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Bem-vindo ao "Nem Tudo o Que Vai a Rede é Bola" com Bruno Roseiro, Mariana Fernandes e comigo, Aníbal Rebelo. Um programa onde, na segunda parte, vamos falar sobre o Futebol Clube do Porto, com uma entrevista a José Fernando Rio, candidato à presidência do clube. Para já, começamos, Bruno Roseiro, com: já cheira a bola nos nossos estádios. Está prestes a recomeçar a Primeira Liga, é isso?
Está prestes, mais ou menos. Ainda vamos ter de esperar um mês, mas acho que ficam quatro notas importantes para dar, até porque nem tudo está resolvido. Uma primeira nota: eu diria que este acordo que houve em relação à Primeira Liga foi o exemplo paradigmático daquilo que António Costa referiu, por mais do que uma vez na semana passada, e que tinha a ver com o equilíbrio que tinha de haver entre saúde e economia para este desconfinamento. E claramente aqui imperou a questão de economia, porque aqueles € 70 milhões que os clubes da Primeira Liga têm a receber ainda dos direitos televisivos não poderiam deixar de entrar, porque isso significaria problemas de tesouraria e problemas financeiros de difícil resolução. Depois, alguns pontos que estão ainda por resolver. Nós não sabemos onde é que se vão jogar estas 10 jornadas, apesar de se perceber que provavelmente será nos estádios do Euro 2004, mas ainda não se sabe quais. É preciso resolver a questão do Marítimo, que não quer sair da Madeira. E depois existem ainda algumas questões, nomeadamente o prolongamento do contrato de 140 jogadores que termina a 30 de junho e também os novos seguros que terão de ser feitos. Uma nota ainda para a Segunda Liga e para perceber por que não existe Segunda Liga e que é algo que gerou muita celeuma, porque, por exemplo, em Espanha vai-se jogar a Primeira e a Segunda Liga. O primeiro ponto, os custos de toda a logística que acontecerá da Primeira Liga, na Segunda Liga seria muito mais complicado. E um outro ponto, através da Federação e através da Liga, por sugestão do G15, os direitos televisivos que haveria a receber conseguirão ser distribuídos. Ou seja, pode não ser os € 2 milhões já, mas entre Federação e Liga haverá essa retribuição para que os clubes não fiquem muito em dívida. Depois, um outro ponto que eu quero já aqui deixar salvaguardado e que tem a ver com processos que poderão correr em tribunal, nomeadamente clubes do Campeonato Nacional de Seniores que não concordam com a promoção do Vizela e do Arouca. E nós já vimos no passado recente, e temos o caso nomeadamente do Boavista, não é bom estarem a decorrer este tipo de processos que poderão, caso a decisão assim o aponte, mudar depois, a médio prazo, o calendário das competições e os próprios nomes das equipas e as competições.
Vamos ficar atentos também a esse tema. Lá por fora, tivemos já o cancelamento da Liga Francesa e há um atraso na Liga Alemã.
Sim, porque a Liga Alemã era a única, digamos assim, na Europa, que já tinha colocado uma data bastante estanque para este reinício da competição, dia 9 de maio, portanto, no próximo sábado. Estava tudo preparado para a Bundesliga voltar, ia ser a primeira grande liga europeia a regressar ao futebol, a regressar aos jogos, ainda que à porta fechada. A verdade é que teve de adiar este reinício ou para a próxima semana, ou só para daqui a duas semanas, porque a verdade é que Angela Merkel, a chanceler do país, decidiu deixar esta decisão um bocadinho congelada quando, depois das primeiras medidas de desconfinamento serem aplicadas, o país acabar por registar nos últimos dias um aumento do número de casos novamente e um aumento também do número diário de vítimas mortais. Portanto, acabou por ser uma decisão que ficou congelada na Bundesliga, decisão essa que acabou por ser um bocadinho engrossada quando se descobriram mais três casos positivos em equipas, desta vez no Colónia, dois jogadores, um fisioterapeuta. Colónia, que por si continua a treinar, está a ser bastante criticado até por isso, até por elementos do próprio governo da Angela Merkel, por continuar a treinar, por continuar os trabalhos, quando existem três casos positivos no plantel. Em França, a verdade é que o campeonato acabou, numa decisão que foi um bocadinho antecipada durante o próprio dia em que foi tomada, mas a verdade é que acabou por cair como uma bomba. Portanto, é uma das principais cinco ligas europeias, a par da Holanda, do primeiro caso, que acaba por terminar de forma prematura. Foi feito então um cálculo para distribuir posições, para decidir também quais são os clubes que vão às competições europeias. O PSG foi declarado tricampeão francês, ainda não sabe se poderá ou não jogar a Champions, já se mostrou bastante disponível para jogar a Liga dos Campeões em campo neutro, portanto, fora de França, porque não vai poder precisamente jogar futebol em França. Foi essa a decisão do governo francês. Todos os grandes eventos, incluindo os eventos desportivos, estão proibidos até setembro. Em Espanha, o modelo que será seguido será muito semelhante ao modelo português, ainda que com mais tempo de treinos, portanto, com o recomeço mais tardio do futebol e também, como o Bruno já disse, com o regresso da Segunda Liga, a par da Primeira Liga. A verdade é que em Espanha começa já a falar-se por que lá o futebol vai começar um bocadinho mais tarde do que cá, mas a verdade é que é exatamente isso que vai acontecer. Portugal, se tudo correr bem, vai começar a jogar futebol mais cedo do que se vai começar a jogar futebol em Espanha. Itália e Inglaterra continuam ainda como principais dúvidas, sendo que no caso de Itália os treinos, pelo menos individuais Recomeçam esta semana, onde existe ainda um claro receio das autoridades governamentais em declarar este reinício do futebol, em assumir este reinício do futebol. Entretanto, Cristiano Ronaldo, em princípio, vai conseguir regressar entre hoje e amanhã à Itália e terá provavelmente de cumprir um período de 14 dias de quarentena antes de regressar aos treinos. E então Inglaterra, a Premier League, onde não existe um consenso em pontos tão fulcrais como a realização de jogos em campo neutro, isto obviamente para realizar os jogos em campos onde estejam reunidas mais condições de segurança e de higienização.
Muito bem, e agora vamos às cartas com o Ás, o Joker e a Carta Fora. Bruno, dás o primeiro ás aos presidentes dos três grandes.
Que merecem. Que merecem por aquilo que aconteceu na semana passada, por aquilo que as pessoas sabem que aconteceu, por aquilo que aconteceu noutras reuniões à porta fechada. A verdade é que quando se pensava que aquilo que se valeria na reunião que houve em São Bento com António Costa era se Vieira e Pinto Costa tinham estado a falar um com o outro, se Frederico Varandas tinha ou não feito um teste, porque quem está na linha da frente das duas, ou entra de quarentena ou então tem que ter essa salvaguarda. Na verdade, aquilo que se falou foi do que se passou nessa reunião em específico, ou seja, onde se juntou claramente os três grandes juntos, porque percebem claramente que nesta altura não é propriamente uma altura para guerrilhas pessoais e entre rivais. E depois também aquilo que aconteceu na reunião a seguir ao anúncio das medidas por António Costa, onde os três presidentes dos três grandes voltaram a bater o pé na reunião da liga, a dizer que estiveram a defender os interesses de todos os clubes. Inclusivamente, Frederico Varandas chegou mesmo a dizer: "Se não fôssemos nós, se calhar não havia futebol e isto podia ser muito complicado para toda a gente". Luís Filipe Vieira também a colocar Pedro Proença sob pressão por tudo aquilo que já estava decidido, nomeadamente o apoio à Segunda Liga e que ele não tinha revelado. E, portanto, eu diria que isto foi uma espécie de prolongamento de uma série de reuniões que já houve por outros motivos, nomeadamente as receitas televisivas, os cortes salariais, o marketing, a questão das modalidades. Portanto, os três grandes estiveram a trabalhar juntos nesses aspetos e na semana passada, a seguir ao anúncio de António Costa, mais uma vez voltaram a dar essa ideia de unidade, que me parece que nesta altura é importante, porque o futebol vai precisar disso.
E o outro ás, já cá faltava. Jorge Jesus, já estávamos com algumas saudades, Mariana.
Sim, já tínhamos algumas saudades de o ter aqui e normalmente sempre ou no Ás ou no Joker. A verdade é que o treinador português voltou ao Brasil, onde começará de novo os treinos no Flamengo, apesar de ter estado sempre em Portugal a controlar os trabalhos que os jogadores brasileiros iam fazendo neste período. Perdeu nesta altura, se calhar, parte do embalo das conquistas que tanto falámos no final do ano passado, também no início deste ano, da Libertadores, do próprio Brasileirão, dos três títulos conquistados em 10 dias, já em 2020. A verdade é que perdeu esse embalo para chegar ao lugar que queria num grande europeu. Ele próprio que tinha dito que sair do Flamengo só para cinco clubes. Continua a ser, apesar disso, uma figura idolatrada no clube, pelos adeptos também do Flamengo. Terá agora, nos próximos dois meses, de tomar a decisão de renovar, de ficar mais um ano no Brasil ou de sair no final do vínculo e nesta altura de esperar por uma oportunidade.
Não saias daí, Mariana, porque nos trazes agora o Joker, Hafthor Bjornsson.
Hafthor Bjornsson, que assim à partida é um nome desconhecido, mas a verdade é que é um gigante islandês de 31 anos, com quase 2,10 metros e 205 quilos, que ficou sobretudo conhecido pelo papel que interpretou na série "Guerra dos Tronos", onde era o Mountain, portanto, Montanha, em português. O conhecido guarda-costas de Cersei Lannister, que conseguiu no meio desta pandemia fazer um bocadinho esquecer tudo aquilo que se está a passar e bater um recorde do mundo que acaba por ser assinalável. Levantou 501 quilos numa sessão de halterofilismo, que foi transmitida pela ESPN. Bjornsson tem uma série de medalhas no concurso do homem mais forte do mundo. É, aliás, a designação dele. Se formos à Wikipedia, ele é descrito como um strongman, portanto, é exatamente isto que ele faz pela vida. Mas a verdade é que até começou no basquetebol, foi jogador de basquetebol na Islândia e acabou por deixar apenas por uma lesão no tornozelo. Poderíamos estar aqui a falar de um gigante islandês que estava a fazer carreira no basquetebol.
E Bruno, temos agora Sia Kolisi também no Joker.
Muito rapidamente, ele é o capitão da equipe de rugby da África do Sul, que foi campeã mundial no final de 2019, naquela final com a Inglaterra. Que a seguir ao jogo, o discurso e as palavras que teve, eu diria que ajudaram a começar a construir um legado que vai perdurar na história. É muito importante a ação que ele tem tido durante esta pandemia, nomeadamente através de uma série de iniciativas na zona de Zwide, que é de onde ele é natural, ali na zona de Port Elizabeth. Tem feito parte da equipe de voluntários que tem distribuído comida por zonas mais carenciadas no país até agora mais afetado por este novo coronavírus e mais uma vez Sia Kolisi consegue interpretar da melhor forma o papel que ele começou a ganhar na final do Mundial de Rugby.
Bruno, se nos trazes aí um bom exemplo no Joker, agora trazes-nos o mau exemplo na Carta Fora com o doping no desporto.
Com mais três atletas, neste caso duas velocistas americanas e um fundista queniano, a serem castigados. Neste caso, não é necessariamente por doping, é por terem violado a regra das informações. As autoridades têm de saber onde é que os atletas andam para caso queiram ir fazer testes surpresa. Para mim é uma carta, neste caso, mais abrangente. E por quê? Porque nessa altura da pandemia, eu temo que o fato de não ter havido controles pode vir a tornar-se um problema a médio prazo. E é para isso que existem os passaportes biológicos e foi também isso que nós vimos em muitos casos de atletas russos, oxalá eu me engane, mas parece-me que é um problema que vamos ter latente e a médio prazo.
E a outra carta fora do baralho, Mariana, é Nasser Al-Khelaifi.
Sim, o presidente e dono do PSG. A verdade é que esta foi uma semana em que o PSG acabou por ter tudo, por passar pelo mau, pelo menos bom e pelo bom. Portanto, foi declarado tricampeão francês, porque a Liga Francesa terminou, teve uma nota que ainda acaba por ser uma incógnita e que passa por essa possibilidade ou não de poder jogar em terreno neutro os quartos e quiçá as meias e a final da Liga dos Campeões ainda em agosto em terreno neutro. E a verdade é que teve uma nota negativa que é o fato do Nasser Al-Khelaifi, o dono, o presidente, ir a julgamento na Suíça, acusado de corrupção na atribuição dos direitos televisivos dos Mundiais de 2026 e 2030. Isto porque é preciso não esquecer que além de dono do PSG, Al-Khelaifi é também dono da BeIN Sports, do gigante conglomerado de comunicação do Qatar, não sendo esse o único processo em que está ligado, porque também existe outro da atribuição destes mesmos direitos televisivos, mas dos Mundiais de Atletismo indoor.
Muito bem, agora vamos para o túnel. Vamos a contas, Bruno Roseir. O Sporting vai receber mais uns milhões por Bruno Fernandes?
Queria ou alegadamente queria, mas não vai. Muito resumidamente, aquilo que foi veiculado este fim de semana e que daquilo que eu sei, ainda não foi nem confirmado oficialmente, nem desmentido oficialmente, dizia respeito à possibilidade de o Sporting poder ficar com 4,6 milhões de euros da transferência do Bruno Fernandes, que estavam relacionados com os 10% da mais-valia que a Sampdoria tinha direito e que ficou acordado quando o Bruno Fernandes chegou ao Sporting. Qual é a questão aqui? Os administradores do Sporting estão nesta altura a ver a possibilidade de, com a rescisão que houve de contrato em 2018 e posteriormente a realização de um novo contrato, de essa cláusula poder ter caído. O que é que para mim no meio disto tudo acaba por ser estranho? Porque esta foi exatamente a razão que levou a uma guerra entre o Bruno Carvalho e Jorge Mendes, que estes administradores atuais da Sporting SAD acabaram por dar razão a Jorge Mendes, ou seja, ele reclamava direitos em relação a vendas de Adrien e de Rui Patrício e que tinha a ver também com o processo de renovação e pelo qual os dirigentes do Sporting achavam que já não teria direito a isso. E não deixa de ser curioso que para uns aplica-se uma lei, mas agora poderá aplicar-se outra, que na minha ótica seria um precedente muito perigoso, até em termos de futebol.
Mariana, vamos ao cancelamento das modalidades coletivas de pavilhão neste túnel.
Sim, a verdade é que é um cancelamento que já estava a ser preparado pelas federações, que está a gerar protestos por parte de algumas equipas como o andebol do Futebol Clube do Porto, mas que até podia não acontecer. Isto porque poderia ter sido aplicada a mesma lógica que foi aplicada no futebol, que é o fato de começar mais tarde, acabar também mais tarde, portanto terminar as épocas fora de tempo. A verdade é que os custos brutais que isso implicaria não só para cumprir os protocolos de saúde, mas também para prolongar os vínculos que são feitos muitas vezes a 10 meses, fizeram com que deixasse de ser uma possibilidade, tendo em conta as dificuldades que muitos clubes já atravessam. Portanto, a verdade é que foi tomada uma decisão, foram pesados os contras e os prós, e acabou por se chegar à conclusão de que seriam mais altos os custos de terminar esta época fora de tempo do que de acabá-la prematuramente como acabou por acontecer.
E Bruno Roseir, falamos agora de Cláudia Santos, a escolha de Fernando Gomes para o Conselho de Disciplina, aqui a envolver a política e o futebol.
Sim, foi uma notícia que passou de uma forma marginal até ontem ter sido tema de conversa no habitual espaço de opinião de Marques Mendes na SIC. Nessa ótica, exatamente pela ligação entre política e desporto, que ele não está a gostar da perspectiva que se está a construir. Eu trago este tema numa outra ótica. Cláudia Santos vai liderar o Conselho de Disciplina nas próximas eleições da federação, entra para o lugar do José Manuel Meirinho. Já tinha estado na primeira Comissão de Instrução e Inquéritos da Liga entre 2012 e 2017 e o problema aqui tem a ver com uma suposta incompatibilidade que existirá com alguns administradores do Futebol Clube do Porto e que o próprio Mário Figueiredo, antigo presidente da Liga, também já veio falar. Parece-me que uma escolha que devia ser salomónica e até convinha que fosse salomónica, ainda não existe, mas já está a criar algum ruído, nomeadamente em relação ao Futebol Clube do Porto.
Vamos ficar atentos também a esse tema. Na segunda parte deste programa vai se juntar a nós José Fernando Rio, candidato à presidência do Futebol Clube do Porto. Até já.
Chamo-me Tânia Paradinha e faço parte da secção de sociedade do Observador. Quando era miúda queria ser repórter de guerra, foi por isso que me tornei jornalista. Em 16 anos de profissão e feliz ou felizmente, nunca passei por nada sequer parecido, pelo menos até agora. Esta pandemia será a minha, aliás, será a nossa guerra. Mais do que nunca, é essencial perguntar, explicar, revelar e ajudar o público a distinguir entre os rumores e o diz que disse e a verdadeira informação. É isso que fazemos 24 horas por dia, todos os dias no Observador. Se quer juntar-se à nossa missão de serviço público, torne-se assinante do Observador.
Segunda parte do Nem Tudo o Que Vai a Rede é Bola. Junta-se agora aqui a nós José Fernando Rio, candidato à presidência do Futebol Clube do Porto. Antes de mais, obrigado por estar aqui conosco. E fica já a pergunta: o que levou a avançar com uma candidatura à presidência do Futebol Clube do Porto, quando quase em 40 anos Pinto da Costa teve apenas um adversário em eleições diretas?
Olá a todos e também aos ouvintes da Rádio Observador. O que me leva a candidatar à presidência do Futebol Clube do Porto, em primeiro lugar, é o meu portismo, obviamente. Portista desde pequenino, preocupado com o clube, dedicado, ir a todos os jogos fora, em casa. Portanto, uma grande paixão pelo Futebol Clube do Porto. O que me faz avançar neste momento é a preocupação com o futuro do Futebol Clube do Porto. Eu temo que o Futebol Clube do Porto, tal como existe, possa estar em perigo por causa de uma dívida de gratidão. Eu sei que há uma dívida enorme em relação ao atual presidente, mas essa dívida não pode pôr em causa a existência do clube. E neste momento, o Futebol Clube do Porto, para ter futuro, tem que ter uma alternância na direção do clube. O Porto tem que passar a ter uma gestão rigorosa, uma gestão profissional, uma gestão transparente e, acima de tudo, uma gestão que seja capaz de delinear uma estratégia a médio e a longo prazo, porque eu acho que é visível para todos que, neste momento, a gestão do Porto faz-te a pensar apenas no dia de hoje, em resolver os problemas que vão aparecendo e não em antecipar esses problemas, outras questões e formas de os resolver. Portanto, eu acho que o problema principal que eu vejo no Futebol Clube do Porto e que me faz avançar nesta altura é exatamente este problema que tem a ver com o futuro do Futebol Clube do Porto.
Dentro de tudo aquilo que falou e se tivesse de escolher apenas e só um momento decisivo para avançar, diria que foi os pedidos que foi sentindo por parte dos adeptos, os resultados desportivos da equipa ou as contas da SAD, nomeadamente os valores apurados no primeiro semestre?
Vamos ver uma coisa. Os valores apurados nas contas do primeiro semestre são resultado de um processo até se chegar aqui. Essas contas não vêm do nada. É verdade que se falhou a ida à Liga dos Campeões, mas um clube como o Porto tem que estar preparado para essa eventualidade. Portanto, isso daqui é um processo que culmina, neste momento, com esse prejuízo de 52 milhões de euros no primeiro semestre. E obviamente, o problema das contas é que depois se reflete na performance desportiva da equipa, nomeadamente a sua equipa de futebol profissional. Repare, para esta época, o Porto teve que refazer meia equipa, porque saiu o Herrera, o Brahimi, até saiu um costuzeiro, saiu o Militão, saiu o Felipe, todos eles peças nucleares da equipa. O Iker Casillas, por outras razões, também deixou de poder jogar. E, portanto, tivemos que refazer uma equipa, o que dificulta, obviamente, o trabalho da equipa técnica. Mas nesta época e para a próxima, vamos ter novamente que fazer uma reformulação, e se calhar, ainda mais profunda do plantel, porque as necessidades financeiras da equipa vão obrigar uma venda acentuada dos melhores valores da equipa.
O José Fernando Rio fez sempre a questão de ter um discurso pelo Futebol Clube do Porto e não necessariamente contra ninguém, nem contra grupo específico de pessoas, mas em que momento é que sentiu que uma liderança sempre tão elogiada, digamos assim, perdeu o sucesso?
Eu acho que a liderança tem vindo a perder o elã que sempre teve. Jorge Nuno Pinto da Costa é o maior presidente sempre da história do futebol e, portanto, o maior presidente sempre da história do futebol português e do Futebol Clube do Porto. E é um homem que entende muito de futebol e, acima de tudo, entende muito bem o que é o espírito dos sócios do Futebol Clube do Porto, dos adeptos, da gente da cidade e da região. E nisso é um homem realmente diferente dos outros. Agora, deixou, se calhar, não sei se porque confiou em demasia ou por algum desleixo, deixou de ter em atenção que para o clube poder subsistir e ter um futuro, tal como teve um passado, tem um presente, deixou de olhar para as contas e deixou-se envolver numa gestão menos transparente, menos rigorosa e muito pouco, aparentemente, profissional. Portanto, eu acho que seja o momento de haver uma mudança profunda no Futebol Clube do Porto, porque senão o Futebol Clube do Porto arrisca-se a não ter futuro.
Dentro dessa radiografia, em termos financeiros, que está a traçar, que linhas é que acha que é mais importante mudar para dar uma outra sustentabilidade ao projeto do clube, não só em termos financeiros, mas também em termos desportivos, fazendo essa ligação?
O básico e o principal, o Porto tem que reduzir custos e tem que tentar aumentar ou encontrar novos tipos de receitas. Em relação aos custos, há duas decisões que podem ser imediatas e que têm também efeitos imediatas, que é baixar os custos salariais, quer com o plantel, quer com a administração da SAD. Ainda não nos podemos esquecer que o principal custo do futebol é salários, dos jogadores, das equipas técnicas, das administrações. Mas eu acho que reduzir Drasticamente os salários da administração para metade e baixar os salários do plantel. Obviamente que não se pode chegar agora aos jogadores, apesar de se ter feito nesta altura, mas foi uma coisa circunstancial por causa da pandemia, não se pode chegar ao pé dos jogadores e cortar-lhes no salário. O que tem que haver é uma maior aposta na formação azul e branca. É preciso criar uma academia, o Porto está muito atrasado nesse capítulo em relação aos seus adversários. Não quer dizer que a formação do Porto não seja má, mas eu julgo que não tem todas as condições para que possa ser melhor. Os jogadores que saem da formação têm que ser o maior contribuinte para a equipe principal. É evidente que eu sei que nenhum clube consegue viver e ser competitivo só com base nos jogadores que forma. Mas esta tem que ser a base e tem que ser o seu principal sustento, quer financeiramente, quer desportivamente. Se nós formos tendo a capacidade de enquadrar os valores que vamos formando, obviamente que esses jogadores terão custos mais reduzidos, porque não há a sua aquisição, terão também salários mais compatíveis e depois eventualmente poderão ser transacionados com lucro. Outro fator onde podemos reduzir os custos é, por exemplo, nos custos que o Porto tem com a intermediação de jogadores, de compra e venda. Eu acho que os custos são altíssimos. E são altíssimos, talvez, porque o Porto não trabalhe no mercado livre. Eu acho que o Porto privilegia um, dois, três agentes e depois isso dificulta e diminui muito o seu campo de recrutamento. Eu acho que do lado dos custos, claramente estas medidas são rápidas e profundas. Mas podem ser tomadas de imediato. E depois, dos lados das receitas, também há muita coisa a fazer. Felizmente para quem vem e infelizmente para quem está, há muita coisa para fazer. O Porto pode procurar novos patrocinadores. O Porto é uma marca com prestígio não só nacional como internacional e tem muito poucos patrocinadores a nível internacional. É um trabalho que tem que ser feito. O Porto, por exemplo, pode valorizar ainda mais o dia de jogo, em termos de receitas. O Porto pode fazer com que as pessoas cheguem mais cedo, que saiam mais tarde, que disponham de mais dinheiro enquanto estão dentro do estádio, em termos de marketing, de alimentação, de experiências com os jogadores. Há uma série de medidas que se podem tomar durante o jogo e que potenciam receitas. Assim como temos que reforçar a relação entre o sócio e o clube. Eu acho que há que valorizar também o cartão de sócio do Futebol do Porto. Por exemplo, pode ser um cartão recarregável e depois essa quantia ser gasta dentro do estádio ou dentro do museu, dentro da loja do Futebol do Porto. E o Porto também tem que procurar novas parcerias comerciais e que tragam vantagens para os sócios. Tudo isto faz com que haja uma potência maior por ser sócio do Porto e uma pessoa sendo sócio do Porto, sente que obviamente paga a sua cota, mas também tem outras vantagens.
E aqui, além da importância no plano desportivo, que é óbvia, qual é a importância de ganhar o campeonato, isto para garantir a entrada direta na fase de grupos da Liga dos Campeões, em termos financeiros? Qual é a importância, em termos financeiros, de ficarem em primeiro no campeonato para garantir essa presença na Liga dos Campeões?
Nesta temporada?
Sim, nesta temporada.
Sim, nesta temporada é fundamental. Nós vimos os efeitos que teve o Porto nesta temporada a não se ter qualificado para a Liga dos Campeões. O ano passado não ganhou o campeonato, ficou em segundo, foi às pré-eliminatórias e não conseguiu esse apuramento. E isso redundou logo num prejuízo de cerca de 52 milhões de euros no primeiro semestre. O Porto, neste momento, precisa como pão para a boca de ser apurado. E claro que, obviamente, em primeiro lugar, porque dá logo uma garantia de acesso direito à Liga dos Campeões. Mas pelo menos o segundo lugar, como vimos o ano passado, não resultou. Portanto, o Porto precisa muito de ser campeão. E eu acho que também esta situação mais periclitante do Futebol do Porto é uma das razões que contribui para que o Porto aceite retomar o campeonato neste momento. Eu não sei se estão reunidas as condições ideais, com certeza que não estão, mas falta ainda definir muita coisa para que o campeonato possa avançar. Agora, obviamente que o Porto necessita muito desse primeiro lugar e desse acesso à Liga dos Campeões, mas o Porto não pode estar dependente todos os anos de ir ou não à Liga dos Campeões. Tem que ter receitas alternativas, caminhos alternativos, que possam superar uma eventualidade disso não acontecer. O Porto não pode ser campeão todos os anos e o Benfica não pode ser campeão todos os anos. A lei natural da vida é que as coisas se alternem. E quando isso não se verificar, o Porto tem que estar preparado para fazer face à ausência dessa receita.
Um dos outros pontos que foi também falado na semana passada, além do regresso do campeonato, teve a ver também com o adiamento do pagamento do obrigacionista, que ia vencer agora por um ano e que vai colar a outro, portanto, os dois juntos darão um total de 70 milhões. Aquilo que eu lhe perguntava era se concorda com esta medida de adiar o pagamento do obrigacionista, que até agora só se tinha visto em termos de SADs de grandes no Sporting e também num período particularmente conturbado a seguir ao ataque à academia. E aquilo que eu lhe pergunto também é que impacto é que uma medida destas tem em termos de mercado para futuras operações de empréstimos obrigacionistas.
Claro que esta Que esta situação tenha um impacto negativo, quer em termos de imagem do Porto, obviamente, quer em termos financeiros. Não é uma situação dramática, porque acontece aqui num contexto excepcional e, portanto, também neste contexto excepcional, às vezes somos obrigados a tomar medidas que não eram, em princípio, as nossas primeiras opções. Obviamente que o Porto queria chegar a esta altura e se calhar contrair um novo empréstimo obrigacionista para pagar este que se vencia nesta altura. Portanto, é compreensível que o Porto peça o adiamento deste pagamento para daqui a um ano. O que é problemático é que, primeiro, o Porto não está preparado, mais uma vez, para uma situação excepcional. Aconteceu com a não qualificação para a Liga dos Campeões e deu aquele prejuízo que todos sabemos que deu nas contas do primeiro semestre. E agora, com a pandemia e com o campeonato suspenso, o Porto não tem capacidade de ir ao mercado contrair um novo empréstimo que lhe permita assegurar o reembolso deste de 2016. Portanto, isso é que é problemático. E o que é ainda mais preocupante é que daqui a um ano o Porto vai ter que desembolsar não €35 milhões por este empréstimo obrigacionista, mas sim €70 milhões, porque daqui a um ano vence um novo empréstimo obrigacionista e, portanto, também do mesmo valor, €35 milhões. Portanto, o Porto adia este pagamento este ano, ok, tudo bem, mas para o ano, pela mesma altura, vai ter que pagar €70 milhões para reembolsar dois empréstimos obrigacionistas. Isto é que é preocupante. E portanto, demonstra que o Porto efetivamente é gerido com base no presente, portanto, em resolver os problemas que vão aparecendo e não em procurar dotar o clube de ferramentas que lhe permitam, com maior ou menor dificuldade, obviamente, de contornar estes obstáculos que se vão levantando. Portanto, o problema de não reembolsar este empréstimo agora ou de adiar o seu reembolso, obviamente, tem um impacto na imagem do clube, mas acima de tudo preocupa-me porque daqui a um ano o Porto não tem €35 milhões para devolver, mas sim €70 milhões.
E esse adiamento e essa obrigação daqui a um ano vai também obrigar o Porto, nesta próxima janela de transferências, a ter outra necessidade de vender, isto tendo em conta que este mercado vai ter quase necessariamente valores bastante mais baixos do que os recentes, por causa, obviamente, da pandemia?
Claro, o Porto já tinha essa necessidade de vender. O próprio relatório e contas, no seu final, chama a atenção para esse facto, de que a subsistência do Porto, digamos assim, a subsistência saudável do Porto e o equilibrar das contas iam necessitar de vendas fortes no final desta temporada. Claro que o Porto, agora com esta situação que se gerou, com a Covid, com a pandemia, vai ter mais dificuldades em vender jogadores e se calhar os clubes vão pensar um bocadinho mais antes de darem X valor pelo jogador e se calhar vão tentar dar um bocadinho menos. Obviamente que isso é mais um contributo para que as coisas não possam correr bem do lado do Porto e o Porto seja obrigado a vender mais jogadores. Claro que os €70 milhões de acumular de reembolso obrigacionista vão exigir aqui um novo esforço. Ou seja, metade deste valor pode ser abatido ou pode ser resolvido, solucionado com um novo empréstimo obrigacionista daqui a um ano. Não sei agora que valor é que o administrador financeiro estará a pensar, se vai contrair um empréstimo para reembolsar um desses empréstimos, ou esse empréstimo mais o valor do próximo, mas metade resolve-se com um novo empréstimo obrigacionista. O resto, eu só vejo uma solução, que é com receitas extraordinárias e receitas extraordinárias no futebol é vender jogadores.
Dentro desse cenário, havendo os empréstimos obrigacionistas e não colocando em causa a possibilidade de fazer um novo empréstimo obrigacionista, havendo a necessidade de vender jogadores, o que também faz, em contrapartida, que exista uma outra ação em termos de mercado para cobrir essas baixas. Aquilo que eu lhe pergunto é: que soluções é que existem dentro deste cenário, que muitas vezes parece que é só custos e as receitas não chegam para estes custos, em termos de sustentabilidade a médio prazo? Acha, por exemplo, que uma abertura do capital social é uma possibilidade? Existem outras alternativas para pelo menos equilibrar a questão nos próximos dois, três anos, para depois conseguir uma outra sustentabilidade?
Essa solução que me fala de abrir o capital é aquela solução que nenhum sócio quer que aconteça. Os sócios querem que o clube seja maioritariamente e na maior porcentagem possível do clube. Eu sei que o SAD do Porto tem outros acionistas, mas são apenas uma pequena parte. E também não estou a ver capitalistas, digamos assim, pessoas com capital que queiram investir no SAD e depois não fiquem a mandar nela. Portanto, eu acho que esse seria o último passo e só aquele para evitar que o clube fechasse as portas. Eu sou totalmente contra essa abertura de capital e muito mais contra que o clube possa perder a maioria e o controle que tem na SAD. Eu acho que isso os sócios nunca perdoariam quem fizesse isso. Mas se continuarmos neste caminho, é aí que vamos chegar. Encontrar alguém que queira investir, mas esse alguém que queira investir, também vai querer mandar. E, portanto, eu acho que temos que evitar a todo o custo essa situação. E para isso é preciso pensar a médio e longo prazo. E esta administração não pensa a médio e a longo prazo, porque como eu já aqui deixei claro, há medidas que se podem tomar, quase de hoje para amanhã, algumas delas, e que implicam uma redução de custos e que implicam o aumento de receita. Mas portanto, para que o Porto seja sustentável, é preciso mudar este rumo. Obviamente que o Porto vai ter que vender mais jogadores, isso aí eu acho que é claro para todos. Mas o futebol português não consegue viver sem essas receitas de mais um ou dois ou três meses de futebol. O futebol português está tão mal gerido na sua globalidade, há exceções, há clubes melhor e pior geridos, mas o futebol português necessita deste pingar, digamos assim, mensal de receitas. Qualquer coisa que falte, os clubes portugueses deixam logo de respirar bem.
Muito obrigado. Fim de jogo, apito final neste "Nem tudo o que vai a rede é golo". Daqui a pouco em observador.pt já pode ouvir este programa em podcast. Até já.