Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

O Miguel Pinheiro já está conosco para uma nova edição do Bom, Mau e o Vilão da Rádio Observador. Olá, Miguel, bom dia.

Bom dia.

Miguel, quem é o teu bom de hoje?

O bom é a Flixbus. Como se sabe, há um conflito que se arrasta há muito tempo entre a Flixbus e a Rede Expressos, além de também ter autocarros e, por isso, ser concorrente da Flixbus. A Rede Expressos gere, por exemplo, o terminal de Sete Rios em Lisboa, portanto, gere o espaço físico onde estes autocarros de longa distância podem recolher clientes e tem impedido que a Flixbus use essas instalações, com vários argumentos, e isso, obviamente, coloca a Flixbus numa posição de desvantagem. O caso já chegou a um tribunal, que decidiu que a Rede Expressos tem de abrir o terminal. E mesmo assim, parece que o impasse se mantém. A Rede Expressos garante que está a cumprir a decisão judicial, mas a Flixbus diz que não e vai para tribunal outra vez. E nós, em Portugal, realmente gostamos muito pouco de concorrência. Agora, temos que ter a noção de que não há nada pior para uma economia do que não haver uma concorrência efetiva. A falta de concorrência é má se estiver em causa o Estado e se estiver em causa privados também.

Claro, isso também mostra que este processo de gestão dos terminais rodoviários foi feito com os pés atribuídos pelo Estado. Não pode ser atribuído a um dos principais operadores, como é evidente.

Pois, Paulo, eu imagino que haja razões históricas para isso, mas é preciso mudar as coisas.

Completamente.

Se calhar, até dada altura, sim, senhor, mas não dá para continuar assim. Acho eu.

Não dá.

Digo eu.

E dizes muito bem.

Miguel, o teu mau tirou uma foto.

Foi. Não foi uma selfie.

Não, foi uma foto.

Não foi uma selfie, foi uma foto. O presidente da República, é ele que está em causa. Nos últimos dias, o país tem aguardado por uma palavra de António José Seguro em relação à crise política. Afinal de contas, na próxima terça-feira vamos ter uma moção de censura ao governo. Se calhar, uma palavrita. E por causa do caso Luís Neves, tem-se especulado muito sobre qual a posição do presidente da República. O CHEGA invocou António José Seguro, o PSD invocou António José Seguro, todos invocam António José Seguro. Amigos e conselheiros do presidente falaram sobre o caso e ele falou ontem apenas para não falar, porque ele disse à SIC que não tem porta-vozes. E atenção, ele nem permitiu que o filmassem e gravassem a dizer isto. Tal é a vontade de não aparecer, atenção. E isto para mim é inaudito, mas sim, senhor, muito bem, não quis aparecer. Só temos assim umas imagens do presidente de calções, descontraído, a passear pelo local onde está de férias. Sendo que esta vontade de não aparecer é agravada pelo fato de precisamente António José Seguro estar de férias, coisa a que tem todo o direito, constitucionalmente previsto, está tudo muito bem. Porém, no exato dia em que isto aconteceu, António José Seguro publicou nas suas redes sociais pessoais uma foto com o seguinte texto, uma espécie de legenda. Vou ler: "O tempo da promulgação de diplomas segue o seu curso e há trabalho que não pode esperar, mesmo em período de descanso." E na foto, o presidente está vestido de forma descontraída, com polo castanho, bege, não sei bem. Está sentado a uma secretária, tem alguns dossiês sobre a mesa, está a ler uns papéis com ar sério, compenetrado. Tem o queixo apoiado numa mão, como quem reflete. E na mão, prontíssima a tomar notas muito importantes, tem uma caneta com a tampa fechada. Depois vai ter que tirar a tampa, claro, para tomar notas. Acho eu. Quero agradecer à pessoa que me chamou a atenção para o detalhe da tampa fechada e que permanecerá anônima. Como hoje em dia há muitas coisas falsas feitas por inteligência artificial, nós aqui no Observador fomos confirmar para ver se a publicação era verdadeira, porque isso podia ser alguém, de alguma forma, a brincar com o presidente. Não sei, uma ex-mulher. Não queremos isto. Bem, mas sim, é verdadeira, porque realmente há coisas que não se inventam. E esta é uma delas. Eu achei bem.

Sim, claro. Tanto cuidado com a imagem e depois isto.

Não, mas eu acho que sim. Acho que foi uma ótima ideia. Muitos parabéns.

O teu vilão é o Ministério da Justiça.

Pois é. Eu vou pedir às pessoas que ouçam esta cronologia com atenção, porque isto é uma história com nuances. No dia 29 de julho, na primeira conferência de imprensa que deu sobre as trapalhadas que o envolvem, Luís Neves apresentou uma justificação para o facto de ter entregue ao seu amigo empreiteiro 62 bidões com material usado para manipular droga, e que tinha sido apreendido, esse material, esses 62 bidões, tinham sido apreendidos na operação Pacova E a justificação foi esta: Luís Neves disse que a destruição dos bidões custava €150.000 e que a PJ não tinha dinheiro para isso. €150.000. E portanto, precisou de guardar aquele algo a um lado enquanto arranjava orçamento. Sabemos disto. Depois dessas declarações surgiram várias dúvidas, porque especialistas, nomeadamente uma peça da CNN Portugal, disseram que destruir ou o nascer do sol, ou de ambos, não têm a certeza. Mas enfim, os especialistas disseram que destruir 62 bidões não custa €150.000, custa muito menos dinheiro. E que, portanto, o que estaria ali em causa seria mais material. A 3 de agosto, o grupo parlamentar do Chega enviou seis perguntas ao Ministério da Justiça sobre, vou citar: "O custo de financiamento e execução da ordem de destruição dos produtos químicos apreendidos na Operação Pacoba." Repito, está lá escrito: "Apreendidos na Operação Pacoba." É assim o grande tema das seis perguntas. Depois nas perguntas, a dada altura, em vez de se falar sempre em Operação Pacoba, fala-se em ordem de destruição. E na resposta a uma das perguntas, a chefe de gabinete da Ministra da Justiça respondeu ao Chega por escrito, portanto, ao Parlamento, escreveu isto: "Face ao volume anormal deste tipo de produtos apreendidos em vários processos e em quantidades sem paralelo até então, a Polícia Judiciária consultou uma empresa da especialidade e a empresa apresentou uma proposta que ascendia a 144.456,93 €, valor que a Polícia Judiciária não dispunha no seu orçamento." E perante isto, todos os jornais leram isto e escreveram, claro, que o Ministério da Justiça estava a apoiar a versão do Luís Neves, porque estava a dizer que a destruição custava este valor dos €150.000. E isto circulou durante várias horas e o Ministério da Justiça, caladinho, não desmentiu que de facto estava a confirmar a versão do Luís Neves. Por acaso, à noite, o Observador achando tudo isto dúbio, quis confirmar e perguntou ao Ministério da Justiça. A pergunta era: "Olhem lá, eu é que estou aqui, estamos a falar entre nós. Olhem lá, vocês naquela resposta dos €150.000 estão a referir-se apenas à destruição dos 62 bidões da Operação Pacoba?" E a resposta foi: "Não, estamos a referir-nos a material apreendido em vários processos." Coisa que realmente está lá escrita, entre vírgulas, atenção. Entre vírgulas, está lá escrito, porque de facto o pedido de orçamento não foi apenas sobre os 62 bidões da Operação Pacoba. Portanto, formalmente o ministério está a responder bem. Está a aproveitar que o Chega na pergunta não pôs lá Operação Pacoba naquela pergunta, porque já tinha deixado isso claro em cima e na pergunta deixou aqui um espaço de fuga que foi logo aproveitado. Portanto, afinal de contas, o Ministério da Justiça não está a apoiar a versão do Luís Neves, que disse que os 62 bidões destruí-los custava €150.000. Está a contradizer a versão do Luís Neves, porque está a dizer que os €150.000 não eram apenas para os 62 bidões, era para material apreendido noutros processos além da Operação Pacoba. E chegados aqui, uma de duas: ou o Ministério da Justiça não percebeu, coitadinho, que as perguntas oficiais vindas do Parlamento diziam respeito à Operação Pacoba, achou que depois a dada altura o Chega, por motivos misteriosos, em vez de estar a querer escrutinar Luís Neves em relação à Operação Pacoba e aos 62 bidões, já estava a falar de outros assuntos. Ou isto, não percebeu, ou então há alguém no Ministério da Justiça que se acha mais esperto que os outros e que respondeu sem mentir, como é evidente, mas com habilidade. E a habilidade está comprovada pelo facto de toda a gente perante aquilo ter interpretado que, de facto, o Ministério da Justiça estava a confirmar que a destruição dos 62 bidões custava €150.000. Pronto. Depois o Observador também lhes perguntou então afinal quanto material é que estava envolvido naqueles €150.000, quantos processos. Não tivemos resposta para isso. Espero que essa resposta chegue em breve. Se calhar em vez de 62 bidões eram 64, só havia mais dois bidões de outros processos e se for assim, então se calhar não é tão grave, ou então eram 200 bidões, e se for assim, então os €150.000 para a Operação Pacoba reduzem substancialmente. De qualquer forma, a lição para todas as crianças que nos estão a ouvir, e nós temos um vasto auditório infantojuvenil, é: meninos e meninas, leiam bem as coisas. Isto serve também para testes, exames, para tudo. Leiam muito bem o que lá está escrito, porque às vezes entre as vírgulas está o segredo para a resposta.

E não tentem habilidadezinhas entre vírgulas.

Não tentem.

Vamos ao resumo. O bom desta sexta-feira é FlixBus, o mau é o Presidente da República e o vilão de hoje é o Ministério da Justiça. São as escolhas do Miguel Pinheiro no episódio que daqui a minutos também fica disponível em podcast.