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O Bom, o Mau e o Vilão, todas as manhãs na Rádio Observador, as escolhas do Miguel Pinheiro. Muito bom dia, Miguel.

Bom dia.

Vamos olhar para esta terça-feira. Quem é o bom de hoje?

O bom é, até para nós nos entusiasmarmos aqui um bocadinho, porque precisamos, a nossa incrível, a nossa extraordinária, a nossa fenomenal capacidade de diagnosticar. O Expresso lembrou ontem que em 2017 a então ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, fez um detalhadíssimo diagnóstico das nossas prisões e apresentou também um super, hiper, mega plano para as modernizar. A ideia era multiplicar os sistemas de videovigilância, era implementar sistemas de rastreio, detecção e alarme, era colocar equipamentos de raio-X, era instalar detectores de metais, era criar sistemas de controle de abertura e fecho de portas que fossem automáticos e era implantar detectores de movimento nas zonas periféricas. Como podem ver, ia ser impossível fugir das nossas prisões. Estava tudo pensado ao detalhe. Agora, claro, como não se consegue fazer tudo de um dia para o outro, e isso é absolutamente compreensível, este plano foi formulado como sendo para 10 anos. Quer dizer, não se ia fazer logo num ano ou dois. De fato, isto implica mudanças estruturais e por isso a 10 anos parece uma boa meta. Ora, vamos cá fazer as contas. Paulo, vais me ajudar.

Vamos lá.

O plano foi apresentado em 2017, portanto estaria concluído 10 anos depois.

Em 2027, talvez.

2027.

Se não nos falham as contas.

Muito obrigado. Ora, nós encontramo-nos no ano da graça de 2024. E portanto, isto devia estar quase.

Já está 70% do tempo decorrido.

Sim, já deveria estar praticamente pronto.

Mas não está, Miguel. Só faltam coisas. Se calhar, a última demão de tinta.

Não. Espera aí, Paulo, tu estás um bocadinho distraído, eu percebo, ainda é cedo, mas eu disse deveria estar pronto. Por que eu disse deveria e não deverá? Eu disse deveria e não deverá, porque este plano maravilhoso nunca começou verdadeiramente a ser aplicado. Porque, segundo parece, o que será que aconteceu? Pois é, não havia dinheiro.

Nem que o PRR depois nos vai salvar. Meu Deus.

Mas atenção, nós somos ótimos a diagnosticar. O diagnóstico estava ótimo, diagnosticamos muito bem. Portanto, diagnostiquem por aí.

É mais um daqueles que não saiu do papel.

Pois, Paulo.

Mas o papel era de boa gramagem, atenção.

Diz-me uma coisa, Paulo, vou te fazer um convite. Não se deve fazer um convite desta maneira, mas tu hoje queres ir diagnosticar comigo?

Vamos lá diagnosticar.

Diagnosticamos um pouquinho hoje, depois do almoço, enquanto tomamos um café.

Achas que o país tem algum problema para resolver? Não estou a ver nada. Bom, vamos avançar. O mau de hoje quem é, Miguel?

O mau é André Ventura. Até me falha a voz. Peço desculpa, isto é da emoção.

Convites desses a esta hora da manhã.

É verdade. Fiquei até um bocadinho emocionado. Ontem o líder do Chega, enfim, já sabemos, está a pôr-se de fora das negociações sobre o orçamento. Voltou a pôr-se de fora e usou a seguinte frase: "O Chega já deixou claro que não negoceia com os partidos que estão a negociar com o PS as medidas do PS." E eu achei isto divertido, porque negociar com o PS as medidas do PS é, no fundo, aquilo que o Chega tem feito, porque em maio o Chega deixou cair a sua própria proposta para votar a favor do projeto de lei do PS para a abolição das portagens nas antigas SCUT. E em junho o Chega deixou passar a proposta do PS para a descida do IRS com o argumento que ela era muito melhor do que qualquer coisa que o governo apresentasse. Para André Ventura, quando o PSD fala com o PS, o PSD é um traidor, mas quando o Chega fala com o PS já é um salvador da pátria. Eu sei que André Ventura acha que as pessoas se esquecem de tudo, mas bolas, isto foi em maio e em junho, não foi assim há tanto tempo. Eu sei que passou o verão, mas também não dá para esquecer assim tão depressa.

Mas isto são ciúmes, e quando há ciúmes as pessoas perdem um bocadinho a noção.

É a falta diagnosticar.

Exato. E o vilão de hoje, Miguel, quem é?

Vamos voltar ao tema. Eu só fiz aqui um interlúdio com André Ventura, mas o vilão é este nosso sistema prisional e policial. Quanto mais se sabe sobre o que aconteceu depois da fuga de Vale de Judeus, mais se percebe que várias coisas correram muito mal. O Observador tem um artigo a explicar isto tudo. Aqui na rádio também temos falado sobre isto. Enfim, se olharmos para o relógio os presos fugiram às 21h56 Mas as direções nacionais da PJ e da PSP só foram informadas do que tinha acontecido às 12h52, ou seja, quase três horas depois. Faltaram uns minutinhos, eu acho que eles podiam ter esperado quatro minutinhos pra fazer as três horas, assim é que era perfeito. E como se sabe, em três horas dá pra percorrer uns 300 km nas calmas, não é preciso muita coisa. Mas atenção, as pessoas que souberam três horas depois eram aquelas que estavam especialmente bem informadas. Aquelas que fazem parte do núcleo duro, aquelas que estão por dentro das coisas. Porque, segundo o Observador revelou, houve esquadras do Comando Metropolitano de Lisboa que só receberam a informação ontem. Há uma esquadra do Porto que recebeu a comunicação oficial da fuga na segunda-feira às 15h42. Por isso, isto já dá pra estar na Austrália. Estes fugitivos, já não é Espanha. Estão na Austrália a beber uma cervejinha à hora a que chegou a comunicação oficial.

Mas também, Miguel, quanto tempo é que demora um pombo-correio de Vale de Judeus até ao Porto?

É verdade. Com esta forma de comunicação temos que-- mas é seguro, pelo menos. Mas eu falei aqui do tempo que demorou até a PJ e a PSP estarem informadas, e eu já sinto a borbulhar a pergunta que é: "Então e a GNR?" Estamos a falar da PSP, estamos a falar da PJ, a GNR soube quando? Não sabemos bem, porque a GNR recusou dar informações ao Observador por entender que estes dados, vou citar, "fazem parte da investigação e do inquérito". E eu percebo, se nós ficarmos caladinhos, ninguém percebe o que correu mal. Jornalistas, deixa-me cá desligar o telemóvel, deixa-me pôr isto em modo voo, que é pra ninguém me fazer perguntas. De qualquer forma, eu acho que já deu pra perceber. Depois do que aconteceu, é preciso uma vassourada de alto a baixo. Tudo correu mal, em todo lado. E enfim, vamos ver o que a Ministra da Justiça diz hoje à tarde e até onde é que isto vai.

Muito bem, bom desta terça-feira, a nossa capacidade de diagnosticar é o que eu retenho deste episódio. Mau, André Ventura e o vilão de hoje, o nosso sistema prisional e policial. Amanhã está de regresso o Miguel Pinheiro depois das 20h20, mais ou menos, para mais uma edição de "O Bom, Mau e o Vilão". Até amanhã, Miguel.

Até amanhã.