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São quase 22h30. Manuel Ramalhete caminha ao lado do jipe branco que transporta o Papa. É ele o coordenador de mais de uma dezena de polícias vestidos à civil, que formam um cordão à volta de João Paulo II. O chefe da Igreja Católica acabou de sair da Capelinha das Aparições e vai para o altar central do santuário de Fátima, em frente à Basílica. A partir do topo da escadaria, vai observar a procissão das velas. Está 1 milhão de pessoas em Fátima e cada uma segura uma vela acesa nas mãos. O corredor central é a única mancha escura no recinto. Enquanto os fiéis cantam o Ave de Fátima e o Papa acena à multidão, Ramalhete olha em todas as direções. De qualquer lugar pode vir uma ameaça, sobretudo quando o jipe para junto à escadaria.
Quando foi ao final do corredor, ele desceu do jipe para subir a escadaria para o altar-mor.
O polícia coloca-se do lado direito de João Paulo II. Cada um dos agentes sabe exatamente a posição que tem de ocupar para garantir um anel de segurança à volta do Papa. João Paulo II vai começar a subir os degraus da escadaria. Para surpresa da segurança, é cercado por um grupo de pessoas que começam a correr. São maioritariamente jornalistas e padres que saltaram as barreiras e tentam aproximar-se do Papa. O cordão policial, chefiado por Ramalhete, tem de impedir a todo o custo que cheguem até ele. O polícia vê um padre especialmente nervoso a saltar a barreira. Tenta várias vezes chegar a João Paulo II. Grita insistentemente aos seguranças que quer apenas beijar o Papa. Ninguém percebe que, escondido numa pasta castanha, leva um sabre. Quando se instalou ali, junto às baias que assinalam o corredor central, mesmo na base da escadaria que dá pra Basílica, o padre Crohn ainda nem sequer estava totalmente decidido a cometer o atentado. Primeiro, queria ouvir o Papa falar. Estava disposto a dar-lhe uma última oportunidade. Depois de rezar em silêncio na Capelinha das Aparições, João Paulo II fez um discurso e o padre Crohn escutou-o atentamente. Talvez o Papa falasse sobre a Rússia ou condenasse o comunismo. Afinal, esse era o foco da mensagem de Fátima. Mas nada. O Papa falou durante vários minutos e nunca mencionou nem o comunismo, nem a Rússia. E o padre Crohn ficou indignado com esse silêncio, que mais tarde havia de descrever como inexplicável, revoltante e apocalíptico. Foi o gatilho que lhe faltava para se decidir a assassinar João Paulo II. Tinha o sabre dentro da pasta. Ia lançar-se sobre o Papa para lhe trespassar o coração. "Matar o Papa" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos podcast plus do Observador. É narrada por mim, Pedro Laginha, com banda sonora original de Rodrigo Leão e participação especial de Adriano Luz na voz de Juan Fernández Crohn. Episódio quatro: Beijar o Papa.
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Faltam 11 horas para o padre Crohn tentar matar o Papa. Chega a Fátima às 11h30. A primeira coisa que faz é inusitada: compra um marcador azul e três envelopes brancos. Depois, vai sentar-se a uma mesa no hall de entrada de um dos hotéis da cidade. Tem três mensagens para passar a limpo, todas dirigidas ao Papa. Escreve-as em letras garrafais com o marcador grosso na parte de fora dos envelopes brancos. Uma é em latim, as outras duas são em francês e, por agora, vão ficar guardadas na pasta do padre Crohn. Lá dentro, além do sabre que comprou em Paris e com o qual planeia matar o Papa, guarda um autocolante com a cara de João Paulo II. E não só. Tem o passaporte, vários livros, uma gilete e um pincel pra barba, bilhetes de comboio, um crucifixo, algum dinheiro e uma edição do Novo Testamento. Já é hora de almoço. O padre espanhol procura um restaurante e come sozinho. Por esta altura, está João Paulo II a ser recebido em apoteose em Lisboa. Uma enorme multidão espera-o no aeroporto. O Presidente da República e o Primeiro-Ministro estão na pista. João Paulo II desce as escadas do avião e faz o gesto que já se tinha tornado simbólico: beija o chão português. O país está parado, a acompanhar a chegada do Papa pela televisão. Logo na cerimónia de boas-vindas, o Papa explica o que o traz a Portugal.
Estou em Portugal a realizar um sonho há muito acalentado. Esta minha peregrinação tem um sentido dominante: Fátima.
Quando acaba de almoçar, Krone anda pelas ruas da vila. À distância de 40 anos, lembra o cenário que viu nas redondezas do santuário.
Lembro-me que havia estabelecimentos, lojas de artigos religiosos, umas atrás das outras, e uma afluência de clientes enorme. Aquilo ficou.
A essa hora, João Paulo II percorre as avenidas de Lisboa na companhia do Patriarca D. António Ribeiro. Na Sé, dirige-se especialmente aos leigos católicos. Lembra que o Concílio Vaticano II lhes deu uma importância fundamental. Desce uns metros e visita o lugar onde Santo António nasceu. Encontra-se com o Presidente da Câmara de Lisboa, Cruz Abecasis, e com a comunidade franciscana da cidade. Depois, vai ainda ao Palácio de Belém para uma audiência com Ramalho Eanes e aproveita para lembrar as relações antigas entre Portugal e a Santa Sé. Quando o Papa se despede do Presidente da República em Lisboa, o padre Krone já está no santuário em Fátima. Sabe muito bem que se quiser ficar junto ao corredor por onde vai passar João Paulo II, tem de chegar cedo e guardar lugar. Depois das 17h, o Papa entra na Nunciatura Apostólica, embaixada do Vaticano, onde se encontra com o Primeiro-Ministro Francisco Pinto Balsemão e com vários membros do governo. Usa a tarde deste dia 12 de maio para cumprir todos os compromissos políticos da viagem a Portugal.
Neste preciso momento, o Papa João Paulo II toma o início da passadeira vermelha que o há de conduzir ao Puma, que o levará à Fátima.
Por volta das 19h, está de volta ao aeroporto de Lisboa para embarcar num helicóptero com destino a Fátima. No santuário esteve um calor insuportável e Krone, vestido de preto da cabeça aos pés, está exausto. Mas conseguiu garantir um bom lugar para executar o plano. Do lado direito do corredor central, encostado às baias, na base da escadaria principal. Bastará saltar uma vedação e correr para João Paulo II quando o jipe chegar. Faltam três horas e meia para tentar matar o Papa. A viagem de helicóptero entre Lisboa e Fátima é relativamente curta. Não chega a durar uma hora. O Papa é esperado na capelinha das aparições no centro do santuário por volta das 20h30. Rui Correia de Oliveira passou toda a tarde a tentar reforçar as vedações dos corredores por onde iria passar o Papa, por causa das notícias da grande confusão em Lisboa. Mas já não há muito a fazer. Ao final da tarde, o recinto do santuário está totalmente cheio de peregrinos.
O Santo Padre chega de helicóptero, passa por cima do santuário duas vezes. Já havia muita gente nessa altura, já estava o santuário muito cheio. Uma grande reação com os lenços brancos no ar. O locutor que conduzia a assembleia, entusiasmadíssimo também. Portanto, foi ali um momento muito forte. E aí eu percebi: "Agora a contagem decrescente terminou e agora começou mesmo a sério".
O helicóptero do Papa aterra no campo de futebol de Fátima. A partir desse momento, entra em ação o agente Manuel Ramalhete, que lidera a equipa de segurança pessoal de João Paulo II.
Eu estava à espera dele no campo, onde desceu do helicóptero. A partir dali, foi a minha missão com as equipas. Fomos acompanhá-lo aos aposentos dele, onde ele esteve um bocado, repousou um bocado.
Esta noite, o Papa vai ficar a dormir na Casa de Retiros de Nossa Senhora do Carmo, na lateral direita do santuário. Há uma enorme multidão que o acompanha no percurso entre o campo de futebol e a casa onde vai ficar instalado. E o grande momento ainda está para vir.
Depois dali, montou-se no jipe descapotável, o carro papal, e foi até à Capelinha das Aparições. E nós íamos acompanhando pelo corredor central.
Rui Correia de Oliveira e as equipas do Santuário de Fátima estão à espera no topo do recinto, na zona oposta à Basílica. É por ali que vai entrar o carro papal. Faltam cerca de duas horas para o padre Crohn tentar matar o Papa. Rui Correia de Oliveira está nervoso. Em Lisboa já tinha havido problemas e em Fátima está uma multidão muito maior, em euforia. Há um corredor central por onde o carro do Papa vai passar, mas se as pessoas ultrapassarem as barreiras, a segurança fica comprometida. Apesar de algumas dificuldades, o Papa chega tranquilamente à Capelinha das Aparições.
E aí há um primeiro momento complicado, porque a comunicação social ultrapassou todas as barreiras e todos os códigos e ultrapassou espaços que não devia ter ultrapassado. Ali um momento bastante preocupante, que foi talvez o primeiro grande susto da segurança com a vinda do Papa.
Este é o momento central da visita de João Paulo II a Portugal. Traz um terço com uma medalha onde está a data do atentado de 1981 e a data daquele dia. Coloca o terço nas mãos da imagem de Maria, a estátua original venerada durante décadas na Capelinha das Aparições. São 20h30. Faltam duas horas para o padre Crohn tentar matar o Papa. É nesta altura que João Paulo II preside à oração do terço e faz o discurso que Crohn tanto esperava. Ouve-o atentamente, à espera do sinal que o fizesse desistir.
Há muito que eu tencionava vir a Fátima, mas desde que se deu o conhecido atentado na Praça de São Pedro, há um ano atrás, ao tomar consciência, o meu pensamento voltou-se imediatamente para este santuário, no coração da Mãe Celeste. O meu agradecimento por me ter salvado do perigo.
O atentado do ano anterior não marca apenas o discurso de João Paulo II. Também faz com que a dinâmica da própria procissão das velas seja alterada, recorda Rui Correia de Oliveira.
O santo padre vai à capelinha, reza o terço na capelinha. Depois, o que estava previsto era retirar-se, subir até ao altar, assistir a uma parte da procissão das velas e retirar-se para a Casa do Carmo, onde estava a alojar. O Papa tinha levado um tiro há um ano. Portanto, tinha sido bastante violento aquele impacto.
A ideia é João Paulo II fazer um percurso mais curto. Seguirá diretamente de jipe desde a capelinha até ao altar central. Só depois começa a procissão das velas mais longa, com o Papa a assistir a tudo a partir do altar. Mas a multidão é tão grande que não há espaço para fazer a procissão como é suposto.
Eu comecei a perceber que a ala que nós tínhamos aberto, como tradicionalmente fazemos para passar a procissão, estava a ficar cada vez mais apertada. A pressão era extrema. Quando o Papa chega à noite à capelinha, a ala praticamente fechou. E a minha equipa dizia: "Rui, já não consigo fazer mais nada. A gente já não consegue furar mais, já não há ala nenhuma, a gente já não se vê uns aos outros".
O Santuário de Fátima está cheio, muito para além da capacidade. Há corredores a desaparecer no meio da multidão. Nas primeiras filas, os fiéis comprimem-se junto às baias para tentarem chegar o mais perto possível do Papa. Alguns padres e fotógrafos conseguem saltar as grades e começam a correr em direção a João Paulo II. O padre Crohn aproveita a confusão e mistura-se. Faltam poucos minutos para tentar matar o Papa. O jipe que transporta o Papa está a chegar ao final do percurso. João Paulo II vai finalmente descer do carro para subir a escadaria. Manuel Ramalhete sabe que este é um momento de alto risco. O coordenador da segurança está atento e rapidamente nota qualquer coisa estranha naquele padre que repetia aos gritos que só queria beijar o Papa.
Ele apareceu antes. Ele antes saltou a vedação e nós até vimos. Eu vi aquele padre antes saltar a vedação ou corredor, mas para nós era um padre. A expressão era um bocado agressiva, uma expressão agressiva e nervosa.
Rui Correia de Oliveira também recorda o que a polícia lhe explicou, na altura, sobre o comportamento estranho do padre Crohn durante o dia.
De facto, ele já tinha sido identificado. Já tinha sido o seu comportamento atípico durante a tarde do dia 12, a maneira como ele se movimentava. Isso está descrito em alguns textos e, portanto, ele já estava debaixo de olho, como se costuma dizer.
O padre Crohn está nervoso. Passou todo o dia à espera deste momento. Por causa do calor insuportável, tem nas mãos o cachecol e o casaco que trazia vestido. Antes de saltar a vedação, entrega-os a uma freira que está ali perto, a quem pede o favor de os guardar Traz um terço no bolso. Tira-o e coloca-o à volta do pescoço. Quando salta a vedação, leva com ele a pasta castanha. Está preparado para o ataque. Treinou aqueles movimentos inúmeras vezes em casa, em frente ao espelho. Sabe exatamente o que tem de fazer. A pasta está entreaberta e dentro dela está o sabre. Krone tem o cabo da faca bem seguro na mão direita. No momento do ataque, basta que deixe cair a pasta para ficar com a arma em posição. Depois, só tem de dar um golpe e atingir João Paulo II. Mistura-se no pequeno grupo de padres e de seguranças que acompanham a comitiva papal e corre atrás do jipe nos últimos metros. Quando o carro finalmente para, o padre Krone tenta aproximar-se do Papa. Faz uma primeira tentativa para furar o cordão policial, mas é prontamente afastado pelo guarda-costas, o gigante arcebispo Marcinkus. Krone não desiste. Volta a tentar furar o cordão policial, agora pelo lado do chefe da segurança português.
Ele ainda foi um pouco atrás, só que depois, o cerco lá estava, o cerco mais apertado. E ele aproximou-se, por acaso foi do meu lado. Tentou furar por baixo do meu braço e eu não deixei.
Nesta altura, o polícia já está totalmente convencido de que aquele comportamento não é normal, nem mesmo para um padre comovido por estar perto do Papa. Mas também não lhe passa pela cabeça que seja um atentado contra a vida de João Paulo II. A arma ainda estava escondida.
Quando ele apareceu, eu não vi sabre nenhum. Só vi é que ele queria chegar e estava muito agressivo. Era anormal a parte como ele se apresentou.
Ao fim de alguns segundos, o Papa já subiu vários degraus da escadaria e aproxima-se do altar. A janela de oportunidade para o ataque está a fechar-se. O padre Krone fica desesperado. Em fúria, larga a pasta e empunha o sabre e lança-se contra João Paulo II com toda a força, numa última tentativa violenta de lhe acertar no coração.
"Saqué, saqué la faca. Tirei a faca, fui, empunhei e mesmo no momento em que..."
Atira-se contra João Paulo II. Na confusão, o Papa desequilibra-se por alguns segundos. O padre Krone embate em Manuel Ramalhete, que o trava com um braço apenas e o faz cair ao chão.
Ele insistiu, atirou-se por cima do meu braço e eu ao tirar o braço, ele desequilibrou-se. E entretanto, dali é que aparecem os outros agentes e que agarraram o padre Krone e o dominaram.
Graças aos instintos do chefe da segurança, o padre Krone falhou por pouco. Está caído a escassos centímetros do Papa. Vários polícias atiram-se para cima do atacante. Durante a luta, um deles fica ferido num dos dedos da mão direita. O sabre faz-lhe um corte e o agente começa a sangrar. A confusão na escadaria da Basílica é enorme. O Papa percebe que aconteceu alguma coisa e volta-se para trás. Dizem-lhe que um padre caiu e se magoou. João Paulo II quer ver se está tudo bem e recua uns metros. Para evitar o pânico de quem está ali à volta, os seguranças fazem de conta que Krone só se sentiu mal. Um dos polícias desaperta-lhe até a gola da batina para lhe permitir respirar melhor. Um dos agentes que o imobilizaram percebeu logo que era uma tentativa de assassinato, porque ao agarrá-lo, viu o sabre no chão. Começa imediatamente a revistá-lo e tira vários documentos dos bolsos do padre. Rui Correia de Oliveira, responsável pela organização do recinto, está ainda na Capelinha das Aparições quando ouve o alerta no walkie-talkie.
E é nessa altura que eu percebo que há um furúrio, uma confusão no meio da escadaria, que à distância não percebi exatamente o que era, mas via rádio, comecei a ouvir a palavra "atentado".
É preciso tirar Krone dali, mas um representante da comitiva papal pede aos polícias que esperem um pouco. O motivo é surpreendente. O Papa quer ver o padre que está no chão. João Paulo II aproxima-se e os polícias levantam Krone, mantendo-o sempre agarrado pelos braços. Imobilizado, mas a poucos centímetros de distância de João Paulo II, o padre Krone faz a única coisa que ainda pode fazer: grita. Primeiro acusa o Papa de trair a cristandade, a Polónia e o Solidariedade. Depois grita: "Abaixo o comunismo, abaixo o Concílio Vaticano II". João Paulo II escuta os berros do padre espanhol sem esboçar qualquer reação. Quando Krone finalmente se cala, o Papa abençoa-o com o sinal da cruz, vira-se e continua a subir a escadaria. 40 anos depois, sentado no sofá de um hotel no centro de Bruxelas, Juan Fernández Krón hesita em voltar àquele momento. Só aceita falar sobre o assunto depois de alguma insistência.
Se eu o tivesse ferido ou matado o Papa, a questão seria muito diferente, mas não o fiz. Estive perto, mas não cheguei lá.
Como lembra Rui Correia de Oliveira, tudo se passou em poucos segundos e foi muito confuso.
É bom lembrar que naquela altura o telemóvel não era como hoje em dia. A comunicação não rodava, hoje em dia toda a gente tinha logo fotografias do atentado no seu telemóvel.
A maioria dos fiéis não perceberam exatamente o que aconteceu, mas os que estavam mais perto da cadeiria viram que houve algum problema. Por isso, o reitor do santuário, padre Luciano Guerra, vai ao microfone acalmar a multidão e repetir a versão oficial. O Papa desceu alguns degraus para ver um padre que se sentiu mal, mas já está a voltar ao altar. O reitor do santuário não está a mentir. Só no final da celebração vai ser informado de que houve um atentado contra o Papa. Krone foi travado, mas João Paulo II ainda vai estar mais três dias em Portugal. Na cabeça dos responsáveis pela segurança, há agora uma dúvida perturbadora: e se aquele não for o único assassino escondido na multidão? Por volta das 11 da noite, o Papa deixa o santuário e segue para a Casa de Nossa Senhora do Carmo. O polícia Manuel Ramalhete mantém-se por perto. Tem a missão de estar sempre ao lado de João Paulo II. Já lhe salvou a vida e só ficará tranquilo quando deixar o Papa no quarto. Nessa madrugada, há uma reunião ali mesmo sobre o que correu mal e, principalmente, sobre o que tinha de mudar nos dias seguintes. É preciso perceber como foi possível um atentado contra o Papa. O ataque que falhou hoje pode não falhar amanhã. Falam durante uma hora. Estão presentes o chefe da segurança, Manuel Ramalhete, um dos agentes que imobilizaram o padre Krone, o reitor do santuário, representantes dos serviços de saúde e vários servitas, incluindo Rui Correia de Oliveira.
Havia um "mixed feeling" em nós. Havia um enorme cansaço. Havia uma sensação de, apesar de tudo, missão cumprida, com todas as dificuldades, mas tínhamos feito tudo o que era importante fazer. E preocupação, obviamente, porque tinha acontecido um evento mediático muito intenso, mas graças a Deus o Papa não tinha sido atingido e, portanto, essa parte estava resolvida. Agora, a preocupação é como é que amanhã fazemos. Se tudo o que já estava programado já era complexo, amanhã o que é que se pode fazer mais?
É urgente apertar a malha de segurança. Para isso vai ser preciso ir contra a vontade do reitor do Santuário de Fátima.
O reitor não quis polícia dentro do santuário. Isso foi um dos temas quentes discutidos na preparação. Mas o reitor, nessa reunião da noite, aceitou então que junto da comunicação social, tivessem alguns policiais de segurança pública para garantir que as pessoas não saíam do lugar e não avançavam para os espaços reservados, os tais espaços de zona zero previstos na segurança. Máxima atenção, máxima exigência, total intolerância a furar as regras. E, portanto, preparem-se que amanhã vai ser mais apertado.
Na noite de 12 de maio, a organização da visita não tinha considerado necessária a presença constante de uma equipa médica junto do Papa. João Queiroz e Melo, o médico responsável pela saúde de João Paulo II em Fátima e filho de uma das testemunhas do Milagre do Sol de 1917, tinha ficado nas traseiras da Basílica com o resto da equipa médica. Estavam numa pequena ambulância, um jipe de cinco lugares, pronto para retirar o Papa dali numa situação de emergência. Tinham alguns equipamentos médicos básicos, bolsas com sangue do tipo sanguíneo de João Paulo II e pouco mais. Não seriam necessários. A equipa médica não foi chamada a intervir, nem mesmo depois de o padre Krone ter tentado matar João Paulo II, porque não foi preciso sequer observar o Papa. Mas no dia seguinte já não vai ser assim. O cirurgião cardíaco João Queiroz e Melo não vai ficar à espera na ambulância estacionada atrás da Basílica. Vai estar no interior do santuário, sempre um metro atrás do Papa, durante todas as procissões. Se houver alguma emergência com João Paulo II, os médicos vão estar ali, prontos para o socorrer de imediato.
No dia a seguir, deveria haver muita preocupação sobre o que se passa, porque nós íamos todos com as malas, com coisas mínimas para o caso de uma eventualidade cirúrgica. Fazíamos o que os seguranças determinassem.
Quando os agentes detiveram o padre Krone, também encontraram a pasta castanha que deixou para trás depois de atirar o sabre com que queria matar o Papa. Lá dentro estavam as três mensagens escritas a azul nessa mesma tarde pelo padre espanhol. A primeira, em latim, era uma citação do Apocalipse: "Depois disto, vi um outro anjo que descia do céu, dizendo: Caiu Babilônia, a grande". No século VI a.C., o exército da Babilônia destruiu o Templo de Jerusalém e levou os judeus para o exílio. Por isso, na linguagem do Apocalipse, é uma personificação da idolatria, do pecado e da decadência. É um símbolo do Anticristo, que Krone queria aplicar a João Paulo II, que não reconhecia como papa legítimo. Na segunda, o padre Kron citava parte do relato da irmã Lúcia sobre o que a Virgem Maria teria dito aos pastorinhos: "Se a humanidade não se converter, a Rússia espalhará os seus erros pelo mundo". E na última, transcrevia uma passagem de uma encíclica do Papa Pio XI, de 1937: "O comunismo é intrinsecamente perverso". Os detalhes do ataque, o nome do atacante e até estas mensagens que escreveu para João Paulo II vão ser reveladas pelos jornais. Mas há uma informação que o padre Stanislaw Dziwisz, secretário pessoal do Papa, vai manter em segredo durante 26 anos. E só vai contar publicamente depois da morte de João Paulo II. Naquela noite, quando acompanhou o Papa ao quarto, viu sangue. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio. Um ano antes, o atentado de Ali Agca levou as autoridades a investigar as possíveis ligações ao KGB e a um plano internacional para matar o Papa. Agora, a PJ quer ter a certeza de que não está perante uma nova conspiração. Ou pior, a mesma. A polícia admite todas as possibilidades e está determinada a não cometer nem mais um erro. Num só dia, faz quatro detenções. "Matar o Papa" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Pedro Laginha, com banda sonora original de Rodrigo Leão e participação especial de Adriano Luz na voz de Juan Fernández Krohn. O guião e as entrevistas são de João Francisco Gomes. A sonoplastia é de Bernardo Almeida. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de Tânia Pereirinha e João Santos Duarte. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons do arquivo da RTP e outros retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.
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