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Bem-vindo ao Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola, com Bruno Roseiro, Mariana Fernandes e também comigo, Aníbal Rebelo. Neste programa vamos falar de canoagem com o presidente da Federação Portuguesa, mas antes vamos aos temas do dia. Mariana Fernandes, 2021 arrancou já com o futebol no pé, com jogo adiado e a liderança ainda do Sporting.
Sim, o novo ano arrancou na Primeira Liga no sábado, logo no segundo dia de 2021, com um dos maiores desafios que o líder Sporting tinha tido até então. A equipa de Rúben Amorim venceu o Sporting Braga em Alvalade, num jogo onde foi maioritariamente eficaz e onde também muito pode agradecer a enorme exibição do guarda-redes Adan. Abriu oito pontos de vantagem para os minhotos, manteve a invencibilidade no campeonato e assegurou a liderança do campeonato, pelo menos por mais uma semana. No dia seguinte, ontem, o Benfica tinha um encontro marcado com o Santa Clara em Ponta Delgada, mas a partida foi interrompida logo ao minuto sete, devido à chuva torrencial que estava a cair e ao estado lastimável do relvado, onde a bola nem sequer rolava. Os jogadores recolheram aos balneários, o árbitro Hélder Malheiro esperou a meia hora regulamentar e as equipas acabaram por acordar em adiar o jogo para hoje, segunda-feira, novamente a partir das 17h de Portugal Continental. Resta então perceber se as condições climatéricas vão permitir que o jogo aconteça mesmo ou se terá de ser novamente adiado, algo que complicaria ainda mais o calendário já apertado do Benfica, que já viu o jogo da próxima jornada com o Tondela passar para sexta-feira, quando estava originalmente marcado para quinta, devido a este adiamento. Ainda no domingo, o Porto venceu o Moreirense em casa por 3x0, portanto assumiu provisoriamente o segundo lugar com mais um ponto do que o Benfica, e fica agora à espera de saber o resultado que os encarnados ainda fazem nos Açores hoje a partir das 17h.
É um jogo que vamos acompanhando também aqui na Rádio Observador e também em observador.pt. Bruno Roseiro, entramos nesta altura na época de saldos, com os jogadores a custo zero, numa altura em que também começa esse mercado de inverno.
Sim, é o nosso jogo paralelo que vai decorrer em janeiro. Já temos vários jogadores que nesta altura podem assinar por qualquer equipa a custo zero, que é uma mera expressão, porque o custo zero equivale sempre a alguns milhões de prémio de assinatura para esses contratos se realizarem. Temos o David Alaba, que já há notícias de uma disputa entre Barcelona e Real Madrid, com tendência mais para o Real Madrid. Donnarumma, o Depay, o Wijnaldum, também do Liverpool. E depois temos aqui o Lionel Messi, que aos 33 anos chega a janeiro de 2021 e pode decidir o que quiser da vida dele. Ele ontem fez o jogo 750 pelo Barcelona, o jogo 500 também na Liga, 451 gols, 185 assistências. É mais ou menos líquido, a não ser que ele tenha alguma lesão com maior gravidade, que até o final da temporada vai bater os poucos recordes que ainda não são dele no Barcelona e que nesta altura ainda fazem parte do currículo do Xavi Hernández, atual treinador no Qatar. Nesta altura, Messi, além da possibilidade de ficar no Barcelona, porque vai haver eleições e ele quer falar primeiro com o presidente eleito, pode ir para o Manchester City, pode ir para o Paris Saint-Germain, pode ir para a Liga Americana. Portanto, alternativas não faltarão desde que exista dinheiro. Esta será a grande novela de 2021. E por cá, temos novamente o Futebol Clube do Porto como intérprete principal, neste caso pelas piores razões, com Otávio e Marega nesta altura a poderem assinar por qualquer outra equipa, assim como aconteceu com Herrera e Brahimi. E este acaba por ser o calcanhar de Aquiles do projeto desportivo do Futebol Clube do Porto, e que tem a ver com a possibilidade de haver jogadores que são referências na equipa e que podem sair a custo zero.
E nós vamos aqui diariamente acompanhando também esta movimentação no mercado. Vamos dando essas notícias aqui na rádio e em observador.pt. Agora é tempo de olharmos para as cartas com o Ás, o Joker e a Carta Fora. Bruno, começamos com uma carta inesperada neste Ás, Nélson Évora a assinar pelo Barcelona.
Sim, completamente inesperado, seja pela parte da notícia em si, seja pelo contexto, seja pela data em que se soube. Estávamos quase a passar a meia-noite, eram 21h30, 22h, talvez do dia 31, quando foi anunciado pelo próprio que tinha assinado pelo Barcelona. O Barcelona é provavelmente até o clube com maior palmarés mundial em termos de conquistas, olhando para o ecletismo e olhando para todas as modalidades, porque é também um clube que tem todas as modalidades e basta ver não só o futebol, mas basquetebol, andebol, hóquei patins Tudo o que são modalidades coletivas têm praticamente tudo. Aquilo que acontece no Barcelona é também uma aposta paralela naquilo que é o seu projeto olímpico. Em 2016, no Rio de Janeiro, ganhou algumas medalhas, sobretudo nas modalidades coletivas, no handball, no basquete, no próprio futebol também, pelos dois jogadores brasileiros que tinha, no rugby sevens, no hóquei em campo, mas faz também uma aposta no atletismo, onde não ganhou nenhuma medalha e agora consegue repescar o Nelson Évora. É uma aposta de risco e sem grande ambição desportiva de achar que é dali que vem mais uma medalha. Ele vai continuar a trabalhar em Guadalajara como tem feito com o cubano, com o Iván Pedroso, que é agora treinador, antigo campeão mundial do salto em comprimento. O objetivo agora é conseguir os mínimos olímpicos. A partir desse momento, não só aumenta a delegação do Barcelona em Tóquio, mas a partir desse momento vai também tentar provar que tamanho é que tem esta sétima vida, digamos assim, porque o Nelson Évora tem sobretudo esse mérito. Quando todos nós achamos que ele está acabado, ele aparece e por norma até conquista medalhas. Nos Jogos Olímpicos vai ser complicado, mas ainda assim, vamos ver até que ponto é que o Nelson Évora ainda consegue pelo menos passar a fasquia dos 17 metros, o que já era bastante bom nesta altura.
É um gato com sete vidas. Ora, Mariana, quem vai também surpreendendo com recordes atrás de recordes, títulos atrás de títulos é o Cristiano Ronaldo.
É, não é um gato com sete vidas, mas parece que é um gato com uma vida muito grande. Parece que nos últimos anos quando ouvimos a palavra recorde ao lado do nome de Cristiano Ronaldo, já nos passa um pouquinho ao lado. Tirando o recorde que ainda persegue dos gols pela seleção, do iraniano Ali Daei, pelo óbvio mediatismo que tem, por estar também associado à seleção nacional, parece que todos os registros de Ronaldo já são redundantes, tão frequentes, tão longínquos, tão avassaladores que são. Mas o que o Ronaldo fez ontem não é um desses casos e rapidamente se tornou o assunto mais importante do fim de semana no esporte internacional. Isto porque com os dois gols que marcou ontem na goleada da Juventus à Udinese, que foram também os primeiros gols que marcou em 2021, ultrapassou Pelé na lista dos melhores marcadores de sempre da história do futebol profissional. Portanto, chegou aos 758 gols no futebol profissional e está apenas a um do melhor de sempre, que é Josef Bican, que jogou nas décadas de 30, 40 e 50. Ele marcou também pela 20ª temporada consecutiva, portanto está há 20 anos seguidos a marcar gols ao mais alto nível. E é preciso recordar que tudo isto acontece quando Cristiano Ronaldo está a apenas um mês de completar 36 anos de vida. Portanto, são 20 anos seguidos a marcar gols e são 20 anos seguidos a marcar gols ao mais alto nível. E temos de recordar que as palavras têm peso. Eu acho que dizer que Cristiano Ronaldo, provavelmente no próximo jogo, ou se não for no próximo jogo, é no outro a seguir, se vai tornar o melhor marcador de sempre da história do futebol profissional, tem de ter o seu peso e não pode ser apenas mais um recorde de Cristiano Ronaldo.
É a expectativa à volta de Ronaldo. E agora vamos aos jokers escolhidos por vocês. Mariana, começamos com o teu joker, Rafael Leão.
Sim, se o Sporting é a única equipa da Primeira Liga que ainda não perdeu, o Milan é a única equipa das cinco principais ligas europeias que ainda não perdeu para o campeonato esta temporada. A época da equipa de Stefano Pioli está a ser assinalável, não só pela liderança que continua a manter na Serie A, como pela regularidade de resultados e grande parte do sucesso dos Rossoneri tem estado também relacionado com o sucesso de Rafael Leão. E quando o avançado foi para o Milan, depressa lhe foi vaticinado o fracasso, até por aquilo que tinha acontecido recentemente a André Silva no mesmo Milan. Mas a verdade é que Leão esta temporada já leva cinco gols em 16 jogos, sendo que em toda a época passada, em 33 jogos, fez seis. Ontem marcou mais um, uma autêntica obra de arte que ajudou a vitória contra o Benevento e hoje faz capa do Tuttosport ao lado precisamente de Cristiano Ronaldo. Portanto, está a assinalar as duas exibições positivas de dois jogadores portugueses em duas das principais equipas italianas. O Rafael Leão é internacional sub-21 em 12 ocasiões e começa a tornar-se cada vez mais provável, e também cada vez mais natural, que Rafael Leão apareça numa das próximas convocatórias de Fernando Santos, assim como Pedro Neto, que também está a fazer uma época assinalável a serviço do Wolves, apareceu recentemente.
Bruno Rosário, tu trazes um destaque de terras de Vera Cruz, português. Abel a destacar-se como treinador.
Sim, até porque a NBA já me trocou o fuso horário por completo, portanto agora é costa de lá, tudo que é América do Sul e América do Norte é o que eu agora tendo a seguir mais. E de fato, este Palmeiras do Abel continua a ser um dos grandes destaques do Brasil. No último jogo de 2020 conseguiu chegar à final da Taça do Brasil, que vai ser em fevereiro, duas mãos com o Grêmio. Começa a jogar esta semana as semifinais da Taça dos Libertadores com o River Plate, vai ser uma semifinal fantástica. Continua em sexto lugar no campeonato que chegou já com certo distanciamento. Aliás, quando ele chega, a equipa tinha acabado de perder quatro jogos e nesta altura já é complicado depois lutar pelo título, mas está na zona de acesso à próxima Libertadores. Desde que chegou também só tem um empate no Allianz Park e foi nas meias da Taça do Brasil, que depois acabou por ganhar fora. Portanto, o resto é só vitórias mesmo sem público. E olhando para o clube que é, olhando para o plantel, que não tem nada a ver com o plantel que o Jorge Jesus tinha no Flamengo. Olhando para o fato de estar em São Paulo e não no Rio de Janeiro, que é um contexto também completamente diferente, não só em termos culturais, mas em termos desportivos também, porque em São Paulo há muitas equipas de topo. Eu diria que Abel está a fazer uma campanha muitíssimo boa e se conseguir ou a final da Taça dos Libertadores ou uma vitória na Taça do Brasil com uma boa posição no campeonato, diria que está encontrado um sucessor a uma escala diferente, mas está encontrado um sucessor para Jorge Jesus a nível de treinadores portugueses no Brasil.
E agora seguimos para a Carta Fora. Bruno Rosário, seguimos, mas continuamos no Brasil por causa do Vasco da Gama E de um outro treinador português que não teve grande sorte a treinar o Vasco da Gama.
Sim, não teve grande sorte em nada, porque eu trago o Vasco da Gama como um exemplo paradigmático daquilo que pode ser também o outro lado do futebol brasileiro. Parece-me que ninguém, depois daquela invasão do centro de treinos, com elementos da claque a pararem o treino, acreditava que o Sapinho ficasse muito mais tempo no Vasco da Gama. Ele mesmo assim fez mais três jogos, onde fez quatro pontos. A última derrota com o Atlético Paranaense, foi o último jogo de 2020, acabou por valer a saída. O Vasco da Gama queria que ele saísse, o próprio Sapinho também queria sair, e as razões que levaram a isso são de várias ordens. Por um lado, ele nunca recebeu qualquer ordenado, nem ele nem a equipa técnica, quando lá esteve no Brasil, e foram pouco mais de dois meses. Inclusive, chegou a ajudar alguns jogadores que tinham salários em atraso e uma situação que se começava a complicar. Foi vivendo um pouco preso entre guerras burocráticas e institucionais, porque o Vasco da Gama teve eleições, mas o resultado não foi logo homologado e houve semanas a fio de lutas jurídicas num processo eleitoral que ainda hoje coloca uma direção atualmente e uma que ainda vai entrar e que ainda não entrou. Muitos casos de Covid, inclusive um jogador, o Tales Magno, que quando quer, para mim até é o melhor jogador do Vasco da Gama, mas é preciso ele querer, e ele queria poucas vezes, que não só esteve infetado com Covid e fora das opções, como depois teve uma reinfecção, que é uma coisa pouco normal, sobretudo nos atletas de alta competição. E no meio disto tudo, e aí a minha estranheza, acaba por sair o Ricardo Sapinho, o que acabava por ser também um destino quase natural, mas vai chegar o Vanderlei Luxemburgo, que é não só um dos treinadores brasileiros com mais currículo, mas também um daqueles que tem o ordenado mais alto. Isto é um clube que teve um treinador durante pouco mais de dois meses e não lhe pagou um único ordenado. Portanto, isto é um pouco a realidade do outro lado do futebol brasileiro, sendo que o Vasco da Gama tem ainda todas as condições para poder ficar no primeiro escalão. Falta-lhe alguma qualidade no plantel também.
E agora, Mariana, se tivemos aqui a saída de Ricardo Sapinho do Vasco da Gama, agora seguimos para a saída do treinador do PSG. Também esta mudança na semana passada.
Sim, foi uma história que acabou por ser contada a três tempos. A saída de Thomas Tuchel do PSG começou com uma garantia dada pela imprensa francesa na véspera de Natal, mas sem confirmação oficial. Passou a ser certo na semana a seguir, na última semana do ano, com o anúncio da rescisão de contrato e teve o capítulo final este sábado, um capítulo também já anunciado, quando o PSG confirmou a contratação de Mauricio Pochettino como o novo treinador do clube. Tuchel sai ao fim de dois anos e meio e a seis meses do final de contrato, leva uma indenização de cerca de seis milhões de euros e sai principalmente, não só, claro, mas principalmente pelos confrontos que teve com o Leonardo, o diretor desportivo do PSG, sobre as contratações do mercado de verão e os jogadores que acabaram por não chegar para os lugares de Cavani, que foi pro Manchester United, e Thiago Silva, que foi pro Chelsea. Ele esteve sempre um pouco na sombra de jogadores como Neymar ou Mbappé, foi engolido completamente por um balneário de estrelas, mas é preciso não esquecer que foi o treinador que levou o PSG à primeira final da Liga dos Campeões do clube francês. Segundo a imprensa inglesa, é o favorito de Roman Abramovich para suceder a Frank Lampard no Chelsea, caso o treinador inglês não consiga reverter a atual crise de resultados do clube, que ainda ontem perdeu em casa de forma esmagadora com o Manchester City por 3 x 0. E já que estamos embalados aqui nesta senda de treinadores e da dança das cadeiras, não esquecer que 2020 foi estranho, mas 2021 parece que continua também nessa onda e Edgar Davids foi há pouco anunciado como o novo treinador do Olhanense, que está no Campeonato de Portugal. Davids é mesmo o antigo internacional holandês e antigo jogador da Juventus e do Ajax.
Muito bem, agora seguimos para o túnel. Bruno Rosário, atenção às modalidades, e para as modalidades com Jorge Mendes, aqui o superagente a apostar nesta área, não a deixar de lado o futebol, mas agora a mostrar atenção ao que se passa também nas modalidades.
Sim, cada vez mais, não através da Gestifute, mas através da Polaris Sports, que faz parte da Gestifute e no fundo acaba por gerir a parte comercial e de imagem daqueles que são os principais ativos no futebol, o Ronaldo, o João Félix, o Mourinho, o Ansu Fati. Portanto, é uma parte da Gestifute que é liderada pelo sobrinho do Jorge Mendes, o Luís Correia, e que tem feito uma aposta cada vez maior nas modalidades. Não começou agora. Há dois anos, a Polaris foi começando a abrir cada vez mais o leque a outras modalidades. Nesta altura está cada vez mais a ser uma aposta real. Houve uma primeira conquista da Polaris, que foi assinar com o Fernando Pimenta. O Fernando Pimenta não só é provavelmente o português em melhores condições para ganhar uma medalha nos Jogos Olímpicos de Tóquio, mas sempre foi também um atleta muito resistente a tudo o que fosse de novo, e eu recordo que ele nesta altura tem contrato com o Benfica, mas durante anos a fio, não só o Benfica, mas também outros clubes foram tentando contratá-lo e ele sempre preferiu manter-se no seu clube em Ponte de Lima. Só mais recentemente é que acabou por assinar pelo Benfica. Em relação à Polaris, foi também assim. E em paralelo, houve também esse acordo da Polaris com uma série de ciclistas, nomeadamente o João Almeida, o Rúben Guerreiro, os irmãos Ivo e Rui Oliveira, que fizeram não só a Volta, mas que estão também sempre em destaque e são potenciais candidatos a finais no ciclismo de pista, e o André Carvalho, que subiu também este ano ao World Tour. A tudo isto temos de juntar ainda outras modalidades como o surf, através do Frederico Morais, como o ténis, através do João Sousa, o atletismo, com a Patrícia Mamona, e até a Fórmula 1. Existe uma ligação já entre a Polaris e o Charles Leclerc, o corredor monegasco da Ferrari. Não se conhecem os contornos desse contrato, a única coisa que se sabe é que existe essa ligação. Não só uma aposta do universo Jorge Mendes nas modalidades, mas também a perceção de que cada vez mais os atletas de alta competição podem ganhar tanto ou mais fora das competições do que nas suas competições. E isto é sobretudo aplicável a tudo que não seja futebol.
Bruno, e agora para um minuto em Alvalade, o desinvestimento chegou mais cedo do que era esperado.
Sim, nós já tínhamos anunciado aqui no Observador não só a dispensa do Nélson Évora, mas também outras modalidades, nomeadamente o João Costa, no tiro, tinha uma situação que ainda estaria a ser avaliada e, portanto, o Sporting poderia dispensar o João Costa. Em relação à canoagem, e estamos a falar em outubro, a ideia do Sporting era continuar, pelo menos com o Emanuel Silva, o David Varela e a Francisca Laia, pelo menos até concluir o ciclo olímpico. Isso acabou por não acontecer. Os atletas da canoagem do Sporting foram informados por carta que estavam dispensados. Eles próprios tinham feito algum esforço para conseguirem encontrar patrocínios, neste caso de €60 mil, que era o custo da secção em termos anuais, mas nem isso acabou por funcionar. E nesta altura aparece o Sporting Braga, que já tem uma aposta muito interessante no taekwondo, por exemplo, em relação a modalidades olímpicas, a poder eventualmente albergar todos estes atletas. Diria que sobretudo não só existe aqui uma surpresa, mas também alguma falta de cuidado, vou dizer assim, para não ser pior, alguma falta de cuidado pela forma como as coisas são feitas e nomeadamente o Emanuel Silva, que é um atleta medalhado olímpico e que merecia um outro final no Sporting do que aquele que teve.
Muito bem. Na segunda parte deste programa, vamos continuar a falar de modalidade, até porque vamos estar à conversa com o Vítor Félix, o presidente da Federação Portuguesa de Canoagem.
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Bem-vindo à segunda parte deste Nem tudo o que vai à rede é bola. Nesta próxima meia hora vamos falar sobre canoagem com o presidente da Federação Portuguesa de Canoagem, Vítor Félix. Antes de mais, obrigado por esta disponibilidade em estar conosco aqui na Rádio Observador.
Boa tarde, eu é que agradeço o convite.
E começo já por agora que entramos em 2021, um ano que poderá voltar a ser de ouro para a canoagem portuguesa nos Jogos Olímpicos, por exemplo, e não só. Que expectativas tem e quais são os principais objetivos neste ano que começa?
Não escondo que a fasquia da canoagem está sempre elevada. A canoagem tem sido a modalidade que nos últimos anos tem conseguido um conjunto de resultados que têm orgulhado o desporto português. E é claro que encaramos agora este novo ano, este novo ano de 2021, que será seguramente o ano dos Jogos Olímpicos e também dos Jogos Paralímpicos, com alguma seriedade, com algum foco naquilo que é o objetivo principal de uma federação desportiva que é parte integrante do programa olímpico. Por isso, o objetivo principal passará pela conquista de medalhas em ambos os eventos. Não o escondemos, já no plano de atividades e orçamento para 2020, tínhamos frisado, e agora novamente para 2021, será o nosso objetivo a obtenção ou conquista de duas medalhas em ambos os eventos. Nós queremos conquistar duas medalhas, seja nos Jogos Olímpicos, seja nos Jogos Paralímpicos. Sabemos que é um objetivo ambicioso, mas os resultados que temos alcançado neste último ciclo olímpico e paralímpico têm dado bons indicadores que poderemos conquistar essas medalhas, que é um dos grandes objetivos para a participação nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos.
Mas, entretanto, nós perdemos aqui também um pouquinho a noção de tempo, mas mais ou menos há um ano começava a limpeza e o início da recuperação do Centro de Alto Rendimento de Montemor-o-Velho, que acabou por ser afetado também pelas cheias no Mondego. Pergunto-lhe se o Centro de Alto Rendimento ficou completamente reabilitado e se houve também ajudas nesse sentido, porque recordo que naquela altura toda a gente percebeu a importância, não só que o Centro de Alto Rendimento tinha para os nossos atletas, mas também para vários estágios de seleções estrangeiras.
Sim, claramente, o Centro Alto Rendimento é o palco não só do estágio das nossas equipas. Nós diariamente temos uma equipa de residentes, atletas, alunos residentes na nossa residência universitária, que utilizam diariamente, e também fazemos regularmente estágios das nossas equipas dos mais diversos escalões, até à principal, à equipa olímpica e também paralímpica, e também é o palco dos principais eventos do calendário nacional e também palco de grandes eventos internacionais, como foi o caso do Campeonato do Mundo em 2018, onde o Fernando Pimenta foi, felizmente, e sagrou campeão do mundo em K1 1000 metros. Nem tudo está bem ainda em Montemor-o-Velho. Depois de em outubro de 2018 ter sido assolado pelo furacão Leslie, o ano passado foram as cheias de Montemor, portanto, o Centro Alto Rendimento periodicamente tem sido vítima das intempéries. Posso-lhe dar o caso da barreira de vento que foi construída em 2018 por ocasião do Campeonato do Mundo e que foi danificada pelo furacão Leslie. Ainda não está reparada, estamos a acompanhar com o município de Montemor, que não podemos esquecer que é o proprietário daquele Centro de Alto Rendimento e que com eles temos que acompanhar estas reparações. Sabemos que há negociações com o seguro, sabemos que já foi dada luz verde e adjudicada a um empreiteiro essa reparação, mas o que sabemos é que ainda não foi feita. Relativamente àquilo que foi as cheias do plano d'água do Mondego, que afetou também o Centro de Alto Rendimento e que nos trouxe aquelas fatídicas imagens de um Centro de Alto Rendimento completamente alagado. Algumas reparações já foram feitas, outras estão a ser feitas. Tudo o que meta compensações pelo seguro tem sido sempre complicado, no entanto, temos acompanhado essas reparações com o município de Montemor-o-Velho e a breve trecho vão ser efetuadas. Não nos podemos esquecer que, em julho de 2021, vamos ter um Campeonato do Mundo de juniores e sub-23. É o maior evento desportivo em termos quantitativos da nossa modalidade e queremos que todas estas situações possam estar resolvidas até essa data. Ainda mais que este ano temos um grande desafio pela frente, juntamente com o município de Montemor-o-Velho e com outras entidades que são parceiros, que é a construção da nova torre de chegada do Centro de Alto Rendimento em Montemor-o-Velho, que vai seguramente melhorar as condições de organização de todos estes eventos nacionais, mas principalmente os internacionais.
A verdade é que 2020 já era um ano complicado para a canoagem devido aos danos no Centro de Alto Rendimento. Tornou-se ainda mais complicado a partir de março, obviamente, com todas as questões associadas à pandemia, em que tudo parou. Queria então perguntar-lhe basicamente que tipo de condicionamento é que existiu na preparação dos canoístas até março, devido aos problemas com o Centro de Alto Rendimento, e como é que foi gerir o período de confinamento nos meses seguintes.
Vamos lá ver, o Centro de Alto Rendimento de Montemor-o-Velho é o palco principal, mas não é o único centro de treino que nós utilizamos para a preparação das nossas equipas. É claro que foi preciso encontrar soluções, nomeadamente para a equipe olímpica e paralímpica, uma vez que até março pairava no ar que os Jogos Olímpicos se poderiam manter e procurámos outros cenários. Portanto, alguns atletas ficaram em Montemor-o-Velho, em regime de exclusividade com o apoio do município de Montemor-o-Velho. Outras equipas, nomeadamente o K4 masculino, esteve sempre a treinar no Gerês. O Fernando Pimenta esteve sempre a treinar em Avis. Portanto, procurámos, de alguma forma, ter alguma exclusividade até haver essa garantia que os Jogos Olímpicos não iriam ser adiados. Depois, com o adiantar das situações e da pandemia, é claro que os Jogos Olímpicos foram adiados e logo nesse momento os nossos atletas foram indo para junto da sua família, para junto da sua casa, sem perder o foco naquilo que era a sua preparação, uma vez que não sabíamos se os principais eventos internacionais da modalidade iriam ser adiados. Foi difícil manter a motivação dos nossos atletas, mas conseguimos que eles, passado aquele primeiro embate do se iria adiar ou não iria adiar, mantivéssemos o principal foco dos atletas, que seria os principais eventos internacionais, como se veio a verificar no caso do Fernando Pimenta e também da Joana Vasconcelos. Quanto à situação de Montemor-o-Velho, acabou por ser uma mais-valia, porque com a retoma das modalidades nos treinos, que foi permitida em maio, as modalidades individuais praticadas ao ar livre, e depois numa segunda fase, o permitir que essas modalidades pudessem competir a partir de junho e julho, Montemor foi o palco principal do nosso calendário nacional. Tivemos que reformular tudo aquilo que era o quadro competitivo da nossa modalidade, das diferentes especialidades, porque recordo que a canoagem tem diversas especialidades, seja no mar, nas águas bravas ou em pista, e pudemos concentrar, fizemos cerca de seis campeonatos nacionais em Montemor-o-Velho, desde a maratona, o fundo, a velocidade, até o próprio slalom nos escalões de formação. Apenas as especialidades que não se puderam fazer em águas tranquilas, e aqui falo do Campeonato Nacional de Canoagem de Mar, que foi feito em Sesimbra, o Campeonato Nacional de Slalom, que foi feito em Amarante, ou o Campeonato Nacional de Kayak Polo, que é a modalidade coletiva da canoagem, foi feito em Setúbal. De resto, tudo foi centralizado em Montemor para permitir o tal distanciamento, uma vez que o Centro de Alto Rendimento é uma instalação desportiva que, pela sua dimensão, permite um distanciamento fora da atividade física de três metros, ou melhor, de dois metros, e permite que a canoagem, pela sua natureza competitiva, garantir esse tal distanciamento de três metros, que foi isso que as orientações da Direção-Geral de Saúde. Depois, tomámos outra opção, que foi também o de fazer competições apenas em embarcações individuais, para garantir esse distanciamento. Portanto, no final desta época, acho que o balanço, tendo em conta todas as condicionantes da pandemia e das sucessivas orientações da Direção-Geral de Saúde, acho que o balanço acabou por ser positivo e permitimos aos nossos atletas competir pelo menos uma competição. E acho que o balanço foi feito. Ainda há pouco tempo fizemos a assembleia-geral da federação para permitir A aprovação do plano de atividades e orçamento para 2021. Foi destacado esse empenho por todos os agentes que foram envolvidos na organização do calendário nacional e foi elogiado por todos. Não poderíamos fazer um balanço melhor do que fechar 2020 com a organização de todo o calendário nacional.
E temos agora 2021, que é se calhar um ano ainda com objetivos mais altos. Já nos falou no objetivo de ganhar duas medalhas, sejam elas olímpicas ou paralímpicas. Aquilo que lhe perguntava em termos de olímpicos: quantas finais consegue projetar para a canoagem, tendo em conta que só uma presença na final equivale logo a um diploma, portanto, é pelo menos um dos oito primeiros lugares que é reconhecido. E, em paralelo, olhando também para a parte olímpica, além do Fernando Pimenta, e conhecendo o calendário das provas, que também tem muito a ver com as apostas que são feitas, por exemplo, em 2012, houve essa aposta no K2 também por causa do calendário, para o Pimenta não fazer o K1 e não estar sobrecarregado na altura decisiva. Pergunto-lhe se conseguia ver mais facilmente uma medalha em K2 ou K4 masculino ou uma Teresa Portela ou Joana Vasconcelos.
Sim, felizmente, eu não me canso de dizer isso, temos neste momento a melhor geração de sempre da canoagem portuguesa. Neste momento somos a segunda modalidade que mais atletas tem apurados para os Jogos Olímpicos. O atletismo neste momento tem oito, nós temos sete. Além das seis vagas que obtivemos na disciplina de velocidade, temos outra modalidade que integra o programa olímpico, que é o slalom, e temos o Antoine Launay, que é também um atleta luso-francês, que está em boas condições de discutir também as medalhas. Neste momento, consideramos que temos o Fernando Pimenta, pela presença constante no pódio, por ter sido campeão do mundo em 2018, medalhado em 2019. Dá-nos garantias de lutar por uma medalha. Depois temos o K4 masculino, que foi sexto no último Campeonato do Mundo em 2019, apenas a três décimas da medalha de bronze. Estamos a falar apenas de três décimos de segundo. É um barco no qual poderemos também contar na luta pelas medalhas. O próprio Antoine Launay foi sétimo no Campeonato do Mundo, onde obteve o apuramento. Foi quarto por país, uma vez que perdeu com dois ingleses, dois checos e dois espanhóis, e sabemos que nos Jogos Olímpicos apenas será aberto a um atleta por país. Foi quarto, portanto, também ele será um atleta a ter em conta. A Teresa Portela foi finalista em 2019. A Joana Vasconcelos, que apesar de não estar apurada, é uma atleta que vai discutir o apuramento em maio de 2021 e poderemos contar com ela também para uma final. Estamos aqui a falar já de vários atletas, entre quatro a cinco finais, é esse o nosso objetivo para 2021. Poderemos ter esses atletas e ter esses quatro a cinco, passe a expressão, tiros para medalhas. E como disse, é claro que antes de pensar em medalhas, temos que pensar nas finais. Depois temos o Norberto Mourão, que alcançou o seu passaporte para Tóquio com uma medalha de prata no Campeonato do Mundo. Ele foi vice-campeão do mundo em 2019, foi medalha de bronze também em 2019. É também um atleta que temos que ter em consideração na luta pelas medalhas, neste caso, que irá fazer a sua estreia e a estreia da paracanoagem portuguesa nos Jogos Olímpicos, depois de ter integrado no Rio 2016 a estreia da paracanoagem. Portugal irá fazer a sua estreia em Tóquio 2021. Portugal tem neste momento cinco modalidades apuradas para Tóquio 2021 e a paracanoagem é uma das modalidades e em quem o Comitê Paralímpico deposita enormes esperanças na conquista de uma medalha. Já lhe disse aqui, cinco finais nos Jogos Olímpicos, uma final nos Jogos Paralímpicos. É esse o nosso grande objetivo. Acho que devemos fixar objetivos. Não tenho receio no desporto de falhar, porque é uma possibilidade. A fronteira entre o sucesso e o insucesso é muito ténue e é claro que não tenho grande pejo em dizer que somos candidatos a medalha. Acho que a canoagem portuguesa, pelo conjunto de resultados que tem alcançado, é candidata natural a medalhas, a par de outras modalidades, e acho que não devemos ter medo de ser ambiciosos.
Temos também de falar sobre um assunto que tem marcado a atualidade desportiva nos últimos dias, que é o facto de alguns atletas já apurados para os Jogos Olímpicos, como o Emanuel Silva, o David Varela, o próprio Norberto Mourão nos Paralímpicos, onde se pode juntar também a Francisca Laia, começaram o ano a saber que estavam livres do contrato com o Sporting, que dispensou ainda mais atletas. Queria perguntar-lhe, em primeiro lugar, se tinha conhecimento do que se estava a passar e, em segundo, como é que olha para a possibilidade de o Sporting Braga ser o possível destino de alguns destes atletas, se era bom para os próprios atletas e bom também para a própria modalidade.
Sim, já não era uma novidade para mim que o Sporting iria encerrar aquilo que era o seu projeto olímpico na modalidade. Fui acompanhando praticamente desde que eles romperam o vínculo com o Norberto Mourão, depois mais tarde com o David Varela em agosto, e fui sempre acompanhando com alguma preocupação, nomeadamente com o Emanuel Silva, que tem sido o rosto e o líder enquanto atleta deste projeto, e sabia que era uma possibilidade que estava em aberto, nomeadamente atletas como o Emanuel Silva e a Francisca Laia, que já são atletas com presenças em Jogos Olímpicos e que terminava o contrato em 31 de dezembro. Havia uma ténue esperança que o projeto poderia continuar, mas foi comunicado, infelizmente. É claro que vejo com alguma preocupação, porque a marca Sporting e a marca desses grandes clubes acaba por dar algum conforto naquilo que é a preparação dos nossos atletas e de atletas de outras modalidades. Numa primeira fase, quando os ditos clubes grandes, como o Sporting e o Benfica, na nossa modalidade entraram e desde logo contrataram aquilo que era os principais expoentes máximos da nossa modalidade, é claro que foi visto com alguma preocupação por parte dos nossos clubes e até da nossa federação, uma vez que não havia um projeto sério de garantir formação e apenas contratar os principais atletas. Mas agora, vendo já há cerca de 10 anos, uma vez que estamos a falar há cerca de 10 anos, acho que esses clubes acabaram por dar esse tal conforto financeiro a esses atletas, permitindo alguma tranquilidade na sua preparação enquanto atletas nos Campeonatos do Mundo e nos Jogos Olímpicos. E também confesso que deram alguma notoriedade a esses atletas e também à nossa modalidade. Por isso é que vejo com alguma preocupação o destino agora desses atletas, nomeadamente esses que tinham vínculo com o Sporting, nomeadamente o Emanuel Silva, David Varela, Francisca Laia, Norberto Mourão e também o Kevin Santos e o Artur Pereira, que são jovens atletas. É claro que, vendo essa possibilidade do Sporting Braga entrar neste projeto, uma vez que o Emanuel Silva é natural de Braga, tem alguma proximidade com a Câmara Municipal e sei que já houve alguns contactos para que o Sporting Braga pudesse efetivamente entrar na nossa modalidade. Não é um assunto fechado, carece ainda de algumas conversações e aquilo que eu já disse ao Emanuel Silva e aos outros atletas é que estou disponível para estabelecer pontes, seja com o Sporting Braga, seja com outros clubes que venham a ter também algum protagonismo na modalidade e que serão sempre bem-vindos. É claro que também do outro ponto de vista, o Sporting abandonando a modalidade e sabendo que noutras modalidades, o Sporting e o Benfica sempre ombreavam por alguns atletas e por resultados, vejo com algum receio que o próprio Sport Lisboa e Benfica possa também baixar um pouco a fasquia e sei que neste momento está a ser negociado os contratos com outros atletas. Por isso, vejo com alguma preocupação esta questão do Sporting ter abandonado a modalidade, porque o Sporting tem sido sempre uma bandeira naquilo que é as várias modalidades, tem sido um clube sempre multidesportivo e que tem sido um exemplo, que tem sido seguido por outros clubes e daí a minha preocupação, principalmente com os nossos atletas. Num momento tão importante que é o ano 2021, que é o ano, agora sim, dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos.
Muito obrigado a Vítor Félix, presidente da Federação Portuguesa de Canoagem. Fim desta emissão do "Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola", daqui a pouco em observador.pt. Já pode ouvir este programa em podcast. Até já.