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O Miguel Pinheiro já está conosco para uma nova edição do "O Bom, o Mau e o Vilão" da Rádio Observador. Olá, Miguel, bom dia.

Bom dia.

Bom dia. Quem é o teu bom, Miguel?

O bom é Cavaco Silva, o antigo presidente da República, deu uma entrevista à "Renascença" e lembrou algumas verdades que nós às vezes gostamos de esquecer. Primeira verdade: Portugal foi ultrapassado no seu crescimento econômico por vários países que aderiram à União Europeia 20 anos depois de nós. É o que é. Segunda verdade: nós somos um país relativamente pobre. É assim. Terceira verdade: nós, e fomos nós, todos, cometemos vários erros que não deveríamos ter cometido e que nos trouxeram dificuldades, como por exemplo, a intervenção da Troika. Quarta verdade: o dinheiro do Estado não cai do céu, é dinheiro dos impostos pagos pelos contribuintes. Não há ali magia nenhuma em que o dinheiro aparece vindo do nada. Quinta verdade: é preciso mais crescimento econômico para que o sistema fiscal possa gerar mais recursos financeiros para poder responder às aspirações das pessoas. E estas são verdades muito simples, mas infelizmente, nós continuamos a precisar que Cavaco Silva nos lembre tudo isso de vez em quando. Vá lá, ao menos haja alguém que nos lembra disto.

Nós somos muito esquecidos destas coisas todas.

É, as coisas esbarrem-se-nos.

Miguel, o teu mau foi às compras.

Olha, pois foi. Não é uma metáfora isto.

Não.

Estamos a falar de José Luís Carneiro. Nós costumamos todos criticar muito, e bem, André Ventura, quando o líder do Chega coloca nas redes sociais coisas como fotografias ajoelhado em igrejas pra exibir a sua fé. Acho que também devemos criticar outros líderes políticos quando eles levam a cabo exercícios semelhantes de demagogia e de exibicionismo. E por isso, temos mesmo de falar sobre o líder do PS. José Luís Carneiro colocou nas redes sociais uma fotografia em que se apresenta na seguinte figura. Ele está de fato e gravata, com certeza, claro, no corredor de um supermercado, penso que um Pingo Doce, a vistoriar atentamente um saco de batatas. Eu não percebi se são daquelas batatas pra assar, pra fritar, não deu pra perceber muito bem, mas é um saco de batatas. Eu juro que isto é mesmo verdade. Ele está a inspecionar um saco de batatas, que segura assim com as duas mãos, com delicadeza. E a acompanhar a imagem, está um texto onde se diz o seguinte: "É nas compras do dia a dia que se sente o peso do aumento do cabaz alimentar. Cada ida ao supermercado custa mais, enquanto o governo continua sem respostas e ignora as medidas que o PS tem apresentado pra apoiar as famílias e aliviar o custo de vida." E portanto, o líder do PS quer mesmo convencer-nos de que costuma ir ao supermercado no seu fato e gravata, comprar sacos de batatas e, claro, sempre acompanhado por um fotógrafo. Porque quem de nós não leva sempre um fotógrafo atrás quando vai ao supermercado? Pois, com certeza.

O fotógrafo e aquele saco pra trazer as compras, não é?

Certo. Ele tinha um daqueles carrinhos grandes.

De mão.

Um cesto com rodas.

Exato. Um daqueles carrinhos de mão. Era pra compras rápidas, podemos presumir isso. Aliás, se fosse pra compras demoradas, naturalmente-

Tirava a gravata

...claro, estaria no seu fato de treino no domingo a tratar disso.

Aquelas passagens rápidas. "Epa, quero fazer purê e não tenho batatas, vou passar rapidamente no supermercado."

Nem mais. Sai do luar do rato, onde é que fica aqui o supermercado mais próximo, vou lá. "Espera aí, tem que levar o homem da fotografia. Ó Martins, venha cá comigo que eu tenho que ir ali ao supermercado, traga a câmera." É assim que se faz a oposição ao governo.

Miguel, não sei se cruzou com o Martins, mas o teu vilão também passou pelo supermercado.

Não se cruzaram, porque o vilão foi ao Continente. O Martins e José Luís Carneiro foram ao Pingo Doce, o vilão foi ao Continente. Enfim, há uma diferença, porque estes que eu vou falar agora não pagaram. E naturalmente, José Luís Carneiro pagou até o último cêntimo aquele saco de batatas maravilhoso. Mas estamos a falar da Climaço, que supostamente está muito preocupada com o clima e que se gabou ontem de ter furtado vários bens alimentares num supermercado, lá está, no Continente. E depois de, para usar as palavras deles, terem coletado esses bens alimentares sem pagar.

Coletado.

Coletado. Não se ponham agora aqui a coletar coisas, por amor de Deus. Então depois disso, foram distribuí-los numa banca de rua. E segundo a Climaço, vou citá-los: "Ninguém devia ter que pagar pra comer enquanto os ricos lucram como nunca."A Clima Áximo enviou um comunicado à imprensa, onde identifica com o nome até uma das participantes nesta ação e cita profusamente. Nesse comunicado também divulga várias fotos onde se podem ver claramente as caras dos seus membros a coletar. E aparentemente é possível ir a um supermercado, sair sem pagar, dar a cara e o nome, mandar um comunicado de imprensa e achar que não acontece nada, que está tudo muito certo.

Como é que se acaba isto?

Não sei agora se Luís Montenegro vai ao Lidl. Enfim, eu estou a dizer marcas, já disse tantas marcas.

Sim, também quem que falta, não é? A Lidl.

Pois, não sei. Estou à procura de correr o mercado todo para não virem dizer que estamos aqui a fazer publicidade a alguém, porque enfim, não estamos.

Mas gosto do verbo coletar. Acho que é um bom verbo para descrever este tipo de ações.

Acho que podíamos mudar o Código Penal.

Claro, no tribunal há várias pessoas que injustamente são acusadas de coletar um carro na rua.

Não, são acusadas de furtar quando estavam apenas a coletar. O ponto é esse. É que temos que saber distinguir, senhor Dr. juiz. Como é que é? Quer dizer, o senhor Dr. juiz andou na faculdade de Direito ou não andou? Temos que saber aqui distinguir conceitos jurídicos. Furtar é uma coisa, coletar é outra. E o meu cliente limitou-se, na sua inocência, a coletar um bocadinho.

Claro. E uma pessoa entra numa esquadra da polícia e olha: "Coletaram-me o automóvel esta noite."

E pronto, e assim: "Olha, vão em paz."

Claro.

E que o Senhor os acompanhe. Não o senhor agente, mas o outro Senhor, com maiúscula.

Vamos ao resumo. O bom desta sexta-feira é Cavaco Silva, o mau é José Luís Carneiro e o vilão de hoje é a Clima Áximo. São as escolhas do Miguel Pinheiro, no episódio que daqui a minutos fica disponível em podcast.