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O podcast Noite de História tem o apoio do Pingo Doce. Olá, seja bem-vindo a um novo episódio do podcast Noite de História. Eu sou a Maria João Simões e nos próximos minutos, em parceria com o Pingo Doce, vamos falar sobre a importância de uma boa história infantil e o poder que as imagens, as ilustrações, os desenhos, as cores e as formas têm no desenvolvimento dos mais novos. Fomentar e promover a leitura desde cedo é um dos compromissos do Pingo Doce. Exemplo disso são os livros infantis exclusivos, disponibilizados a preços acessíveis, e também o Prêmio de Literatura Infantil, que tem como objetivo dar a conhecer novos talentos nas áreas da escrita e da ilustração. Ora, o nosso convidado de hoje é precisamente o vencedor da categoria de ilustração da sexta edição deste prêmio, o Pedro Velho. Olá, Pedro, bem-vindo e obrigada por fazer parte do podcast Noite de História.

Olá, Maria João.

Olá.

Bom dia, obrigado.

É difícil imaginar uma criança mais pequena interessada num livro sem qualquer ilustração ou estímulo visual. Por isso é que todos nós, mesmo depois de adultos, recordamos e temos memória visual dos livros infantis que lemos quando éramos pequenos. Isto faz com que o ilustrador seja, senão a, uma das personagens principais na literatura infantil. Afinal, é ele quem dá a imagem, cor e formas à ideia do texto ou até mesmo quem conta uma história só com ilustrações, sem recurso a qualquer palavra. E com toda esta importância, Pedro, temos de saber qual é o segredo para cativar os mais pequenos. Vai se descobrindo?

Eu acho que sim, eu acho que se vai descobrindo. Acho que é um processo que tem várias fases, porque o ilustrador tem que se relacionar com o texto, ou seja, como é que vai dialogar com a história que é contada, e isso por si é uma descoberta. Depois, como é que se transfere isso para uma parte visual, que é outra descoberta. Mas mais importante que isso tudo, eu acho que é como é que essa descoberta depois é passada para o próprio produto, para o próprio livro. No fundo, é como é que nós depois podemos criar quase uma viagem para a criança e para o leitor, descobrir e redescobrir o livro. Como é que há estes pequenos detalhes e como é que há estas dimensões todas que nós podemos criar para o leitor ir descobrindo coisas e ir se envolvendo. Pronto, acho que é essa descoberta. Não acho que haja alguma fórmula ou, pelo menos, não sei se serão mais benéficos.

É tudo um processo, não é, Pedro?

Exatamente.

As ilustrações são de uma importância enorme. Estamos a falar do primeiro contato que as crianças têm com o livro muito antes de saberem ler. Têm o poder de despertar a tal curiosidade que o Pedro falava e os sentidos dos mais novos. Por exemplo, a capa de um livro de ilustração pode ser decisiva para captar a atenção dos pequeninos. Como é que se define este ou aquele desenho, esta ou aquela personagem? Como é que se escolhe uma capa?

Eu acho que tem tudo a ver precisamente com essa viagem, com essa história. No fundo, como é que queremos. A capa é um convite. É um convite não só às crianças, mas também aos pais ou qualquer pessoa que se relacione, qualquer leitor que se relacione com o livro. No fundo, é um convite para o que poderá estar ali muitas das vezes. Lá está, vamos definir o tom, se é algo mais amigável, se é algo mais desafiante. No fundo, acaba por ser também por aí.

E que cores é que são mais amigáveis e que cores é que são mais desafiantes?

Isso

Depende depois da história, não é?

Isso depende muito da história, é muito relativo. E também é importante desconstruir alguns preconceitos. Muitas das vezes, os próprios leitores mais velhos acabam por ter mais preconceitos com as cores do que propriamente as crianças.

Claro.

O que é desafiante para uma criança, muitas das vezes, é aquilo que a coloca curiosa, é aquilo que lhe dá vontade de descobrir. Enquanto que um leitor, se calhar, às vezes, mais velho, tem algum preconceito com o desafio, e tem tendência a ficar mais naquilo que conhece. Normalmente com as crianças associamos aquelas cores mais pastel.

Exatamente.

Cores mais infantis, quando não é de todo, muitas vezes, aquilo que as crianças precisam ou como se relacionam.

E no caso dos livros ilustrados, sem qualquer texto, quando o Pedro começa o processo de ilustração, já sabe o fim da história ou são as próprias personagens por si criadas que lhe vão, salvo seja, indicando o caminho, o rumo da história?

Eu acho que há aqui várias componentes. Eu acho que depende também, lá está, de como é que a história vai ganhando corpo, mas também qual é a nossa intenção, ou seja, o que é que nós queremos dizer com aquela história, qual é a importância daquela história e como é que ela pode contribuir para o próprio leitor.

Pedro, e onde é que vai buscar a inspiração? À sua infância, à dos que o rodeiam?

Eu acho que acaba por ser uma mistura. No fundo, é como as nossas próprias histórias pessoais. Nós e os outros, e a coexistência, no fundo, a convivência. Mas eu acho que mais do que a inspiração, eu acabo por pensar muito como é que eu receberia o livro em criança. Ou como é que uma criança irá recebê-lo. No fundo, o que é que seria importante pra mim na altura, o que é que é importante pra mim hoje. E entra aqui toda a parte que eu considero também muito importante, que é da própria responsabilidade social e da educação para com as crianças. Daí que a minha inspiração dialoga sempre com isso, que é o que me interessa, que também está muito associado com esse campo, mas também o que é necessário, as necessidades com que eu posso contribuir e o que isso me dá e como é que eu posso transmitir ou tentar transmitir de alguma forma essas coisas que eu considero mais importantes.

Isso vai ao encontro da minha próxima questão, que é: a ilustração é, de fato, o ponto de partida para as crianças ganharem vontade de aprender a ler?

Eu acho que ajuda.

Sim.

Acho que ajuda muito.

É um estímulo, funciona como estímulo. Será?

É, exatamente. Eu acho que o mais importante, neste sentido, pra mim, é as histórias que são contadas E a forma como nós permitimos que as histórias cheguem aos leitores. Ou seja, cada vez mais nós temos vários tipos de história, a representatividade é muito importante. E no fundo, acho que o que é mais importante para as crianças, para os leitores se conectarem com hábitos de leitura e quererem aprender, é encontrarem histórias onde elas consigam rever, que se consigam interessar, que não sejam coisas muito distantes delas e alguma coisa que as alimente e que elas se consigam sentir próximas e aprender em conjunto.

E alguma técnica que conheça para incentivar os mais novos a adquirirem o hábito e também o gosto pela leitura?

Eu acho que mantenho precisamente a mesma resposta, que é muito importante este encontro com a história e nós rever-nos na história e nós encontrarmo-nos na história. E encontrarmos também os outros na história e coisas novas. No fundo, a possibilidade das histórias é mesmo levar-nos a imaginar e a pensar o que são outras experiências, quais são as várias formas de existir de formas diferentes, o que é que podemos sentir, o que é que podemos descobrir. E eu acho que isso é o mais importante, é criar espaços para que as pessoas se sintam vistas e que possam crescer em conjunto com a história. E muitas das vezes, quando não há essa representatividade, quando não há esse encontro, é muito complicado as crianças relacionarem-se com a história, porque sentem que têm que se encaixar num papel e não necessariamente porque são vistas. E acho que quando são vistas, encontram precisamente esse espaço de: "Este personagem é como eu. Esta história lembra-me alguma coisa da minha história." Então a partir daí interessam-se mais e acho que é um começo, é uma abertura para perceber que há vários tipos de histórias, várias formas de contar histórias e que por isso, mesmo que eu não me interesse por um livro, posso me interessar por outro.

Pedro Velho, e como ilustrador, qual é para si a importância da leitura no desenvolvimento das crianças?

Eu acho que é muito importante, ainda para mais, neste que estávamos a dizer, no fundo as histórias são como nós entendemos o mundo. Portanto, eu acho que é uma introdução a esse universo de entendermos o outro, nos entendermos a nós próprios. Acho que é essencial para esse desenvolvimento, a leitura, porque os livros funcionam como uma espécie de portais, no fundo, para universos que nós não contactámos antes e acho que acabam por ser essenciais, nesse sentido, para o desenvolvimento, porque não é só a nossa experiência. Nós temos o nosso dia a dia, temos a nossa família.

Sim, a convivência.

Esse é mais restrito. Mas de repente, os livros têm essa possibilidade de nos abrir para outros caminhos e para imaginar o outro, para nos pôr no lugar do outro, para pensar as coisas de outra forma, ver o mundo de outra forma. E isso é essencial para aprendermos a conviver com o outro, aprendermos mais sobre nós.

Estamos a terminar, Pedro, mas não sem antes lhe pedirmos umas dicas. Que tipo de rotinas podem, devem ser criadas para incentivar a leitura entre pais, avós e filhos, netos, através das ilustrações?

Eu acho que as ilustrações podem servir como mediação para criar o universo em conjunto, ou seja, mais do que ler só um livro, mais do que ver só as ilustrações, porque não a partir dessas ilustrações criar novos desenhos com a família, com as pessoas que estão à volta, com os amigos. Eu acho que é muito importante que as ilustrações tragam essa vertente muito prática, de criar momentos em conjunto para não só ler, mas pensar e criar novas histórias, novas ilustrações, novas formas de ver. Porque, no fundo, as crianças são muito curiosas, as crianças estão muito mais conectadas com isso do que normalmente os leitores mais velhos. E então as ilustrações podem ajudar a criar esse espaço de encontro entre os leitores mais novos e os leitores mais velhos, para aprenderem em conjunto, para brincarem, para experimentarem. E é isso que eu acho que é a dica que eu poderia dar nesse sentido, é que para os leitores mais velhos se permitirem a contaminar pela história e aprenderem não só com aquela história, mas a criar novas histórias, novas histórias em conjunto. No fundo, é usar um livro como uma forma de criar momentos de aprendizagem conjunta, de experiência conjunta e de criatividade conjunta, porque a imaginação é essencial, quer para os leitores mais novos, obviamente, e para o seu desenvolvimento, mas também para o desenvolvimento dos leitores mais velhos, que continuam em desenvolvimento. Acho que era essa a dica que eu daria.

Estamos a chegar ao fim de mais um episódio do podcast Noite de História. Pedro Velho, muito obrigada pela partilha, boas histórias e boas ilustrações.

Obrigadíssimo.

Foi um gosto, Pedro. Obrigada.

Igualmente, obrigado.

No terceiro episódio da Noite de História, vamos continuar a olhar para a ligação entre os livros infantis e o desenvolvimento da criança e também para a relação e dinâmica familiares. Conosco vai estar o avô, pediatra e escritor Mário Cordeiro. Eu sou a Maria João Simões, obrigada pela companhia. Até ao próximo episódio. O podcast Noite de História tem o apoio do Pingo Doce.