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Vou aqui confidenciar só a vocês que, numa vida anterior, trabalhei como vigilante.

Isso é uma grande revelação. Como é que guardavas as instalações? Atiravas livros aos ladrões, sacavas de um soneto, recitavas Camões e eles fugiam?

Basicamente, Nelson, eu mantinha uma postura neutra e no final do dia escrevia no relatório: "Nenhum incidente a registar". Mesmo que tivesse havido algum incidente, mas isso era muito raro. Isto faz da profissão de segurança, vigilante, em certos postos, uma das mais propensas ao tédio.

Imagino o que seja fazer um turno de oito horas a olhar para as paredes.

Digo-te já que podes imaginar, mas não sabes o que isso é. É claro que se estiveres no museu ou numa galeria de arte, olhar para as paredes até pode ser uma actividade proveitosa.

Ainda assim, ao fim de algum tempo, imagino que seja aborrecido. A não ser que estejam sempre a mudar os quadros de sítio ou a expor novas obras. O segurança também pode ser um estudante de História da Arte e aí até tem grandes vantagens.

Ou pode ser um daqueles artistas nas horas vagas e horas vagas não lhe faltam. O que pode faltar é o talento ou uma tela. Aí é que as coisas podem correr mal.

Como assim?

Costuma dizer-se que uma mente vazia, com pouco com que se entreter, é a oficina do Diabo. Junte-se a isto a preguiça, o tédio e passam-nos pela cabeça ideias no mínimo infelizes. Eu diria que foi isto que aconteceu na Rússia, com um segurança de uma galeria de arte.

Então, o que é que o malandro fez? Pintou quadros dele e fez uma exposição?

Se calhar era o que devia ter feito. Talvez cansado de tantas horas de trabalho sem fazer nada, com tantos quadros ali à volta e uma caneta nas mãos, o que é que ele resolveu fazer? Pintar uns olhinhos num dos quadros que estava na galeria.

Eu acho que isso pode ser até considerado um acto de subversão artística. Não foi Marcel Duchamp que pintou uns bigodes à Mona Lisa?

Sim, mas com uma ligeira diferença: ele não os pintou no quadro original de Da Vinci. Este segurança russo, segundo o teu raciocínio, foi verdadeiramente subversivo, um iconoclasta, porque desenhou os tais olhinhos num quadro da artista Anna Leporskaya, que nos anos 20 do século passado foi aluna de Malevich, num quadro avaliado em 870 mil €. E digo-te já que é mais caro que a Mona Lisa de Duchamp.

Desculpa, eu estive a ver o quadro. Chama-se "As Três Figuras" e aquilo são três figuras abstractas, sem expressão, sem olhos. Faz sentido que o segurança tenha achado que faltava ali qualquer coisa. A intenção dele até se calhar era valorizar o quadro, torná-lo mais amigável.

Está bem visto. Sim, ele até podia ter acrescentado um sol, uma casinha, uma árvore, umas nuvens, um gato e depois podia doá-lo a um jardim de infância. O certo é que o senhor foi apanhado e agora corre o risco não só de pagar uma multa, como de passar três meses na cadeia, porque o restauro da obra ainda vai custar cerca de 3 mil €.

E se for para a prisão, pode aproveitar. O que não lhe vai faltar é tempo livre. Pode aprender técnicas de desenho ou construir barcos com fósforos.

Ou fazer tatuagens nos outros reclusos, mas aí convém ter mais cuidado com o que desenha. É que nesse caso, a falta de talento pode sair-lhe um bocadinho mais cara.