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E começa agora uma nova edição do "O Bom, o Mau e o Vilão". Bom dia, Miguel Pinheiro.
Bom dia.
Bom dia. O teu bom está ligado às notícias de protestos na Universidade do Porto.
É, o meu bom é o reitor da Universidade do Porto, que tem de ter uma paciência de santo. Isto é santidade imediata, santo súbito, como se disse com João Paulo II, porque primeiro meia dúzia de estudantes ocuparam um edifício da universidade com tendas de campismo e bandeiras da Palestina e agora meia dúzia de professores assinaram uma carta aberta a apelar à não utilização de meios policiais contra os estudantes e a expressar a sua solidariedade para com os estudantes em luta. E entre estes professores estão, claro, um ex-deputado do PCP e um ex-dirigente do Bloco de Esquerda. Tudo legítimo, só para não parecer que de repente são uns professores que saíram da biblioteca para o mundo. Nas notícias sobre este tema, nós fomos também informados que os estudantes, e eu vou citar, se estavam a reunir e a deliberar democraticamente em assembleia sobre o que fazer a seguir. E eu gostava só de os informar de uma coisa: é que só existe democracia quando há representatividade. E esta meia dúzia de alunos, ou meia centena, não representam ninguém. Não representam os estudantes da Universidade do Porto, porque não foram eleitos por ninguém. Não têm uma representatividade numérica, porque são meia centena de pessoas, muitos deles nem sequer são daquelas universidades. Aliás, muitos deles nem devem ser estudantes, porque parece que há lá um cartaz que diz: "Solidariedade proletária por uma Palestina livre." Proletária? Mas os estudantes universitários fazem alguma ideia do que é ser proletário?
Mas democraticamente cabe lá tudo, não é? Quando o homem quiser. A democracia é quando o homem quiser.
É. Pois, mas não. Aqui o problema para estes jovens, que se calhar falharam a aula de Ciência Política, é que não, a democracia é outra coisa.
Miguel, o teu mau foi o bom de ontem.
É verdade.
Um dia.
É a roleta da vida. Isto, de facto, é mesmo assim. Mas o mau é José Pedro Aguiar Branco. Ontem, o presidente do Parlamento teve uma ideia original. Na sequência da última polémica com o Chega, Aguiar Branco decidiu que era bom ouvir todos os anteriores presidentes do Tribunal Constitucional para lhes perguntar a opinião sobre que limites há, se é que há alguns, à liberdade de expressão dos deputados. O objetivo era ouvi-los desde que todos os partidos estivessem de acordo. E como houve partidos que não estiveram de acordo, Aguiar Branco retirou a proposta. Resultado: com isto, a discussão sobre se os deputados podem ou não dizer que os turcos trabalham pouco prolongou-se por mais um dia. É uma novela que interessa a muito pouca gente, seguramente não interessa a José Pedro Aguiar Branco, e fica-se com a ideia de que afinal o presidente do Parlamento tem dúvidas sobre aquilo que decidiu.
Ou então quer algum, não direi apoio, mas alguma confirmação, algum respaldo mais institucional da decisão que ele tomou, da forma como lida com a gestão das sessões do Parlamento.
Mas entretanto andamos nisto, a discutir se os turcos trabalham ou se não trabalham. A seguir vamos se calhar discutir aquilo que nomeadamente Marcelo Rebelo de Sousa gosta muito de dizer, mas não só: os portugueses só funcionam bem no improviso. Vamos andar aqui nestas coisas e quem ganha com isto, obviamente, é André Ventura, que está nas redes sociais a dizer que isto é tudo uma patetice.
Miguel, e quem é o teu vilão?
Grande pergunta.
Já sai uma assim, como diz.
Deixe-me só assinalar isso. O vilão é, e assim ganhei um tempo precioso, o ainda diretor executivo do SNS. A história foi contada ontem pelo Observador e resume-se assim: a maior unidade local de saúde da região de Lisboa, a maior, que junta vários hospitais da zona central, está há 11 meses sem um diretor clínico, que é só um dos cargos mais importantes desta estrutura. E então, perguntam-me vocês, por que esta unidade local de saúde, que tem, por exemplo, os hospitais de São José, dos Capuchos, o Curry Cabral, o Dona Estefânia, por que está há 11 meses sem um diretor clínico, que é a pessoa que faz a ligação entre os médicos e o conselho de administração? Pois bem, está neste estado porque a direção executiva do SNS recusa-se apreciar o nome que lhe foi submetido há quase um ano. Atenção, não aprovou, não vetou, simplesmente ignorou. E aliás, Fernando Araújo gosta muito de ignorar coisas, porque além de ter ignorado os pedidos de resposta do conselho de administração desta unidade local de saúde, também ignorou os contactos feitos pelo Observador. E, como se compreenderá, não há uma explicação racional para isto. Não há uma explicação racional para uma estrutura, que foi a direção executiva do SNS, que foi criada para agilizar processos de nomeação, nomeadamente destes responsáveis, para deixar uma estrutura tão importante sem diretor clínico. E não há também, claro, uma explicação racional para recusar dar explicações. Se agora formos criar uma direção executiva que simplesmente ignora as perguntas dos jornalistas quando elas são incômodas, para isso mais vale estar quieto. Ora, como não há uma explicação racional, começaram a surgir as explicações que eu considero irracionais. Mas temos que as ouvir e, de facto, vários médicos contatados pelo Observador afirmam que tudo isto se está a passar porque a direção executiva de Fernando Araújo, pelos vistos, estará muito próxima do anterior diretor clínico, que entrou em conflito com a administração e está agora, dizem eles, a exercer uma vingança por ele ter deixado o cargo e está a deixar isto a marinar. Ora, eu não sei se isso é assim ou não. Aliás, quero acreditar do fundo do meu coração que é mentira, mas há uma coisa que eu sei: é que só por isto Fernando Araújo merecia ser despedido outra vez.
Vamos então ao resumo. O bom desta terça-feira é o reitor da Universidade do Porto, António de Sousa Praia, o mau é Aguiar Branco e o vilão de hoje é Fernando Araújo, o ainda diretor executivo do SNS. Foram estas as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs 360 e que também pode ouvir em podcast.