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Consegue identificar em que momento é que começou o seu processo de luto? Começou no dia em que perdeu o seu marido ou precisou de algum tempo para pôr os pés no chão e começar a fazer esse caminho?

Acho que começou no momento.

Logo ali?

Logo ali.

Por que diz isso?

Porque foi tão violento o momento, a notícia, o saber, que acho que começou nesse momento.

Há pessoas que descrevem o momento em que se recebe uma notícia dessas. Nós depois podemos falar sobre como o contexto e a forma pode ter uma influência diferente, mas descrevem esse momento da notícia da perda como um momento em que não perceberam bem a realidade. Para si, a realidade foi imediata, teve a percepção da dureza da realidade de imediato?

Acho que sim. Digo acho, mas sinto que sim, que tive essa noção. Não quer dizer que a tenha interiorizado. Mas tive a noção do que aconteceu. Tive a noção da perda nesse momento. Mas demora a interiorizar. Ou seja, durante muito tempo imaginei o Pedro a chegar a casa. Por isso, acho que racionalmente interiorizei nesse momento, mas emocionalmente demora muito mais tempo.

Para quem perde, como é que são esses primeiros momentos ou esses primeiros dias? São dias em que se tenta que a racionalidade tente guiar-nos de alguma forma ou há momentos diferentes? Momentos em que conseguimos funcionar e momentos em que não conseguimos funcionar de todo.

Eu tive muitas ajudas na parte da funcionalidade, por isso não tive que tratar de muita coisa. Senti que pude só tratar da parte emocional. E quando falo da parte emocional, falo de mim, falo principalmente dos meus filhos. Pude, durante esses dias, só tratar de nós emocionalmente. Não tive que gerir nada a nível funcional, a não ser comer e dormir, mas o que me permitiu, de alguma forma, eu diria, trabalhar essas emoções, preparar momentos a nível emocional. Tive essa sorte, no sentido que dei por mim a pensar que há muita burocracia para tratar, há muita funcionalidade e deve ser muito complexo ter que gerir estas duas questões.

Quando tem de ser a pessoa enlutada a tratar dessas coisas.

Sim.

Nessa bolha em que pode estar com os seus filhos, sobretudo, o que quer dizer gerir emocionalmente aquele momento? O que faziam? O que vos ajudava? Conversar sobre ou tentar fazer qualquer coisa que vos tirasse um cadinho da realidade?

Foi mais essa possibilidade de falarmos, de estarmos, de chorarmos, de nos abraçarmos. Esse cuidar, de procurar o que estavam a sentir nesse momento. Consigo, por exemplo, pensar na questão da cerimônia. Como é que os podia ajudar a preparar para esse momento? O que era importante falarmos? O que era importante responder? Ou que dúvidas é que eles tinham? Que angústias é que tinham? É nesse sentido que eu digo que estive muito concentrada na parte emocional dos momentos e não na parte funcional, que é exigida também. Por isso pudemos falar muito sobre o que ia acontecer. Lembro-me dos meus filhos, não todos, porem a hipótese de não querer estar na cerimônia, por não saberem o que ia acontecer, por pensarem que podia ser ainda mais doloroso viver esse momento, para além de tudo o que já estava a ser difícil. E pudemos sentar e eu explicar o que eu esperava que fosse, o que foi pensado ser, e construirmos esses momentos em conjunto.

A necessidade de fazer essa gestão também com eles foi útil também para si, para o seu próprio processo pessoal, ou em algum momento sentiu que tinha que se pôr um cadinho em espera, que o seu processo tinha de esperar um cadinho porque havia uma prioridade maior, que eram eles?

Acho que foi feito em conjunto. Eu quando dei a notícia a cada um dos meus filhos, a primeira preocupação deles foi comigo e isso fez-me incluir Nessa preocupação, quanto mais não fosse por eles. Ou seja, não me excluir emocionalmente do processo ou não os pôr em primeiro lugar. Eles estando em primeiro lugar, eu também estava lá, porque a preocupação deles maior era comigo. Eu senti isso. E isso fez-nos viver as coisas muito lado a lado, de alguma forma.

E quando é que percebe que o vosso cuidar muito multilateral, de todos uns para os outros, era importante no vosso percurso, mas se calhar também precisavam de ajuda e a Ana precisava de ajuda para fazer um processo que seguramente ia ser doloroso, ia ser difícil, ia ser prolongado?

Isso foi imediato também. Quando recebi a notícia, estava um psicólogo do INEM, que se aproximou no sentido de: "Eu estou aqui, vai precisar desta ajuda." E eu no momento disse: "Eu sei, mas agora não consigo." E o agora não é vou precisar daqui a um mês ou sei que vou precisar daqui a uma semana. É eu sei que vou precisar agora, mas não agora aqui. E essa ajuda começou no próprio dia, ou seja, a ajuda foi imediata.

Consegue perceber por que tinha a noção logo imediata? Por que lhe disse "eu sei"? Porque para si a saúde mental não era uma surpresa, não era um desconhecido, era um tema para si?

Eu já tinha feito terapia antes. O Pedro fazia terapia e já tinha feito. Não havia um tabu em relação à terapia. E tendo em conta a violência do que estava a acontecer, era claro para mim que ia precisar de ajuda.

E teve mais pessoas além de si própria a fazerem essa sugestão, porque vemos muitas vezes nas situações de perda que há pessoas à nossa volta que vão dizendo: "Se calhar devias ter isso." Havia essa consciência também à sua volta ou nem foi preciso de todo, porque depois quando chegou o momento, a Ana foi?

Essa ajuda acabou por ser logo disponibilizada por uma pessoa amiga, no sentido de está aqui esta pessoa que está pronta para te receber, para te ouvir, se quiseres. E isto foi ao fim do dia. E a partir daí essa questão foi resolvida, por isso não houve necessidade das pessoas me lembrarem, porque foi tão resolvida no momento, e ficou, essa ajuda ficou.

Mas falou logo com essa pessoa no mesmo dia?

Falei logo no mesmo dia.

De imediato?

De imediato.

O que foi isso para si? O que essa pessoa representou naquele momento?

Talvez possa dizer, não sei se isto faz sentido, mas é o que me vem. Talvez possa ter representado eu não ter que ter tomado calmante nenhum, nem ajuda nenhuma química para aqueles dias, porque senti como uma ajuda médica. E essa pessoa teve essa capacidade, de alguma forma, de me ajudar em termos clínicos. Não sei se isto faz sentido o que estou a dizer.

E organizar-se um bocadinho no meio do caos?

Sim.

O possível.

Se calhar, nesse sentido de ser uma pessoa que vai buscar alguma racionalidade no meio de um turbilhão de emoção gigante. Por isso é que eu digo que é aqui uma ajuda médica. No meio deste caos acaba por ser essa ajuda. Uma ajuda muito formal, prática e direta. Não é um amigo a dizer: "Estou aqui para dar um abraço, para chorar." É uma ajuda muito concreta.

É só depois, imagino eu, destes primeiros dias, que começa a fazer terapia de uma forma mais consistente e regular.

Sim.

E há alguma diferença entre a terapia que começou a fazer e aquela primeira ajuda, que foi mais de urgência, de resolver ali, fazer uma intervenção mais direta. A terapia que passou a ter foi diferente da terapia que já tinha feito antes? São processos diferentes? As coisas mudam muito?

A terapia que continuei a fazer, comparando com o primeiro dia ou com a terapia anterior?

Ou isso também, não é? Porque tinha-me dito, já tinha feito terapia.

Terapia, sim.

O que lhe pergunto é, para quem nunca fez terapia, se pode ser uma experiência diferente consoante o momento que nós estamos a viver.

Sim, no sentido em que a terapia que fiz agora, que começou neste luto, na perda, foi uma terapia do momento. Não é uma terapia de ir buscar passado ou de trabalhar.

Abrir gavetas.

Sim.

E ver lá o que lá está.

Exatamente. É uma terapia momentânea, de uma situação, do momento que precisa de ser trabalhada, estruturada e ajudada. E por isso é uma terapia muito diferente da terapia que tinha feito anteriormente, que era mais de autodescoberta, autoconhecimento, de querer resolver coisas antigas Em nós, ou seja, minhas. E aí sim, há um andar para trás e há um relacionar de algumas coisas. Aqui foi uma terapia muito-

Focada, não é?

Focada, sim.

O que essas consultas lhe deram, lhe foram dando ao longo do tempo? Apaziguavam-na em dias mais difíceis, davam-lhe ferramentas para enfrentar outros. O que sente que conseguiu ter com essas consultas?

Senti que era um momento em que eu podia baixar a guarda, não no sentido em que não me permitia chorar fora da terapia, mas no sentido em que, ainda hoje brincamos com isso, que quando eu me sento, respiro fundo antes de começar a terapia. É quase como se entrasse num espaço em que podia dizer tudo o que me apetecia. Isto é quase o básico da terapia, mas tendo em conta o que estava a viver, era-me permitido pôr todas as questões e baixar a guarda, de alguma forma.

Às vezes a ideia de o fato de termos um estranho à nossa frente, alguém que não é o amigo que está ali a dizer que está ali para nós, é inibidor, no sentido de por que eu vou contar coisas íntimas e minhas a uma pessoa que eu não conheço? Por que eu vou falar da pessoa que eu perdi? Quase parece desrespeitar a memória dessa pessoa estar aqui a falar disso. Para si funcionou ao contrário, o fato de ser alguém que está ali, que não a vai julgar por nada que pense, que sinta, que diga e que está só disponível para ajudar a fazer um caminho. Foi isso que lhe deu essa capacidade de sentar e esvaziar o balão, por assim dizer.

Essa consciência é muito real nesse sentido. Acho que era muito o saber que ali era um espaço de ajuda. E se é um espaço de ajuda, eu tenho que estar disposta a ser ajudada e isso funcionará de forma diferente de pessoa para pessoa. Ou seja, não no sentido de pensar: "Aqui posso contar tudo." Não sinto que isso seja mais fácil ou não, porque se calhar, até contava as mesmas coisas a pessoas amigas. Mas é nesse sentido que, se calhar, vou buscar aqui a terapia um bocadinho como uma ajuda médica. O médico, se calhar, não estou a usar o termo certo, mas podemos contar o mesmo a um terapeuta que contamos a um amigo e a ajuda é diferente. A pessoa a quem contamos a um terapeuta tem uma racionalidade sobre, supostamente, uma experiência e sobre o que lhe estamos a dizer para podermos bater bolas de uma forma diferente. E senti que ia buscar, de alguma forma, energia, força, para me aguentar até à próxima semana, ou seja, para me aguentar até me sentar e respirar fundo outra vez.

Essas consultas eram semanais?

Semanais.

E mantém-nas ainda ou a dada altura conseguiu começar-

Há muito pouco tempo passaram a ser quinzenais. Mas mantive durante este tempo todo, semanalmente. No início foram mais juntas, ou seja, sempre que eu sentia necessidade.

E conseguia ter essa percepção de "eu preciso de falar, eu preciso ter uma consulta."

Por acaso essas consultas extra, digamos assim, essa pessoa que me deu este contacto e que, no fundo, arranjou esta terapeuta, quando percebia, acho que foi quando eu procurava a pessoa amiga em desespero, passava-me-

Imediatamente para.

Sim, no sentido de, se calar, perceber que agora é o momento em que outro tipo de ajuda é necessária.

A Ana dizia que o fato de ter tido essa ajuda tão cedo e logo naquele dia ter tido uma primeira conversa, provavelmente foi isso que evitou que depois precisasse de ser medicada, de seguir um outro caminho. Isso para si era uma coisa que lhe faria impressão ou alguma confusão se tivesse que seguir esse caminho? Ou foi só uma coisa que aconteceu, não precisou e pronto?

Sim, de certa forma, diria que foi só uma coisa que aconteceu e não precisei. Por outro lado, tendo em conta tudo o que aconteceu, não era o tipo de medicação que eu quisesse tomar. Não que isso seja uma opção nossa. Mas estou a ser sincera dizendo isso, que na altura não era.

E se precisasse, ia ser desconfortável naquela altura para si essa ideia?

Se precisasse, ia ser desconfortável.

Mas na terapia alguma vez essa questão se colocou?

Colocou-se uns meses depois, quando tive um ataque de pânico grande a conduzir e durante três ou quatro, ou cinco dias, fiz uma medicação natural muito leve, só para me ajudar a tentar controlar essa ansiedade que estava a despoletar esses ataques de pânico, porque depois, a seguir a esse primeiro, tive durante Um período de tempo relativamente curto, se calhar durante um mês, tive vários episódios de ataques de pânico e aí sim, tive que tomar uma medicação.

Para quem nunca teve um ataque de pânico, como é que o descreveria?

Estava a conduzir e comecei a sentir o corpo estranho, ou seja, começou pelas pernas, as mãos. Senti que podia estar a ter um AVC. Eu tive uma paralisia facial há uns anos e esse lado da cara nunca recuperou 100%, então comecei a sentir esse lado mais estranho.

Achou que era uma coisa física, portanto?

Completamente. E telefonei para uma pessoa amiga que me foi ajudando e que me disse: "Tens que parar o carro", e eu: "Estou na autoestrada, não consigo, eu vou desmaiar ao volante." Parei o carro de uma forma segura e essa pessoa amiga telefonou outra pessoa amiga para que alguém pudesse chegar ao pé de mim o mais rápido possível. E a sensação que eu tinha, quando depois já tinha pessoas ao pé de mim e que me diziam para eu sair do carro, era que se me mexesse, o meu corpo ia colapsar e eu ia morrer ou ia desmaiar, mas que se eu me mexesse, ia colapsar. Por acaso estava a caminho da terapia, e então ligaram à minha terapeuta e fizemos como se fosse uma consulta, mas estivemos ao telefone e ela também me ajudou.

E a terapeuta percebeu de imediato que talvez não fosse uma coisa física, foi ela que percebeu isso?

Sim, de certa forma, percebeu ou lidou como sendo um ataque de pânico e sendo uma questão emocional.

Quando se passa por um ataque de pânico e depois se tem outro a seguir, consegue-se ter racionalidade suficiente para pensar ainda assim: "Isto é um ataque de pânico", para se reagir de forma diferente em relação ao primeiro, ou é uma experiência tão violenta que às vezes nem dá para racionalizar?

Melhora no sentido que já nos disseram que aqueles sintomas são consequência de um ataque de pânico. Mas mesmo assim, é difícil controlar nos ataques de pânico seguintes. Houve, não consigo dizer o número, mas se calhar três ou quatro ataques de pânico que tive que pedir ajuda novamente, que alguém teve que vir para o pé de mim. Tive que pedir ajuda de uma forma mais real, porque por mais que eu tentasse racionalizar, os sintomas físicos são tão fortes que, sem querer, pomos em causa se é um ataque de pânico. E por mais que nos digam: "Ninguém morre de um ataque de pânico," nós sentimos que o nosso corpo vai colapsar.

Não dá para pôr essa sensação física de lado, entretanto.

Sim.

A Ana estava a falar dos amigos a quem ligou, e depois o amigo ligou a outro amigo, e depois conseguiram falar. Percebe-se que há uma rede de pessoas à volta. Neste processo, essa rede tem também um papel, teve para si um papel? E houve algum momento em que teve que afastar um bocadinho essa rede porque precisou de viver algumas coisas sozinha ou sempre funcionou interligada com essa rede?

Acho que funcionei muito interligada. Sei que o que eu senti na perda do Pedro, quase consigo dizer isto assim: a maior dor foi a solidão, o sentir-me completamente sozinha. Sozinha, sem estar sozinha. Ou seja, esse embate de: "E agora estou só eu, perdi tudo." A sensação é que perdi tudo. E talvez daí esta rede de pessoas que já era íntima, mas que-

Se aproximou e se fortaleceu.

Diria que foi essencial nesta minha caminhada.

Normalmente as pessoas que não passaram por uma experiência de perda tendem a olhar para estes momentos e pensar: "Não está nada sozinha. Vida toda à frente, família, os filhos. Não está nada sozinha." A Ana sabia disso, racionalmente conseguia identificar isso, mas há, de facto, ali um momento em que era só a Ana e que era difícil olhar para a frente, para o futuro e ver alguma coisa?

Era. E às vezes, o dizerem-nos isso, vou exagerar, mas é quase como se fosse ofensivo, porque o que nos dizem não deixa de ser verdade, mas aquilo que sentimos é tão distante disso que é quase: "Não estão a perceber o que eu estou a sentir." Por isso é quase violento dizerem-nos isso, ou dizerem: "Mas tens os teus filhos, e a vida, e és tão nova e tudo."

As pessoas dizem muito isso. Às vezes os amigos dizem Mais por que normalmente as coisas que se dizem?

Claro, e porque imagino. Imagino, porque sei também por experiência própria, estando eu no papel em que teria eu que dizer as coisas certas à outra pessoa, e se calhar tendo eu passado por uma perda semelhante, percebo que também não sei dizer as coisas certas e que acabo por dizer aquilo que era como o tempo, dizerem-me: "O tempo ajuda." Era o pior que me podiam dizer. E é o que eu, se calhar, digo a alguém que possa estar a passar pelo mesmo, mas mais recente, e dizer: "O tempo ajuda." E depois penso: "Como é que tu me estás a dizer isso?" Quando era o que mais me irritava.

Mas é porque percebeu que ajuda de alguma forma, de facto.

Percebi que ajuda de alguma forma.

Mas não resolve?

Não resolve. Ajuda, porque com o tempo ganhamos mais serenidade, fortalecemo-nos. E porque realmente somos obrigados a reagir e a encontrar caminhos, e por isso precisamos de tempo para isto acontecer. E de facto, o tempo ajuda. Mas eu acho, andando para trás, a dor é tão grande que parece impossível que com o tempo a dor vá diminuindo ou que a pessoa se vá sentir mais serena. Parece tão distante essa possibilidade, que o tempo se torna tão abstrato.

E houve algum momento em que não quisesse, quase tivesse medo de se sentir melhor, como se isso pudesse ser um desrespeito para a memória do seu marido? Quase como se: "Eu não posso melhorar, porque como é que eu posso estar feliz algum dia? Como é que eu posso estar contente algum dia, se isto vai sempre existir assim na nossa vida?"

Eu acho que de certa forma, essa questão vem mais dos meus filhos, ou seja, quase que aprendi isso com eles. No sentido em que são cinco miúdos em fases completamente diferentes, mas com adolescentes e que precisam estar com os amigos e precisam de rir, e precisam de se divertir, e precisam de sentir que a vida pode continuar e que pode haver alguma normalidade. E tive essa conversa com a minha filha mais velha, que me dizia: "Ó mãe, eu preciso de morrer." E quase que ela perguntar-me a mim se está tudo bem.

Se já podia.

Não faz mal, pois não? E é uma resposta a ela de claro que não. E se eu estou a responder isso a ela, sentindo que nós pais deveremos ser um exemplo, no sentido em que não podemos dizer uma coisa e depois fazer outra diferente. Se é isso que faz sentido para eles, terá que fazer sentido para mim, de alguma forma. Não posso depois dar mau exemplo. Não é nesse sentido. Se calhar, o que eu senti mais foi a injustiça. Não sei bem se injustiça é a palavra certa, mas quase como se eu estou aqui e se o Pedro não está, então eu tenho que aproveitar pelos dois. E o aproveitar é no sentido de reagir, de procurar caminho, de ajudar os nossos filhos. Perceber que todos morremos. Acho que me agarrei muito a esta ideia de que toda uma vida que tiveram com o pai e toda uma vida que eu tive com um marido maravilhoso, não se podia perder por causa de uma morte, quando todos morremos. Ou seja, a morte não se pode sobrepor a toda a vida e às memórias, e a tudo o que tínhamos construído. E acho que isto foi muito claro para mim e diria para todos, para a nossa família.

Neste caminho, as coisas só fazem sentido se forem surgindo de forma natural ou também há momentos em que temos que nos forçar a fazer determinadas coisas? Por exemplo, a soltar uma gargalhada, porque você acabou de dizer à filha mais velha assim: "É permitido, nós podemos estar contentes." Há coisas que se fazem forçando-nos a fazer coisas, é importante fazer isso? Ou para si, tudo foi acontecendo como teve de acontecer?

Eu diria que aí quase parece que estamos a forçar emoções, não é? E isso eu acho que não deve acontecer. Não devemos rir se não temos vontade de rir, devemos chorar se temos vontade de chorar. O que eu sinto que forcei um bocadinho foi que procurei criar rituais, momentos. E isso ajudou-nos a lidar com momentos específicos. Se calhar estou a fugir um bocadinho ao que me perguntou.

Mas eram momentos que criavam, por exemplo, esse espaço de partilha, que foi essencial no início?

Se calhar estou a ir buscar isto dos rituais no sentido em que é uma coisa forçada. Estamos a criar para este momento um ritual, uma coisa forçada. Ou seja, não estando a forçar emoções, estamos a forçar-

Um espaço para.

Sim. Mas senti que foi importante e são coisas que continuo a fazer.

Em que momento é que começou a ver em si sinais de recuperação? Consegue identificar isso? De sentir que já não estava naquele primeiro dia, já não estava naqueles primeiros dias e que já estava a conseguir reagir. Dizia há pouco que às vezes é preciso reagir. E, portanto, quando é que começou a perceber que estava a começar a caminhar outra vez?

Se calhar agora que já fez mais de um ano, em que passamos por todos os momentos uma segunda vez. E perceber que há uma maior serenidade nesses momentos. Acho que aí é quando se começa a perceber que estamos mais-

É o primeiro teste?

Sim, de alguma forma.

As datas são mais difíceis ou também há dias que não são nenhuma data específica e que, de repente, desabamos. Também há esses dias?

Claro, são muito mais esses dias, no sentido que as datas acontecem especificamente. São muito mais esses dias. O que eu acho que as datas trazem é um forçar de viver esse momento.

Não há como escapar.

Exatamente. E, se calhar, foi um bocadinho por isso que eu trouxe para as datas esses rituais, ou inventar. Eu estou-me a rir porque os meus filhos gozam um bocadinho comigo. "Lá está a mãe! Lá estás tu." Por exemplo, no aniversário do Pedro, que foi agora, uma coisa de lançarmos balões e não sei o quê. Tem uma razão de ser, mas às vezes brincam um bocadinho comigo, dizem: "Não, mãe, lá estás tu a inventar coisas." Mas a verdade é que, se calhar, para mim, depois, faz sentido e acredito que se nós, adultos, conseguimos passar algum sentido e alguma serenidade, eles vão se alimentando disso também.

Às vezes há a ideia que estes processos têm ali uma fase muito negra, mas depois as pessoas começam a recuperar e tudo em carreira, e que não há percalços pelo caminho, que não há quedas pelo caminho. É assim ou isto não é um processo linear em que se está mal e depois se melhora? É um processo, antes, que tem umas quedas, a pessoa levanta-se e tem outra queda.

Eu acho que diria que uma das coisas que interiorizei foi que há um processo para o resto da vida. Não há um momento em que acaba, não há um momento em que se cura, não há um momento em que terminou e passamos a estar bem. Não é uma doença que temos e que curamos. É uma ferida emocional, é um trauma que nos vai acompanhar para o resto da vida. Por isso, sinto isso. Sinto que há momentos que estou melhor, no sentido que depois parece que volta atrás um bocadinho e depois voltamos para a frente. É aprender a viver com uma dor.

Essas quedas, esse regredir, andar uns degraus para trás, tornam-se mais fáceis de superar? Ou seja, quando sentiu que andou uns degraus para trás a primeira vez, foi mais difícil do que quando voltou a acontecer para si? Vai-se aprendendo também a voltar a pegar nas coisas e seguir.

Acho que aprendi a perceber, para mim, que a dor vem como uma onda gigante, e a onda vai e depois volta a ir.

Vai recuar.

E sinto que vou aprendendo a sobreviver nessa onda quando ela vem. E se calhar a ter consciência que depois ela vai, e não sabemos bem quando é que ela volta e com que dimensão. Por isso é que eu digo que interiorizei que é um processo que me vai acompanhar sempre.

A dor da Ana, a perda da Ana e dos seus filhos e também dos amigos do Pedro, foi muito pública, porque a perda foi também uma perda pública. De que forma é que o facto da sua dor ser acompanhada do choque de um país inteiro perante a notícia, como é que isso impactou este seu processo? Houve momentos em que ajudou sentir o carinho que as pessoas tinham pelo seu marido? Houve também momentos em que desejou que não tivesse que viver isto quase que em público?

Eu confesso que eu sentia muito que o Pedro é que era uma figura pública. Por isso eu me senti muito resguardada na minha dor. A parte pública que eu senti foi mais desse carinho.

Conseguiu tirar o melhor.

Sim, sinto que sim. Senti muito amor de pessoas que não conhecia, e isso fortalece-nos.

Haverá um momento em que é preciso retomar também as escolas, o trabalho, tudo isso. Como é que isso funcionou para si? Voltar ao trabalho foi uma ajuda, foi um escape, foi às vezes demasiado difícil? O que significou para si? Porque é diferente para as várias pessoas. Às vezes as pessoas usam como escape e depois não corre bem. Como é que foi para si?

Acho que foi um intermédio. Ou seja, não deixei de sentir que tenho um ateliê a funcionar e que tenho pessoas a trabalhar comigo, das quais eu tenho responsabilidade e que seguraram, digamos assim, o ateliê quando eu não fui capaz de ir, e nos primeiros tempos não fui capaz de ir de todo, e fui regressando aos poucos. Mas fui muito amparada pela minha equipa e isso ajudou-me muito neste processo, ou seja, de sentir que o meu trabalho, de repente, era essencial, porque agora estava sozinha, mas que havia alturas em que eu não o conseguia fazer. Não tinha concentração, não tinha capacidade de estar no ateliê e por isso quando conseguia estava, quando não conseguia, não estava.

Diz-se que no luto e na perda, quem fica passa por várias fases. E que tem de passar por todas as fases para conseguir recuperar. Quando esse luto nasce de um suicídio, também se diz, é muito estereotipado, que há sempre um momento em que a pessoa sente raiva ou revolta em relação à pessoa que partiu. Passou por estas fases ou para si foi diferente?

Eu não consigo reconhecer no meu luto fases, posso vir a ter, mas ainda não tive essa fase da zanga e da raiva para com a pessoa.

Nunca se zangou com o que aconteceu?

Sinto que não. Sinto que racionalizei muito o que aconteceu. Sinto que foi claro, de certa forma, o que aconteceu em termos de saúde mental, em termos médicos. Por isso não houve espaço para eu me zangar. Sinto que não houve esse espaço.

Mas a maneira como tudo aconteceu tornou de alguma forma o seu processo mais duro, ou sente que se o Pedro tivesse partido de outra forma qualquer, seria semelhante para si? Consegue fazer essa análise?

Consigo comparar no sentido do acidente, de certa forma inesperado. Eu quando digo de certa forma, eu tinha consciência que o Pedro estava a passar por uma depressão. Ele próprio tinha essa consciência.

Isso era claro para si, que vivia com uma pessoa que tinha uma doença.

Que estava com uma doença, com uma depressão. Ele próprio tinha essa consciência, estava a ser acompanhado de todas as formas supostamente possíveis para uma pessoa que está com uma depressão. Ou seja, dei por mim, se calar, a fazer um exercício contrário, que era: será que eu preferia que o Pedro tivesse tido um cancro? Uma coisa que dá para nos despedirmos e que há todo um processo. E ao lado meu, eu não me queria ter despedido dele. Ou seja, quase como ir buscar uma situação que pudesse ser pior do que uma coisa que acontece por acidente, por assim dizer.

E chegou a essa conclusão, conseguiu tirar isso do caminho? Ainda bem que eu não me despedi. Eu preferia não me ter despedido. Seria pior, seria mais duro de outra forma.

Consegui pensar que teria sido mais duro de outra forma. Se calhar de uma forma egoísta para mim. Porque o Pedro não deixava de estar doente, por isso para ele houve o processo interior da doença. Eu confesso que não existiu, se calhar, uma consciência da gravidade da depressão em que ele estaria.

Só para si ou acha que também para ele?

Eu diria que também para ele. E diria pelo que se passou, pela forma do processo Por notas que ele tinha da terapia que estava a fazer. Ou seja, não era uma coisa que parecesse que ia acontecer. E isto não descurando o fato dele poder ter ou verbalizado, mas se calar pelo fato de estar supostamente a fazer tudo bem para se tratar em termos de consciência de doença. Mas eu diria que a depressão dele era muito, eu não sei se posso dizer atípica, em termos de sintomas, porque é muito ingrato, porque depois de acontecer conseguimos ou olhamos para trás e fazemos este exercício de: "Se calar isto, devíamos ter dado mais atenção, ou se calar isto já era um sintoma."

Deu por si a fazer isso, reviver momentos e a tentar perceber onde é que alguma coisa podia ter sido diferente? Ou essa é uma tentação normal, mas a que tentou resistir?

É uma tentação, mas, na verdade, sinto que não houve muita coisa que pudesse ter sido feita de forma diferente. Se calar, estou aqui hesitante, porque há questões e são sempre casos particulares.

Sim, claro.

E em relação a tratamentos ou a opções que podem não ter sido as melhores.

Sim, a minha pergunta não é tanto na identificação específica.

Não, claro.

Porque normalmente, até nos casos em que é uma morte por alguma doença mais previsível, como a de Pedro que falámos há pouco, às vezes quem fica não consegue evitar olhar para trás e pensar: "Se calar devíamos ter feito isto ou se devíamos ter feito aquilo", independentemente do que for.

Não, claro.

Se isso é uma coisa que tentou combater por ser no limite inútil, não é? E só acrescentar ao sofrimento.

Sim.

Ou se foi uma coisa que aceitou que era mais uma fase em que ia ter que colocar essas interrogações.

Não, coloquei algumas, mas tendo em conta tudo o que se passou, não tinha muito por onde pegar, no sentido, se eu quisesse ir por aí para me castigar, porque às vezes há essa vontade de alimentar a dor.

Sentiu essa vontade ou essa foi uma fase por onde não passou?

Não passei muito. Claro que questionei, claro que olhei para trás e claro que pensei que se tivesse feito se calar alguma coisa diferente, podia ter mudado, mas é inútil e é ingrato, de certa forma.

E injusto.

E injusto, sim.

O que é mais difícil quando se vive alguém que lida com problema de saúde mental? Quando se tem ao lado alguém que está a passar por uma depressão, o que é mais difícil? É identificar os sinais? É saber dizer as coisas certas? É não saber bem qual é o nosso papel ali, como é que podemos ser úteis? Há muita gente que vive ao lado de uma pessoa com depressão e que tem esta dificuldade, que é o que eu faço. Para si, isto era difícil ou como era tão atípico e tão pouco visível, pelo menos no estereótipo da depressão, era de às vezes não saber bem se ele estava melhor, se estava pior, em que ponto é que a situação estava?

Sim, para mim aconteceu muito isso, o facto de associarmos, eu diria de uma forma estereotipada, mas é a minha experiência pessoal, de que associamos a depressão a uma tristeza profunda, a uma pessoa sem energia. Ou seja, há uma série de supostos sintomas que se a pessoa não os tem, é porque não está assim tão deprimida. É porque a depressão não é assim tão profunda ou tão grave. E na situação que vivi com o Pedro, punha-se muito isso. Ou seja, os sintomas não eram assim tão visíveis, diríamos assim.

Ele era funcional e, portanto, não era aquela imagem que nós temos de não sai da cama, não sai de casa, não trabalha, não come, não faz nada. Isso nunca existiu para si?

Não.

E para si era essa a dificuldade, que não correspondia ao estereótipo e, portanto, podia criar a ilusão de que não era assim tão grave?

Na verdade, o que me fazia estar atenta a ele era o que ele me transmitia que sentia. Ou seja, era o que o Pedro verbalizava. Não tanto o sintoma visível, era o que ele dizia que estava a sentir. Por isso partia muito mais dele falar e explicar o que estava a acontecer e o que ele estava a sentir.

E era difícil lidar com essas informações que ele ia passando? Era difícil saber o que fazer para ajudar ou sempre conseguiu ir navegando isso ao lado dele?

Senti que sim. Senti que percebemos que havia um problema e era preciso ajuda, e ele próprio, ativamente, procurou essa ajuda. Depois, se calhar, era preciso uma ajuda ainda mais intensa, digamos assim, e ele próprio procurou essa ajuda. Ou seja, é quase como uma pessoa que tem um cancro e que está a ser acompanhada. E o que nós, deste lado, podemos fazer é ir acompanhando emocionalmente, apoiando, conversando. Não acompanhamos em termos médicos.

Claro.

E o que eu sinto é que aqui é a mesma coisa. A depressão é uma doença física e estando a ser acompanhado, supostamente, não é? Supostamente não, da forma certa, correta. Deste lado, o apoio que damos é emocional.

Isso aprendeu com este desfecho, que a depressão não é só um problema emocional, que vai ter eventualmente consequências emocionais, mas que é um problema físico e é uma doença física e tem de ser abordada assim.

A minha opinião. Acho que tem que ser muito mais abordada como um problema de saúde física, no sentido que tem a componente emocional. Eu nem sei bem como é que hei de dizer, mas diria que é claro para mim, pela experiência que eu vivi, que é uma questão de saúde física, uma questão genética também, uma questão de estrutura emocional para lidar com as adversidades da vida. Mas que a saúde mental é saúde física, não é saúde emocional, é físico.

Dizia a questão genética por uma espécie de predisposição?

Sim. Até consigo pensar que se olhássemos para a vida do Pedro, ele não deveria ser aquilo que achamos, que era uma pessoa que estaria sujeita a uma depressão.

Não encaixava nesse perfil.

Não encaixava nesse perfil. E se calhar, olharmos para mim, tendo em conta o trauma e a perda gigante, a forma como foi todo este cenário, teria todas as condições para iniciar uma depressão ou ter uma depressão. E acho que há qualquer coisa genética que faz com que isso não aconteça.

Sente que à sua volta havia essa preocupação, que é como se calhar aquilo que aconteceu ia acabar por levá-la a si pelo mesmo caminho, no sentido de: "Quer dizer, perante isto, claro que não é possível."

O que eu sentia é que as pessoas quase que validavam. "Ana, se quiseres ficar numa cama a chorar durante um mês, há quem trate dos miúdos, há quem faça as coisas. Podes!" Mas mais do que não querer, acho que tive consciência. Por mais que até houvesse alturas em que eu tinha essa vontade, eu tinha vontade de ficar, mas é como se o meu corpo não me deixasse. O meu cérebro não funcionava assim. Se calhar podia adormecer a pensar: "Amanhã vou ficar o dia todo a chorar. Não quero, eu não quero lidar, não quero ser funcional, não quero levar os miúdos à escola." E quando acordava de manhã, levantava-me e o meu corpo reagia assim: "Vamos, acorda os miúdos, eles têm que ir pra escola."

Nem sequer tinha de se convencer.

Não.

O dia começava e seguia.

Sim. Se calhar, teorizando para mim própria e também para me ajudar a lidar com o que aconteceu, para mim tornou-se claro de que a depressão não é uma escolha, de todo. E por mais que haja todas as razões para podermos deprimir, há uma componente física que nos permite ou nos torna mais frágeis, ou não, mais suscetíveis a, ou não.

Também porque tudo isto lhe ensinou que às vezes os estereótipos estão todos errados, que às vezes uma pessoa com uma família, com bom enquadramento, com sucesso profissional, um homem bonito, pode estar num mundo completamente negro e não ver nada daquilo que tem à volta. Esse estereótipo que às vezes se tem.

Sim.

E que eu acho que se diz um bocadinho, não é? "Então, mas agora estás assim? Os teus filhos são ótimos, tens uma família ótima, a tua mulher é incrível." Provavelmente o Pedro ouviu dizer isto muitas vezes. Alguma vez ele falou se havia-

Ele próprio disse, certamente a muitas pessoas, que ele às vezes tinha um bocadinho esse discurso de: "Eu não tenho tempo." Se tivermos sempre a-

Ele tinha essa perspectiva?

Tinha.

Ou dizia isso?

Acho que no caso dele, havia questões complexas, interiores E que o estar sempre em movimento, sempre ativo, o ajudavam a não ter que lidar com essas questões. E o momento também em que aconteceu da pandemia e nos pararmos todos. Todos ficamos parados conosco e a viver uma situação complexa.

Acha que essa pausa impediu que ele fugisse de lidar com algumas coisas?

Acho que não ajudou.

Teve impacto.

Sim. Mas até nisso, ele de repente estava muito paranoico, com comportamentos paranoicos em relação à pandemia, mas de repente havia muitas pessoas com comportamentos paranoicos.

Era o que eu ia dizer, não era o único, seguramente.

Mas criou-se a tempestade perfeita para uma pessoa com essa fragilidade acabar por falecer dessa doença.

Nos dias de hoje, o que para si mudou, fruto deste seu processo de luto? O que mudou em si ao longo deste processo? Identifica alguma coisa que tenha mudado na pessoa que é?

Sinto que perdi medos. Medos de viver. Perceber verdadeiramente que tudo muda de um dia para o outro. Ou tudo pode mudar de um dia para o outro.

Não é só uma frase feita, não é?

Sim. Se calar, o que aconteceu podia me trazer medo da morte, e sinto que perdi o medo de viver.

E continua a sentir aquilo que me falava há pouco de: "Ele já não está aqui, eu tenho que fazer, eu não posso desperdiçar. Eu e os meus não podemos desperdiçar."

Sim, um pouco. Quando digo medo de viver é nesse sentido. É de me libertar, de alguma forma. Não sei como é que posso transmitir esta ideia do medo de viver, mas de aproveitar a vida, de aproveitar os meus filhos, de me libertar de inseguranças, ao nível de trabalho. Relativizei tanta coisa. Percebi que tanta coisa tem tão pouca importância. Ou apercebi ainda mais isso.

Há pouco dizia-nos que muito recentemente as consultas deixaram de ser semanais.

Sim.

Em que ponto é que sente que está a sua recuperação? Sente que ganhou alguma autonomia para gerir os momentos, as suas quedas? É isso que para si significa começar a espaçar mais a terapia?

Sim, é mesmo muito recente. Mas o que sinto é que precisava de espaçar para perceber se não ia às quartas, que é quando faço terapia, não podia ser só ali o meu balão de oxigênio. Ou perceber se estava demasiado dependente desse balão de oxigênio. O espaçar foi um pouco nesse sentido, ou seja, o ir de 15 em 15 dias, perceber. Porque no início acontecia muito isso, que eu carregava de oxigênio nas sessões de terapia e depois ia perdendo e quando chegava a próxima consulta, já estava ali.

Às vezes já em esforço.

Sim. E o espaçar é um pouco: "Deixa ver se já me aguento 15 dias."

E dá medo quando se toma essa decisão, quando a terapeuta lhe disse: "Olhe, eu acho que agora não venha para a semana, venha daqui a 15 dias." Teve medo?

Fui eu que propus. No sentido, pelo menos ali, a ideia era quando eu me sentisse preparada. O que senti é que precisava também de uma pausa maior, de falar sobre o que me traumatizou e o que me traumatiza e o esforço emocional. Ou seja, é um misto de sensações. Deixa ver se me aguento, porque também preciso de respirar. Tenho que ver se me aguento.

Às vezes é cansativo estar sempre a lidar com isto. A terapia ajuda-nos a lidar com a questão e às vezes só precisamos de parar um bocadinho e não lidar.

E não lidar. Talvez nesse sentido, de espaçar um bocadinho o momento, porque o momento da terapia é como se fosse o momento mais duro. E então também espaçar um pouco, é um misto de preocupação, ver se consigo, e um alívio por espaçar.

Às vezes a terapia é tão dura que as pessoas desistem. Nunca teve esses momentos?

Confesso que não. Sempre senti que carregava um bocadinho as baterias.

Os benefícios eram sempre maiores do que a dureza.

Sim. Por mais que saísse de rastos da terapia.

Porque às vezes isso acontece. Às vezes as pessoas também têm a ilusão de que vão a uma sessão Que saem sempre bem. "Ainda bem que cá vim." Não é assim.

Não, porque mesmo quando saía de rastos sentia que tinha largado coisas. Ou seja, o carregar as baterias não é no sentido de ir-

Ótima.

Sim. É largar peso. E sentia que acontecia, sempre.

Já disse que acha que isto é um processo para a vida inteira e que não é uma condição em que se coloque sequer a questão da cura. Já teve algum momento em que pensou: "Eu estou bem."?

Tivemos um momento há muito pouco tempo, esta semana, em que estávamos eu e os miúdos à mesa a falar, porque dois deles iam viajar, e estávamos a falar de viagens e estávamos a falar da viagem que marcámos no verão e começámos a falar de muitas viagens que queríamos fazer juntos. E senti, é óbvio, comover, não sei por quê, que perdemos o medo de sonhar e de querer coisas e momentos felizes para nós. E isso é sentirmos um bocadinho que estamos bem. O fato de nos permitirmos querer coisas boas, criar memórias futuras, pensarmos em momentos felizes. Eu digo isto, e se calhar, por isso é que me emociono, porque durante muito tempo, por mais que falássemos de planos futuros, de coisas boas, a seguir ficava o peso de o pai não estar e de sermos só nós e termos que fazer isso sem o pai. E este momento recente, senti que o pudemos planear e falar com alegria, porque pensar em viagens é uma coisa boa, sem medo e sem esse momento triste tão marcante.

Isso significa que quando olha para a frente, para o futuro, já vê coisas felizes, ao contrário daquele início em que parece que tudo desapareceu?

Acho que já consigo ver coisas felizes de alguma forma.

E sente que já recuperou a sua identidade, que se perde um bocadinho quando se perde alguém? Ficamos sem saber bem quem é que nós somos. Sente que está a conseguir recuperar também isso?

Aí sinto que estou no início.

É um processo dentro do processo?

Sim. Não deixo de sentir, quase como se houve uma Ana que morreu quando o Pedro morreu, e eu estou a nascer de novo. E por isso ainda sou uma bebê.

Passos pequeninos.

Passos pequeninos.

Mas firmes?

Sim, sinto que sim. Sinto que a estrutura que tenho com os meus filhos me fazem querer dar passos firmes. E isso é uma boa sensação.

Muito obrigada.

Obrigada eu.