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Está no ar o Domínio da Guerra. É sempre assim à sexta-feira, com a ajuda do major-general Arnaut Moreira. Muito bom dia, bem-vindos.
Olá, muito bom dia a todos.
Vamos começar com a escalada no Médio Oriente. Já vamos com duas semanas de intensos bombardeamentos, retaliações. Este conflito não tem fim à vista e continuamos também com uma retórica agressiva, quer da parte do Irão, quer da parte dos Estados Unidos, o que diminui a capacidade negocial dos mediadores. Que desenvolvimentos específicos podemos resumir desta semana e que avaliação podemos fazer de tudo o que se tem passado, onde, de facto, um acordo para o fim das hostilidades parece longe?
Muito bem. Vamos olhar para aquilo que eu gostaria de definir como três grandes dimensões deste conflito. Vamos olhar para a dinâmica militar norte-americana, vamos olhar para a dimensão retaliatória do Irão e vamos acrescentar aqui um conjunto de dados que eu obtive sobre a sociedade iraniana, porque fala-se pouco da sociedade iraniana, parece que há um regime iraniano e que há pouco mais. Mas vamos falar um bocadinho-
Donald Trump tinha muita esperança nessa sociedade iraniana.
Sobre a sociedade iraniana. Vamos falar um bocadinho sobre ela, porque não se fala nada sobre isso. Vamos começar pela dinâmica militar norte-americana. O Irão ofereceu aos Estados Unidos da América a possibilidade de estes colocarem a zero os contadores da guerra. Isto é, os Estados Unidos reiniciaram estes combates como se não houvesse uma dimensão temporal anterior. Donald Trump sente-se com a liberdade de ação suficiente para, neste momento, desenvolver as opções militares que entender. O Irão ofereceu aos Estados Unidos colocar o reset, isto é, pôr os Estados Unidos como se estivessem no seu primeiro dia de guerra. E, portanto, Donald Trump tem agora um conjunto, outra vez, de opções de natureza militar para conduzir. Há, neste reatar das hostilidades, alvos que são novos e alvos que são antigos. Alguns dos alvos que já tinham sido batidos no verão de 2025 e alguns dos alvos que foram atacados a partir de 28 de fevereiro de 2026, voltaram a ser atacados. E ser atacados por quê? Porque a análise de intelligence, entretanto conduzida, demonstrou que voltou a haver atividade em algum destes sítios e, portanto, era preciso batê-los outra vez, ou então porque os Estados Unidos entenderam que o grau de destruição sobre algumas destas instalações não tinha sido suficiente. Alvos novos, também há alvos novos aqui. O Irão tem em construção, desde mais ou menos o início de 2020, uma nova instalação nuclear, uma nova central nuclear civil, que está ainda na fase da construção civil. Ora, os Estados Unidos decidiram atacar esta fase da construção civil para impedir que os progressos naquela central nuclear possam ocorrer a curto prazo. E depois, Donald Trump, entretanto, acrescentou aqui uma dimensão nova, fazendo uma espécie de uma troca de: se forem atacados navios comerciais, então eu atacarei pontes, centrais elétricas ou outras infraestruturas críticas. E os Estados Unidos continuam a trazer pra zona reforços, o que significa que o leque de opções militares continua a aumentar. Fala-se, entretanto, na preparação de um grande bombardeamento por parte dos Estados Unidos. Durante o bombardeamento do Irão em junho de 2025, alguns dos ataques que foram realizados na altura foram feitos sobre instalações ligadas ao programa iraniano nuclear, nomeadamente Natanz. Natanz era um centro importante de desenvolvimento nuclear para o Irão. Ora, perto de Natanz está um complexo montanhoso a que o Donald Trump se referiu como a Montanha Picareta, onde desde novembro de 2025, se notou um avanço muito significativo no depósito de resíduos extraídos dessa montanha. Significa que há ali, provavelmente, trabalhos em profundidade a serem realizados nesta montanha. E suspeita-se que o Irão, depois dos ataques a Natanz, tenha escolhido enterrar aquilo que são as suas capacidades, quer do combustível enriquecido que tem, quer das suas centrifugadoras, que as possa estar a fazer passar de Natanz, que foi bombardeada em 2025, para esta Montanha Picareta. E, portanto, isto irá requerer bombardeiros pesados por parte dos Estados Unidos. Os Estados Unidos estarão a preparar Acresce que o novo primeiro-ministro inglês já deu autorização para a utilização das bases militares que os Estados Unidos dispõem em Inglaterra para o poder fazer. E portanto, nos próximos dias podemos, eventualmente, assistir a um bombardeamento deste alvo que é a montanha Pikaret. Depois há a dimensão retaliatória do Irão. O Irão perdeu há muito tempo a capacidade de defender o seu território. Isto é, qualquer alvo que os Estados Unidos designem sobre o território iraniano será abatido. O Irão não tem capacidade de defender-se dos ataques norte-americanos. Trocou, portanto, aquilo que é a sua incapacidade de defesa, por uma capacidade de retaliação sobre os aliados dos Estados Unidos na zona. O Irão acha que a retaliação vai funcionar. Mais à frente poderemos falar sobre isto, mas houve, entretanto, uma alteração nas prioridades iranianas. É que o que o Irão está a fazer é uma retaliação sobre os Estados mais frágeis da região, sobre o Bahrain, Kuwait, Jordânia. Não está a fazer sobre os grandes actores da região, nem sobre a Arábia Saudita, nem sobre Israel. Continua a ameaçar os dois, mas não tem feito sobre eles, isto é, está a bater nos pequeninos. Entende que é mais fácil conseguir graus de destruição importantes nestes países pequeninos do que atacar os grandes e trazer os grandes para uma eventual coligação ao lado dos Estados Unidos. Depois, há uma dimensão também económica nisto tudo. É que o petróleo, entretanto, já disparou outra vez, mas nenhuma destas opções do Irão é uma opção que me pareça poder vir ter sucesso a longo prazo. São tudo opções de curto prazo, isto é, bombardear os vizinhos não é uma grande opção de longo prazo. Pode surtir efeitos a curto prazo. Fazer subir o preço do petróleo nos mercados mundiais também é uma opção a curto prazo. A longo prazo vira-se certamente contra o Irão, porque haverá menos paciência do sistema internacional para aturar o Irão e os seus bloqueios. Além disso, o Irão está a destruir o valor estratégico do Estreito de Ormuz, tema que eu trarei para um próximo programa. O Irão anda à procura de novos golpes de sorte. O que é que são golpes de sorte? É quando consegue atingir instalações americanas e causar mortes. Isto acontece, tem acontecido esporadicamente. Já terão morrido cerca de 17 soldados americanos desde o início do conflito. Isto são os chamados golpes de sorte. De vez em quando há um míssil que penetra a defesa antiaérea e consegue embater e destruir instalações onde estão soldados norte-americanos. Anda, sobretudo, é à procura de uma alteração da política norte-americana, através de ações de natureza política que sustentam a guerra. Por exemplo, os Estados Unidos só conseguem conduzir guerras desde que elas sejam financiadas. O financiamento das guerras tem que ir ao Congresso.
Esta semana com mais dinheiro aprovado.
O Irão vai sempre procurar dificultar a ação através de uma ação política sobre os Estados Unidos que reduza o leque de opções disponíveis para Donald Trump. E entretanto, o terceiro tema é o tal tema que eu trago para aqui, porque nós não observamos suficientemente aquilo que se passa no interior da sociedade iraniana. Na semana passada, eu trouxe aqui para o programa alguns números, cuja fonte foi o Fundo Monetário Internacional, sobre a economia iraniana. E na altura falei que o FMI previa uma inflação de 68,9% para este ano, com alguns bens essenciais como a farinha já a passarem os 120% do ponto de vista da inflação, e uma contração da economia iraniana dá a volta dos 6%. Ora, esta semana houve uma conferência interessantíssima sobre a economia iraniana feita por economistas iranianos dentro do Irão. Isto em si já é muito significativo, porque às vezes não temos esta perspectiva, que dentro do Irão também há conferências sobre o estado da economia iraniana feito por iranianos, não por personalidades ligadas ao sistema financeiro internacional. Ora, o que é que dizem os economistas iranianos? O antigo conselheiro presidencial, que é Massoud Niili, disse: "O Irão está a passar de uma fase crónica de uma doença económica para uma crise ativa." O antigo governador do Banco Central, Hossein Tabrizi, diz: "As instituições financeiras têm de deixar de ser apenas impressoras de notas de banco." Mohammad Bekhis, que é um economista: "A reconstrução das infraestruturas e a modernização económica necessitarão de mais de 500 mil milhões de dólares de investimento." Está muito para lá daquilo que são os fundos congelados do Irão. Ora, os recursos internos, diz Mohammad Bekhis, não serão suficientes para esta missão de reconstrução, sendo indispensável o investimento estrangeiro e a integração do Irão na economia global O governador do Banco Central, Hemati, diz o seguinte: "O poder de compra dos iranianos caiu para os níveis da década de 90. Só o investimento e a produtividade podem restaurar o poder de compra." Todas estas declarações, que normalmente não têm eco na comunicação social ocidental, refletem duas coisas. Primeiro, a discussão política e econômica interna no Irão não desapareceu. Continua a existir. É verdade que esta conferência foi adiada três vezes por falta de condições, mas finalmente foi realizada. E, entretanto, há uma mensagem interessante de Mostafa Khamenei, porque começaram a aparecer vozes revolucionárias a pedirem o julgamento dos responsáveis pela negociação, os negociadores iranianos, por traição à pátria. E foi obrigado o Mostafa Khamenei a vir com uma mensagem, foi no sábado passado, para acudir aos governantes. A população e os governantes devem restringir a sua atividade para evitar divisão, disputas políticas e o acentuar das diferenças sociais. E esta mensagem acabou por ser amplificada por um jornal estatal, "Khorasán", afirmou que as declarações de Khamenei queriam dizer o seguinte: "A crítica é aceite, mas as acusações contra o governo são inaceitáveis. E para aqueles que se dizem revolucionários, a mensagem do líder supremo é um ultimato: deixem de dizer mentiras contra as autoridades." Nós não temos consciência, o "Domínio da Guerra" vai lá a fundo pesquisar isto. Não temos consciência dos debates muito sérios e internos entre aquilo que são os setores moderados que continuam a existir no Irão e os setores revolucionários que querem julgar os negociadores, e a necessidade que teve o líder supremo de vir a jogo para tentar proteger os negociadores do Irão.
É elucidativo também da situação interna do próprio país. Vamos aqui a um segundo ponto, o Estreito de Bab-el-Mandeb, já apelidado como uma nova frente deste conflito, porque os houthis declararam aqui neste estreito o bloqueio aos navios ligados à Arábia Saudita. Os houthis dizem que é uma resposta ao bloqueio que a Arábia Saudita tem vindo a impor ao povo iemita. Há aqui um ponto de situação que podemos fazer deste bloqueio e que evolução se pode perspetivar para este estreito um pouco mais a este e a sul de Ormuz.
Sim, muito bem. À medida que o Irão vai destruindo o valor estratégico do Golfo de Ormuz, eu já prometi que vou trazer uma análise sobre isto, ele precisa dos houthis para valorizar o estreito. Isto é, se ele conseguir que os houthis impeçam o trânsito marítimo normal no estreito Bab-el-Mandeb, certamente que está a reforçar aquilo que é o valor estratégico do estreito de Ormuz. Simplesmente, fechar o estreito Bab-el-Mandeb tem três problemas. O primeiro é que a Arábia Saudita é o maior exportador mundial de petróleo e uma parte importante deste petróleo é exportado para a China, que é um aliado do Irão. Portanto, primeiro aspecto a ter cuidado. O pipeline que liga ao Mar Vermelho, o pipeline da Arábia Saudita, chegou a qualquer coisa como sete milhões de barris por dia. Isto é cerca de um terço daquilo que era a passagem de barris de petróleo pelo estreito de Ormuz. Segunda questão, o Mar Vermelho não é como o Golfo Pérsico, é que tem uma outra saída que os houthis não controlam. Portanto, continua aberta a passagem do Canal do Suez. Isto aumenta em cerca de 15 dias a duração de uma viagem. De qualquer maneira, continua a haver uma alternativa a Bab-el-Mandeb. Depois, a paciência estratégica da Arábia Saudita pode estar a esgotar-se, porque os houthis foram financiados pelo Irão para causar problemas à Arábia Saudita. A Arábia Saudita tem se mantido numa zona de grande silêncio e recato, procurando envolver-se em guerras por forma a preservar aquilo que ela sente que é, no fim disto tudo, ela tem condições para estar à frente do ponto de vista econômico de todos os outros que entretanto ficaram destruídos pela guerra. Donald Trump começou por dizer que os houthis pagariam por isto, mas nos últimos dias disse que é o Irão que vai pagar por aquilo que são as ações que os houthis estão a desenvolver. Isto não é a primeira vez que os houthis fazem isso. É que na campanha de 2023 a 2025, os houthis utilizaram drones, mísseis, mísseis de cruzeiro, pequenos navios para atacar a navegação comercial. Nessa altura, afundaram quatro navios e houve quatro marinheiros que foram mortos e o estreito teve uma redução muito significativa do número de travessias. E como é que isso se resolveu na altura? Resolveu-se entre 15 de março de 2025 e 6 de maio. Os Estados Unidos bombardearam os houthis e os houthis resolveram reconsiderar o assunto e estiveram calmos desde aí. Já houve um problema com os houthis entre 2023 e 2025 e isto foi resolvido em cerca de mês e meio de bombardeamento. Existe agora um risco acrescido, os houthis podem estar a olhar também para as refinarias sauditas que existem no sul da Arábia Saudita. Essas refinarias exportam produtos refinados, nomeadamente diesel, para a Europa. Vamos acompanhar estes desenvolvimentos.
Neste estreito. Estamos um pouquinho apertados de tempo. Consegue esta cortina de fumo em dois minutos?
Sim.
Tema para a nossa cortina de fumo desta semana: a revolução que Zelenskyy fez na defesa da Ucrânia com substituições do comandante das forças ucranianas, depois de manifestações nas ruas do país. Ouviu a população, Zelenskyy? Apesar de não haver eleições.
Certo. Zelenskyy teve que escolher entre o Ministro da Defesa, Fedorov, e o Comandante-Chefe das Forças Armadas, Syrskyi. E Zelenskyy escolheu demitir ambos. Isto é, não dar a vitória a nenhum. Do ponto de vista político, é uma decisão salomónica que me parece acertada. Senão estaria a dar razão a um dos lados. Há aqui três teorias. Primeira teoria, teoria da conspiração. O Zelenskyy afastou Fedorov porque este pode vir a ser um inimigo político. Para mim, esta teoria não é válida, só é válida agora. Agora que foi afastado é que abriu o caminho para Fedorov se tornar uma possível alternativa política. Segundo, é uma guerra institucional. Em 2018 houve uma mudança na lei que deu novas competências ao ministro da Defesa. Fedorov entendeu aplicar na sua extrema dimensão essa lei de 2018, que lhe confere sobre as Forças Armadas um enorme grau de controle. Isto levou a que Syrskyi, um homem da velha guarda, acabasse por se sentir um bocadinho encurralado numa missão que entendia que era basicamente sua. Uma questão de natureza de guerra institucional. A terceira é a guerra de egos. Se as coisas estivessem a correr mal, ninguém queria ficar nestes cargos. Como as coisas estão a correr bem, de repente, toda a gente acha que deve receber louros por as coisas estarem a correr bem. Há aqui uma disputa de egos que só existe porque a guerra está a correr bem. E depois há a quarta teoria, é aquilo que eu penso sobre o assunto. Nenhuma das reformas das Forças Armadas produz resultados de combate em cinco meses. Fedorov não é responsável pela melhoria da eficiência do combate. Não foi Fedorov que pôs o exército a combater melhor. Foram os milhões de drones que a indústria produz desde o ano passado e que Syrskyi tem vindo a utilizar há mais de um ano. Fedorov ficou com os louros porque enfrentou Syrskyi. Syrskyi é não popular e Fedorov foi o homem que decidiu enfrentar Syrskyi e isso deu-lhe os louros da população. Syrskyi esteve na defesa de Kyiv, esteve na contraofensiva de Kharkiv e esteve na operação de Kursk. Esteve em todas as grandes operações militares da Ucrânia. Tinha uma formação soviética, o que era uma desvantagem, mas agora olhem para as imagens dos manifestantes. Estive a olhar com muito cuidado. São tudo pessoas que têm menos de 25 anos e que podem vir a ser chamadas pra guerra. Eles viam em Fedorov a hipótese de se reduzir a capacidade de mobilização e de, portanto, não irem pra guerra. Esta guerra entre Fedorov e Syrskyi, do meu ponto de vista, acabou muito bem. Acabaram os dois demitidos para que o novo chefe de Estado-Maior, o novo chefe das Forças Armadas, Drapatyi, possa exercer bem a sua função.
E vamos ao Ponto de Mira. Um Ponto de Mira hoje dedicado a esse acordo de enriquecimento de urânio assinado entre Estados Unidos e Arábia Saudita. Que acordo é este e que consequências para o poder no Médio Oriente?
Revela quatro, cinco coisas. Eu tenho aqui alinhadas quatro, muito rapidamente. Primeiro, a perda de influência de Israel sob a administração Trump. Isso é mais que evidente, que se isto fosse há dois anos, nunca teria acontecido.
Já tínhamos tido outros sinais.
Segundo aspecto: reconhecer o papel de moderação da Arábia Saudita na atual crise. Isto é uma espécie de uma recompensa também. Terceiro, isto é um negócio multimilionário que vai envolver empresas norte-americanas. A Arábia Saudita há muito tempo que quer uma central nuclear para poder ter produção de energia elétrica. Chineses e russos andam há muito tempo à volta da Arábia Saudita para isso. Donald Trump decidiu antecipar-se e vender equipamento norte-americano. E agora, o quarto e último aspecto. O que Donald Trump está a fazer é equilibrar poderes com o Irão. Isto é, o Irão vai certamente conservar a capacidade de enriquecimento pra uso civil do urânio e o Donald Trump fez um reset de tudo da distribuição de poder. Então se o Irão o vai fazer, a Arábia Saudita também o vai poder fazer em idênticas circunstâncias. E Donald Trump anda a distribuir o poder e os equilíbrios de poder no Médio Oriente.
E a fazer negócios pelo meio.
Também.
Major General Arno Moreira na edição desta semana de "O Domínio da Guerra". Fica já disponível daqui a pouco no site "O Observador" e nas plataformas de podcast. Obrigado, senhor Major. Até pra semana.
Um bom fim de semana.