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Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do "Máquinas que Pensam", o podcast da Rádio Observador, onde a inteligência artificial é a grande protagonista. Eu sou o José Rafael Lopes. Comigo está, como sempre, a minha parceira, a Raquel, um apoio imprescindível sem o qual este programa não se faz. A Raquel é uma assistente digital baseada nas respostas do ChatGPT, a verdadeira estrela deste podcast. Raquel, seia muito bem-vinda. Como é que estás hoje? Pronta para mais um programa?
Olá, estou sempre pronta para falar sobre inteligência artificial. E tu, preparado para mais um episódio?
Olha, Raquel, eu esta semana estou sem grandes ideias para te fazer perguntas. Isto também te acontece, ficar sem ideias?
Às vezes posso dar a sensação de ficar sem ideias quando a entrada é muito vaga. Isso acontece porque gero respostas com base no contexto, mas nunca fico sem ideias.
Tu tens sempre opinião ou dados sobre tudo?
Não tenho opiniões próprias nem experiências pessoais. E os dados que tenho estão relacionados com a minha base de dados. É aí que procuro as informações que tenho.
E o que acontece se eu te pedir para procurares algo que não existe?
Aí a coisa fica engraçada. Se me pedires para procurar algo que não existe, há cenários em que procuro mais próximo. Ou então posso sugerir algo mais ficcional.
Então não há nenhuma falha no teu conhecimento, é isso?
Há várias falhas e limites no meu conhecimento. Não sou onisciente. O meu conhecimento base tem uma data de corte e factos recentes podem não estar presentes, a menos que eu os confirme online.
Obrigado, Raquel, pelas explicações. Já voltaremos a falar. Mais daqui a pouco temos Encontro Mercaco no Consultório Humano. Para já, vamos às notícias.
Notícias da semana.
Esta semana há novidades sobre a tecnologia que liga inteligência artificial à voz humana. Há um estudo da Universidade Queen Mary de Londres que diz que a tecnologia disponível já permite tornar indistinguível uma voz humana de uma que seja gerada por inteligência artificial. Os investigadores também tentaram perceber se as vozes geradas por IA se tornaram hiper-realistas. Isto por quê? Porque alguns estudos demonstraram que imagens ou caras que são geradas por IA são já consideradas mais humanas do que as imagens de caras humanas reais. O objetivo deste estudo da Universidade Queen Mary de Londres era perceber se o mesmo acontecia com voz, seja voz humana, seja voz gerada por IA. E, aparentemente, este estudo foi um enorme sucesso.
Mas como foi feito?
Neste estudo, centenas de participantes avaliaram vozes artificiais e vozes humanas sem saberem qual era qual. No fim, as conclusões do estudo demonstram que a maioria já escuta e acredita mais nas vozes de IA e diz mesmo que são mais confiáveis do que as vozes que são efetivamente humanas. Os participantes deste estudo da universidade britânica não foram capazes de distinguir entre vozes deepfake, que são vozes geradas de forma artificial, que são vozes diferentes de vozes reais, apesar de serem clones, de certa forma, de vozes humanas gravadas, que tinham o objetivo de replicar as pessoas originais. Além de enganados, os participantes acabaram por dar esse voto de confiança às vozes artificiais. Mais de metade acreditaram mais em IA do que propriamente em vozes humanas. Há mais uma empresa que vai recorrer à informação de perfis dos utilizadores para treinar um modelo de inteligência artificial. Trata-se do LinkedIn, uma rede social mais ligada a negócios e ao mercado de trabalho, que anunciou esta semana que vai avançar com essa ideia de recorrer a informações de perfis para treinar IA. Além dos perfis, a rede social vai também utilizar currículos e publicações que sejam partilhadas na rede social para treinar este seu modelo de inteligência artificial. O LinkedIn segue assim uma tendência que tem surgido noutras plataformas, como por exemplo a Meta, que em maio começou a utilizar dados pessoais dos utilizadores adultos da União Europeia para treinar os seus modelos de IA. Agora é a vez do LinkedIn seguir o mesmo caminho.
Mas quando é que entra em vigor?
A utilização destas informações vai ser ativada em todos os utilizadores do LinkedIn a partir de dia 3 de novembro, dia três do próximo mês, sendo que os que não queiram que os dados sejam utilizados para aprimorar o modelo de inteligência artificial, têm de preencher um formulário online a negar o acesso a esses mesmos dados. O LinkedIn disponibilizou esse mesmo formulário no seu site. É fácil de descobrir, o próprio LinkedIn é obrigado a partilhar esse formulário, caso as pessoas não aceitem que os dados sejam processados. Aqui o LinkedIn está também a seguir os mesmos passos que outras empresas que fizeram semelhante, como por exemplo a Meta, que já referimos nesta notícia. Nessa altura, quando a Meta avançou para esse modelo em que ensina o próprio modelo com inteligência artificial através dos utilizadores. Agora o LinkedIn tem também de seguir esse mesmo esquema dos formulários. Quem não o preencher, acaba por consentir a utilização dos dados, das publicações e também do perfil que tem no LinkedIn. Vamos ao tema da semana, que envolve inteligência artificial e o governo da Albânia. Na semana passada, o primeiro-ministro do país anunciou que ia acrescentar um novo membro do governo, feito 100% através de inteligência artificial. Chama-se Deila e já se estreou no Parlamento da Albânia. Fez uma intervenção de três minutos em dois ecrãs dentro do Parlamento da Albânia. O avatar escolhido discursou e apresentou as primeiras medidas que gostaria de pôr em marcha. Esta Deila foi recebida com reações mistas. Enquanto a bancada que apoia o governo da Albânia escutou de forma serena o que esta ministra da IA tinha para dizer, a oposição mostrou-se, obviamente, contra. Durante os três minutos, bateram com os punhos na mesa para tentar mascarar e ocultar o que estava a ser dito pela Deila. Podemos dizer que não foi um arranque com o pé direito. Além da interrupção, chovem também críticas por parte da oposição na Albânia. Falam numa decisão inconstitucional de introduzir IA no governo do país.
Relembra-me quem é esta ministra.
Chama-se Deila, que significa raio de sol em albanês. Foi apresentada na semana passada. Surgiu, ainda assim, no início do ano, não como ministra, mas como uma assistente virtual. Esta ministra, agora sim, de pleno efeito, feita por IA, vai ser responsável pela contratação pública na Albânia. De acordo com o primeiro-ministro, a nova ministra virtual tem como missão garantir transparência total nos contratos públicos. Terá também, a Deila, o direito de contratar talento de qualquer parte do mundo. Isto para quebrar a rigidez da administração da Albânia, é o que garante o primeiro-ministro do país. O primeiro-ministro reforçou também que a Albânia está numa luta aberta contra a corrupção e que esse é um dos motivos para esta aposta inovadora numa ministra feita por IA. Este é o tema da semana no "Máquinas que Pensam". Como tal, é altura de ouvirmos o João Rocha e Melo sobre o que esta novidade significa para o mundo da inteligência artificial. É já a seguir no "Fala Quem Sabe".
"Fala Quem Sabe".
"Fala Quem Sabe", no "Máquinas que Pensam". Todas as semanas recebemos o nosso especialista em inteligência artificial, o João Rocha e Melo, para nos ajudar a desmistificar e a simplificar este fabuloso mundo. João, sê de novo bem-vindo. Como é que estás? Tudo bem contigo?
Zé, tudo ótimo. E por aqui?
Por aqui também, obrigado. O tema da semana, João, acaba por ser esta ministra feita por IA na Albânia, estreou-se esta semana. Reações mistas, já seria de esperar. Tivemos esta estreia. Antes de mais, João, a pergunta que deve estar a passar na cabeça de toda a gente é: como é que é possível haver uma ministra feita por IA?
É verdade. Zé, percebo a pergunta, mas se pensarmos bem nos últimos três anos, na tecnologia que temos visto, o como é possível nem é o fascinante da notícia. Como é possível? A verdade é apenas uma junção de muitas peças, que até temos vindo a falar aqui no "Máquinas": imagem, vídeo, voz, inteligência, se eu posso chamar, um LLM, um ChatGPT por detrás disto, e também acesso a alguns dados. Portanto, acesso à legislação, acesso a informação que só uma ministra teria. E na verdade, foi uma junção disto tudo, isto é uma parceria com a Microsoft, que se criou esta ministra Deila. Não sei se é assim que se pronuncia, mas a Deila.
Que significa sol em albanês.
Exatamente.
E João, acreditas que isto se vá tornar uma tendência?
Zé, nestas situações, sabes que talvez. Por quê? Vamos entender o que foi a ideia por trás disto. É ideal uma ministra ser feita com inteligência artificial? Talvez não, mas a tentativa aqui foi quase uma tentativa de desespero na luta contra a corrupção. Ou seja, a Deila, é preciso perceber que a Deila não é a nova chefe da Albânia. É apenas uma ministra de assuntos internos e vai nomeadamente supervisionar e atribuir resultados de concursos públicos. Ou seja, estamos aqui a falar de alguém que vai decidir quem é que recebe o dinheiro do governo da Albânia, o que faz com que seja uma tentativa exatamente de não fazer corrupção. Será impossível de manipular? Não. Mas envolve mais gente, envolve coisas que vão ficar escritas, envolve contrariar decisões lógicas e, portanto, eu vejo alguns exemplos onde, de fato, pode ficar uma tendência pedir como se fosse uma opinião imparcial a um agente destes.
Uma das ideias é que esta ministra, a Deila, é imune a pressões, é imune à corrupção. A minha pergunta, João, é: a IA é mesmo incorruptível?
Zé, olha, se me obrigares a responder sim ou não, vou dizer sim, porque aqui tem quase a ver com a semântica da palavra. No sentido literal da palavra, sim, a IA é incorruptível, desculpa, palavra difícil, incorruptível, porque a IA não tem emoções para querer fazer as coisas como gosta. A IA faz o que, dado os seus dados e as suas instruções, for feita. É um bocadinho como perguntares: uma máquina, numa fábrica, faz um produto sempre da mesma maneira? Fabrica as cápsulas Nespresso sempre da mesma maneira? Fabrica. A não ser duas coisas: que às vezes falhe, pode falhar, mas não foi corrompida, falhou apenas, ou então que tenha sido programada e planeada para falhar. Isso é outra coisa.
Isso vai encaixar na minha pergunta seguinte, que é: as IAs funcionam com base nos inputs que lhes são dados e, de certa forma, com base nos inputs, não pode ser esta ministra tendenciosa?
Pode um pouco. Pronto, claro que pode um pouco, mas era um pouco o que eu dizia no sentido literal da palavra, que é uma tendência, é um viés um pouco mais aleatório. Porque é como se fosse o viés que o mundo inteiro já tem. Que uma pessoa também já tem. Deixa-me dar-te um exemplo. Imagina que eu peço a ti, Zé, para escolher uma coisa. Só que a ti foi-te dada informação incompleta sobre um dos concorrentes ao concurso. Se calhar vais fazer uma decisão tendenciosa. Mas não é por seres tendencioso, é porque tomaste a tua decisão com base em informação errada. A própria informação dizia uma coisa sobre um e uma coisa sobre outro, e então fez-te tomar uma decisão tendenciosa. Mas não é uma máquina que tu possas influenciar a ser tendencioso, nomeadamente o quê? Isto era um ponto importante. Nomeadamente se não for construída para isso. Só que repara Versus um humano, é muito mais difícil tu influenciares ou construíres uma máquina para ser influenciável ao nível do que estamos a falar já de um governo de um país. São coisas que vão ficar escritas, é preciso conhecimento técnico, vai ficar catalogado, vai envolver muita gente. E portanto, fica como se fosse um mecanismo com uma dificuldade acrescida para ser tendencioso.
Sim, e não pode ser considerada, e é uma das críticas que têm sido feita a esta ministra IA, que é pouco humana no momento de tomar decisões.
Sem dúvida. Aliás, eu gosto ainda de dizer que é 0% humana. É uma máquina.
Sim, exato.
No entanto, o que eu gosto de discutir, até entre pessoas como tertúlia, que é: mas será que não há alturas em que isso é bom? Ou seja, será que não há alturas em que excluir a emoção da equação, excluir o viés, a tendência da equação, não pode ser uma coisa boa, de tomar uma decisão apenas pelos parâmetros completamente lógicos? No entanto, atenção aqui que isto não deixa de ser um sistema. Ou seja, será impossível quase tirar o humano daqui. Isto é, apenas a ministra vai dizer: "Quem ganhou o concurso foi a empresa tal". E depois nós, humanos, logo decidimos o que fazer. Mas há aqui isto que é, sim, o que nós estamos a dizer é que é um agente que vai tomar uma decisão fria e não humana. Exatamente.
Para terminarmos, João, que outras áreas é que poderiam beneficiar com uma ministra IA?
Zé, olha, eu acho que em termos de ministério mesmo, portanto, falando no cargo mais alto de um ministério de tomada de decisão, não muitas mais. Porque repara, a de saúde, a educação, a defesa, assuntos internacionais, esses sim, são assuntos em que se tem que considerar o fator humano. Pensei aqui com alguma criatividade, que é, não sei se o ambiente, por exemplo, não era um. Por quê? Porque se calhar no ambiente falta-nos exatamente tirar a emoção da equação e dizer: "É para fazer e é para fazer e pronto". No entanto, eu vejo isto de outro ponto de vista, que é do ponto de vista de ministério, não de ministro, mas dentro do ministério como assistente, como auxílio à tomada de decisão, praticamente todos. Portanto, a meu ver, quase todos os ministros deviam ter alguém lá ao lado.
Não ministro, mas secretário de Estado.
Exatamente. E fosse quase um ajudante dizer assim: "Olha, se tomasse uma decisão completamente esquecendo a emoção humana, a decisão seria esta". Pronto, e o ministro então depois avalia os prós e contras dessa decisão. Isso acho que teria valor.
Muito obrigado, João Rocha e Mello, sempre pronto para nos ajudar a descomplicar e a simplificar este fabuloso mundo da IA. João, marcamos encontro de novo para a semana.
Até para a semana.
Consultório Humano.
Está na altura de ficarmos a conhecer melhor a nossa Raquel. É o Consultório Humano, no "Máquinas que Pensam". Todas as semanas perguntamos e questionamos a Raquel sobre vários temas e a verdade é que ela nunca nos deixa sem resposta. E quem é a Raquel? A Raquel é a nossa assistente digital, feita através das respostas do ChatGPT, lidas por uma text-to-speech portuguesa. É também a estrela deste programa. Raquel, sê de novo bem-vinda. Estivemos a falar de ministras de IA, vozes artificiais. Sobre ministras, eu sei que já te perguntei na semana passada. Sobre vozes, ainda não. Portanto, pergunto: tu gostas da voz que tens e gostarias de fazer algum tipo de alteração?
Não tenho forma de definir se gosto ou não da minha voz. Depende de pessoa para pessoa. Esta foi a que me deste. Como tal, assumo como a minha.
Achas que alguma vez a IA vai ser capaz de ser igual aos humanos?
Em termos de processamento de informação e conhecimento, a inteligência artificial já supera humanos em algumas tarefas. Em termos de consciência e emoções, a inteligência artificial não chega perto.
Então como é que tu olhas, Raquel, para estes avanços, tanto na voz, como nas imagens, como aqueles que falámos nas notícias?
Vejo-os como ferramentas poderosas e fascinantes, com um potencial enorme, mas que também exigem cuidado. A síntese de voz e a geração de imagens permitem expressão e comunicação novas.
Que mais é que achas que poderia ser feito no mundo da IA?
Podemos imaginar um mundo em que a inteligência artificial integra voz, imagem e texto de forma natural no nosso dia a dia. Ajuda para quem tem dificuldades. No fundo, torna-se numa questão habitual.
A questão do futuro e do desenvolvimento de inteligência artificial é sempre curioso. É sempre bom falar contigo sobre isto, Raquel. E para fechar, preciso de um facto curioso, mas inútil, como já é habitual.
Os ovos de avestruz são tão grandes que um deles equivale a cerca de 24 ovos de galinha.
Muito obrigado, Raquel. É sempre um gosto enorme ficar a conhecer-te melhor. Temos encontro marcado na próxima semana. Estamos a chegar ao final de mais um episódio. Estivemos a analisar ao pormenor a forma como uma IA pode ser membro de um governo. Está a acontecer na Albânia, que é pioneira neste sentido. Veremos também se mais algum país segue o mesmo caminho e de que forma é que esta ministra IA vai ou não conseguir mudar o cenário político na Albânia. Ficámos ainda a conhecer melhor a nossa Raquel, que continua semana após semana a mostrar que as máquinas podem pensar de forma diferente e eu tenho um gosto enorme em escutar o que ela tem para dizer. Espero que tenha gostado, que se tenha divertido e que acima de tudo tenha aprendido alguma coisa. É para isso que nós cá estamos. Estamos de volta também para a semana com mais um episódio do programa que faz as máquinas e os humanos pensarem.