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As entrevistas Aula Prática fazem parte do projeto Mentes Brilhantes, uma iniciativa do Observador sobre a primeira linha de investigação científica em Portugal, que resulta de uma parceria com a Fundação La Caixa e o BPI.

Olá, bem-vindos à Aula Prática, uma conversa a três que faz parte da série Mentes Brilhantes, uma iniciativa do Observador sobre investigação científica em Portugal. Nestas aulas práticas juntamos especialistas com projetos diferentes, currículos diferentes e, por vezes, idades diferentes também. Uma conversa sobre o que estão a investigar, mas também sobre os desafios e oportunidades que enfrentam na profissão. Eu sou o Paulo Farinha e tenho comigo Carolina Passini, licenciada em Microbiologia e Imunologia, com um mestrado em Imunologia e Inflamação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde nasceu em 1996. Tem, portanto, 29 anos. Trabalha no laboratório de investigação em Hematologia e Imunologia da Transplantação do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes, onde está prestes a concluir o doutoramento na instituição que, entretanto, se fundiu com o Instituto Gulbenkian de Ciência, dando origem ao GIMM, o Gulbenkian Institute for Molecular Medicine. Carolina está a trabalhar num projeto que passa por tentar otimizar uma terapia alternativa para a doença do enxerto contra o hospedeiro em doentes transplantados. Já vamos falar um bocadinho sobre isso. Comigo está também Luísa Figueiredo. É a investigadora principal, também no GIMM. Lidera um laboratório de Biologia do Parasitismo há 15 anos. É membro da Organização Europeia de Medicina Molecular, com um doutoramento pela Universidade do Porto e pelo Instituto Pasteur, em França. Foi investigadora associada na Rockefeller University, em Nova Iorque, onde fez o pós-doutoramento. Recebeu, em 2020, um financiamento da Fundação La Caixa, tal como a Carolina Passini, para investigação sobre a tripanossomíase. Luísa depois dirá o nome corretamente, sem eu me engasgar. Uma infeção causada pelo parasita transportado pela mosca tsé-tsé. É, portanto, uma especialista em doença do sono. Bem-vindas. Luísa Figueiredo, começo por si. O financiamento da ciência em Portugal tira-lhe o sono?

Não, há outras coisas que me tiram o sono. Embora não muitas, porque eu durmo muito bem. Eu estudo a doença do sono, que é causada por este parasita, que é o tripanossoma. Tem este nome difícil. O financiamento em Portugal é competitivo, como o financiamento científico em todos os países, portanto, aí é igual e estamos em igualdade de circunstâncias com os cientistas dos outros países. Talvez a diferença em Portugal é que proporcionalmente se calhar há menos dinheiro, porque não somos um país muito rico. Mas mais do que isso, a agência de financiamento nem sempre consegue abrir os projetos de forma regular e, portanto, a incerteza de quando é que vamos ter um novo concurso para voltar a pedir 250 mil € ou 50 mil € para fazer as experiências, tornam a nossa vida um bocadinho mais difícil, se calhar, do que se fôssemos um investigador em França.

Em comparação com investigadores noutros países. 21 anos separam-vos, uma série deles de experiência também. Já se tinham cruzado nos corredores do GIMM alguma vez?

Sim.

Já se tinham visto. A Luísa tem muitos jovens orientandos da idade da Carolina Passini?

Tenho. O meu laboratório, neste momento, tem quatro alunos de doutoramento, três pós-docs e uma aluna de undergraduate, portanto, de licenciatura, mais nova ainda do que a Carolina. Sim, e é uma das coisas que eu gosto muito nesta profissão de cientista, é que temos o privilégio de trabalhar com malta jovem, que nos estão sempre a ensinar coisas novas e também a colocar-nos desafios, porque é uma geração diferente.

Vamos falar também um bocadinho sobre isso e já vamos falar sobre a sua investigação. Carolina Passini, bem-vinda. Nós tivemos a oportunidade de falar há uns anos, tal como eu também já conversei com a Luísa Figueiredo, nesta mesma série de entrevistas associadas ao projeto Mentes Brilhantes. Nós falámos há uns anos sobre o trabalho da doença do enxerto contra o hospedeiro. Como é que está essa investigação atualmente? Numa fase a aproximar-se do fim?

Sim, já estamos na fase de conclusão do projeto. Conseguimos ter resultados bem interessantes. Foi possível otimizar a cultura dessas células, como era o meu objetivo no início, e a gente conversou isso. E além disso, eu usei um pouco mais de tempo, achei soluções para prolongar um pouco o meu doutoramento e consegui também aprofundar-me nessas células, em como que elas funcionam, quais são os mecanismos que elas usam para suprimir. Então a gente acha que é interessante numa terapia, não só vê-la funcionar, mas também por quais mecanismos isso se dá. Eu usei um pouco mais de tempo para poder fazer mais essas experiências, que são bastante complexas, e acho que tivemos resultados bastante interessantes.

O seu trabalho sobre a doença do enxerto contra o hospedeiro poderá, se tudo correr bem, dentro de uns anos, mudar consideravelmente a vida, e bem, todos os trabalhos que estão a ser feitos em centenas de laboratórios pelo mundo inteiro sobre esse tema, mudar a vida e a resistência de doentes Que tenham sido transplantados. Já vamos falar um pouco sobre isso, mas há uma questão que gostava de lhe colocar. A Carolina estudou no Brasil e veio trabalhar para Portugal. Nunca tinha estado em Portugal, mas sabia que era para cá que queria vir. Por quê?

Sim, eu tive a oportunidade de conversar com investigadores do então IMM num congresso no Brasil. Eu acho que é sempre um ambiente de muita troca e realmente de fazer essas conexões. Tive também professores lá que me indicaram esses professores, que me indicaram o instituto, e foi assim que eu decidi que eu queria vir para cá. Mas no primeiro momento, a minha ideia era só ter um doutoramento fora do Brasil mesmo para ganhar essa experiência internacional e ter esses novos desafios com financiamento, novos equipamentos e outra infraestrutura.

Ganhar uma experiência internacional é particularmente importante quando falamos de investigação científica. Luísa Figueiredo, tem muitos estudantes estrangeiros nas equipas que coordena?

Sim. Atualmente, a minha equipa é metade português, metade estrangeiro. Tenho um nigeriano, Cabo Verde, Índia, dois alemães e um polaco. É bastante internacional. Portugal está na moda.

E portugueses?

E os outros são portugueses. Metade portugueses, metade estrangeiros.

As coisas mudaram muito também nesse campo nos últimos 20 ou 30 anos, não é verdade? Com mais estudantes de doutoramento que vêm concluir os seus estudos em Portugal.

Sim. Neste caso, as pessoas que estão no meu laboratório, os estrangeiros, alguns são alunos de doutoramento, mas outros são pós-doc. Ou seja, eu acho que de uma maneira geral, Portugal, ou pelo menos alguns institutos em Portugal, por estarem a fazer um bom trabalho e serem reconhecidos internacionalmente, conseguem de fato atrair pessoas de outros países que se calhar antigamente não punham Portugal no mapa.

Há pouco falávamos do interesse e também da aprendizagem que um líder de grupo, como é o caso da Luísa, tem com o convívio com estes jovens. Como é que vê esta nova geração de cientistas, atualmente?

Como eu disse, por um lado, há coisas que são fantásticas. Por exemplo, é preciso fazer um vídeo de Natal para uma competição que costumamos ter no instituto. Os jovens, hoje em dia, estão muito à vontade, pegam no telemóvel, fazem de uma maneira, editam de outra, não é preciso ter um estúdio de podcast, eles conseguem fazer vídeos muito divertidos e, na minha opinião, parece quase feito por profissional. Há coisas assim que depois também se traduzem numa certa à vontade em resolver problemas também no laboratório.

E esse à vontade é um à vontade que é positivo para a ciência e para a investigação científica ou é um à vontade que às vezes-

De uma maneira geral é positivo. O que eu estava a pensar: é positivo porque permite que o estudante não sinta muitas barreiras e vá facilmente, ou se calhar mais facilmente, sem ser preciso eu empurrar, falar com uma pessoa de um outro laboratório.

São mais desencascadas?

Talvez. O que eu acho que é mais difícil em relação a alunos que eu tinha há 15 anos, que eu acho que os alunos agora têm mais dificuldade, é lidar com a frustração. Nós em ciência, quando vamos fazer uma experiência, a Carolina pode confirmar, raramente funciona à primeira, ou à segunda, ou à terceira, ou à quarta, ou à quinta. É preciso repetir muitas vezes. Nós não repetimos sempre da mesma maneira. Claro, a segunda tem uma ligeira diferença da primeira, a terceira é um bocadinho, é um processo iterativo, mas esta iteração pode ter muitos ciclos. E esses ciclos, hoje em dia, quando passa, se calhar, de um número de três, ou quatro, ou cinco, o estudante ou o pós-doc vai achar que pronto, já chega, já tentamos tudo. E na verdade, é preciso ir até à 20ª iteração.

É preciso lembrar que não, que ainda não fizeram tudo.

É. Eu acho que agora a minha função, é um papel que eu tenho que ter, que antes não tinha que ter, que é estar junto do estudante e do pós-doc e dizer: "Não, não vamos desistir agora. Agora é que está a tornar-se interessante, porque com estas cinco vezes que já fizemos, já aprendemos isto e agora ainda temos que testar estas outras coisas".

A quantidade de portas que se fecharam e as janelas que se podem abrir agora.

Exato, e mostrar que o processo é assim, que não é aquele estudante ou aquele pós-doc que está a falhar ou que está em burnout. Não é isso. É apenas o processo de fazer ciência, que tem muitas frustrações, mas ele ou ela não estão sozinhos. Nós somos uma equipa, trabalhamos em conjunto e eu sinto que agora, como orientadora, o meu papel é muitas vezes estar a explicar isto. E antes não era necessário, acho eu.

Sente que esta geração de cientistas, estudantes de doutoramento e pós-doc, têm uma resistência à frustração menor?

Sim, mas eu não diria que são só os cientistas. Eu acho que deve ser uma questão geracional. Eu tenho dois filhos de 12 e 16 anos, e sobretudo o de 16, eu vejo exatamente o mesmo padrão E pelo que eu vejo em casa, de certa maneira, não é culpa da geração, ou seja, é o ambiente onde eles crescem.

As ferramentas que têm à disposição.

As ferramentas que têm, as redes sociais, o Google. Hoje em dia, comparado à inteligência artificial, é muito fácil. Nós temos uma resposta em 10 segundos. Basta ligar o telemóvel e temos uma resposta. E um estudante há 20 anos já tinha o Google, mas o Google era um pouquinho deficiente. E nem sempre chegávamos às respostas tão rápido. Eu compreendo, se eu também tivesse nascido agora e estivesse habituada a respostas no momento, de repente entro numa profissão onde se calhar vou passar quatro meses a fazer a mesma experiência com as tais variantes, etc. Eu não vou estar preparada pra isto e nós como orientadores temos que nos adaptar um pouquinho.

Também têm esse papel. Carolina Passini, sente isso? Há aqui este age gap, com as ferramentas todas e com o ambiente em que cresce e com a idade que tem, sente que isto pode resultar numa abordagem aos problemas diferente?

Eu acho que sim. Não sei comparar com as gerações passadas, mas eu sei que na nossa geração talvez exista uma pressão, é o que eu sinto, pelo menos, uma certa ansiedade das coisas darem certo, são muitas cobranças e faz parte, as avaliações e tudo. Eu acho que talvez a gente leve um pouco mais pro lado pessoal, de que isso define quem a gente é também. E na ciência é muito característico isso, como a Luísa descreveu, que às vezes as experiências não correm bem. O que é um cenário ainda pior, eu acho, é quando ela corre bem a primeira ou a segunda, e aí a gente repete pra manter uma consistência, pra ter uma robustez estatística, e em algum momento aquilo não dá mais certo. E aí essa frustração é grande, do gênero, o que deu errado agora? É quase um trabalho realmente investigativo, de detetive, de tentar perceber onde está o erro, se foi uma falha técnica nossa, se foi uma questão de um equipamento ou um reagente, um material que não estava numa boa qualidade. Então começa a ser toda uma construção pra perceber o que aconteceu e isso deixa a gente mais preocupado.

Mas não é isso, no fundo, que é a ciência e o processo científico não passa exatamente por isso? Por que acha que se calhar há 20 anos ou há 30 anos, os cientistas lidariam com isso de forma diferente?

Eu acho que o que acontece, eu acho que também era complicado pra eles, mas no sentido que as coisas ficam cada vez mais caras e existe uma urgência de prazos maior pra entregar as coisas e a competição é maior pra publicação dos artigos. Eu acho que não é culpa daquela geração ou dessa, mas o sistema como evoluiu, faz uma pressão maior que os resultados sejam positivos e que sejam adquiridos rápidos e que a gente publique logo. E é isso que aumenta a frustração, eu diria.

Este papel que a Luísa Figueiredo descrevia do investigador com experiência, o líder de grupo, para reforçar, para dizer: "Não, não és tu, não é o teu trabalho que está mal, faz parte do nosso trabalho, temos que continuar a insistir até chegar às 20, 30 vezes que experimentamos." É particularmente importante no vosso percurso e na forma como constroem as experiências e a investigação?

Com certeza, eu acho que a relação profissional entre o orientado e o orientador é fundamental nesse processo. É muito importante, tanto em questões de saúde mental das duas partes, eu diria, e também pro bom desenvolvimento da ciência. Então eu acho que você ter um orientador que mostra que confia em você, que percebe que você está a tentar fazer o melhor trabalho e que ele está ali pra te apoiar e dar direções, porque ele tem mais experiência, ele já passou por aquilo antes. Às vezes você comete um erro e acha que é o fim do mundo, e ele pode dizer: "Não, tem uma solução pra isso, você não está perdido. Já passei por isso, a gente pode pegar esse outro caminho." Então eu acho que uma boa comunicação aberta com o orientador é essencial, sim.

Luísa, esta sensibilidade para questões de saúde mental, para estar atento a um possível burnout, enfim, e outros desafios de saúde mental, depressão, ansiedade, por aí fora. A pandemia veio permitir que falássemos disso com muito mais abertura, sendo que os jovens investigadores falam disso hoje com mais naturalidade do que acontecia, por exemplo, quando a Luísa era uma jovem investigadora, doutoramento ou pós-doc.

Sim, completamente. No meu tempo, quando eu estava fazendo o doutoramento, se calhar a pessoa tinha que estar mesmo num estado muito avançado, se calhar já de uma depressão, pra finalmente se deixar ter vergonha de falar disso e procurar ajuda. Agora fala-se mais facilmente, as pessoas falam com os seus colegas, as instituições tentam também falar sobre isso, organiza-se workshops. Às vezes alguém dentro dos recursos humanos com quem se pode ir falar mais especificamente sobre este assunto. Portanto, sim, acho que o nível de vergonha que existia antes.

E da parte dos investigadores mais velhos, dos líderes de grupo, há uma abertura e uma naturalidade pra olhar pra isso ou encontra por vezes alguma resistência por parte dos seus pares e aquela conversa, abrir aspas: "Estes jovens agora, qualquer coisa é logo um desafio de saúde mental." Fecha aspas.

Eu acho que nós temos essas duas vozes na nossa comunidade Nossa cabeça. Por um lado, depararmos com as diferenças e às vezes é mais fácil dizer: "Exato. Esta geração não consegue lidar com a frustração", mas depois também há esse outro lado. Não, a gente sabe que as coisas são diferentes e que nós não queremos ser-- a expressão que eu normalmente utilizava no almoço, é que nós não queremos ser os velhos do Restelo, onde estamos só ali a dizer mal e sem apresentar soluções. Por isso eu acho que nós temos que ver por que as coisas são assim, por que é diferente e, de certa maneira, o que nós, como indivíduos ou como instituição, podemos fazer para estar mais abertos e às vezes identificar, de fato, sinais de burnout e compreender quando é que será verdadeiramente burnout ou quando é que será apenas a tal frustração de não saber que o processo vai demorar mais tempo. E às vezes o estudante, se calhar, vai chamar de burnout uma coisa que não é ainda burnout. Mas como a Carolina estava a falar há pouco, acho que aqui a comunicação é fundamental, porque aí o orientador vai percebendo entre ensinar: "Olha, ainda não chegamos lá e a luz está longe, mas está lá no fundo do túnel". E vamos vendo como é que o aluno reage a isto e, portanto, eu acho que, no geral, nós, mais velhos, também estamos a aprender com as situações novas com que nos deparamos.

Gostava que tivesse havido essa sensibilidade e essa abertura para falar dos temas quando era uma estudante de doutoramento e de pós-doc?

Na minha situação em particular, não foi preciso, mas eu conheço colegas que tinham orientadores extremamente difíceis e onde essas pessoas sofreram bastante com o doutoramento. Portanto, olhando assim de uma maneira geral, acho que o ambiente teria sido melhor para todos se tivesse sido mais fácil. Eu tive a sorte de escolher sempre orientadores que estavam bastante abertos. Eles não estavam tão presentes, nem de longe nem de perto, como eu tento estar hoje em dia, mas estavam o suficiente para dar essa palmadinha nas costas quando as coisas não estavam funcionando.

Que é tão importante.

Exato.

Muito mudou na ciência em Portugal, esse ponto em particular é um deles. Temos hoje mais investigadores, temos hoje mais institutos de investigação. Temos hoje mais portas de financiamento, também?

Temos, por exemplo, a La Caixa, há uns anos atrás.

Vai hoje ajudar bastante a investigação científica em Portugal.

Mas não só. Para além dos euros que chegam ao nosso laboratório e às bolsas que pagam aqui, como a Carolina. A La Caixa tem uma forma de funcionar muito eficiente. As pessoas estão presentes, os administradores responsáveis por verificarem se eu estou a gastar o dinheiro bem, se estou a fazer as coisas como deve ser, são pessoas que eu conheço, que estão à distância de um e-mail, que respondem aos meus e-mails e, portanto, é muito fácil nós trabalharmos com a La Caixa. E isto dá a mim e a todas as pessoas que têm financiamento da La Caixa, uma certa referência do que nós gostaríamos que existisse na agência de financiamento principal em Portugal, que é a FCT. Brevemente a i ao quadrado, ou se já é a i ao quadrado.

Entretanto, numa fase de transição.

Exato. É isso.

Carolina, sente que a sua decisão para ser investigadora e para fazer ciência, torna-se mais fácil com o acesso justamente a fontes de financiamento e a possibilidade de fazer, nomeadamente, o seu doutoramento. Falávamos há pouco de um age gap e de uma diferença na abordagem aos desafios. A Carolina e os seus colegas da sua idade sentem que têm hoje mais portas a que bater para procurar financiamento para a vossa formação?

Acho que sim. Acho que a Europa, de forma geral, também está mais inclinada a trazer mais opções de financiamento, a ter mais investimento na investigação. E em Portugal também, eu já estou aqui há algum tempo, eu consigo sentir uma melhora, também em organização, como a Luísa estava a dizer, a questão de burocracia. Isso tudo é às vezes bastante lento e complicado, justamente contraditório quando eu disse que a investigação demanda alguma agilidade. E a gente está sempre atualizado com os artigos que saem e com os nossos projetos, tudo se transforma de uma forma bastante rápida. Então você ter uma agilidade nessa resposta das questões de financiamento, na resposta se você foi selecionado ou não, e quando você consegue começar o projeto, é fundamental. Então eu acho que existe um trabalho em direção a isso, acho que ainda tem muito trabalho a se fazer, mas justamente quando referências como a La Caixa, como a Luísa falou, aparecem, você tem um norte, você tem uma ideia do que deveria ser O padrão.

O processo ideal. A Carolina, o primeiro artigo que nós publicamos sobre o seu trabalho foi publicado em 2020, a Carolina estava no arranque do seu projeto de doutoramento. A Carolina dizia que queria ser cientista para, e agora cito: "Para mudar o mundo." Continua com essa motivação? Continua igual?

Sim, são palavras fortes, mas eu acho que a nossa intenção tem que ser sempre a maior, a melhor possível. Então qualquer pessoa que, por exemplo, faz ciência, eu acho que ela está ajudando a mudar o mundo, mesmo que isso não de forma palpável vire rapidamente uma terapia aplicável. A ciência, como eu também já disse antes, é uma construção, são vários blocos que são montados pra se chegar a um nível de conhecimento e todos são importantes. Então eu acredito que minha pesquisa já aos poucos consegue mudar o mundo dentro da nossa condição, da nossa esfera, e eu acho que essa é a motivação de vários outros investigadores também, fazer isso porque é importante.

Falando concretamente da doença do enxerto contra o hospedeiro. Como é que imagina daqui a 10 anos? Se tudo correr bem, daqui a 10 anos, e este é o nome de um formato que nós temos também no observador, associado ao projeto Mentes Brilhantes, em que colocamos essa questão a alguns investigadores. Se tudo correr bem, daqui a 10 anos, como é que espera que esteja o seu projeto e onde é que espera poder estar com essa investigação em particular?

Eu espero que já tenham sido feitos alguns ensaios clínicos, isso já esteja mais perto de uma plataforma pra testar essa terapia, que um dia possa ser usada realmente em pacientes que precisem, porque a terapia atual é um pouco complicada em termos de efeitos colaterais e nem todos os pacientes respondem bem. Então novas alternativas são realmente necessárias. E tem outros grupos que estudam outras vertentes, tentam buscar isso por outro lado, eu acho superválido, não existe só uma resposta certa, eu acho que todos temos que tentar e ver, no fundo, o que funciona melhor pra cada paciente também, as coisas são bem heterogêneas.

E muitas vezes é o trabalho que está a ser desenvolvido num laboratório neste momento, ou entrevistas que estão a ser feitas a investigadores neste momento em Oakland, ou em Berlim, ou em Washington, ou seja onde for, que depois juntando-se à sua, poderão dar esse fruto.

Sim, exatamente. É uma conversa entre todos os laboratórios, é sempre uma comunicação mesmo, que tem que existir através dos artigos e dos congressos pra que a gente aprenda juntos, sempre cada vez mais. E o que eu posso dizer da minha parte, no meu projeto, é que eu tenho o plano de fazer um pós-doutorado, onde eu vou levar já um pouco dessa aplicação que a gente conseguiu otimizar em laboratório, para uma plataforma industrial. Então é fazer essa translação de sair de um-- como é que diz?

Do laboratório.

Usar small grade. É, sim. Esqueci mesmo a palavra.

Como é que se diz em inglês?

Tipo small grade, um ambiente menor.

Aumentar a escala?

Pequena escala? Aumentar a escala.

Isso. É mesmo sair de uma escala pequena pra uma escala maior, onde a gente pode já começar a pensar em esterilidade e todas as regulamentações que é necessária pra que essa terapia um dia possa sequer ser testada em humanos. Então isso a gente chama de boas práticas de fabrico e a gente precisa testar tudo isso antes, então ainda tem um caminho pra percorrer.

Esse pós-doutoramento e o seu doutoramento, nós estamos a gravar esta nossa conversa no início de janeiro. Essa defesa de tese deverá ser feita algures em fevereiro. E depois, admitindo que tudo corre bem, estamos a torcer pra que sim, certo. Esse pós-doutoramento será feito em Portugal?

Sim, esse pós-doutoramento foi idealizado já há alguns anos por mim, pelos meus orientadores, esse projeto, essa continuação. E nós já temos o financiamento e ele está previsto pra começar no fim de fevereiro. Então é por isso que se tudo correr bem, eu já vou ter tido a defesa e o grau de doutora pra poder assumir essa posição.

Então, voltamos a falar novamente daqui a uns tempos sobre isso. Luísa, e daqui a 10 anos, em que passo espera estar na sua linha de investigação na área da doença do sono e do parasita que a provoca?

Então, neste projeto que nós tivemos da La Caixa, que na verdade é uma parceria com o laboratório do Cláudio Franco, na Universidade Católica, nós juntamos os dois, porque eu sou especialista no Tripanossoma e o Cláudio é especialista nos vasos sanguíneos. Porque a nossa pergunta é: como é que o Tripanossoma, que é um micróbio grande, extracelular, portanto encontra-se no sangue, como é que ele sai do sangue, atravessa os vasos e entra nos tecidos? E esta é a nossa grande pergunta. Nós achamos que o parasita, este micróbio, vai utilizar moléculas específicas do próprio parasita, moléculas específicas das células que formam os vasos, e portanto, nós propomos identificar essas moléculas. E o que eu gostava em 10 anos era perceber se essas moléculas e esse mecanismo de passagem do sangue para os tecidos, onde vai causar patologia, é único deste parasita O micróbio que nós estudamos, que é o Trypanosoma, ou se, na verdade, outros agentes patogênicos, ou vírus, Leishmania, malária, outros parasitas, outros micróbios que causam doenças infecciosas também utilizarão vias de atravessamento parecidas. Isso seria muito interessante, porque permitia-nos não só entender a doença da tripanossomíase humana africana, que felizmente é uma doença que está praticamente eliminada e, portanto, não vai trazer melhoria de vida a muitas pessoas, embora seja um enorme problema veterinário.

Com grandes consequências ao nível da economia dos países em questão.

Exatamente, porque se a agricultura não se pode desenvolver, as pessoas mantêm-se muito pobres. Eu fui recentemente à Uganda e vi famílias que dependem de vacas que ficam doentes. Nenhum dos meninos tinha sapatos.

Está tudo ligado.

Está tudo ligado, exatamente. Portanto, o problema veterinário é grande, mas pensando neste projeto em específico, eu acho que se nós conseguíssemos ir para lá do Trypanosoma e perceber por que os parasitas e os micróbios vão para determinados tecidos e não outros, e qual é a forma que eles utilizam para lá chegar, vai nos permitir, à comunidade científica, perceber por que a patologia é no pulmão, por que é no tecido adiposo, por que é nos ossos. E isso depois ser utilizado por outros laboratórios, que já não serão o meu, porque o meu faz investigação fundamental, mas para desenvolver formas de tratar isso.

E é assim mesmo que a ciência funciona e a partir da ciência fundamental, depois outros passos e outras portas se abrem. E, aliás, o exemplo de que falava com a sua ligação ao laboratório do Cláudio Franco, do Catholic Biomedical Research Center. Que também já foi nosso convidado aqui. Também já passou por cá, também financiado pela Fundação La Caixa, é um bom exemplo dessa ligação. Luísa Figueiredo, seja na evolução do seu trabalho perante o Trypanosoma, e agora consegui dizer sem me engasgar. Carolina Passini, seja na continuação da sua investigação sobre a doença do enxerto contra o hospedeiro, espero voltar a conversar convosco em breve para saber como é que estão esses projetos. Obrigado pela vossa disponibilidade. Este foi o "Aula Prática", um formato do projeto Mentes Brilhantes, do Observador sobre investigação científica em Portugal. Até a próxima.