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O podcast Noite de História tem o apoio do Pingo Doce. Olá, seja bem-vindo ao quarto e último episódio do podcast Noite de História. Eu sou a Maria João Simões e nos próximos minutos, em parceria com o Pingo Doce, vamos falar sobre a importância das histórias infantis no desenvolvimento dos mais pequenos, seja no meio familiar ou em contexto escolar. Uma das prioridades do Pingo Doce é fomentar e promover a leitura desde cedo, e os livros infantis exclusivos são exemplo disso. Um compromisso onde se inclui também a iniciativa que já todos conhecem bem, o Prêmio Literatura Infantil Pingo Doce, que dá a conhecer novos talentos, tanto na área da ilustração como da escrita. Ao longo deste podcast, já falamos com uma mãe de três, um ilustrador e um avô, que é também pediatra. Hoje damos voz a quem dá continuidade ao trabalho que é feito em ambiente familiar, os educadores de infância. E por isso, neste último episódio, é nosso convidado, Diogo Guerreiro. Olá, Diogo, obrigada por ter aceitado o nosso convite. Bem-vindo.

Maria João, boa tarde, muito obrigado pelo convite e deixa-me dar-lhe já os parabéns por este podcast. Uma iniciativa excelente. Parabéns.

Sem dúvida. Obrigada, Diogo. O Diogo é educador de infância há cerca de 20 anos. Olhando para o início da sua carreira e para o presente, sente diferenças no gosto e hábitos de leitura dos mais pequeninos? Eles têm mais ou menos interesse pelos livros?

Nos hábitos, sim. As coisas mudaram. A pressão do tempo e do digital aumentou de uma forma profundamente avassaladora. E a nossa competência, a competência fundamentalmente das pessoas adultas, claro, na generalidade, em casa e na escola, não acompanhou o ritmo. O ritmo desta pressão do digital e do tempo, que é cada vez menos. Há 20 anos, por exemplo, havia uma chuva praticamente torrencial de livros, a toda hora. Tínhamos imensos livros a chegar às nossas salas e hoje, as alterações deste clima também já se fazem sentir nos hábitos do contacto com os livros. Nos gostos, não. As crianças, de um modo geral, adoram histórias. Do princípio, as crianças fazem o que as pessoas adultas fazem. E as pessoas adultas estão sempre a contar histórias. Nós estamos sempre a narrar qualquer coisa, estamos sempre a contar uma história qualquer. E as crianças começam por gostar de nos ouvir e de nos ver a mexer os braços e a articular os músculos da nossa cara, portanto, durante uma conversa. E estão a beber tudo isto. Além de que crescem completamente imersas num código escrito. As crianças percebem desde muito cedo que aquelas coisas supergiras que nós temos, que são de muitas cores, de muitas formas, de formas, aliás, virtualmente infinitas e de dimensões também muito variadas, que estão em toda a parte, servem para qualquer coisa, servem para alguma coisa. São as letras, que estão em todo lado. Há letras espalhadas por todo lado. E as crianças percebem que quando as letras se juntam, devagarinho, fazem palavras e palavras que têm um significado. Depois juntam-se as palavras. As palavras juntam-se em frases, as frases vão-se juntando.

Isso é uma descoberta fascinante.

Super fascinante. Juntam-se em parágrafos e de repente, pumba, de repente temos uma história. E afinal de contas, quem é que não gosta de uma boa história?

Sem dúvida. E Diogo, quando chegam à escola, elas levam as histórias que lhe foram contadas pelos pais, irmãos e avós ou procuram por novidades na escola?

Levam as histórias que lhes são passadas e contadas pelas irmãs, pelas mães e pelas tias, que contam histórias a torto e direito. A história da noite, por assim dizer, ainda acontece. E quando vez, há uma ou outra que chega à creche. E claro, cada vez que uma coisa chega, e não estamos a falar das redes sociais desta vida, estamos a falar de uma história, é um motivo de celebração.

E quem é que escolhe os livros? Existe um top de preferência? O Pingo Doce tem livros giríssimos e que os mais pequenos adoram.

Concordo completamente. Se me permite, ainda guardo com particular carinho a parte de uma coleção herdada, dentro de aspas, de uma criança há uns anos valentes, que era "Um, Dois, Três, Aprender é Divertido", que são histórias de encantar. É uma coleção com imenso gosto, que é do Pingo Doce, com imenso gosto em termos de conteúdo, seja o conteúdo escrito, seja depois aquele suporte áudio, porque havia sempre alguém a contar a história e nós tínhamos um CD para ouvir a história, seja em termos de ilustração. E essas histórias de quando em vez, ainda vêm à baila. Mas agora, respondendo, a primeira escolha de todos os suportes escritos é feita pela equipe educativa. Nós, dentro da nossa sala, outra vez dentro de aspas, porque pode ser em qualquer lado, chamamos suporte escrito aos livros e aos periódicos que temos sempre disponíveis na sala. E os critérios de seleção são: o conteúdo, que no fundo é o tema, que podem ser muitíssimo variados, os temas podem ser muitíssimo variados. A mensagem, com um enfoque muito particular e com particular atenção a estereótipos de gênero, por exemplo. Ao aspecto gráfico, à qualidade da ilustração, os tipos de letra, enfim. E claro, a resistência dos materiais. Porque uma coisa é termos um livro exposto na estante alta lá de casa, outra coisa é termos objetos que têm que estar disponíveis pra utilização livre de 15 crianças.

E a toda hora.

A toda hora.

E como é que o Diogo fomenta o gosto pela leitura, pelos livros?

Porque a segunda escolha é sempre feita pelas crianças e as pessoas adultas ficam disponíveis pra aquilo que a criança quiser. Acaba por ser a minha forma de trabalhar e em educação de infância nós também fazemos muito isto. Nem que seja pra criança agarrar no livro e fazer do próprio livro o telhado de uma casa de Lego, que acabou de construir. Portanto, o livro acaba por ter várias utilizações. Agora, o gosto pela leitura

Há truques para que eles não dispersem a atenção no momento de ouvir uma história?

Claro, Maria João. Vamos ver. Começamos sempre por acrescentar pontos a cada conto. Nós dizemos: "quem conta um conto, acrescenta um ponto". E nós vamos acrescentando sempre pontos. A língua portuguesa é riquíssima. E nós vamos utilizando todas as palavras que temos disponíveis, não só aquelas que estão dentro dos livros, até porque há alguns livros que não têm palavras. E esses também são de uma riqueza enorme, mas a nossa cara, as nossas mãos, os nossos pés, os nossos olhos, os recursos que nós utilizamos, adereços que nós utilizamos para contar uma história, são virtualmente infinitos. Aliás, eu até acabo por afastar-me um bocadinho daquele formato em que a pessoa adulta fica à frente do grupo de crianças, quase como se estivéssemos a pregar. Atenção, sem ferir suscetibilidades, por favor, mas ninguém tem que estar de rabo sentado no tapete, com as perninhas à chinesa. Também pode, mas não tem de. Aquela história dos sapatinhos de veludo, esses são mágicos e calçam-se por si, aparecem sozinhos. A história começa num sítio qualquer, quem quer ouvir, ouve. Quem quiser ouvir a história deitado, ouve a história deitado, deita-se. Quem quiser ficar sentado, fica sentado. Quem quiser contar a história, também conta.

E Diogo, as crianças transportam para as brincadeiras as aventuras das histórias que leem ou que lhes são contadas?

Claro, se calhar a melhor história que eu tenho para lhe contar é a do soldado Martin. Eu nunca, nestes anos todos de prática, eu nunca consegui ver outra história, ver, literalmente, uma história com tantos papéis desempenhados. Nós tínhamos o soldado Martin, tínhamos o cavalo, a pessoa que estava cheia de frio, que afinal não era só uma pessoa, eram várias pessoas. Tínhamos as nuvens, o sol, as árvores, o vento, as folhas, todas as crianças quiseram envolver-se no conto daquela história. E não faz sentido que seja de outro modo, ou seja, as crianças querem brincar. Vamos a uma coisa, se for importante para nós, vai ser importante para o universo, vai ser importante para todas as pessoas. E a forma como nós colocamos uma história a uma criança, a forma como lhe contamos esta história, o nosso entusiasmo passa de uma forma simples, é quase por osmose. É um desabafo, Maria João, brincar é tão bom que eu tenho imensa dificuldade em perceber como é que as pessoas adultas se esquecem de como é que isto se faz. É só deixar-nos ir.

Diogo, eu há pouco na introdução que fiz, dizia que os educadores de infância dão continuidade ao trabalho que é feito em casa pelos pais. É mesmo assim ou é ao contrário? Família é que dá continuidade ao trabalho que é feito nas escolas, nas creches, nos jardins de infância.

A palavra-chave é parceria. Nós falamos muito na parceria escola, família, etc. Mas nesta área em particular, os livros circulam sempre com total liberdade. Sempre. É que nem nos parece fazer sentido que seja de outra forma. Dou-lhe um exemplo: há já algum tempo. A minha equipe educativa, com a Biblioteca Municipal de Beja, dinamizamos um projeto espetacular, não só eu, não só na minha sala, mas noutras salas, era um projeto da biblioteca de empréstimos de livros, que eram geridos por nós, pelas equipes educativas. Na escola, neste caso no infantário, íamos todas as semanas, portanto, todas as crianças íamos em grupo, à biblioteca municipal trocar o nosso saco, chamava-se o saco Andarilho, e as crianças, quando o saco vinha para a escola, porque também se chama Escola Aberta, o sítio onde eu trabalho, as crianças acabavam por escolher o livro que queriam levar para casa e nós fazíamos com que houvesse uma rotatividade desses livros por todas as casas, sempre em função das escolhas das crianças. E as famílias envolveram-se imenso. E isto nunca pode ser quebrado. Portanto, andamos sempre para lá e para cá. É uma questão de parceria. Noutras áreas nem sempre acontece o mesmo. É capaz de ser mais difícil fazer a educação de infância, é fundamental. A parte mais difícil da educação de infância, Maria João, por incrível que possa parecer, são mesmo as pessoas adultas. E a influência que as pessoas adultas têm sobre as crianças, ainda que achem que acontece ao contrário, porque claro que o contrário também acontece, mas basta só pensar que as crianças fazem tudo o que nós fizermos. Tudo, para o bem e para o mal. É por isso que nós às vezes divergimos.

O tempo voa, mas tenho que lhe fazer uma última pergunta. Diogo, enquanto educador de infância, que conselhos deixa aos pais que têm maiores dificuldades em fazer com que as crianças se interessem pela leitura, pelos livros?

Deixem as crianças morder os livros. Literalmente. Não digam, por favor, às crianças para não pôr os livros na boca. Por exemplo, quando são bebés. Antes, escolham bons materiais, muito bons materiais, e deixem que as crianças lhes sintam o sabor. Isso para mim é fundamental. Deixem as crianças comer, rasgar as revistas e jornais que sejam de qualidade. Deixem-nos descobrir que as imagens que ali estão, as imagens que estão nesse suporte escrito. De tantas formas, têm tantos tamanhos, seja mancha de texto, seja ilustração, seja o que for, nos fazem pensar, a nós, pessoas adultas, e nos fazem falar. E nos contam o mundo. O mundo em que nós estamos a crescer. Não interessa se é uma revista de motas, não interessa se é um artigo científico sobre bactérias da nossa vida, não interessa se é um livro de receitas. Se é importante para nós, vai ser fantástico para as crianças. E elas depois escolherão o seu caminho. Tranquilo. Mas, por favor, deixem as crianças brincar e apropriar-se desses objetos. Devagar, com tempo, com muito tempo. Se calhar, melhor, no tempo de cada criança. Eu, por exemplo, sou um slow reader, gosto de ler devagar, ando para frente e para trás, navego nos livros e gosto de ler bem devagar, mas tenho quem não consiga nem sequer ir para a cama sem acabar de devorar a última página de um livro.

É importante respeitar o tempo da criança.

Claro, sempre, é fundamental. É que o espanto não acontece só pelos nossos olhos. E nós temos mais quatro sentidos para podermos trabalhar e explorar. Tentamos agarrar uma imagem e depois sentimos imenso prazer quando conseguimos tocar nessa imagem, que é exatamente o mesmo prazer que sentimos quando ouvimos sons ao longe, muito ao longe, ainda durante a gravidez, por exemplo, e depois começamos a dizer as primeiras palavras. Ou quando o nosso corpo consegue dizer exatamente aquilo que nós estamos a pensar. Apropriamo-nos de um livro de histórias, basicamente, ao apropriarmos de um livro de histórias, vamos fazer com que ele seja nosso. E esse é o primeiro passo para começar a construir a nossa própria história. Portanto, deixem as crianças fazerem o que quiserem com os livros, por favor.

Que conversa maravilhosa. Chegamos ao fim deste que é o último episódio do podcast Noite de História. Diogo Veríssimo Guerreiro, muito obrigada por ter feito parte desta iniciativa do Pingo Doce.

Estive o maior gosto. Obrigado eu, Maria João.

Obrigada por partilhar com todos a sua experiência e boas histórias, Diogo. Obrigada.

Obrigado.

A si agradecemos ter nos feito companhia ao longo destes quatro episódios. O Pingo Doce vai continuar a apostar nos livros infantis como forma de incentivar os mais novos a ganharem o gosto pela leitura, tão importante para o seu desenvolvimento pessoal e social. Eu sou a Maria João Simões. Obrigada pela companhia. Boas leituras. O podcast Noite de História tem o apoio do Pingo Doce.