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Este é o Jornal das Quatro, em edição do Miguel Videira. Miguel, Luís Marques Mendes revelou há pouco a lista de clientes da empresa familiar.

22 clientes com contratos firmados na área da prestação de serviços em consultoria, comentário e participações em conferências. Entre as 22 empresas está a Alberto Couto Alves, uma construtora de Famalicão, que está na origem de uma denúncia anônima enviada à Procuradoria-Geral da República, segundo a qual o ex-líder do PSD recebeu centenas de milhares de euros sem que tivesse sido firmado qualquer contrato ou prestado efetivamente um serviço. A lista de clientes do antigo presidente do PSD ganhou relevância depois da revista Sábado ter revelado que Marques Mendes recebeu mais de €700 mil enquanto consultor externo nos últimos dois anos. A notícia resultou nesta tomada de posição por parte do candidato à presidencial. O diretor de campanha de Marques Mendes desafia agora os restantes candidatos a seguirem um caminho semelhante. Duarte Marques fala em ações a bem da transparência e pede que se divulgue tudo o que possa suscitar conflitos de interesse. Marques Mendes dá uma conferência de imprensa daqui a pouco, às 16h30, momento que vamos acompanhar em direto aqui na antena do Observador. Junta-se a este Jornal das 16h o editor de política do Observador, Rui Pedro Antunes. Rui, boa tarde. Já é possível retirar alguma conclusão da lista de clientes que agora foi divulgada?

Olha, Miguel, antes disso, deixa-me só fazer aqui uma distinção, que é: nos últimos dias, a primeira notícia é sobre a incerteza de recebimentos de €700 mil do trabalho profissional na Abreu Advogados, que é relativo a clientes com quem Marques Mendes trabalha ou trabalhou nessa sociedade de advogados. Estes clientes que ele revela é fora da Abreu, ou seja, da sua empresa familiar. Qual é o entendimento de Marques Mendes? É que os primeiros estão sujeitos a um sigilo profissional próprio dos advogados, que é, no entender dele, ultrapassável, a menos que haja um caso de maior gravidade. E neste caso, não, como é uma coisa mais pessoal, é sua empresa familiar, e como são empresas ou de consultoria ou de conferências, porque aqui a ideia não tem muito bem a ver com o volume. Nós olhamos e são mais as empresas para as quais ele fez conferências do que as empresas para as quais ele fez consultoria. Mas, por exemplo, nós sabemos que relativamente à Alberto Couto Alves, foram €360 mil.

A tal construtora.

Exato. Não é por nós olharmos e vermos que dois terços são conferências e um terço são consultoria, que a relação da dimensão de valor seja essa, porque isso não é conhecido. Por outro lado, é verdade que isto é um sinal de transparência, no sentido em que Luís Marques Mendes tinha dito aqui, na entrevista ao Observador, que estava disponível pra revelar os clientes. Ele disse na altura que eram mais dois ou três e conferências. Não é exatamente assim. Ou seja, é uma lista de clientes bastante mais vasta do que se imaginava quando ele nos deu essa resposta, mas cumpriu. Agora, o que falta fazer é a segunda parte, que certamente os adversários vão fazer e também os jornalistas no escrutínio normal, que é: é verdade que o prometido é devido. Aqui está, prometeu, divulgou. Vamos ver se o prometido é devido, porque pode algumas vezes haver aqui, depois, algumas ligações que possam ou não ser problemáticas no sentido de serem de escrutínio.

É exatamente isso. Rui, o que está aqui em causa é isso, não é? Se de fato haverá aqui esse tipo de relações que defines como problemáticas.

Sim, em primeiro lugar, por exemplo, na primeira empresa de consultoria que nós já escrevemos sobre isso, a Alberto Couto Alves, que a PGR primeiro disse-nos que não dizia se estava lá alguma coisa e depois esta manhã respondeu meu e-mail a dizer que não ia abrir nada, nem averiguação preventiva, nem inquérito, porque achava que pra já não era matéria criminal, e portanto era logo excludente de ser o Ministério Público a investigar, e depois que ia enviar pra autoridade tributária, porque de fato havia ali matéria fiscal, mas que podia ser ou podia não ser. Esse assunto dessa empresa ficou fechado pela entidade que o podia fazer. Depois, podemos começar a ver por aí a baixa lista. Naturalmente que ela foi divulgada há sensivelmente 1h20. Ainda não tive a oportunidade de fazer um escrutínio total, mas posso dar-te um exemplo. Estava agora a olhar pra Associação Portuguesa dos Industriais de Engenharia Energética. Uma boa parte do percurso de Marques Mendes na atividade profissional também foi feito na área da energia. Isto não é estranho, que ele tenha feito consultoria nesta área. Por exemplo, até num livro, que é "Os Negócios da China", que é um livro sobre precisamente ex-políticos que, na verdade, facilitam negócios, é referida uma longa lista de empresas da área da energia de Marques Mendes. Portanto, ele tem experiência nessa área e não é de estranhar. Na questão das conferências, há nomes que são muito conhecidos: a Cimpor, o próprio McDonald's e, portanto, a partir daí é natural que Marques Mendes tem experiência em diversas áreas, é um político experiente, portanto, pode dar uma conferência praticamente sobre tudo, além de ser jurista, naturalmente. E portanto, naturalmente, não é de estranhar essa parte. Mas eu vou te dar aqui um exemplo de como é que pode ser olhado, às vezes, o escrutínio. Isto foi uma conferência dada por Luís Marques Mendes, ou pelo menos esta empresa pagou-lhe, a CBRS Sociedade de Mediação Imobiliária Limitada Isto não diz nada. No setor imobiliário, nós não sabemos qual era o período. Vamos imaginar que a CBRE tem investimentos na área dos Vistos Gold e que coincide exatamente com uma altura em que Luís Marques Mendes tinha suspeitas sobre as ligações dele a essa área, etc. Isso mudaria tudo. Há aqui uma informação que é insuficiente. Eu não estou a dizer que o escrutínio tem que ser total, porque o próprio candidato até foi para além daquilo que lhe era exigido neste momento do ponto de vista formal e legal. Mas naturalmente que nós, não sabendo a data das conferências, não sabendo quando foi o período e qual o valor de cada uma destas empresas, também esse escrutínio nunca pode ser total. Agora, que é mais do que até agora os outros candidatos genericamente revelaram, nem todos têm este tipo de percurso. Por exemplo, o almirante Gouveia e Melo esteve a vida toda na Marinha, nas Forças Armadas e, portanto, não terá esta relação de contactos profissionais e de clientes em empresa privada, mas também tem um alojamento local no Alentejo. Vou dar aqui um exemplo que é absolutamente fictício para quem estiver a apanhar do nada não achar que estou a fazer nenhuma suspeição. Mas imaginar que no alojamento local que ele tem no Alentejo ia albergar alguém de uma empresa que contratou para a Marinha, de sua responsabilidade. Em todo lado há fatores suscetíveis de haver essa incompatibilidade, mas de facto Marques Mendes tem uma vida profissional mais rica neste aspecto e, portanto, à partida também tinha uma pressão maior sobre ele, sobre esta parte da sua atividade profissional. É verdade que ele agora pode dizer que tem aqui um passo em frente no ponto de vista da transparência e da ética, que aliás, tem sido uma bandeira dele. Ele que praticamente caucionou a hipótese de ser primeiro-ministro e de continuar líder do PSD, embora tenha sido democraticamente derrotado por Luís Filipe Menezes numas eleições diretas, que foram as primeiras do PSD, prejudicou muito essa bitola ética que ele teve quando era líder do PSD. Portanto, ele puxa muito dessa bandeira. Acho que é um bom princípio e um bom sinal para a transparência ter divulgado esta lista. Se isto nos diz exatamente tudo o que foi as relações dele ao longo dos últimos anos? Não diz, mas se efetivamente ele prometeu aqui precisamente no estúdio da Rádio Observador, e se cumpriu, acho que ninguém pode dizer que este não é um bom princípio democrático.

Sendo que esta lista vai ser agora, seguramente, e como também aqui fazias referência, dissecada para perceber então todas essas ramificações e essas ligações, sendo que, como já aqui disse, Luís Marques Mendes vai dar uma conferência de imprensa daqui a pouco momento, que vamos acompanhar em direto aqui na antena do Observador. Obrigado, Rui Pedro Antunes, é o editor de política do Observador.

Seguimos então com a Procuradoria-Geral da República, que esclareceu que não abriu qualquer inquérito ou averiguação preventiva na sequência dessa denúncia anônima que visa Marques Mendes.

Sim, o Rui fazia aqui referência a isto mesmo. Segundo essa denúncia anônima, o candidato a Belém recebeu milhares de euros da construtora de Famalicão sem que tenha sido firmado qualquer contrato e sem que os serviços tenham sido efetivamente prestados. Ora, o Ministério Público entende que a informação é parca e não descreve qualquer facto suscetível de ser considerado um crime.

E Miguel, uma decisão que tem merecido comentários nas últimas horas de adversários de Marques Mendes nessa corrida a Belém.

O caso António Filipe, que visita o Instituto Ricardo Jorge, afirmou que todos os candidatos têm a obrigação de declarar todos os interesses que têm.

É evidente que todos os candidatos a Presidente da República, dado que se trata de um cargo de absoluta exclusividade e têm a obrigação de declarar os interesses todos que têm. As obrigações declarativas de património e rendimentos e de interesses não são apenas para os titulares de cargos políticos, mas também para os candidatos a Presidente da República e, portanto, no âmbito dos processos de candidatura consta essa declaração e portanto, agora tratar-se-á de aferir a veracidade da declaração. Mas enfim, o Ministério Público tomou a sua decisão e sobre isso nada tenho a dizer.

António Filipe, sobre a decisão da Procuradoria-Geral da República de não abrir nenhum inquérito depois de receber uma denúncia anônima. Também Henrique Gouveia e Melo, o candidato à presidencial, voltou a falar sobre as suspeitas em torno de Marques Mendes. O almirante volta a pedir mais transparência.

Vamos agora para outras notícias também em destaque a esta hora.

A CGTP decidiu hoje convocar uma manifestação para o próximo dia 13 de janeiro contra o pacote laboral. A Central Sindical revela que a manifestação começa às 14h30, junto ao Largo Luís de Camões, e o destino é a residência oficial do primeiro-ministro em São Bento. No desporto, Rui Silva, vídeo-árbitro do Santa Clara-Sporting e Tiago Leandro, assistente de vídeo-árbitro no mesmo encontro, pediram dispensa para os jogos da 15ª jornada do campeonato. O Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol atualizou há momentos a lista de nomeações para a próxima ronda da Liga. Rui Silva já não vai ser o VAR do jogo Tondela-Casa Pia, enquanto que Tiago Leandro também não vai desempenhar funções de assistente VAR no Estoril-Sporting Clube de Braga. Recordar que a partida de ontem entre o Sporting e o Santa Clara está envolta em polémica por causa de um pontapé de grande penalidade assinalado a favor dos leões, já nos minutos finais do encontro.