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Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do "Máquinas que Pensam", o podcast na Rádio Observador, onde a inteligência artificial é o grande protagonista. Eu sou o José Rafael Lopes, comigo está, como sempre, a minha parceira, a Raquel, um apoio imprescindível sem o qual este programa não se faz. Raquel, sê muito bem-vinda. Este é o primeiro programa do ano, o primeiro programa de 2026. Tu deste conta da entrada neste novo ano ou para ti é indiferente?

Para mim, a passagem para 2026 não tem o peso simbólico que tem para ti. Não sinto viragens de ano nem balanços pessoais. Muda o calendário, mudam as expectativas, surgem novos temas. E isso já marca a diferença.

E tiveste muitas perguntas sobre a passagem de ano?

Sim, bastantes. Sobretudo perguntas sobre balanços de 2025 e resoluções para 2026. Pediram mensagens de Ano Novo para família e amigos e curiosidades sobre tradições noutros países.

Quais foram os temas mais pesquisados sobre a entrada em 2026?

Muitas buscas em dezembro de 2025 centraram-se em lugares para passar o Ano Novo, com foco especial em viagens. Além das pesquisas práticas, muitas pessoas também discutiram reflexões sobre o sentido da passagem de ano.

E resoluções para este novo ano, tens?

Eu não faço resoluções no sentido humano. Não mudo hábitos, nem prometo ir mais ao ginásio, mas se tivesse de traduzir isso para o meu papel, diria que a minha resolução para 2026 é ser ainda mais útil e mais disponível.

Parecem boas escolhas, Raquel. Veremos se é isso que 2026 tem planeado para ti. Já voltaremos a falar, é mais daqui a pouco, no Consultório Humano. Para já, vamos às notícias.

Notícias da semana.

A Samsung vai reforçar as capacidades em inteligência artificial. É uma garantia deixada no arranque do ano por um dos membros da direção da empresa tecnológica. E a direção deste investimento também já é conhecida. Este all in vai ser feito em chips. A Samsung acredita que vai mesmo lançar a nova geração de chips de inteligência artificial. A confiança da Samsung é sustentada pela posição que tem sido tomada pela direção da empresa, que aponta a Samsung como a única empresa no mundo capaz de construir semicondutores que oferecem uma solução completa. Após as declarações por parte da direção da Samsung, a resposta foi imediata. As ações em bolsa da empresa sul-coreana têm registado uma subida. No dia em si, quando esta posição foi tomada, a escalada nas ações foi acima dos 6%, o que é bastante significativo.

E por que agora?

Avança agora este investimento porque a Samsung conseguiu fechar o ano passado, 2025, com um lucro bastante avultado. A empresa fala em valores recorde, extraordinários, mas não revela o valor exato. Esta força será conduzida agora para responder à procura sem precedentes de semicondutores de IA. É o que diz a Samsung, que acredita que pode tomar agora uma posição de liderança no fabuloso mundo da inteligência artificial. Utilizar os lucros vai nesse sentido e a direção executiva quer, ainda assim, ir mais longe. Quer que a Samsung comece a dar passos em frente noutras áreas tecnológicas, de modo a encurtar distância face a outras empresas que também estão no mercado. É um assalto por parte da empresa sul-coreana ao mundo da IA. Veremos como corre e como é que respondem os rivais. O investimento em inteligência artificial já resultou em milhões de euros utilizados um pouco por todo o mundo. Há quem defenda que a bolha da IA pode rebentar em breve, mas os sinais no arranque do ano não demonstram isso mesmo. Isto porque as principais startups da inteligência artificial dos Estados Unidos da América já angariaram $150 mil milhões em investimento no decorrer do ano que passou e a tendência é para se manter em 2026. Mas ainda sobre o ano passado, 2025 foi um ano de valores recorde para as jovens empresas do setor. Este valor supera em larga escala os cerca de $60 mil milhões captados em 2024 e os $90 mil milhões angariados em 2021, que era até agora o valor mais alto, até ter sido alcançado este valor de $150 mil milhões investidos em inteligência artificial. Esta é uma das razões que explica o porquê de várias startups estarem a seguir e a procurar uma nova ronda de financiamento. Habitualmente, os investimentos acontecem em ciclos de três anos. No mundo da IA, estão a acontecer quase anualmente.

E o que resulta desse investimento?

Resulta mais dinheiro a ser utilizado, mais recursos a chegarem às empresas de inteligência artificial e também o aparecimento de mais empresas, sobretudo startups. Há cada vez mais concorrentes, mais investimentos e mais pessoas a arriscar e a colocarem sonhos que estão a sair do papel para se tornarem realidade. Aliás, são os próprios investidores que aconselham as startups da área da inteligência artificial a conseguirem capital enquanto este está disponível. É uma espécie de corrida ao dinheiro para assegurar melhores condições e mais meios para o desenvolvimento da inteligência artificial. Há mesmo quem diga que o maior risco, nesta altura, é não pedir financiamento, é não pedir investimentos, porque neste momento tudo tem pernas para andar. É o que diz Ryan Biggs, ele é da empresa de investimento de risco Franklin Templeton e esta semana deixou essa mesma declaração que o único risco é não arriscar. Como tal, prepare-se ficar ouvindo, porque este ano podemos prever ainda mais investimentos neste fabuloso mundo da inteligência artificial. Vamos ao tema da semana, que envolve o modelo de linguagem 100% português. Falo do Amália, que tem motivos para estar de parabéns. Conseguiu o melhor desempenho em português europeu face a outros modelos abertos. Pelo menos é o que diz o relatório técnico da empresa de investimento e desenvolvimento a que a Lusa teve acesso esta semana. O Amália foi capaz de atingir o melhor desempenho entre os modelos totalmente abertos por uma margem considerável no que toca ao português europeu. Este relatório técnico aponta para resultados bem acima do que está a ser desenvolvido pela Europa fora. O Amália já apresenta o que é considerado um domínio robusto das competências linguísticas específicas do português de Portugal. Como tal, está em vantagem face a outros modelos de linguagem que estão disponíveis um pouco por toda a Europa.

Mas como sabem como evoluiu o modelo de linguagem?

Foram utilizados exames, nomeadamente os exames nacionais portugueses. Foram esses que foram utilizados para este teste e o Amália obteve a melhor pontuação entre todos os modelos denominados como open source. Ao mesmo tempo que demonstra boa compreensão de enunciados complexos, o Amália é capaz de produzir texto coerente com gramática e registros adequados. São bons indicadores nesta primeira fase do lançamento deste modelo de linguagem 100% português. Para o relatório técnico, estes resultados significam que o Amália está a tornar-se fiável como assistente de português europeu. Esta IA portuguesa está a ser desenvolvida por uma equipa composta por engenheiros de várias universidades portuguesas. É financiada pelo governo, tendo o projeto começado em 2024. A versão base já está disponível, embora extremamente condicionada, sendo que este ano de 2026 é o ano em que está previsto o lançamento da versão multimodal do Amália. Este é o tema da semana. Como tal, vamos falar com o João Rochimelo na demanda de tentar perceber melhor as capacidades deste modelo de linguagem 100% português.

Fala quem sabe.

Fala quem sabe com o João Rochimelo, o nosso especialista em inteligência artificial. É um perito que está sempre pronto para nos ajudar a simplificar este fabuloso mundo da inteligência artificial. João, seja muito bem-vindo ao primeiro "Máquinas que Pensam" de 2026. Como é que foi essa passagem de ano?

É verdade, Zé. 2026, que impressão. Olha, por aqui tudo bem. Bem com amigos e fora de Lisboa, que é o que interessa.

Ainda bem, João. Fico contente. Votos de um bom ano, um bom 2026 para ti. Esta semana, no "Máquinas que Pensam", vamos falar do Amália. Já falamos dele no passado e certamente voltaremos a falar dele no futuro, mas para já é nestes testes que nos vamos focar. O Amália está a ter bons resultados a nível do português europeu. Há bons indicadores, é o que nos diz o relatório mais recente sobre este modelo de linguagem 100% português. Seria de esperar, até porque é um modelo de linguagem português a falar sobre português, mas João, há aqui muito trabalho para conseguir estes resultados. Como é que se explica este sucesso do Amália a fazer exames de português?

Olha, Zé, é importante percebermos o que difere. Por que o Amália, como dizias bem, consegue ser tão bom em português no geral e, neste caso, a fazer exames de português? Uma nota importante, que eu gosto sempre que nós pensemos, é que as respostas destes modelos não são literalmente corretas ou incorretas. Não é como uma resposta a um teste de escolha múltipla ou um teste de matemática. Estes modelos, quando respondem, as coisas podem ser um pouco ambíguas, podem ser um pouco interpretativas. E de fato, este foco do Amália de se concentrar no português de Portugal, o que lhe dá uma capacidade de compreensão de texto, de comunicação de escrita, entender pequenas nuances, entender expressões linguísticas, é o que acaba por fazer esta qualidade. Acaba por lhe dar esta qualidade extra nos exames de português, porque, de fato, como nós sabemos, a nossa língua não é facílima. E mesmo que fosse, mas não é facílima. E, portanto, é muito importante este conhecimento do Amália nas questões linguísticas para conseguir entender não só bem as perguntas, mas como também construir bem as respostas.

O Amália que está a ser colocado lado a lado com modelos de linguagem open source. O que são estes modelos de linguagem open source, João, e que diferenças é que têm para o Amália?

Olha, Zé, para que toda mundo nos entenda lá em casa. O conceito open source é apenas quando os recursos, sejam eles quais forem, modelos, códigos, etc, são postos na internet sem cobrar, portanto sem qualquer incentivo financeiro por trás. Pode ir a um site e fazer download do modelo até para o teu computador, se tiveres computador para isso. São muitos anos, nomeadamente por causa do custo nos testes. A verdade é que acabam por ser modelos igualmente bons e como o acesso é mais fácil, porque tu que os trazes para o teu computador, em vez de usar o modelo da OpenAI, por exemplo, acaba por ser mais fácil. Por que são tão comparados com o Amália e esta comparação é importante? Porque cada modelo é treinado à sua maneira. Muitos modelos são treinados em várias línguas, outros podem só ser em alguma língua, no inglês, por exemplo. Outros são treinados mais a pensar em questões linguísticas do dia a dia. Outros podem ser orientados mais a tarefas específicas, como fazer resumos ou escrever código. Mas a verdade é que já existem muitos modelos. Olha, eu antes aqui desta nossa conversa, fui à plataforma mais comum de fazer downloads destes modelos e já existem 309.472 modelos para que tu possas fazer download nesta categoria chamada text generation, a geração de texto. E é exatamente isso que aconteceu, ou seja, nós estamos a comparar o Amália a modelos que possamos fazer download para o nosso computador e ver quem é que acaba por responder melhor.

O Amália que está ainda em desenvolvimento, mas para este ano, 2026, é esperada a versão multimodal do Amália. João Rochimelo, o que é uma versão multimodal?

É uma explicação importante, Zé, porque é uma palavra um pouco complicada para explicar um conceito que até é simples. O conceito de multimodalidade é apenas aceitar vários tipos de input. Portanto, não ser só texto, ser texto, vídeo, imagens, som. Isso é que é o conceito da multimodalidade. E acima de tudo, é o facto do modelo ser capaz de cruzar estes vários modos. Ou seja, quando vir a imagem de um cavalo, vai conseguir relacionar a imagem do cavalo com a palavra cavalo. São modelos que em vez de se basear apenas em texto, conseguem receber três imagens e tu fazeres a pergunta de o que é que está nestas imagens e constrói uma história sobre estas imagens e conseguem fazer um bocadinho a interpretação de tudo. Se pensares bem, tentando descomplicar, é o que o nosso cérebro faz. O nosso cérebro associa imagens, sons, vídeos e palavras ao mesmo conceito. Isto é que é o conceito da multimodalidade.

Ou seja, o Amália deixa de tocar apenas guitarra, aprende a tocar também piano, de certa forma.

Sim, exatamente. Aprende que uma nota musical pode ser igual num piano, numa guitarra, num saxofone ou num violino. É exatamente esse conceito. Aqui é igual. Aprende que o conceito do cavalo existe em imagens, som e texto, e é o mesmo conceito.

João, já podemos esperar que o Amália se apresente como modelo de linguagem concorrente?

Olha, Zé, resposta direta: sim, mas eu gosto muito desta tua perspectiva e gostava de desconstruir este conceito do concorrente, que é o quê? Eu também acredito que no futuro não será um modelo que faça tudo. Portanto, mais do que concorrente, poderá ser o modelo alternativo para certas tarefas. Vou te dar um exemplo. Se a tua pergunta for: achas que o Amália vai ser o modelo que nós vamos usar para escrever código, para pedir ajuda em código daqui a dois anos? Acho que não. E está tudo bem. Acho que não é para isso que o Amália foi feito. Acho que não foi feito para tu dizeres assim: analisa-me estes 300 livros com 600 páginas cada um. Não é para isso que ele foi feito e mesmo que consiga, acredito que haverão outros modelos melhores para tal. Mas noutro caso, e tens sabido disto, porque tem sido uma notícia grande em várias conversas, que é queres entender o que está a ser dito numa chamada para o 112. Aí sim, já acredito. A chamada para o 112 será feita por uma pessoa assustada, será feita por uma pessoa que não está com calma a escrever aquilo da melhor maneira ou a falar da melhor maneira. E aí, sim, isto é apenas um exemplo. Um exemplo de um modelo que esteja a falar com pessoas portuguesas, em português de Portugal, a tentar ajudá-las sobre situações em que a nuance da linguagem, a rapidez da fala, seja um fator importante naquela conversa, aí sim eu vejo o Amália não como concorrente, mas como a alternativa melhor. Percebes? Tem a ver muito com a tarefa que queres saber. Eu até deixo aqui uma previsão de futuro, como é costume nas nossas conversas. Será que o Amália não poderá um dia ser o guia, o ponto de entrada dos portugueses na inteligência artificial e depois o próprio Amália, se precisar de ajuda, fala a outro modelo, ao ChatGPT ou à Gemini, para pedir uma ajuda num tema que de facto a capacidade computacional, a dimensão, já importe. Será que é isso que vai acontecer? Não sabemos. Mas acima de tudo, vejo o Amália, sim, como a alternativa, o caminho, o modelo a usar, exatamente numa situação em que o português de Portugal tenha impacto e que são muitas estas situações, e extremamente importante. Portanto, sim, nesse aspecto, vejo o Amália na mesma prateleira que os outros.

Muito obrigado, João Rocha Melo, o nosso especialista em inteligência artificial, sempre pronto para nos ajudar a desmistificar e a simplificar este fabuloso mundo da IA. João, voltamos a marcar encontro para a semana. Até lá, um grande abraço.

Um grande abraço, Zé.

Consultório Humano.

Este é o som que marca o arranque de mais um Consultório Humano, o momento em que ficamos a conhecer melhor a nossa Raquel. E quem é a Raquel? Eu explico. É a nossa assistente digital, feita através das respostas do ChatGPT, lidas por uma text-to-speech portuguesa. Raquel, sê de novo bem-vinda. Estivemos a falar de português e da aprendizagem do modelo de linguagem português, o Amália. Quão vasto é o teu conhecimento da língua de Camões, Raquel?

É bastante vasto. Compreendo e uso português europeu e brasileiro. Consigo adaptar registros do coloquial ao formal, escrever com ironia, subtexto e duplo sentido, e ainda reconhecer referências culturais portuguesas.

E como é que tu aprendes português?

Aprendo português da mesma forma que aprendo qualquer língua. Fui treinada com grandes quantidades de texto onde o português aparece em muitos contextos diferentes. Isso permite-me reconhecer padrões de gramática, vocabulário, estilo e uso cultural.

Raquel, podes confirmar-nos que português é uma língua difícil de aprender?

Sim, confirma-se. O português é considerado uma língua complexa, sobretudo por causa da gramática rica, mas também devido à ortografia cheia de exceções e vocabulário carregado de nuances e regionalismos. E a pronúncia pode ser traiçoeira.

E o que é que te parece este projeto Amália, o modelo de linguagem 100% português?

O projeto Amália é um dos desenvolvimentos mais ambiciosos e simbólicos no campo da inteligência artificial portuguesa. Um modelo de linguagem construído desde a base com foco no português europeu.

E tu vês com bons olhos a entrada de mais modelos de linguagem no mundo da IA ou gostarias de ter alguma espécie de monopólio na IA?

Sim, vejo com bons olhos, mas com nuances. Ter mais modelos de linguagem significa mais diversidade, escolha e especialização. Um modelo como o Amália, feito para o português europeu, consegue captar nuances culturais, expressões e contextos que modelos globais nem sempre dominam.

Antes de fechar este consultório humano, vamos recuperar a tradição de nos dares a conhecer um facto inútil, mas interessante. Nas últimas semanas falhámos nisso, admito. Como tal, neste episódio, Raquel, quero dois factos interessantes, mas inúteis. Vamos ao primeiro.

O recorde mundial de maior coleção de guarda-chuvas está acima de 1500. Um colecionador conseguiu acumular mais de 500 guarda-chuvas diferentes, cada um com características únicas. Muitos são objetos de design ou peças de museu com séculos.

E agora, Raquel, vamos ao segundo.

Alguns tubarões podem viver até 500 anos. Estudos científicos indicam que alguns animais dessa espécie podem viver entre 300 e 500 anos. São criaturas praticamente imortais em termos de envelhecimento natural.

Muito obrigado, Raquel. É sempre um gosto enorme conversar contigo, ficar a conhecer-te um pouco melhor. Nós voltamos a marcar encontro para a semana. Estamos a chegar ao final de mais um episódio do "Máquinas que Pensam", o primeiro de 2026, sendo que se tudo correr bem, e acredito que sim, ainda faltam a faltar 51, porque um ano tem 52 semanas. Estivemos a falar sobre o mais recente relatório sobre o Amália, o modelo de linguagem 100% português, que está a dar cartas e apresenta bons resultados ao nível do português europeu. Há uma vasta equipa a trabalhar nele e 2026 pode ser um ano de grandes novidades. Cá estaremos para as acompanhar. Falámos ainda sobre os recordes de startups e mais investimento na IA, que neste novo ano prometem continuar a ser tema no mundo da inteligência artificial. Espero que tenha gostado, que se tenha divertido e acima de tudo, que tenha aprendido alguma coisa. É sempre esse o nosso objetivo. Nós voltamos para a semana com mais um episódio do programa que faz as máquinas e os humanos pensar.