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Está no ar mais um episódio do Bom, Mau e o Vilão da Rádio Observador. Olá, Miguel Pinheiro, bom dia.

Bom dia.

Miguel, o teu bom de hoje é o líder interino do PS.

Certo, é que Carlos César está a acumular a presidência do partido com a Secretaria-Geral enquanto não se arranja um substituto para o saudoso Pedro Nuno Santos. E Carlos César informou a concelhia local do PS que se mantém a decisão de não apoiar uma recandidatura do atual presidente da autarquia de Vizela, Vítor Hugo Salgado, apesar de o Ministério Público ter arquivado o caso de violência doméstica que o envolve, depois de a mulher se ter recusado a testemunhar. Ora, segundo o PS, Carlos César não encontrou razão ponderosa e definitiva para alterar a posição já assumida, sendo que essa posição vai ser novamente apreciada com os candidatos à sucessão de Pedro Nuno Santos. Quando vier um novo líder, poderá reverter isto. E aqui é que há um ponto sobre o qual temos de falar, porque José Luís Carneiro, que será quase de certeza o próximo secretário-geral do PS, esteve em Vizela durante a campanha para as legislativas e teve uma posição equívoca, porque quando lhe perguntaram sobre o fato de o PS ter retirado a confiança política a Vítor Hugo Salgado, José Luís Carneiro afirmou apenas sobre a retirada da confiança política, nada. Mas depois achou que devia dizer que tem muito respeito pelo percurso político e pelo trabalho feito por Vítor Hugo Salgado na liderança do município de Vizela. E eu fiquei aqui com algumas dúvidas. José Luís Carneiro concorda com a retirada de confiança política ou quer reverter essa decisão? E por que se recusa a comentar o caso judicial, mas aceita elogiar politicamente Vítor Hugo Salgado? Era bom que ele nos explicasse, eu estou curioso.

Já explicou, Miguel. Ao elogiar, nestas circunstâncias, politicamente o autarca de Vizela, no fundo, está a dizer o que é mais importante pra ele.

Não quero acreditar.

Não?

Não, não quero.

Ainda acreditas na humanidade.

Sim, vou manter esta crença na humanidade até que José Luís Carneiro seja claro. Não quero de maneira nenhuma transformar-me num cínico.

Entretanto, o teu mal também tem a ver com este tema.

Sim, é o Procurador-Geral da República. Como se sabe, o Ministério Público decidiu arquivar, sem mais, o processo de violência doméstica, porque a alegada vítima, a mulher do presidente da Câmara de Vizela, não quis prestar declarações aos procuradores e desistiu da queixa que tinha apresentado. Já se sabe que o Ministério Público também, supostamente, está a reapreciar esta questão. Mas convém lembrar aqui que a violência doméstica é, segundo a lei portuguesa, um crime público, ou seja, é um crime que o Ministério Público pode e deve investigar, mesmo que não exista qualquer queixa. É um crime que não está dependente de queixa. Mais ainda, é que, como se sabe, os responsáveis políticos e judiciais têm falado muito sobre o crime de violência doméstica. Afinal, falar é fácil, não custa nada. E eu ontem, como uma das pessoas que têm falado muito sobre isto tem sido o Procurador-Geral da República, eu fui tentar ver o que ele tinha andado a dizer e encontrei umas declarações de Amadeu Guerra que são muito interessantes tendo em conta o caso de Vizela, porque em novembro de 2024, portanto há não muito tempo, o Procurador-Geral da República esteve numa conferência em Cascais no Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres e disse que a investigação criminal, atenção, vou citar: "Não deve estar dependente da colaboração da vítima." Vou repetir. A investigação criminal não deve estar dependente da colaboração da vítima. Isto foi numa conferência em que se fala, diz-se assim umas coisas, um discurso ótimo e, portanto, se o discurso é ótimo, eu agora queria que a prática também fosse.

Em teoria, a prática devia ser outra, mas na prática, a teoria é que é outra.

Pois, parece. Mas eu, mais uma vez, Bruno.

Queres acreditar.

Quero acreditar. E, portanto, a hierarquia do Ministério Público tem 20 dias para reapreciar a decisão de arquivamento com base nestes motivos de não haver queixa e da alegada vítima não querer falar. 20 dias pra manter a credibilidade.

Eu não quero estragar a tua confiança e o teu otimismo, Miguel.

Não vais ser capaz.

Mas são os factos.

Repara, diz-me uma coisa, Bruno. Com que cara é que o Procurador-Geral da República iria aparecer na próxima conferência sobre violência doméstica? Com que cara? Acho que não seria possível. Teria que deixar de ir a essas coisas, obrigatoriamente, penso eu.

Ou não falar.

Ou isso, ou ir e não dizer nada, só ouvir. E portanto, como eu imagino que Amadeu Guerra, que ainda por cima está no início do seu mandato, não queira isso, alguma coisa terá de ser feita, tenho a certeza.

Então e quem é o teu vilão?

O meu vilão é a FENPROF. Nós já sabíamos que a FENPROF tinha decretado greve contra a realização das chamadas provas MODA ou MODÁ, não sei muito bem como é que se diz isto, mas são as provas de monitorização das aprendizagens para os alunos do quarto e do sexto ano. E agora ameaçaram com uma nova greve, porque como precisaram de tempo para fazer as provas, os alunos não tiveram algumas aulas. É obrigatório terem 180 dias efetivos de atividades escolares, lembrou o ministério agora, e portanto, pode eventualmente ser necessário, segundo a FENPROF, compensar essas aulas que não se realizaram com tempo extra. E a FENPROF, naturalmente, está contra essa possibilidade e por isso já anunciou que se o governo prolongar as atividades no final do ano letivo, coisa que não foi dita pelo governo, mas que se for dito, fazem uma segunda greve. Isto já nem é uma greve contra uma coisa que exista, é contra uma coisa que possa existir.

Exatamente.

Pronto. Eu acho que o professor Mário Nogueira à frente da FENPROF quer mostrar que também é um durão e deve ser por coisas como esta que cada vez mais pais fazem grandes esforços para terem os filhos em escolas privadas.

Os que podem.

Certo.

Eu, curiosamente, tenho um filho no quarto ano e uma filha no sexto. Portanto, este ano estão na moda.

Mas já viste, tens linha e bingo, Bruno. No quarto e no sexto ano, que maravilha, já viste.

E com greves no meio, durante anos. Escola pública é assim. Mas olha, é uma boa escola de vida.

É.

É isso.

Passar por isto.

É.

É a lição.

Pode ser que a próxima geração, tendo passado por isto, mude qualquer coisa, porque nós, pelos vistos, já não vamos lá.

Vamos ao resumo. O bom desta terça-feira é Carlos César, o mau é Amadeu Guerra, o procurador-geral da República, e o vilão de hoje é a FENPROF. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs 360 e sempre em podcast.