Eu também tenho algumas. Só que esta galeria tinha à venda uma de particular mau-gosto.

Mas tipo o quê? Bolinhos em forma de orelha, não me digas.

Quase que acertaste, Nelson. Eles tinham à venda borrachas em forma de orelhas para apagar. Estás a perceber a piada?

Ok.

Por acaso tem graça.

Tem. Mas tinham mais coisas. Tinham um sabonete, e dizem eles, para os artistas torturados que apreciam um banho de espuma fofinho.

Bem, imaginação ao menos não lhe falta a esta galeria. Aposto que se fosse uma exposição de Caravaggio, vendiam facas ideais para esventrar inimigos.

Não, estes não foram tão longe. Ainda. Mas eles tinham outro artigo. Tinham um estojo de primeiros socorros emocionais para 20 situações críticas. E isto à venda por €20.

Dá uma ideia agora que os responsáveis da galeria precisavam, se calhar, de uma ajudinha psiquiátrica.

Pois, eu também acho que sim. Quem não gostou muito do sentido de humor retorcido da galeria foi uma organização de artistas que criticou este humor de taberna, segundo eles, à conta dos problemas de saúde mental. E perguntou se a galeria fizesse uma exposição de Frida Kahlo, se teria coragem de vender artigos sobre a perna que a artista teve de amputar por causa de uma infecção.

Olha, cuidado que ainda lhes dão também algumas ideias. Essa gente é capaz de tudo. Por falar na orelha de Van Gogh, vamos aqui ouvir uns espanhóis de nome La Oreja de Van Gogh, que é melhor alterarem o nome para omoplata de Van Gogh ou outra parte do corpo qualquer menos problemática.

Rádio V.