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Vamos falar de outra coisa, de uma ideia simples que se transformou num fenômeno nas redes sociais. Não sei se já se cruzaram com imagens do Pizza from Balcony. Não.
Não.
Imaginem-se a andar pelas ruas de Oslo, na Noruega, e sentir aquele cheirinho a lenha e a queijo derretido, olharem à volta, não veem nenhum restaurante por perto, mas depois olham para cima .
Sim.
É o Super-Homem. Não. Para o terceiro andar de um prédio de apartamentos e vão ver um jovem chamado Peter Gran, não é Peter Pan, Peter Gran, na varanda de avental a tirar pizzas de um forno portátil. A logística torna isto ainda mais inusitado. Em vez de motas ou drones, a pizza chega ao cliente lá abaixo de uma forma muito rudimentar. O Peter coloca a caixa acabadinha de sair do forno dentro de uma cesta de vime e desce pela varanda com uma corda. Sim, dentro de uma cesta. O cliente apanha a caixa no passeio, faz o pagamento através de uma aplicação de telemóvel, a cesta volta a subir, portanto, é um autêntico takeaway vertical. Isto começou como uma brincadeira entre amigos há cerca de dois anos e o que era um passatempo transformou-se num negócio com filas intermináveis na rua. Para terem uma ideia da dimensão, chegou a vender 70 pizzas em apenas 90 minutos. É quase uma por minuto.
Exatamente.
70 em uma hora e meia.
Mas isto é extraordinário, a capacidade de produção.
Mas é o limite. O limite anda 70, 75. Como a fila na rua começou a ser tão grande, passaram a contratar músicos de jazz locais para entreter as pessoas enquanto esperam. Mas uma das maiores curiosidades deste projeto é também a parte legal. As autoridades de saúde norueguesas foram mesmo inspecionar o apartamento e o negócio foi aprovado. Eles mantêm o frigorífico e os utensílios totalmente dedicados à atividade, separados da rotina pessoal, porque é ali que vivem. Como o forno está na varanda ao ar livre, cumpre as regras de segurança contra incêndios e como é apenas para entrega na rua, a segurança alimentar validou o processo.
Imaginem cá.
Exatamente.
Estava a pensar o mesmo.
Já estavas fora de casa e com aquilo fechado há três anos, esquece.
O menu é muito reduzido devido ao espaço da cozinha. Há normalmente duas ou três opções gourmet por semana, que são anunciadas na página deles do Instagram. Cada uma custa cerca de €14 e se o cliente quiser, eles também descem com uma garrafa de sumo de maçã artesanal na cesta a acompanhar a pizza. Nas redes sociais, claro que o projeto tem suscitado comentários de todo o mundo. Há quem brinque dizendo que se fosse noutros países europeus, lá está a palco, onde dizia a polícia, fechava isto em cinco minutos. Outro utilizador comentou que este é um modelo de negócio perfeito para introvertidos, vendendo-se comida às pessoas sem ter de ir até perto ou deixá-las entrar em casa. Portanto, se for a Oslo nos próximos tempos e sentir o cheirinho a pizza, não viu nada à volta, é olhar para cima.
Eles iam fazer um franchising disso.
É muito giro.
Espalhar isso por N varandas em N cidades, as pessoas pagavam.
Não, e as pizzas têm um ar muito bom, caseiro. Sim, artesanal.
Ninguém está a falar é dos vizinhos, não é?
Pois não.
Se calhar é o último andar, o fumo vai para cima.
E as pessoas lá, as filas a encher as ruas.
Se calhar oferece-lhes umas pizzas. Compra-se uma pizza por dia.
Um dia ou dois, isto tem graça. Não, eu estou a ser do contra mesmo, porque quero falar do-
Eu sei, estás a testar.
Estou a testar a vossa resistência, porque quero falar do drama do turismo em Barcelona. Podia ser noutras cidades. Oslo, Veneza. Oslo, não.
Oslo talvez não.
Ainda estou aqui a ver uma imagem, eles dão primeiro aos vizinhos, portanto. Primeiro distribuem aos vizinhos.
Com a barriga cheia.
A macieira vizinha.
Às vezes é mesmo first the neighbors. Mas lá está, em Barcelona já não dá para isto. A cidade chegou mesmo ao limite. Não dá mais, caput, nem mais um turista. Só para ter uma ideia, no ano passado, Barcelona recebeu 26 mil pessoas.
Milhões?
26 milhões, desculpa, claro. 26 milhões de pessoas, o que representa uma subida de quase 2,5% em relação ao ano anterior. Eu não sei há quanto tempo foram a Barcelona. Eu já não vou há muito e já achava a cidade muito cheia e já com muita reação dos moradores, com tarjas nas janelas e nas varandas a dizer para as pessoas fazerem menos barulho. Está mesmo muito difícil. A Câmara nomeou agora um comissário do turismo sustentável, José António Doner, será mais ou menos assim que se chama, que promete fazer uma revolução na forma como o turismo é encarado na cidade. Ele é muito claro a dizer: "Chegamos ao fim da linha. Barcelona chegou ao máximo de turistas que pode receber. Não queremos nem mais um e temos de passar a gerir de uma forma mais inteligente todos aqueles que temos." E ele quer pegar num exemplo clássico, muito simbólico, e prometer uma mudança num ano, e que tem a ver com o famoso mercado La Boqueria, nas Ramblas. Um mercado lindo, mas que rapidamente se tornou naquilo do pior do que o turismo de massas representa, porque não só está cheio.
Apinhado, claro.
Apinhado. Os moradores, as pessoas que vivem em Barcelona fogem de lá.
Claro, não conseguem desfrutar.
Não conseguem. E aquilo deixou de ser um local onde se vende produtos frescos para ser um takeaway constante de comida rápida, sem qualquer valor.
E apinhado.
E apinhado. Ora, este comissário do turismo sustentável diz que num ano isto há de mudar, quer que estas cadeias de comida rápida sejam proibidas e que o mercado regresse ao original, apenas a venda de produtos frescos. Há outras medidas, naturalmente. Desde 2017, que Barcelona não deixou de dar licenças a novos hotéis. O reflexo ou a consequência foi um crescimento enorme do Airbnb. Em 2028, pretende-se que 10 mil desses apartamentos que estão destinados à passagem rápida de turistas
percam a licença e espera-se que sejam atribuídas as licenças necessárias para que estes apartamentos entrem no mercado de arrendamento e tentar, desta forma, também resolver um dos problemas das cidades europeias, que é a falta de habitação, quer dar incentivos para que isso aconteça, porque é claro que esta experiência já foi testada noutras cidades e nem sempre tem resultado. Só para termos uma ideia, dos visitantes de Barcelona, cerca de 65% são os chamados turistas de lazer, vão porque querem visitar museus, passear nas ruas, fazer compras, o que quer que seja. E depois há os outros que vão para conferências.
O turismo mais profissional do que outra coisa.
Exatamente, mais profissional. A ideia é reduzir os turistas de lazer, e isso passa por medidas como reduzir o número de cruzeiros que chega à cidade. Dos atuais sete, reduzir para cinco. Isso terá já, por dia, o que terá um impacto. Agora, no total, num ano, a cidade recebe cerca de três milhões de passageiros de cruzeiros, que, diz este comissário, criam muito mais problemas do que benefícios. Os autocarros turísticos também vão deixar de entrar na cidade, vão criar parques nas periferias de Barcelona. Há também outro fenômeno: cerca de metade destes turistas são repetentes, já conhecem a cidade, já passaram por aqueles locais, as Sagradas Famílias.
As vistas do La Boqueria são tão boas que vão lá repetir.
Eles vão lá repetir e as fotografias são sempre obrigatórias. O risco é: vamos retirar estas pessoas do centro, vamos inundar as periferias que também não estão preparadas para isto. São muitos desafios, há aqui um compromisso muito grande. É um problema que muitas cidades estão a enfrentar. Boa sorte.
É curioso que nunca se fala da utilização da taxa turística para níveis que sejam verdadeiramente proibitivos para algumas pessoas. Tem que ser.
Parece que isso não está a resultar.
Se meteres uma taxa turística de 20 € por noite, por pessoa, talvez haja pessoas que já pensam duas vezes quando vão a uma cidade que tem uma taxa dessa.
Se calhar reduzem.
Um casal são 40 € por noite. Às vezes andamos a olhar para o lado para ganhar 10 € no preço do hotel.
E depois vais pagar nas taxas.
Pode ser por aí. Isso é uma receita, de facto, que paga alguns custos, as externalidades negativas. Mas é curioso.
Vamos ver daqui a um ano.