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Começa agora uma nova edição do Bom, o Mau e o Vilão das manhãs 360. Olá, Miguel. Bom dia.
Bom dia.
Bom dia, Miguel. O teu bom é o Presidente da República.
Sim, António José Seguro promulgou ontem a Lei das Burcas. E atenção, este diploma não se chama Lei das Burcas, e aliás, mesmo os deputados que a aprovaram tiveram muito cuidado e puseram várias coisas na lei pra ela não ser só sobre burcas, mas Seguro, e muito bem, não teve nenhum problema em falar sobre as coisas como elas são. Na justificação pra sua decisão, que publicou no site da presidência, ele fala exclusivamente sobre as mulheres que são obrigadas a esconder o rosto por motivos religiosos. Segundo ele, numa sociedade livre, há regras comuns que têm que ser respeitadas, e uma dessas regras comuns é a confiança social que exige rostos destapados, que permitam um reconhecimento mútuo. E isto, diz António José Seguro, é indispensável à vida numa sociedade democrática, livre e plural, e é uma regra de convivência entre seres humanos com igual dignidade. E a esquerda costuma perder-se neste tema, como aliás se viu na discussão no Parlamento, porque por um lado, gosta de exibir a bandeira da defesa das mulheres contra opressões religiosas e, por outro lado, tem imensa dificuldade em defender os valores das sociedades ocidentais, que por vezes equivale a uma espécie de colonialismo cultural. E por isso fica ali no meio, sem saber muito bem pra onde é que se há de virar neste tema. António José Seguro, que é de esquerda, não se deixou prender nesta armadilha, e é um bom sinal.
Pois, e há assuntos, de fato, em que é difícil ter certezas absolutas de um lado ou do outro. E há prós e contras óbvios para quase toda gente. E eu acho que o presidente fez muito bem em admitir isso.
Certo, sim. E em reconhecer que mesmo havendo assuntos difíceis, eu diria que quando chegamos a um ponto de as mulheres serem obrigadas a só sair à rua de cara tapada, acho que se calhar estão ali uns sinais de alerta de que há um problema.
Tenos.
Tenos, uns tenos sinais de alerta, talvez.
O teu bom é o Presidente da República, e quem é o mau?
É o governo, que ontem se afastou da discussão sobre a reforma da Segurança Social mais depressa do que o Usain Bolt corre os 100 metros. Aquilo foi uma coisa, uma velocidade incrível. Tudo aconteceu pouco depois de serem apresentadas as conclusões do grupo de trabalho que esteve a estudar as pensões e que concluiu que o sistema tem, e sempre teve, um déficit. E também esse grupo de trabalho sugeriu várias soluções pras pessoas juntarem recursos ao longo da vida, que lhes permitam ter mais dinheiro na altura da reforma, e que possam até complementar essas pensões, que são cada vez mais reduzidas. Mas segundo o governo, este relatório é apenas um estudo técnico e independente, que foi preparado autonomamente por este grupo, com recomendações que são da sua exclusiva responsabilidade, sua e do grupo, e este é apenas mais um contributo pro debate público. E aliás, o governo fez questão de dizer que entende que uma eventual reforma da Segurança Social é um processo que está fechado e que o governo não pretende reabrir. Foi quase como se Luís Montenegro tivesse saído à rua e de repente começaram a lhe a falar disto, e ele: "Mas olhe, não faço ideia, não sei de quem é que me está a falar. Pronto, há de ser aí um grupo qualquer que disse umas coisas." Mas não, este não é um grupo que disse umas coisas. Este grupo, só para não nos esquecermos, foi nomeado pelo governo. Foi o governo que quis este estudo. Ora, se não há nada que o governo queira discutir, e se não há nada que o governo queira fazer, então pediu o estudo pra quê? Pra que pediu isto? Quer dizer, se o governo nem nos vai dizer se concorda que temos um problema nas pensões, então se calhar mais valia ficarmos quietos. Se bem que, na verdade, o que o governo quer fazer é lançar um alerta sem ter de abrir a boca e quer usar os técnicos, estes tais técnicos, para fazerem o trabalho difícil. O trabalho sujo é feito por outros e o governo faz de conta que não tem nada a ver com isto. E parece-me que estamos perante um caso clássico de falta de coragem política. E eu diria que pra quem quer ser o novo Cavaco Silva, isto é tudo muito poucochinho.
Pois, o governo talvez sinta que já perdeu pontos a tentar reformas que não consegue fazer passar, nomeadamente no Código de Trabalho.
Pois, ou se arrependeu de ter pedido este estudo, ou então o plano desde o início era só ir plantando uma sementinha na cabeça das pessoas, mas quer dizer, os políticos são feitos é pra tomar decisões difíceis e pra iniciarem debates difíceis. Não é pra se esconderem atrás de grupos de trabalho. Mas isso acho eu, eu sou um tipo antigo.
Não, mas se é pra efeitos lúdicos, há coisas mais interessantes, há literatura mais interessante, certamente.
Ó Paulo, então não há, mas acho que pra estas horas, não.
O teu vilão também está ligado a este tema?
Sim, é a esquerda. A esquerda acha mesmo que não há problema nenhum com as pensões. Em reação ao estudo, o PS garantiu Que o sistema público é suficiente para, no longo prazo, gerar pensões adequadas para as pessoas. Disse o PS. Só não definiu o que quer dizer adequadas, mas enfim. Isto disse o PS. O PCP jurou que o sistema é financeiramente sustentável, o Livre repetiu que a Segurança Social não está falida e o Bloco proclamou que, vou citá-los: "A Segurança Social portuguesa nunca esteve tão sólida." E ouvindo todos estes partidos, eu fiquei com uma dúvida inquietante. E é esta: se o sistema é tão incrível, se o sistema é tão espetacular, se o sistema tem tanto dinheiro, se o sistema é tão sólido, então por que as pensões estão a diminuir a cada segundo que passa? Por que estão a diminuir? Por que a diferença entre o último salário e a pensão que se vai receber é cada vez maior? Quer dizer, então não há motivo para isso. E além do mais, se há notas de € 500 a saírem de cada gaveta que se abre no sistema de pensões, uma pessoa entra na Segurança Social, pega numa caixa de uma garrafa de vinho e estão lá notas, pega num dossiê, estão lá notas, aquelas são notas por todo lado. Mas então, se é assim, por que até estes partidos de esquerda defendem a necessidade de, e vou citar, diversificação do financiamento da Segurança Social? Então diversificar por quê? Se está tudo bem, para que é preciso diversificar? Enfim, esta gente toda quer convencer-nos de que a melhor forma de resolver um problema é assobiar pro lado. Por isso, quem nos estiver a ouvir e achar que sim, a melhor forma de resolver um problema é assobiar pro lado, então tenha um bom dia.
E que abra a janela do carro e assobiar pro lado. Pronto.
E assobiar pro lado. E vá ali ao edifício da Segurança Social buscar uma notazinha de € 500, porque há lá muito dinheiro.
Há uma para cada um de nós.
Estão lá à vossa espera. Atenção, mas façam uma fila única, por favor. Não é preciso tirar a sanha, mas façam uma fila única. Não vão todos ao mesmo tempo, há dinheiro que sobra pra todos.
Miguel, regressas depois do meio-dia com o Sérgio Sousa Pinto para o Realpolitik. Do que vão falar neste regresso de férias?
Pois, é a nossa rentrée, e por isso vamos também falar sobre as rentrées dos partidos políticos, tentar perceber o que vem aí para o PSD e para o PS. Vamos também conversar um bocadinho mais detalhadamente sobre este relatório das pensões. E vamos ainda falar sobre o caso de Jason Hardy, aquele professor da universidade. Foi primeiro um símbolo do wokeismo e depois um símbolo do antiwokeismo, e toda esta história acabou de forma trágica. Certo.
Realpolitik para ouvir então depois do jornal do meio-dia. Quanto ao bom, o mau e o vilão desta quarta-feira, o bom é o Presidente da República, o mau é o governo e o vilão é a esquerda. São as escolhas do Miguel Pinheiro no episódio que daqui a minutos também fica disponível em podcast.