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Para a Câmara Municipal de Lisboa, o conhecido empresário Vicente Valbom vê a sua candidatura abalada pelos recentes acontecimentos.

Foi raptado em circunstâncias particulares. José Valbom, 25 anos, desapareceu de sua casa num aparente ajuste de contas, sendo que esse foi apenas o começo de uma longa noite que se revelou trágica.

Máfia de leste, afastando-se assim a ideia de um eventual assassinato. Ao que a TV4 apurou, Vicente Valbom terá já recebido um pedido de resgate no valor de €2 milhões para recuperar o seu filho.

Confrontado com os jornalistas, o inspetor João Durães não fez qualquer comentário. Inspetor, há novas pistas sobre o paradeiro do José Valbom?

Tenham paciência. Desculpem, eu não posso responder, o caso está em segredo de justiça. Posso passar? Desculpem. Deixem-me passar, por favor.

Inspetor, assume a falha geral na investigação? Vai pedir o seu afastamento do caso depois da sua proximidade com a jornalista-

Por favor, eu já disse que eu não vou dizer nada. Eu não posso dizer nada. Com licença. Bom trabalho para vocês. Com licença.

A Polícia Judiciária parece, como pudemos comprovar, perdida no que diz respeito ao paradeiro do filho do candidato Vicente Valbom, que a esta hora-

Já a seguir ao concurso da Casa Contente, onde pode ganhar €5.000 em cartão. Não perca, já a seguir: a investigação da nossa equipa sobre o desaparecimento misterioso do filho do candidato à Câmara Municipal de Lisboa, Vicente Valbom. A nossa equipa foi à procura das pessoas que conheciam José Valbom e o que apurámos é aterrador. Fique para ver, não perca. Já a seguir no Manhãs com Todos. Vamos só fazer um breve intervalo e voltamos já.

E três vivendas em Lagoa, no Algarve. Em 1989, vários dos investidores desse mesmo aldeamento avançavam com uma providência cautelar, acusando o empresário de burla e falsificação de documentos. Na altura, uma das figuras que estava à frente do Grupo Lena, o empresário invocava a sua inocência, alegando que o investimento implicava riscos atempadamente advertidos. O caso, que se arrastou nos tribunais durante seis anos, resultou na absolvição depois da defesa do empresário ter apresentado argumentos suficientes para convencer o grupo de juízes de que a acusação não tinha quaisquer provas que sustentassem o caso. Indiciado duas vezes como nome possível para Secretário de Estado das Obras Públicas, Vicente Valbom nunca aceitou integrar qualquer governo, apesar de ser sabido que os dois anteriores executivos procuraram diversas vezes a sua consultoria em matérias tão sensíveis como a habitação pública e as infraestruturas. Os seus adversários políticos acusam-no de ser um facilitador de negócios pouco claros, tendo o seu adversário, Aníbal Freitas, num debate preliminar, levantado a suspeita de que Vicente Valbom operaria disfarçadamente junto a vários ministros para benefício de alguns grupos económicos. No debate, Valbom insurgiu-se e ameaçou sair do debate.

Diga nomes. Não, diga nomes! Não, diga. Este tipo de difamação primária usada pelo candidato Aníbal Freitas é do mais rasteiro que a política nacional já viu. Exijo que me tenha respeito, ouviu?

Respeite o senhor, os lisboetas e as lisboetas. E diga a verdade.

O Luís vai-me desculpar, mas se é para esta fantochada, eu levanto-me e vou-me embora. Eu não estou aqui para isso. Este senhor passa a vida a acusar-me de coisas que eu não fiz, como se tivesse grandes provas de tudo contra mim, mas quando lhe pedem que seja claro, não sabe, não consegue, não se lembra. Tenham paciência, eu vou-me embora.

Eu é que estou a conduzir o debate, senhor candidato. Eu é que estou a conduzir o debate. Mas é este o tipo de presidente que os lisboetas querem? Pergunto. É esta a falta de seriedade que esta cidade precisa?

Eu acho muito curioso que o candidato Aníbal Freitas, do Partido Liberdade Social, venha falar de seriedade. Eu relembro que este é o mesmo candidato que em 2016 teve de abandonar a corrida por se ter provado, sublinho, provado, que vivia de exploração descontrolada de vários imóveis de Lisboa.

Isso não é verdade.

É verdade, está provado. Muitos deles em estado de decrépito na baixa, sem qualquer espécie de pejo ou escrúpulos quando vinha falar de justiça social na habitação, com aquele famigerado slogan: "Casa para todos, casa para já".

Diga a verdade.

Seriedade? Tenha juízo. Os lisboetas sabem muito bem com o que podem contar consigo como presidente. Não podem contar com rigorosamente nada. Eu acho que o melhor é ser o meu amigo a abandonar esta mesa, porque de mentirosos como o senhor está a cidade farta, não é?

Até que o candidato do movimento Juntos por Lisboa foi surpreendido por um caso que está ainda a abalar a cidade e o país. José Valbom, o seu filho de 25 anos, foi aparentemente raptado no dia do seu aniversário, depois do que alguns apelidaram de uma resposta à praxe, uma espécie de partida que não correu bem. Recentemente, foi partilhada nas redes a informação de que um resgate de €2 milhões teria sido já pedido à família para recuperar José. Até ao momento, Vicente Valbom manteve-se incontatável, pelo que a equipa que desenvolveu esta reportagem pouco ou nada conseguiu adiantar sobre o assunto.

Engenheiro Valbom, bom dia.

Bom dia. É possível falar com o engenheiro Valbom? Sou Ana Frias, jornalista da Setenta.

O senhor engenheiro não está.

Estranho. Eu acabei de o ver entrar para o edifício. Estou mesmo aqui à porta.

Pois, não sei. Lamento muito. Com licença.

20ª tentativa, sem qualquer efeito. O engenheiro, visivelmente agastado, tem fugido ao contacto com os jornalistas. A Polícia Judiciária procura pistas e onde as procurar, mas tudo indica que não há grandes respostas e este mistério está por resolver. Já o envolvimento de João Durães, inspetor-chefe com a jornalista Joana Magalhães, enquanto fonte para o seu artigo de fundo sobre Vicente-

O Candidato Perfeito é um podcast de ficção para ouvir em oito episódios. Uma coprodução com a Hoyo Vadillo e Observador, da autoria de David Neto e Manuel Pureza. Com as vozes de Madalena Almeida, Paulo Calatré, Susana Brandão e a minha, José Reposo. A música do genérico é de Artur Costa. Episódio um: Sem Limites.

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Foda-se!

Estou?

Então.

Tudo bem. Diz.

Eu não aguento mais. Eu preciso de saber qualquer coisa que seja. Diz-me qualquer coisa, porra.

Tens que ter paciência, Vicente. Estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance.

Não chega, porra.

Não saímos de cima do que temos há semanas.

Do que é que essa merda serviu até agora?

Eu sei que parece pouco, mas acredita que estamos a mobilizar todos os nossos esforços.

Chega, porra! Sempre com essa conversa da treta. Tu vais ter de chutar esses merdas daí para fora. Estás a ouvir, Paulo? Anda.

O Torralbes? Ele é o melhor, Vicente, tu tens a minha palavra.

Tiras esse gajo da frente do processo ou eu entalo-te a ti com essa história do gajo ter servido de infiltrado para uma jornalista da treta. Estás a ouvir?

Estás a ameaçar-me, Vicente?

Isso é para eu responder ou para te mandar à merda? Ou me arranjas alguém capaz de me trazer o meu filho de volta, ou eu dou cabo de ti, ouviste bem? A merda da tua carreira que subiu tão rapidamente, tão cheia de garantias, tão promissora que foi, eu acabo com ela em dois tempos. E tu sabes muito bem do que é que eu estou a falar. Eu não ameaço, César, põe isso na tua cabeça, meu cabrão. Cabrões. Diz, Mila.

Alguma coisa?

Falei agora com o César, vão mudar o responsável pela investigação. Quando eu souber de alguma coisa, eu digo.

Faz alguma coisa, Vicente. Faz alguma coisa, merda. Paga alguém, mas traz-me o meu filho!

Histérica do caralho. Lourdes.

Senhor engenheiro.

Viu a Margarida?

A menina saiu há pouco.

Mas sabe se almoça?

Ela não disse.

Eu vou-lhe ligar. Deixe.

Sim?

Olá, sou eu.

Diz.

Quero falar contigo, pode ser?

Vais ter de subir.

Sim, claro. Abres? Calma. Calma, merda. Que estupidez, até me assustei.

Então.

Não, é que abriste de repente e eu não estava à espera.

Diz.

Posso entrar? Pronto, senão podemos falar aqui. Se não quiseres que eu entre, é na boa. Acho eu. Queres ajuda?

Deixa estar.

Filipe, eu já percebi que não queres que eu esteja aqui. E é na boa. A minha terapeuta disse que era o mais acertado, que não o devia dizer por telefone, que devia confrontar-me com este meu receio e mais não sei quê Eu vim aqui dizer que apesar de ter feito a cena certa e que eu tinha de fazer, eu fiquei na merda por isso te ter posto em causa. Pronto.

Pronto.

Pronto, é isso que eu te queria dizer. E que me sinto na merda por sentir este peso e esta culpa, mesmo sabendo que pelo meu irmão eu fiz a cena certa. E que mesmo assim, essa cena certa não foi suficiente para resolver nada.

Guigas, tu precisas de mim para esta conversa ou é só essas chachas do cu que trouxeste contigo?

Eu achava que-

Eras uma merda de uma partida. Se o teu irmão lá tivesse ficado amarrado, isto não acontecia. O filho da puta do teu irmão soltou-se de alguma maneira e agora está a tentar levar a melhor como sempre. Como sempre, foda-se!

O meu irmão não soltou nada.

Tu às vezes és mesmo a pata alegre do dia, não és?

Eu acho que já não estou aqui bem.

Então para que vieste?

Para te pedir desculpa. Pela milésima vez, para te pedir desculpa.

Não foi por nada disso que vieste. Tu vieste aqui porque é uma merda viveres sem saber se o teu irmão continua a gozar com isso tudo ou não. E para tentares limpar a consciência, sem teres a certeza se tu, o teu pai e os teus amigos não lhe andam a limpar a merda outra vez.

Vai te foder.

É mentira? Diz lá. Achas que é mentira o que eu estou a dizer? Nós tínhamos a cena pensada para lhe espetar o cagaço da vida. Não era isto.

Nós não. Tu, tu tinhas o teu plano de merda. Se não tivesses feito nada daquilo, nós ainda aqui estávamos.

Poupa-me. Deixa de ser estúpida. Tu querias assustá-lo tanto como eu.

Tu obrigaste-me.

Olha, põe-te a andar. Desaparece daqui. Sai lá para fora já! Taca aí, Guigas. Taca essa merda. Para! Volta aqui, foda-se. Porra! Foda-se. Estou?

Senhor Filipe D'El Gato, temos indicações de que se afastou do perímetro definido pelo dispositivo.

Sim, foi um acidente. Eu já estou dentro de casa.

Um acidente?

Sim, foi involuntário. Deixei cair uma porcaria pela janela e tive de ir lá abaixo apanhar. Foi só isso. Foram dois segundos.

Ok, o sinal sonoro do dispositivo de segurança foi agora desativado. Tenha atenção a este tipo de situações, senhor D'El Gado. Sabe que este tipo de infrações não são nada indicadas.

Sim, eu sei. Eu já lhe disse que foi só um acidente. Eu estava a sacudir a toalha e fugiu-me uma coisa da mão. Foi só isso.

Boa tarde.

O que é esta merda?

Por que fizeste isso?

O que é isto?

Dá-me isso, Guigas, essa merda é minha.

Uma carteira de fósforos do Labareda?

Tens de me dar essa merda de volta.

Por que tinhas esta porcaria em casa? E que número é este aqui marcado?

É a única coisa que pode ajudar-te ao teu irmão. Se o que ele estiver a dizer for verdade.

O quê? Como assim?

Essa merda estava no local onde ele foi encontrado, na noite em que o amarramos à árvore. Quando lá chegámos a única coisa que eu vi foi essa merda caída no chão.

Então e por que não disseste nada antes?

Ia dizer o quê? Que tinha encontrado uma carteira de fósforos de um bar e que isso é suspeito? Achas que isso levava a alguma coisa ou ainda me afunda mais nesta merda? Guigas, eu estou preso em casa com uma coleira na canela e é essa porcaria que tu não consegues perceber. Eu não tenho paizinhos que me safam de tudo como tu. Eu estou preso em casa enquanto andas por aí a pedir desculpas, feita otária. Dá-me essa merda de volta. Dá-me isso de volta. Deixa-na na minha caixa de correio.

Ainda não.

Guigas. Guigas!

Duranho, podes vir até ao meu gabinete?

Olá, chefe.

Cinco minutos, ok?

Certo, até já. Como diria a Joana: "Nota breve". Bom, isto de ter ficado com o gravador antigo tornou-se num vício. Para registo, a muito me enganou vou levar uma entalada dela. O César acaba de me chamar ao gabinete para conversarmos e eu tenho quase a certeza que ele foi apertado. Zero possibilidades com o desaparecimento do José Valbom, zero avanços na investigação, zero recursos dispensados para mais averiguações. Quer dizer, estou fodido, é o quê?

Entra.

Com licença.

Senta-te.

Obrigado, César.

Estamos aqui há quase um mês à procura do miúdo.

27 dias, sim.

E não temos nada.

O que temos é pouco. Temos o pedido de resgate feito por telefone com origem encriptada diretamente para o engenheiro Vicente Valbom. Temos as marcas de pneus na serra, cuja peritagem revelou serem suficientes. Temos também a chamada do miúdo para o pai, mas também é de origem igualmente encriptada e pouco mais.

É zero, Duranho. É zero, foda-se.

César, nós conseguimos agora um testemunho de um homem que viu a carrinha escura naquela noite a sair da estrada que passa pelo meio da serra.

Porra, João! E o que eu posso fazer com essa porcaria? Tens noção? Foda-se, pá, foda-se! O cabrão do Valbom a ligar-me dia sim, dia sim, a pressionar-me como o caneco e o que tu queres que eu lhe diga? Ele acha que nós estamos a fazer pouco

Chefe, nós estamos a fazer-

Esquece! Este gajo joga numa liga muito mais importante que a nossa e precisamente para que possamos continuar a jogar na nossa liga sem que haja merda, vou meter outra pessoa contigo.

Como é?

Outra pessoa. Sofia, diga à inspetora Macedo para entrar, por favor. Obrigado.

Posso?

Força, Teresa, entre.

Obrigada.

Inspetora Macedo, apresento-lhe o inspetor Durães. Eu sei que ainda está a conhecer os cantos à casa e que mais cedo ou mais tarde já conhecerá toda a gente, mas garanto-lhe que o inspetor Durães é um dos nossos inspetores mais talentosos. Deixemo-nos de merdas. A inspetora foi muitíssimo bem referenciada por colegas do Porto e eu tenho a certeza de que será uma enorme mais-valia tê-la a chefiar esta dupla, no que toca ao caso de José Valbom.

César, chefiar? Mas que merda é esta?

Sim. A inspetora chefe será, a partir de hoje, o contacto preferencial no que toca ao caso do desaparecimento do miúdo e eu espero contar com a sua máxima colaboração, inspetor Durães.

Certo, chefe.

Teresa Macedo, muito prazer.

Chefiar? Do Porto. Quer dizer, é bem do Porto, mas aqui, mas como nós não conseguimos, está bem. Enfim.

Inspetor.

Sim?

Vamos trabalhar?

Sim, estava só a-

Temos muita coisa para rever.

Não, claro. Era só-

Vamos, para dentro. O dossiê do caso parece-me incompleto.

Incompleto? A investigação está em curso e a compilação está a ser feita ao longo do período-

Eu sei como é que as investigações são levadas a cabo, inspetor, não preciso que me ilucide. Quando digo que o dossiê me parece incompleto é porque anotei algumas incongruências no método que aplicaram nas vossas buscas.

Podemos sempre rever ponto por ponto, talvez-

Inspetor Durães. Eu sei que ficou surpreendido por me ver aqui. O clichê seria eu ser insuportavelmente autoritária e você passar a seguir todos os passos que eu lhe dissesse para seguir. Mas também não é isso que eu espero de si. E nem será esse o meu papel. Temos um homem para encontrar. E estou certa de que o encontraremos, se nenhum de nós os dois se armar em esperto.

Inspetora-

Portanto, sejamos práticos. A influência do pai de José Valbom há de ter tido o seu peso na minha colocação aqui. Ok. E eu também sei muito bem o que lhe passou pela cabeça ali dentro. Mas acredite, eu não conheço o engenheiro Vicente Valbom de lado nenhum e sinceramente, também não morro de amores pela pessoa em causa. Agora, se disser que eu lhe disse isto, naturalmente, terei de o afastar para sempre de toda e qualquer hipótese de trabalho.

Entendi.

Estou a meter-me consigo, inspetor. Não, não conheço o engenheiro Vicente Valbom, mas também não vou desistir enquanto não encontrar o filho dele. E você também não. Combinado?

Estava à espera de uma posição da sua parte.

Eu sei.

Boa noite, Sofia. Vamos?

Vamos.

Alguma novidade?

Marcámos a conferência de imprensa para daqui a meia hora. É natural que haja aquele aparato todo ali à porta.

Três carros de exteriores, 15 jornalistas. Olha para aquilo, parecem baratas tontas. Passamos em todas?

Todas. A TV Cross pediu o exclusivo para o telejornal, mas não cedemos. A estratégia mantém-se como lhe disse: vamos a todas, sem exclusivos, para passarmos à mesma hora na casa de toda a gente. Depois, na próxima semana, pensamos em exclusivos e em mais o que seja.

Bom, tranca a porta.

Vicente.

Eu não consigo fazer isto a seco.

Temos menos de meia hora.

Eu sei. A Sofia é rápida.

É exatamente isso, Clara. Estamos à porta da sede de campanha do engenheiro Vicente Valbom. Estamos na Rua da Prata e com um grande conjunto de jornalistas à espera de saber o que vai dizer o ainda candidato à Câmara Municipal de Lisboa. Quando a campanha arrancar, supostamente amanhã, depois do filho do candidato ter sido aparentemente raptado há quase um mês. Perante esta circunstância tão inédita e com contornos criminais, fica a dúvida se o engenheiro Valbom vai ou não vai continuar nesta corrida, uma vez que, até agora, não parece ter havido qualquer espécie de evolução na resolução deste caso. Para todos os efeitos, há um pedido de resgate. Há a ideia de que José Valbom, 25 anos, estará bem de saúde e serve agora de moeda de troca para uma avultada quantia de dinheiro, sem que a Polícia Judiciária consiga, até ao momento, estabelecer qualquer espécie de teoria em relação ao paradeiro do filho do candidato. O engenheiro Valbom entrou no edifício da sua sede de campanha há sensivelmente 20 minutos, altura pela qual se negou a prestar qualquer espécie de depoimento aos jornalistas que aqui se encontravam. A conferência de imprensa está a segundos de começar, pelo que cá fora, naturalmente, a expectativa é muito grande. Agora, pelo que vejo, algum movimento junto à entrada. Vamos tentar perceber o que se passa. E aí está, é o engenheiro Vicente Valbom Acaba de sair do edifício para se juntar agora aos jornalistas. Vai começar a conferência de imprensa. Vem ladeado da sua assessora, Sofia Rito, e aproximam-se agora com mais um conjunto de membros da sua equipa. Vamos ouvir.

Dirijo estas minhas palavras a todas e todos os lisboetas, ao país e a vocês, senhoras e senhores jornalistas. Decidimos, a um dia do começo oficial do período de campanha, fazer esta sessão de esclarecimento, face aos acontecimentos que há quase um mês tiveram lugar no seio da minha família. Como é do conhecimento de todas e de todos, o meu filho, José Valbom, encontra-se em parte incerta, às mãos de uma entidade criminosa, que dessa forma procurou intimidar-me, criando com este caso um putativo impedimento à minha campanha, colocando em perigo a minha família, as minhas pessoas, o meu próprio filho. Se me custa falar-vos hoje sem a certeza de o encontrar vivo, muito mais me custa tomar esta decisão que hoje aqui tomo em plena consciência. Sei, porque estou ciente disso, que será uma decisão que marcará o meu percurso enquanto candidato à Câmara de Lisboa, porque também me marcará enquanto cidadão, enquanto homem, mas acima de tudo, enquanto pai. Tanto quanto podemos hoje saber, o meu filho José está vivo e mantido em cativeiro. É também sabido que houve um pedido de resgate e que o valor inscrito nesse pedido de resgate era de € 2 milhões. Pedi à minha equipa que vos chamasse aqui para me dirigir a todos os meus apoiantes, a todos os que estão de um lado e do outro destas eleições, mas acima de tudo, para me dirigir a quem tem o meu filho e para que a mensagem lhes chegue clara, de viva voz, para que me ouçam a mim a dizê-la, olhos nos olhos com as câmaras. Eu não cedo a chantagens, e muito menos a crimes. Como tantos outros homens e mulheres que quiseram mudar o mundo, a coragem também se mede em situações-limite como esta. Sei, porque o conheço bem, que o meu filho nunca me perdoaria se eu me demitisse perante isto. Portanto, se os raptores do meu filho me estão a ouvir, soltem-no imediatamente ou sofram as consequências. Como já referi várias vezes, confio inteiramente nas valências da Polícia Judiciária e confio absolutamente que em muito pouco tempo a equipa destacada para este caso o resolverá sem qualquer espécie de atenuante para esses meliantes que decidiram fazer isto ao meu filho. Prometo que caçá-los-emos até ao fim, lutaremos até ao fim e nunca, mas nunca desistiremos desta campanha, desta nossa vontade de ver a Câmara de Lisboa dirigida como queremos dirigi-la. É uma decisão que muitos apelidarão de impopular, de claro oportunismo político, mas é acima de tudo, e em resposta a essas previsíveis críticas, é um murro na mesa perante a barbárie que a minha família está a viver. Eu não negoceio com terroristas. Eu não me acovardo perante criminosos. Eu não desisto de me candidatar a presidente da Câmara de Lisboa.

Como vos tínhamos dito, é uma sessão sem perguntas. Peço-vos que respeitem isso, ok? Fica aqui o essencial deste depoimento. O engenheiro Vicente Valbom vai a jogo e começamos a campanha já amanhã.

"O Candidato Perfeito" é um podcast de ficção para ouvir em oito episódios, produzido pela Coyote Vadio e pelo Observador. É escrito por David Neto e Manuel Pureza, com realização de Manuel Pureza, direção de elenco de Rita Tristão da Silva e assistência à realização de Clara Godinho. A direção de som, sonoplastia e música do genérico são de Artur Costa. José Raposo é Vicente Valbom, Tiago Teotónio Pereira é José Valbom, Madalena Almeida é Margarida Valbom, Vera Moura é Sofia Rito, Paulo Calatré é João Durães, Susana Brandão é Teresa Macedo, Sara Matos é Inês Oliveira, Vicente Wallenstein é Filipe Delgado, Pedro Laginha é César Pontes, Carla Andrino é Mila Valbom, Francisco Beatriz é Aníbal Freitas. Este episódio tem a participação especial de Luiz Felipe Borges, Beatriz Canato, Nelson Ferreira, Miguel Cordeiro, Judite França, Ricardo Conceição, Teresa Abecasis, Rita Camarneiro, Beatriz Martins, Mariana Fernandes, Rita Tristão da Silva, Manuel Pureza e Artur Costa.