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Já passaram o quê? 20 anos, não é? Mais ou menos.
20 e tal anos, sim.
20 e tal. 20 e tal anos depois, é possível, ou consegue fazer isso, olhar para trás e tentar perceber como é que os sintomas da depressão se foram instalando, aquela mágoa, aquela tristeza, aquela angústia. Foi uma coisa repentina, sem dar conta ou foi assim devagarinho?
Olha, eu sinceramente não me recordo bem, mas eu acho que não foi uma coisa avassaladora, portanto é uma coisa gradual. Mas depois, de repente, bateu-me de uma maneira que aquilo foi brutal.
Quando percebeu, já estava lá.
Ya. As pessoas dizem: "Depressões não é para mim, eu não sei das quantas." As pessoas não sabem do que estão a falar.
Também dizia isso na altura?
Eu se calhar dizia, porque eu também dizia que não tinha muito tempo para depressões, porque eu estava sempre a trabalhar. Basicamente, eu acho que eu tenho várias defesas e uma delas é: eu adoro aquilo que faço, adoro o meu trabalho, adoro ser ator, adoro ser dobrador, locutor, tudo mais a mesma coisa. E não tendo tempo, muitas vezes tu não tens tempo para parar, nem para pensar em nada.
Então vamos a isso. Já era isso tudo na altura?
Já.
Como é que eram os seus dias antes da depressão? Como é que era o seu dia a dia? Quem é que era o Quim B., como pessoa?
Eu vou tentar te explicar como é que é o Quim B. O Quim B. tem um privilégio, que é poder fazer o que gosta. E entretanto, o que o Quim B. pensou? "Bem, eu posso trabalhar oito horas por dia ou então posso trabalhar 20 e tal horas por dia, porque adoro aquilo que faço." Já o Vasco Santana dizia que o ator era pago para esperar, não para fazer o trabalho, porque o trabalho nós fazemos gratuitamente. Aquilo é mesmo fun. E de facto, é um privilégio nós podermos fazer aquilo que gostamos e que nos pagam para fazer isto. E ainda esmorrota a vida. Pronto, a vida de ator ou vida de artista, digamos, não é uma vida fácil. É uma vida gira, mas nós não temos um ordenado ao final do mês. Nós não sabemos o que é que nos vai acontecer. Mas por acaso nem foi esse o caminho, que eu estava cheio de trabalho na altura. Eu tive essa depressão, que quase me ia levando ao suicídio e tive outra há relativamente pouco tempo, porque ia morrendo. Mas aí já foi coração ou coisa qualquer. Estava no sítio certo, à hora certa. Porque entrei numa ebulição que foi: eu não tinha trabalho. E tu, de repente, não tens trabalho e tens três filhos para criar, a família está dependente de ti e tudo isto pode te levar a uma data de sítios.
Nessa primeira, a de há 20 e tal anos, aparentemente estava tudo no sítio, não é? Havia trabalho, havia muita coisa a acontecer, o trabalho era bom, dava realização. E de repente, o que é que acontece? Começou a deixar de querer ir trabalhar? Começou a ficar triste sem razão? Como é que começou a perceber que não estava bem?
Olha, isto é muito estúpido, se calhar, o que eu te vou dizer, mas por que te apaixonas?
Ninguém sabe. Acontece.
Por que é que entras numa depressão? Muitas vezes tu também não sabes. É um sentimento ao contrário, não é? Aliás, se te apaixonares e fores retribuído, aquilo é muito fixe, mas se também não for retribuído, entras numa depressão também, não é? Mas aqui é uma coisa que realmente tu não sabes, aquilo leva-te por um caminho. Eu vivi uma depressão muito próxima, que era da minha mãe.
Antes desse episódio?
Sim. Eu era puto e a minha mãe só chorava. Dizia-lhe: "Bom dia." E eu: "Bom dia, mãe, tudo bem?" E ela começava logo a chorar. Eu assim: "Mãe, só disse bom dia." E ela chorava.
Durou muito tempo?
Eu acho que foi para uns três a quatro anos.
E conseguia compreendê-la ou só conseguiu compreender depois de ter passado por uma depressão?
Eu não a compreendia, como é óbvio. Eu acho que só compreendes as pessoas depois de passares por elas. Isto por quê? Eu olho para ti. Por que é que tens uma depressão? Tens trabalho. Porque as pessoas pensam logo nisto. Tens trabalho, tens uma família feliz, não sei o quê. Então por que é que estás numa depressão? Que estupidez! E de repente, a minha mãe tinha uma família muito cool, um marido que a amava e de repente estava numa depressão que não sabia o que é que ela tinha. De repente, assim: "Mãe, não percebo." E isto uma parte das pessoas não percebem.
E foi isso que lhe aconteceu a si? Sentia que as pessoas à sua volta, quando já estava na sua depressão, também não percebiam muito bem por quê?
Ninguém sabia que eu estava em depressão.
Como assim?
Só eu é que sabia.
Como é que conseguiu esconder?
Porque sou ator. Não, o que acontece é assim: o Quim B. é caranguejo, signo, e então tem uma carapaça. E então uma das defesas, e é curioso ter descoberto isto, porque eu pensava que era o único e afinal não sou. Ao fazeres rir as outras pessoas e tendo uma filosofia de vida muito fun e divertida, tu ao fazeres rir as outras pessoas, tu estás-te a alimentar a ti próprio e ris-te também, esqueces-te. Então foi engraçado quando eu quis contar um bocado a minha história. E a minha história só vem por uma razão, por causa do Pedro Lima, que eu era muito próximo e de repente, what the fuck, o que é que se passou aqui? E eu pensei: bem, há 20 e tal anos podia ter sido eu e toda a gente ia dizer: "O que se passou ao Quim Barreiros? Uma pessoa cheia de vida, amante da natureza, de esportes radicais." Tal e qual como o Pedro. E de repente assim: não, eu vou contar minha história, porque as pessoas não acreditam que as pessoas podem entrar em depressão. Pode ser rico, pode ser pobre, pode ser bonito, pode ser feio, todos nós não estamos livres de uma depressão.
Como é que era pra si um dia mau? Tinha vontade de sair, não tinha? Chorava, não chorava? O que foi pra si a experiência de passar pela depressão?
Eu acho que tu chegas a um ponto na depressão que tu não te apetece sair, não tens vontade pra nada, não te apetece nem sair da cama. Não te apetece ir pra lado nenhum, nem ver pessoas. E depois tu começas a entrar num buraco e depois é assim: "Quim Barreiros, como é que sais disto?" E é terrível, porque tu não sabes. E o que acontece muitas vezes, por mais que queiramos falar com amigos, e é isto que eu apelo às pessoas, é necessário falar com alguém, mas temos que falar com alguém que nos queira ouvir, porque se apanhamos uma pessoa: "Iá, isto é uma fase, isto depois passa." E muitas vezes isso não acontece.
Ouviu muitos desses? Quando é que chega a falar com pessoas? Porque houve ali uma fase, que estava a dizer-me que não dizia a ninguém, não é?
Não, ninguém sabia que eu estava.
Mas por quê? Tinha vergonha?
Eu acho que começa naquela parte de ninguém sabe o que eu estou a sentir. Eu também não sei explicar o que estou a sentir. As pessoas vão te dar umas palmadinhas nas costas e já te passar. E é tudo muito leviano.
Mas era estigma também?
Eu acho que também era um bocado por aí. As pessoas não têm que apanhar com os meus problemas. Eu acho que é um bocado, muitas vezes, que as pessoas têm, que não sabem que têm um problema, ou que não sabem expressar. E às vezes é complicado. E quando eu contei minha história, foi muito engraçado, porque foi uma situação de altruísmo puro e a minha cena era: se eu ajudar uma pessoa, já estou satisfeito. E eu, basicamente, em quatro dias, quando saiu a reportagem do Vamos Falar, eu respondi a cerca de 1300, 1400 e-mails. Portanto, há muita gente com problemas, e alguns deles, próximos. E que me disseram que tu não imaginas o que me ajudaste. Amigos que, a mesma coisa, bastava um telefonema, liga-me e a gente fala. Só que as pessoas não-
Guardam pra si.
E depois um dia rebentam.
Quais foram os seus momentos mais negros nessa fase de há 20 anos? Consegue identificar momentos mais negros em que a desesperança era forte demais?
Como é que eu te explico? Tu alguma vez tiveste uma depressão?
Já.
Pronto. Tu sabes que é uma mágoa, que tu choras e não sabes por que choras.
Sim.
Tu não sabes o que queres fazer da tua vida. Então tu estás numa dor constante. E então tu começas a ver soluções. E de repente, se não queres ir ao médico, por isso é que eu digo que as pessoas têm que falar e se não conseguirem resolver as coisas com as pessoas, tentem ir a um psicólogo, a um psiquiatra, algum profissional que possa ajudar. A minha mãe curou-se. Esteve medicada, se não me engano, dois anos e meio. Depois, foi progressivo, tirou a medicação e hoje em dia está muito fixe.
O Quim também fez isso?
Nada.
Então como é que está lá no fundo do buraco, como dizia há pouco, como é que percebe que tem de começar a sair? O que fez?
O monstro está lá. Como é que eu te digo isto? Eu curei-me daquela vez.
Teve ajuda de alguém? Disse-me que falou com uma pessoa.
Eu falei com uma pessoa só na altura e ela encaminhou-me pra um sitio. Mas o giro é: ela não sabia o que eu estava a sentir, o que eu tinha, e aquela conversa com essa pessoa pôs-me no trilho certo.
Sem a pessoa saber.
Sem a pessoa saber, o que foi curiosíssimo. Tanto que só 20 e tal anos depois, eu agradeci-lhe no vídeo e ela nem sabia.
O que foi? Lembra-se dessa conversa?
Lembro-me da conversa.
E lembra-se o que essa pessoa lhe disse que fez aí um clique?
Disse-me tanta coisa. Porque muitas vezes, tu quando começas numa encruzilhada e tu começas a riscar as opções e tu começas a encaminhar só pra uma opção, e de repente vem uma pessoa assim: "Não, olha, há mais opções." E de repente, tu podes escolher outras opções. Eu tive uma conversa, esta conversa foi gira. Foi dura. Era uma mãe que mandou um e-mail, eu estive quase a passar a fronteira pra lhe ligar, mas não o fiz. Portanto, foi tudo por e-mail. Estivemos até às seis, sete da manhã a falarmos um com o outro via e-mail. E ela não percebia porque que o filho dela se tinha suicidado com 21 anos. E ela dizia que: "O meu filho era lindo, tinha uma vida fantástica, fazia parte da equipe de futebol, estava na faculdade" e que ela tinha lhe comprado umas calças Levi's, que elas não tinham muitas posses e ela tinha lhe comprado umas calças Levi's, e no dia a seguir suicida-se. E porquê? Ela queria ir atrás do porquê. Por que ele se matou? E não há explicação. A única coisa que eu lhe disse foi: "Tenta viver a tua vida. O teu filho fez uma opção. É drástico." E eu perguntei: "Tu tens mais filhos?" Eu tenho mais uma filha. "Tu já perguntaste alguma vez à tua filha o que é perder um irmão? Tu tens um que está vivo e tu estás agarrado ao que está morto. A vida continua." E de repente aquilo fez-lhe um tiro na cabeça, porque é isto. Começa logo a querer arranjar justificações onde elas não existem.
O dia em que deixou de pensar de suicídio foi no dia em que lhe mostraram outras opções.
Mostraram-me outras opções e aquilo abriu-me um caminho. Eu hoje em dia fico muito contente por não ter tido essa opção, porque hoje em dia tenho três filhos fantásticos. Tenho uma vida porreira e se tivesse feito aquilo, eu não queria saber o que era ser pai e construir isto. E outra das coisas muito engraçadas, eu mostrei este vídeo do Vamos Falar aos meus filhos, individualmente. Isto foi há dois anos, na altura da pandemia, ou coisa qualquer. Portanto, um devia ter aí 17, o outro 13 e o outro nove anos. E foi engraçado, quando os teus filhos veem o sofrimento do teu pai a falar da dor que sentiu e que conseguiu superar, eu perguntei a opinião deles, o que eles achavam. E foi engraçado porque normalmente eles veem-nos como uns super-heróis, os pais. Eles não sabem, nem muitas vezes imaginam que nós também fomos pequeninos e que crescemos, porque eles, por exemplo, julgavam que eu sempre fui ator. Eu tive N profissões antes de ser ator, mas quando eles nascem, para eles é a partir dali que conta. E aquilo foi muito engraçado, porque o que eles me disseram foi: "Isto vai ajudar muita gente". Portanto, eles têm noção da situação que aconteceu ali, que é duro. E as coisas acontecem e tu não sabes porquê, mas eu superei. Ótimo, mas posso lá voltar. Eu nunca sei.
Voltou, por exemplo, nessa fase, provavelmente de forma diferente e com contornos diferentes.
Sim, não foi tão intensa.
Mas volta lá quando está numa situação difícil de vida prática. E aí, pelo menos, já consegue identificar uma razão, um gatilho para esse mal-estar.
Sim, há o trigger para a situação. Na altura, na outra, não. É curioso.
Quando isso acontece, é alimentado por essa ansiedade de não saber como é que vai fazer, como é que vai gerir, como é que vai garantir o sustento da família?
Isto é um leigo a falar. Mas a depressão pode ser despoletada de várias coisas. Pode ser amor, pode ser causas financeiras, pais, mães, irmãos, mortes de entes queridos, pode despoletar de um leque de coisas, mas muitas vezes ela acontece e tu não sabes o porquê. Às vezes é só ao nível químico. No teu organismo há um desequilíbrio qualquer e de repente: "O que é que se está a passar? Por que choras?" E de repente é aí que tu tens que realmente procurar ajuda médica. Eu, como eu mesmo sempre fui super-herói. O caso, por exemplo, do Pedro. O Pedro foi na reta final que resolveu pedir ajuda, mas já foi tarde.
Quando se vê nessa nova situação, identificou mais rapidamente o que podia estar a acontecer por causa da experiência que tinha tido há 20 anos?
Claro. Tu quando começas a ter sintomas, coisa assim: "Temos que começar aqui a ter cuidado." E nós temos que nos ouvir muitas vezes. Eu uma vez falei com uma médica e ela dizia: "Nós temos que ouvir o nosso corpo."
Que sintomas eram esses? Para quem nunca passou por uma experiência de depressão, e é verdade que as experiências são todas diferentes de pessoa para pessoa.
É tudo diferente.
Mas no seu caso, que sintomas eram esses? O que é que começou a perceber? Há muita gente que fala numa ansiedade permanente, associada a um estado de desesperança. Acho que é de achar que não é possível resolver. Era isso que sentia?
Eu não. Eu não senti, porque resolver o quê? Eu não tinha nada para resolver. Eu tinha era uma depressão, eu não sabia o porquê que estava ali. Que é estranho, porque supostamente as pessoas pensam: "Olha, o Robin Williams. Um ator brutal, tinha dinheiro, uma família espetacular e de repente, pumba, comete suicídio, por quê?" Porque chega-se a um ponto que a máquina avaria.
Mas é porque há essa angústia, não é?
Há uma angústia, a máquina avaria e começa naquela angústia de eu não quero esta dor para mim e a única forma que eu tenho é uma eutanásia.
Tinha implicações no seu dia a dia, por exemplo, conseguia dormir, descansar? Conseguia ser funcional?
O que acontece muitas vezes é que tu só queres é dormir.
Tinha isso?
Só queres é dormir.
Mas mais na lógica de não sair da cama e não ser obrigado.
Não quero sair da cama, fico aqui no meu casulo e vejo o que se passa.
E era funcional no resto da atividade básica? Alimentava-se? Há pessoas que deixam de comer, há pessoas que se refugiam na comida.
Por exemplo, agora uma amiga minha, que até nem banho tomava. Estava numa depressão.
A si não lhe aconteceu isso? Conseguia manter-se.
Continuava com a higiene básica. Mas há pessoas que entram, essa minha amiga, por exemplo, agora estava numa depressão hiper aguda. Eu só disse: "Miúda, tu tens que ter ajuda." Porque nem banho tomava.
Quando passa por este episódio mais recente, já tinha os seus filhos?
Já. Este último, já.
Como é que foi atravessar um momento desses com eles? Era possível ir buscar lá força ou a existência deles e a falta de trabalho pesava ainda mais?
Tu aí tens que ser o capitão do barco. E o que acontece muitas vezes, há pessoas que optam por uma solução rápida, que não vai resolver os problemas. Vais resolver, se calhar, o teu problema, mas vais arranjar um problema muito maior para a tua família. E há N casos desses de pais que cometem suicídio e depois deixam um problema gravíssimo para os filhos e para a mulher. E muitas vezes nem falavam dos problemas que tinham, nem sabiam. E a tal cena, porque não falavam.
E desta vez, falou mais do que falou da primeira vez?
Não. Aí falei.
Aprendeu isso da primeira.
Aprendi que tinha que falar e foi engraçado, porque tu começas a ver as coisas e tu, de repente, com 40 anos podias ter morrido e tu pensavas assim: "What the fuck? A médica disse-me isto para me assustar ou estava mesmo a falar sério?" Não, ela estava mesmo a falar sério.
Que episódio foi esse? Já falou um pouco disso, que foi uma questão cardíaca.
Basicamente, foi assim: eu já não trabalhava há quatro meses e nunca me tal tinha acontecido na vida de ator, não receber há quatro meses. E a minha família estava toda dependente de mim. Portanto, se não entrasse, sair, sai sempre. E não entrava nada. E então estava a entrar em pânico porque não estava a ver soluções para frente. Aí foi ao contrário. Deixas de dormir, começas com uma ansiedade mortal.
Só se pensar naquilo.
E de repente, acreditem no que quiserem, ou destino ou whatever, houve um amigo meu que também era ator que me pediu ajuda e eu fui ter com ele, que já não falava com ele há quatro anos. E entretanto, ele vê as auras. E de repente, ele olha para mim e disse: "Marco Bè, tu não estás nada bem." E entretanto ele toca-me e foi a medir a tensão. E foi aí que ele se assustou, estava mais assustado do que eu. Porque muitas vezes o que acontece quando tu és ignorante, és feliz, porque não tens conhecimento das coisas. E então ele dá-me a pressão arterial e para meu figo foi igual ao litro.
Lembra-se qual era?
Era 15 e meio, 16, qualquer coisa. Estavam a colar. Estás a perceber?
Alta e baixa.
E ele ficou com o ar mais branco do que eu. E eu: "Mas tu estás bem?" Ele disse: "Como é que estás bem, meu?"
Mas sentia-se bem?
Sentia-me cansado. E entretanto, ele começa-me logo a espetar agulhas nas orelhas, chama logo uma médica do Hospital São Francisco Xavier. "A tensão está a baixar, o que é que eu faço?" Meteu logo coisas debaixo da língua. Depois a médica chegou, depois falámos, foi uma conversa hiperagradável e depois ela disse-me: "Olha, Marco Bè, sabes o que ia acontecer hoje? Tu ias jantar, ias dormir e dificilmente acordavas amanhã." E tu ficas "uou". Então vamos ver o porquê que estás nessas condições. Então foi tentar procurar o problema para nós termos uma solução, porque não é só os medicamentos que te tratam das coisas. Muitas vezes tens que procurar as respostas dentro de ti. E então foi uma terapia ali naquela noite, engraçada, que me levou por outro caminho.
Não chegou a fazer depois terapia de uma forma mais sistemática, regular?
Não.
Por quê?
Porque não sinto necessidade.
Depois dessa conversa, conseguiu encontrar a sua forma de lidar. A situação manteve-se. Continuou a não ter trabalho, continuou a não entrar dinheiro. Como é que conseguiu dar a volta e lidar com a mesma realidade com menos ansiedade?
Tu tens que te adaptar. Basicamente, é o seguinte: eu tenho um exemplo que dou a maior parte dos atores. Eles acham um exemplo muito estúpido, mas eu acho que é um segredo muito engraçado, que é: por que o panda está a entrar em extinção? Porque só come bambu. Portanto, se um ator só vive do teatro, é capaz de passar fome. Se vive só do cinema, é capaz de passar fome. Por isso, o que é que um ator tem que fazer? Tem que fazer um pouco de tudo. Tem que fazer teatro, dobragens, locuções, tem que se adaptar a outras realidades. Por isso é que eu criei um projeto chamado Puta da Loucura e estou na estrada com ele já há 13 anos. E é uma adaptação às realidades. E agora pergunto: o que é isso? É muito fora. É uma adaptação, é aquilo que basicamente é como se fosse uma peça de teatro. Eu nem sei explicar o que é aquilo, mas eu sou muito feliz a fazer aquilo. E já são 13 anos na estrada e tu tens que te adaptar rapidamente às coisas.
Mas isso, no que diz respeito à vida do dia a dia, não é uma coisa fácil. Porque às vezes a realidade é muito dura e, portanto, para isso, às vezes nós precisamos ter ferramentas para lidar com essa dureza que não vai desaparecer de um dia para o outro. Sente que a depressão que teve há 20 anos lhe deu essas ferramentas para lidar com uma fase difícil agora ou encontrou novas formas de?
É óbvio que a vivência que nós temos, eu tenho uma filosofia que é: eu gosto muito de viver o presente E com as experiências que eu tenho do passado, dão-te as ferramentas para tu poderes enfrentar o futuro. É pensar um bocadinho no futuro, mas principalmente viver o presente. E o que acontece quando vem uma pandemia também. Essa depressão que eu tive foi antes da pandemia. Durante a pandemia, tu de repente assim: "What the fuck?"
Não aconteceu nada, acabou o trabalho.
Acabou tudo. Tive uma situação engraçada: "Bem, Quimbé, ou tu morres na praia com dinheiro na mão ou tu investes. Tu tens que arranjar uma solução." E essas soluções muitas vezes é que te faz, te rijo. Portanto, aquilo que não te mata, torna-te mais forte. E essas ferramentas todas que tu tens do passado, é extremamente importante, porque é isso que te vai enrijecer e vai te dar outras ferramentas para enfrentar os problemas que tens.
Foi isso que o ajudou na pandemia? A pandemia foi uma fase que com maior ou menor gravidade afetou toda a gente.
Ya.
Obrigou-nos a rotinas diferentes, tirou-nos das nossas zonas de conforto, dos nossos planos mentais para a nossa vida. Como é que foi para si lidar com uma coisa que de repente parece que nos puxou o tapete debaixo dos pés de todos?
Ainda estou a sofrer consequências disso. Mas o que aconteceu foi: nós a nível de teatro e de espetáculos, logo a primeira coisa que aconteceu foi não há teatro, não há nada. De repente vêm os estúdios e de repente: "Isto é uma cena passageira, vamos nos adaptar rapidamente ao que é que vai acontecer aqui." E de repente, cada vez a piorar mais. E por isso é que foi muito importante dar a mensagem do Vamos Falar, porque havia muita gente que estava a passar uma depressão a todos os níveis.
Viu isso muito à sua volta?
Vi. Vi porque tu perdes o controle. Tu perdes o controle porque tu achas que a vida vai te por um caminho e de repente tiram-te o tapete de todas as maneiras. Portanto, não há dinheiro, não há trabalho, tens que ficar em casa, não podes sair para lado nenhum.
Não há previsibilidade, não se sabe quando é que vai acabar.
Nada. Eu vou dizer, se calhar, isso de uma forma estúpida e egoísta daquilo que eu te vou dizer, mas eu adorei estar em casa com a pandemia. Não a nível financeiro, que levei um chimbalato também, mas a possibilidade, que é aquilo que eu estava te a dizer antes da entrevista, que é ver de todas as coisas más que te acontecem na vida, tirares sempre o lado positivo. E esta é a única forma que tu tens de crescer.
É assim que acha que se mantém, não sei se protegido é a melhor palavra, mas se mantém preparado para enfrentar as adversidades, é olhar para o copo meio cheio?
É uma defesa, sim. Cada um tem as suas defesas. O que, por exemplo, para ti funciona, para mim pode não funcionar.
A comédia é uma defesa?
A comédia é uma defesa. A minha forma de estar na vida, de fazer rir as pessoas e de me rir, é uma defesa. Tanto que eu apercebi-me disso quando, somos todos amigos e de repente, os meus amigos todos sem problemas e já não sabíamos uns dos outros. O Raminhos, o Madeira, o Marco Horácio, o Hélio, o Arcanjo. De repente, uma data de pessoal da comédia, que faz aquilo que eu fazia, mas nunca falámos.
Porque é uma defesa, mas também é uma máscara?
É uma máscara.
No mau sentido, digo.
É mais fazer rir as outras pessoas e rires-te a ti próprio, do que estares em um canto. Não. Eu, por exemplo, um destes dias, isto é um bocado estúpido, mas eu contei o segredo da vida aos meus putos. E disse aos meus putos que um dia quando eles tivessem 16 anos, eu havia de lhes contar o segredo da vida. Um já tem 19, um vai fazer 16 e eles andavam sempre: "Pai, conta-me lá o segredo da vida." E eu: "Não, não tens idade para isso. Quem me dera um dia os meus pais poderem me ter contado isto e tinham-me facilitado imenso a vida. Mas quando tu fizeres 16 anos, eu conto. A ti não, que tens 11." E o puto: "Pai, não! Mas conta-me, eu sou muito maduro. Conta-me, por favor." E eu disse: "Ele vai fazer 16, tem 15, mas vai fazer 16. Se calhar conto." Mas isto foi durante uma temporada. E de repente eu conto-lhes o segredo da vida. O segredo da vida é: estás pronta?
Vamos a isso.
A vaca não dá leite. E eles olham um para o outro e penso assim: "Nós temos um pai muito estúpido. A vaca não dá leite." E eu: "Claro, a vaca não dá leite. A vaca está ao teu lado, mas tu não fores mexer a vaca, tu não tens leite. Este é o segredo da vida. Se tu quiseres alguma coisa, tu tens que lutar para. Ela está ao teu lado, mas se tu não fores mexer a vaca, não tens leite. Este é o segredo da vida. Portanto, vocês têm que lutar por tudo aquilo que querem." E eles de repente começam-se a rir, de repente percebem a mensagem.
Qual é o ponto?
E é agir e educar. Eu tenho uma filosofia que é a forma de educar a nível de comédia, a nível de dar aulas, de workshops, não sei quê. Eu acho que a comédia agarra as pessoas do que estares daquelas palestras de seca.
Chega de uma forma diferente.
E fica. Eles nunca mais vão esquecer da vaca, porque realmente eles querem atingir, tem que ir.
E já levou o tema da saúde mental para o seu trabalho? Nessa lógica de usar a comédia como um veículo para passar a mensagem.
Basicamente eu vejo isto de uma forma totalmente leviana. Por exemplo, o "Esputo da Loucura" é um bocado isso. E um destes dias, no meio de um espetáculo, uma miúda linda de morrer, ela vem no final ter comigo e tirar fotografias e não sei das quantas, e eu só lhe disse: "Tu estás a precisar de um abraço." Ela agarrou-se a mim e chorou. A mesma coisa. "Como é que tu topaste que eu tinha problemas?" "A forma de dançar, não sei, percebi." E eu disse assim: "E tu ainda não falaste com ninguém?" E ela chorava. Estivemos a noite toda a falar. E depois veio o namorado, depois veio não sei das quantas e disse: "Puto, tens aqui um grande desafio." E era a mesma coisa. Ela não sabia porque é que tinha a depressão.
Para si também passou a estar mais atento para garantir que se alguma vez voltar a passar por uma situação destas, está preparado para lidar?
A gente julga que está preparado, mas é bom termos as ferramentas para nos defendermos. Agora, se tu não estás preparado e a coisa acontece, pode-se ter um descalabro completamente que não estás nada à espera.
Muito obrigada.
Olha, só espero que esta conversa vá ajudar alguém.
Vai ajudar, tenho a certeza.