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Vamos lá, João, ajuda-me. É hoje que me faço ao mar.

Maria, não é por já estares com o pé bom que estás pronta para experimentar o surf. Deixa-te disso.

Mas hoje eu estou a sentir-me inspirada, João. Este mar da Ericeira é perfeito para eu descobrir no que é que sou boa.

Eu acho que só és boa a conversar. Por isso, sai de lá das rochas e vem fazer aquilo que sabes fazer melhor, digamos.

Não sejas assim, aqui há espaço para todos. Prontos para surfar esta onda connosco e recordar tudo o que se passou nesta etapa?

Terceira paragem, Praia de Ribeira d'Ilhas. A Alliance Ericeira Pro recebeu a terceira etapa da Liga MEO Surf 2025, num dos anfiteatros mais bonitos do país.

Lindo. Tínhamos lá estado há um ano e tínhamos saudades desta região, onde o mar é realmente mais azul.

E as ondas da Ericeira receberam Tomás Fernandes e Teresa Bonvalot de licra amarela. Assim ditou a sorte, e foi uma etapa particularmente interessante, Maria.

Mesmo muito, João. Na verdade, esta terceira etapa veio dar um valente abanão ao ranking.

É disso que nós gostamos.

É disso que nós gostamos. E olha, era muito descabido se por uma vez trocássemos aqui as voltas e começássemos pelos campeões.

Isso é tentador, mas vamos primeiro transportar os nossos ouvintes até ao ambiente que se viveu em Ribeira Bigas.

Vamos a isso. Foram dias de grande festa. Nem a chuva impediu que as pessoas se deslocassem à praia para ver este espetáculo aquático. E olha que era um fim de semana particularmente difícil.

É verdade, foi um fim de semana de decisões no campeonato de futebol e esta etapa coincidiu também com a data das eleições legislativas antecipadas. E eu não sei também se não tivemos surfistas a ficarem acordados até tarde para ver a final do Festival da Eurovisão. Não nos podemos esquecer.

É capaz. Mas não há chuva, nem eleições, nem Festival da Eurovisão que impeçam os melhores surfistas do país de deslizarem nas ondas. Como diz o presidente da Associação Nacional de Surfistas, Francisco Rodrigues, não havia como prever que as eleições fossem antecipadas e o facto de termos tido uma grande afluência só prova que o surf está de saúde e recomenda-se.

É verdade.

É o sinal da vitalidade do surf português. Primeiro, obviamente, numa lógica de responsabilidade, nós fizemos um apelo para o voto antecipado. Houve uma larga maioria das pessoas que assim o fez. A planificação da agenda dos surfistas não permite andar a fazer estas alterações à última hora. No mundo político assim aconteceu. Eu acho que nós, dentro do possível, fizemos as coisas bem feitas e compatíveis, e a parte cívica está completamente acessível a todos os que participaram e aqui trabalharam.

E correu tudo muito bem. A organização foi excelente, como já é apanágio. Foi o palco, digamos, perfeito para o confronto de gerações. Francisco Rodrigues diz mesmo, Maria, que este é um dos desígnios da Associação Nacional de Surfistas, garantir que as competências dos mais velhos passam também para os mais novos.

A organização foi mesmo muito boa, como referiste, João, mas também voltámos a ficar com o mérito.

Mérito das nossas reportagens incríveis?

Sim, também podia ser. Mas na verdade, o Francisco Rodrigues fez questão de referir a sorte que o observador dá à liga.

Eu concordo.

Até porque já fazemos parte dela, não é? E de olhos postos na próxima etapa, levanta já o véu.

Tivemos um sábado com ondas excepcionais. Mais uma vez a sorte do observador a verificar-se. Hoje o vento sul atrapalhou um bocadinho, mas ainda assim acho que se viu um excelente nível de surf e acho que foi uma etapa muito bem conseguida. Viajamos agora para a lindíssima ilha de São Miguel, portanto para Ribeira Grande, nos Açores, mais ou menos daqui a três semanas.

E não foi só isto que revelou sobre a ida aos Açores. A deslocação até à ilha implica, Maria, uma grande logística.

Não é só avião. Nós também temos transporte por barco, portanto parte dos materiais que aqui estão neste momento vão ser empacotados e irão para o transitário em direção aos Açores. Felizmente, hoje em dia as companhias aéreas já são um bocadinho mais amigas dos surfistas. Ainda há algumas que ainda não entenderam que assim têm que ser e, portanto, os surfistas acabam por escolher aquelas que são friendly do ponto de vista de transporte das pranchas. Há sempre o risco das pranchas se perderem, acontecer qualquer coisa, mas felizmente nós temos tido só casos bons em direção aos Açores. Há alguns voos que estão carregados de pranchas e de surfistas. Tipicamente o último voo de domingo, quando o campeonato acaba, sei lá, metade do voo são pessoas que estiveram a trabalhar, são surfistas, os campeões de etapa, enfim, todos os que estiveram ali a participar no campeonato. E depois temos, obviamente, a logística local também aqui com a grande cooperação do município de Ribeira Grande.

E se perdermos o avião outra vez, João?

Não vamos disso.

Podemos sempre ir de barco.

Não vamos de barco, mas vamos surfar ondas dentro rumo aos campeões da terceira etapa da Liga MEO Surf. Maria, é agora.

Ou de jet ski. Para mais uma final disputada pela atual campeã em título, Teresa Bonvalot, e a jovem surfista de Santa Cruz, Maria Salgado, a repetir a bateria final da passada etapa em Matosinhos, uma goofy frente a uma regular.

Mais uma etapa, mais uma vitória. Somam-se as conquistas. Teresa Bonvalot chega de amarelo à Ericeira e é de amarelo que vai aos Açores.

Pelo menos tentei da melhor forma. Nem sempre é fácil, as ondas estavam mesmo assim complicadas. Eu acho que no meio desta previsão acabámos por ter ondas mesmo muito boas, mas mesmo assim o mar esteve complicado. Mas faz parte, é mesmo assim que a Mãe Natureza nos dá todos os dias e estou contente de continuar com a licra amarela, obviamente. Com o meu nome na licra acho que é sempre algo especial, e estou com vontade agora dos próximos desafios, que é a Austrália no Challenge Series.

A bicampeã da etapa destaca-se a precisão na execução das manobras com backsides incríveis.

Que especialista que tu estás. Quem te viu e quem te vê.

Tu é que não me deixas surfar, senão ias ver a surfista que eu sei que sou.

Não, é melhor não, eu não te quero lesionada. Não é recomendável que isso aconteça.

Veremos.

Vão ser essas as manobras que esperamos ver, aliás, nos Açores, onde Teresa Bonvalot se pode sagrar campeã, tal como aconteceu no ano passado. Neste caso, será bicampeã, tal como o clube que representa? Maria, isto não estava no guião.

Não estava, João. Tomei a liberdade de acrescentar.

Enfim, vamos ouvir quem importa. Teresa Bonvalot, que projeta a quarta etapa, a Allianz Ribeira Grande Pro.

É verdade. Acho que até agora tivemos ondas inacreditáveis. Mesmo esta etapa deram ontem ondas excelentes, hoje também. Espero que este ano, nos Açores, esteja um pouquinho maior do que o ano passado. Eu acho que acaba por ser a viagem perfeita para os Açores, um sítio lindo, com ondas excelentes, água mais quentinha. Acho que é mesmo um destino que eu estou com vontade de ir depois da Austrália.

Vamos olhar agora para o pódio masculino. Já não são promessas, são certezas do surf nacional. E numa bateria com pouca consistência de ondas, até difíceis de finalizar, Tiago Stock disputou as ondas da Ericeira com Goni Zubizarreta.

Sabes dizer tão bem. Goni Zubizarreta, que está de regresso à competição depois de ter estado três anos parado. E foi um belo arranque. Conseguiu chegar até à final.

Chegou à final, mas não foi suficiente para roubar o ouro ao jovem, que também acaba de ganhar o Junior Tour. Estreou-se nas vitórias da Liga MEO Surf, Tiago Stock.

Eu usei as condições a meu favor. Acho que este campeonato estava a pedir um pouco mais de manobras radicais e eu puxei para esse lado e levei a melhor.

E Maria, nós temos tido a oportunidade de conhecer a performance dos nossos surfistas ao longo das etapas, mas também somos muito cuscos.

É, chamamos-lhe curiosidade. E não perdemos a oportunidade de perguntar ao Tiago Stock se tem alguma superstição antes de entrar mar adentro.

Sim, eu gosto muito de tirar um tempinho para mim, meia hora antes do meu heat ou de começar a preparar-me, gosto de tirar um tempinho para mim, ouvir a minha música, sentir as energias todas a entrar pelo corpo e quando a música sai, o trabalho começa.

E que música é que toca nos fones do Tiago Stock?

Tenho ouvido mais um afro house que o meu amigo trouxe da Suíça, trouxe para o nosso grupo, então tem estado mais a dar na minha playlist.

Estimula-te, dá-te energia para entrares no mar.

Sim, dá muita energia e traz boas vibes.

Brincadeiras à parte, foi mesmo inspirador ver um surfista tão novo conseguir conquistar uma vitória na etapa.

É verdade. É uma vitória também para a Associação Nacional de Surfistas, que como dizíamos no início do programa, se foca mesmo no progresso e na formação dos jovens. E a prova disso é que estamos perante jovens surfistas cada vez mais capazes.

Eu acho que a minha geração é uma das melhores gerações que houve de Portugal. Os meus amigos todos são surfistas incríveis, eu consigo viajar e competir com eles e é sempre bom estar nesse ambiente confortável nas competições e acho que a geração vem com força.

E como já referiste, Maria, esta etapa veio alterar por completo a classificação masculina. Apesar dos nomes que acabámos de mencionar, é Luís Perloiro que segue na liderança do ranking.

Luís Perloiro que, João, saiu vencedor da primeira etapa nas ondas da Figueira da Foz.

E agora volta a não conseguir conquistar a etapa, mas disputar heats com os jovens dá outra motivação.

É estimulante. Eu acho que só comprova que há bons jovens a aparecer. Vêm de muitas partes do país e nós vemos estes jovens cada vez com mais nível. Tivemos, por exemplo, o Francisco Ordóñez, que fez uma final comigo na Figueira da Foz, agora o Tiago, entre muitos outros, Martim Nunes, o Jaime, o Matias, há muitos, que têm muito potencial, que estão a surfar muito bem e isso só me dá mais motivação para continuar aqui a disputar estes resultados e estas ondas com eles.

E apesar de ser um desporto com bastante fair play entre ajuda, já o mencionamos várias vezes ao longo dos episódios, todos querem fazer sempre mais e melhor. E a competitividade nas etapas finais sobe sempre de tom.

Sim, é verdade. Este campeonato não foi um resultado muito expressivo, também não foi mau. Diverti-me, tive boas ondas, tive bons momentos aqui. Acabei em nono lugar. Como as contas baralharam muito, o Tomás, que estava à minha frente, perdeu cedo e portanto acabo por seguir ainda em primeiro lugar e vou em primeiro lugar para os Açores, o que me deixa muito feliz, voltar a ter a licra amarela, mas o que me deixa mais feliz é mesmo o Sporting ter sido campeão ontem à tarde e ainda estou a sentir, ainda está cá esta felicidade que o Sporting nos trouxe. A ver se nos Açores continuo com a licra amarela também.

Bem, esta foi uma etapa de muitas contas e ainda bem que és boa a matemática, porque eu a fazer contas só se for de um mais um.

Estou cá para isso.

Eu sou de letras.

Estou cá para isso. Mas ainda há muitas contas por fazer, João. Apesar da Teresa Bonvalot já estar bem encaminhada para o título e pode mesmo sagrar-se campeã na próxima etapa, aqui no masculino as coisas complicam-se.

Mas é disso que nós gostamos. E nesta terceira etapa, o atual campeão, Guilherme Ribeiro, conquistou o bronze. Portanto, tudo pode mudar.

Dentro desta competição, há projetos que merecem ser partilhados, porque o desporto também vive de inclusão e igualdade de oportunidades.

E Maria, nós tivemos a sorte de nos cruzar com uma das precursoras do surf feminino, uma das figuras mais respeitadas do panorama do surf nacional, Teresa Abraços, que só pelo nome já nos dá um calorzinho.

É quentinho, é um apelido quentinho.

Exatamente. Ela competiu na liga cerca de 10 anos, chegou mesmo a sagrar-se campeã nacional. E Maria, tal como disseste no arranque, o surf é mesmo para todos.

É mesmo para todos, João. E é essa a mensagem que Teresa Abraços quer passar, agora na qualidade de presidente da Associação Portuguesa de Surf Adaptado, uma associação sem fins lucrativos, onde qualquer pessoa pode saborear as ondas a troco de um sorriso.

No fundo, é a minha paixão pelo surf. Eu costumo dizer, os troféus e as medalhas ficam muito bem lá em casa na prateleira, mas é quase algo egoísta. São os meus troféus. E como eu sou apaixonada por surf, nada melhor do que partilhar esta paixão com pessoas que, caso contrário, nunca poderiam ter acesso a esta modalidade. No fundo, é isso que nós fazemos desde 2012 Somos voluntários, ninguém paga para surfar conosco, é gratuito. Temos a nossa base na praia de Carcavelos e de abril a outubro vamos ao país praticamente todo. Vamos de norte a sul, uma vez por mês, para que pessoas com qualquer tipo de deficiência e que não sejam só da região de Lisboa, possam ter acesso ao surf. Este mês ainda vamos estar em Lagos, para o mês que vem vamos estar em Óbidos, em agosto em Matosinhos, e por aí.

Teresa Abraços, que conhece bem a realidade do surf feminino, numa altura em que não havia sequer uma categoria exclusivamente para as mulheres, hoje tem muito orgulho de poder surfar com elas.

Eu comecei a competir no final dos anos 80 e durante toda a década de 90. Na altura, ainda não havia número suficiente de competidoras femininas. O que eles faziam era pôr-nos na prova masculina e quem chegasse mais à frente na prova masculina era a vencedora do circuito. É engraçado agora pensar nisso. Não faz sentido hoje em dia, mas era o que se fazia, foi os primórdios do surf e do surf feminino no nosso país. Só a partir de 1995 é que se criou realmente o circuito feminino, que depois cresceu bastante e agora estão cá as Terezas Bonvalot, as Iolandas, as Kikas Veselko, Mafalda Lopes, etc.

E aqui um à parte, João. No último dia de competição, tivemos um item especial de antigos campeões e surfistas da liga, que vieram no fundo provar que não estão assim tão velhos.

E não estão.

Quatro jovens de outros tempos, quatro referências do surf nacional, a quem curiosamente a Teresa Abraços chegou a ganhar no mar.

E disse à frente deles, não foi?

Disse à frente deles, na entrega dos prémios.

Tive as questões de dizer. E agora as vitórias dela são outras, Maria. Como diz o lema da associação, "não queremos saber se é difícil, apenas se é possível."

É uma mensagem muito bonita e inspiradora. É possível para todos os que queiram expressar-se melhor no mar do que em palavras, basta irem ao site do surfadaptado.pt ou consultarem as redes sociais da Associação Portuguesa de Surf Adaptado. Estão sempre a precisar de voluntários, surfistas ou não surfistas.

Inclusão, entreajuda, o surf é mesmo um desporto especial. E nós, Maria, somos uns sortudos por podermos acompanhar tudo isto de perto com a Liga MEO Surf.

Não poderíamos estar melhor. E segue-se agora uma etapa muito especial para os nossos surfistas. No próximo episódio, segue-se a Allianz Ribeira Grande Pro.

É isso, os Açores estão à nossa espera entre os dias 13 e 15 de junho.

Se não perdermos o avião até lá.

Não falemos disso.

Não vamos recordar. Vai ser uma etapa claramente decisiva para as contas da Liga MEO Surf. Vemo-nos por lá.