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E começa agora uma nova edição do "O Bom, o Mau e o Vilão", que hoje também pode acompanhar com a imagem. Bom dia, Miguel Pinheiro.

Bom dia.

Bom dia. O teu bom é o governo por causa dos imigrantes.

É, ontem o ministro da presidência esteve no Parlamento e anunciou que ainda este mês vão abrir 15 novos centros de atendimento pra imigrantes, com o objetivo de recuperar os mais de 400 mil processos que estão pendentes e vão abrir em vários sítios, nomeadamente no Porto e em Braga. E uma pessoa ouve isto e pensa: "Então, mas até agora não havia centros de atendimento pra imigrantes em Braga nem no Porto?" Não sei se me está a escapar aqui alguma coisa.

A ti não, mas a eles escapou.

Mas um imigrante precisasse de resolver presencialmente um problema com a sua regularização-

Tinha de imigrar para Lisboa

...tinha de ir para Lisboa. Será que era mesmo assim? Estive a procurar um pouco mais de informação pra perceber se era mesmo assim. Mas enfim, vamos ultrapassar esta perplexidade e vamos ficar com a boa notícia, porque de facto, para resolver um problema de 400 mil pendências, só mesmo abrindo qualquer coisa como 15 novos centros em todo o país, para ver se não andamos a arrastar este problema por mais tempo.

A pergunta é sempre como é que se chega a este ponto. Por que só agora?

Certo. E Viseu, Paulo?

Aí está.

Vai haver?

Não faço ideia, são 15 novos centros.

Não sei, temos que investigar.

Provavelmente, Porto e Braga precisam de mais do que um.

É possível. Mas tinham zero. Agora o quê? De repente. Estavam muito bem com zero e agora querem mais do que um?

Estavam muito bem, esse é o problema.

Sinceramente, também acho. A pessoa dá um dedo, querem logo o braço todo.

É assim.

Incrível.

O bom é o governo, o teu mau é muita gente.

Olha, é. Vamos então aqui respirar fundo para termos fôlego. O mau são o PSD, o PS, a Iniciativa Liberal, o Bloco de Esquerda, o Partido Comunista Português, o LIVRE, o PAN e talvez, eu não percebi bem, ficou a dúvida, talvez o CDS. Porque ontem o Parlamento discutiu a proposta de um referendo sobre imigração, que foi avançada pelo Chega. Uma deputada do Chega fez a intervenção inicial. Depois, a presidência do Parlamento perguntou se havia mais alguma inscrição, disse: "Não está aqui ninguém inscrito, é mesmo assim?" Fez-se aquele silêncio estranho, que às vezes também há naqueles jantares. A presidência constatou: "De fato, não há aqui mais nenhuma inscrição." Chamou o André Ventura pra fazer a intervenção final de encerramento. André Ventura subiu ao púlpito, abotoou o casaco, preparou-se pra falar e quando estávamos nisto, de repente, João Almeida, do CDS, pegou no telefone, ligou lá pra cima pra presidência e disse que afinal se tinha inscrito pra falar. Houve ali uma dúvida, porque não havia nenhuma inscrição registrada. Então escreveu-se mesmo, mudou de ideias em cima da hora, não deu pra perceber, mas seguiu-se em frente e depois de o deputado do CDS falar, todos os outros partidos pediram pra intervir e à dada altura, António Filipe, do PCP, explicou o mistério. Ele disse que não tinha havido inscrições atempadas por haver a expectativa de que toda a gente tratasse esta proposta do Chega como mereceria ser tratada, estou a citá-lo: "Deixar os proponentes a falar sozinhos". Ou seja, pelos vistos, os vários partidos acharam, todos juntinhos, juntaram-se todos no recreio, juntaram-se todos ali ao pé da sala de aula e decidiram que a melhor forma de combater a proposta do Chega era boicotando a discussão. Foram infantis a achar isto e foram infantis a aplicar isto, porque depois de João Almeida falar, depois do menino João falar, os meninos foram todos pedir o microfone pra também aparecerem. Foi uma triste figura, aliás, foram várias tristes figuras, e achar que a melhor forma de defender a democracia, que é o que eles querem muito fazer, é não debater os assuntos.

É deixar o assunto sozinho para o Chega, neste caso.

É.

É surreal como é que se pode pensar que é uma boa estratégia.

Hoje em dia, depois deste tempo todo, aquelas alminhas todas juntas, os melhores dos melhores, os nossos representantes, continuam a achar isso. É realmente brilhante.

Quem é o teu vilão, Miguel?

Olha, o meu vilão também não é só um. Isto hoje não cabiam todos aqui no nosso megaestúdio, mas o vilão são os outros arguidos do BES, que não Ricardo Salgado, porque agora que o antigo líder do Banco Espírito Santo não pode responder-lhes, passou a ser ele não apenas o dono disto tudo, mas também o culpado exclusivo disto tudo. E atenção, longe de mim ilibar Ricardo Salgado, seja do que for. Era o que mais faltava. Mas ele, de facto, teria de ter superpoderes pra conseguir sozinho fazer tudo o que está na acusação, sem a ajuda, sem a cumplicidade de mais ninguém, ainda por cima numa organização como o banco e o grupo Espírito Santo, que se bem me lembro, e eu sou dessa altura, que ele tinha gente tão extraordinariamente inteligente, eles julgavam-se tão acima dos restantes mortais, eram pessoas todas tão incríveis. Trabalhar pro Banco Espírito Santo era um sinal de estatuto, de distinção, eram realmente os melhores produtos da sociedade portuguesa. E agora, pelos vistos Estamos nisto porque, segundo nos disseram em tribunal, os arguidos tinham total desconhecimento dos factos, ou então limitaram-se a dar continuidade a procedimentos que tinham sido há muito instituídos pelos seus antecessores. Eram realmente pessoas com muito respeito pela tradição, ou então agiram possuídos de uma forma de cegueira, ou, também usamos esta expressão, são quase adrezos. Como é evidente, eu não sou juiz e vai caber aos juízes decidirem tudo isto. Era o que mais faltava. E as pessoas vão naturalmente poder defender-se e provar que, de facto, não sabiam de nada, claro. Longe de mim. Mas realmente uma pessoa assim, à partida, ouve aquilo e acha estranho.

Sim, muito estranho.

Atenção, só estou a dizer que acho estranho, mas eu já vi cada coisa estranha.

Pois, uma das acusações não é de associação criminosa?

É. Mas precisamente, a contestação de vários arguidos é essa.

É esse conceito.

Naturalmente, segundo eles, o objetivo não era outro. Eu sou jurista, mas não entro nisso.

Sim, mas esta é a altura em que, de facto.

Olha, mas achei estranho.

Toda a gente a tirar o cavalinho da chuva, como se diz.

E olha, por acaso hoje acho que vai chover.

Hoje acho que vai chover.

Mas é melhor tirar.

Vamos ao resumo. O pano desta quinta-feira é o governo, o mal são o PSD, o PS, a Iniciativa Liberal, o Bloco de Esquerda, o PCP, o LIVRE, o PAN e talvez o CDS, e o vilão são os outros arguidos do BES, que não Ricardo Salgado. Foram estas as escolhas do Miguel Pinheiro.