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Começa agora o Domínio da Guerra com o Major General Arnaud Moreira. Bem-vindo.

Olá, bom dia a todos.

Já sabe que, se quiser, também nos pode acompanhar com imagem através das nossas redes sociais ou pelo site do Observador. E é incontornável, temos de começar pela China, que esteve durante toda a semana no centro das atenções mundiais. Coube-lhe realizar a reunião anual da Organização de Cooperação de Xangai, onde contou com a presença de mais de duas dezenas de chefes de Estado e de governo e organizou uma importante parada militar, onde o presidente Xi Jinping se fez ladear de Vladimir Putin e de Kim Jong-un. General, que balanço fica desta semana em que a China se colocou no centro do mundo?

Esta foi a semana da China e foi preparada pela China para ser a semana da China. Este ano competia à China organizar a reunião anual da Organização de Cooperação de Xangai. E acontecia que este ano se comemoravam também os 80 anos da derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial. A China pensou nas sinergias brutais que poderia obter se conseguisse ligar estes dois acontecimentos. E foi isso que ela durante todo o ano esteve a trabalhar: conseguir colocar na mesma proximidade as duas grandes reuniões, os dois grandes eventos. Por quê? Isto é inteligente tentar perceber a China. A China tem de si, hoje em dia, a ideia de que é o centro do mundo e para isso precisa ter um discurso que seja suficientemente abrangente para poder ter um poder de atração. Enquanto os Estados Unidos estão exatamente na rota contrária, o seu discurso afasta os seus amigos, os seus parceiros, os seus aliados.

Cada vez mais isolado.

A China resolveu fazer o discurso contrário, que é o discurso da atração. Para isso precisava de dois eventos separados um do outro, mas conectados nesta sua dimensão de uma ligada à paz, a Organização de Cooperação de Xangai, e outro ligado ao poder militar, a parada militar. E ao juntar os dois na mesma semana, encontrar as sinergias que permitisse que todos aqueles líderes que estavam presentes na reunião da Organização de Cooperação de Xangai estivessem disponíveis também para ir assistir à grandiosa parada militar. Portanto, este assunto foi trabalhado, coreografado ao detalhe, para transmitir uma ideia interna e externa de que a China está aí para se constituir como o centro do mundo. Olhemos para a reunião da Organização da Cooperação de Xangai. Quando a União Soviética se dissolveu, ficaram soltas no aspecto da política internacional, um conjunto de antigas repúblicas soviéticas que estavam na Ásia Central. Ficaram desenquadradas com a dissolução da União Soviética. E a China e a Rússia viram naquilo que eu chamo deste seu quintal das traseiras, uma imensa vulnerabilidade. Era preciso enquadrar estas antigas repúblicas socialistas soviéticas que tinham, de repente, ficado, vamos dizer assim, que é a maneira mais fácil de dizer, sem dono. Era preciso tornarem a enquadrá-las, porque elas se situam numa área geográfica que são as traseiras da Federação Russa e da China. E então constituiu-se em Xangai aquilo que se chamava o grupo dos Cinco de Xangai. O que eram os Cinco de Xangai? Isto foi logo em 96, era a China, a Rússia, o Cazaquistão, o Quirguistão e o Tajiquistão. Portanto, os dois chefes, China e Rússia, e depois as antigas repúblicas soviéticas. Faltava aqui o Uzbequistão. O Uzbequistão juntou-se em 2001 e, portanto, o grupo dos Cinco de Xangai passou a ser constituído por seis, com a chegada do Uzbequistão, e é aí que aparece a designação, pela primeira vez, de Organização de Cooperação de Xangai. Quais são os seus objetivos? Os seus objetivos, na altura, são olhar com atenção para as tensões que podem surgir entre estas novas repúblicas, definição de fronteiras. Por exemplo, as fronteiras estavam muito diluídas durante a época da União Soviética, mas a partir do momento em que se tornaram repúblicas independentes, as questões das fronteiras e das tensões fronteiriças voltaram a crescer. E, portanto, a China e a Federação Russa criaram a Organização de Cooperação de Xangai para manter enquadradas, diminuir os níveis de tensão e encontrar formas de cooperação nesta enorme área geográfica da Ásia Central. Este era o objetivo inicial, mas em 2017 houve uma alteração profunda na Organização de Cooperação de Xangai. É que entrou neste clube a Índia, o país mais populoso do mundo, e o Paquistão. E isto mudou aquela configuração inicial de uma organização virada para a Ásia Central e agora ganhou com a Índia e com o Paquistão, uma outra dimensão demográfica, cultural, geográfica, geopolítica, etc. Em 2017, a entrada da Índia e do Paquistão veio mudar os objetivos da Organização de Cooperação de Xangai. Em 2023, aderiu o Irão, e em 2024, a Bielorrússia. Entretanto, criaram aquilo que chamaram de parceiros de diálogo, cerca de 14 países, como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, a Turquia, etc. De repente, esta organização, no espaço de 10 anos passa de cinco parceiros para uma coligação com ambições de natureza global, porque a sua área geográfica de influência, apesar de se confinar na Ásia, já é uma Ásia muito grande. E passa a ser utilizada pela China como o seu instrumento para mostrar a sua capacidade de atração. À medida que uma organização vai crescendo, vai crescendo também a sua capacidade de atração, porque já há tantos membros que todos também querem fazer parte. Este é um instrumento valiosíssimo nesta ideia de sinocentrismo que a China tem sobre a ordem global. Hoje, o seu objetivo é global e a China aspira criar um grupo de pressão e um enorme grupo de apoio para satisfazer este seu ímpeto de tornar a China o centro da ordem mundial. Depois, o que há aqui de importante? O comunicado final ia dando cabo do papel da impressora são 21 páginas.

Foi buscar mais toner.

É preciso mais toner, mais papel. 21 páginas este comunicado. Por quê? Exatamente por causa desta política da China, de tentar incluir e dar relevância a todos. Como são agora muitos os membros, aquilo vai a detalhes de: estão solidários com os estudos que se desenvolvem relativamente aos glaciares, com o ímpeto que podem dar às relações, as maratonas organizadas por isso.

Para que cada aliado se sinta incluído.

Todos se sintam incluídos. Conclusão, no final, 21 páginas de comunicado final. Mas talvez o que é importante, o meu resumo é um parágrafo que está lá e que é este, diz assim: "A ONU impôs-se como uma organização interestados única do seu gênero e no seio da qual se estabeleceu uma cooperação eficaz e necessária para assegurar a paz e a segurança, o desenvolvimento socioeconômico e os direitos do homem. Os estados membros da organização reafirmam a sua proximidade a esta ordem mundial mais representativa, democrática, de equidade e multipolar, fundada sobre os princípios universalmente reconhecidos pelo direito internacional, compreendendo também aqueles consagrados pela Carta das Nações Unidas." Isto é um hino às Nações Unidas. A China sentiu que o discurso atual dos Estados Unidos de desvalorização das Nações Unidas e da Carta das Nações Unidas pode ser aproveitado. A China coloca-se agora perante todos os parceiros deste sul insatisfeito, como alguém que procura reforçar as Nações Unidas e reconhece o seu valor intrínseco e está disposta a lutar pelos seus valores, até pelos valores do direito dos homens. Isto é uma coisa absolutamente extraordinária. Vale a pena ler quem tiver paciência as 21 páginas deste comunicado, porque elas mostram uma outra visão da China, a China que quer atrair a si um conjunto de países insatisfeitos, sobretudo também aqueles países a quem os Estados Unidos têm castigado. Aspectos a reter para finalizar. A aproximação de Modi a Xi Jinping.

Sim, temos subestimado a Índia.

Exatamente, a aproximação de Modi a Xi Jinping e também a prestação de Putin. A prestação de Putin na cimeira foi fraquíssima. Putin foi obrigado, perante aquilo que era a ideia da China, das Nações Unidas, da paz universal, etc, fez um discurso de justificação. Toda aquela assertividade da Federação Russa desapareceu durante a Cimeira de Xangai. Que foi em Tianjin, da organização. Putin foi obrigado a justificar-se porque é que tinha invadido a Ucrânia. Isto é um aspecto extraordinário, que mostra perfeitamente que quem lidera este novo projeto de ordem mundial é a China, e a Rússia tem que ir atrás daquilo que a China trouxe. Putin teve outras vantagens com a sua presença: é que teve oportunidade e palco para se encontrar pessoalmente com muitos dos líderes que ali estavam presentes.

Entre eles Kim Jong-un.

Entre eles Kim Jong-un, entre eles Fico, que esteve por ali, com o presidente do Irão, etc. Também foi um palco importante para Putin. Mas passemos finalmente à parada militar.

À demonstração do poderio militar, não é?

É. A ideia a transmitir era esta: Xi Jinping e o Partido Comunista da China produziram uma revolução, porque o Partido Comunista da China tem a ver com Xi Jinping ter aparecido vestido de Mao Tsé-Tung. Xi Jinping apareceu vestido de Mao Tsé-Tung na parada. E, portanto, o que Xi Jinping procurou aqui demonstrar é que sob a sua liderança e sob o impulso do Partido Comunista Chinês, a China livrou-se das humilhações de há 100 anos e construiu um poder naturalmente invejável. Foi um belíssimo espetáculo de demonstração de poder, 10 mil tropas, mais de 100 aviões e veículos e tudo aquilo que era a parte mais avançada dos seus equipamentos militares. A coreografia foi montada ao detalhe. Quando avançavam para a parada, Xi Jinping colocou-se no centro, tendo ao seu lado não os líderes todos, mas apenas dois: Kim Jong-un e Vladimir Putin, e todos os outros líderes atrás, ordenadamente, seguindo este trio. Há aqui uma mensagem muito grande.

Aí Putin já se sentiu mais importante.

Uma grande mensagem aos Estados Unidos: eu estou no centro, tenho dois parceiros de confiança que não vou deixar cair, de um lado a Rússia, do outro lado a Coreia do Norte. E, portanto, todas as mensagens muito bem coreografadas naquilo que foi uma semana de grande sucesso para a China.

Entretanto, e depois da reunião na Casa Branca entre Donald Trump e os líderes europeus, estes ficaram a trabalhar entre si para apresentarem uma proposta de garantias de segurança para a Ucrânia. A reunião de preparação final decorreu esta quinta-feira em Paris e contou com a presença de Zelensky. General, o que é que saiu deste encontro que não agrada nada a Putin? Garantias de segurança.

Maria Zakharova, a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Federação Russa, aliás, durante o dia anterior tinha prevenido: "Escusam de fazer esta reunião porque a Federação Russa não vai autorizar a presença de tropas estrangeiras". Mark Rutte respondeu no dia seguinte: "A Federação Russa não é chamada a pronunciar-se se deve haver ou não deve haver tropas europeias ou da coligação de vontades na Ucrânia". Mas enfim, vamos à reunião. Esta reunião tem o seu princípio não nesta semana, mas naquela reunião que houve na Casa Branca, em que ficou acordado que os europeus iriam trabalhar em conjunto para garantir uma capacidade que desse garantias de segurança à Ucrânia. Portanto, os europeus estiveram durante estas duas semanas a trabalhar essencialmente naquilo que foi a missão que receberam da Casa Branca na reunião com Donald Trump. O que é que os europeus podem fazer? E esta foi a reunião final. Esta reunião de 4 de setembro, foi a reunião final de acerto e de concordância entre os vários países que participam nesta coligação de vontades, daquilo que são as garantias que estão disponíveis para serem oferecidas por esta coligação. O resultado foi anunciado numa conferência conjunta por Macron e por Volodymyr Zelensky, logo a seguir a uma chamada em videoconferência com Donald Trump, onde lhe foram expostas as conclusões a que chegou esta cimeira da coligação de vontades. E então, o que é que temos? Basicamente, o que foi transmitido foi que 26 países da coligação de vontades, um número bastante significativo, se mostraram disponíveis para, em diferentes formatos, garantir condições de segurança à Ucrânia. Por que diferentes formatos? Porque nem todos os países estão disponíveis, já o sabíamos desde há algum tempo, a enviar tropas diretamente para o terreno. Por exemplo, sabemos que a Alemanha não estava disponível para o fazer, a Itália também tinha muitas reservas para o fazer e, portanto, foi preciso encontrar nesta coligação de vontades, uma fórmula bastante flexível em que os 26 participam, mas participam de forma diferente. Enquanto alguns participam com tropas no terreno, outros estão disponíveis para apoiar a capacidade aérea nos céus da Ucrânia e outros para apoiar aquilo que são as capacidades navais da Ucrânia no Mar Negro.

Cada um dá o que pode.

Cada um dá o que pode. E alguns, não o podendo fazer ou não tendo capacidade de o poder fazer, vão encontrar soluções, ou soluções de treino, ou vão permitir que as suas bases nos seus territórios sejam utilizadas pela coligação de vontades para que não falte proteção à Ucrânia. O que é que falta agora aqui? Este é o trabalho de casa feito pelos europeus. Agora é preciso juntar a este trabalho de casa os Estados Unidos O próximo trabalho que agora se inicia é de que forma é que os Estados Unidos dão garantias de segurança às garantias de segurança que os europeus estão disponíveis para dar. Este é o trabalho dos próximos dias. Macron garantiu, depois do telefonema com Trump, que os Estados Unidos estão disponíveis e não tem dúvidas nenhumas que estão disponíveis para participar neste conjunto de garantias de segurança. A fórmula utilizada dessa participação é o que será agora discutido. É um assunto que vamos continuar a acompanhar, mas do ponto de vista europeu estão concluídos os trabalhos e foi reunido o consenso possível para que os europeus possam estar presentes e há garantias de que alguns países estão disponíveis para ter tropas no terreno.

Durante o discurso na Praça Tiananmen, na quarta-feira, o presidente Xi Jinping afirmou que hoje a humanidade enfrenta novamente a escolha entre paz ou guerra, diálogo ou confronto. General, isto foi uma frase de circunstância ou uma imensa cortina de fumo?

Eram 50 mil pessoas e 10 mil soldados que estavam em Tiananmen para ouvir o discurso de Xi, que naturalmente era o discurso mais aguardado no final de toda esta semana em que a China ocupou o grande palco mundial. Basicamente, o que é que Xi disse? Hoje, a humanidade está perante a escolha da paz ou da guerra, do diálogo ou da confrontação, do benefício mútuo ou da soma nula. E também não se esqueceu de acrescentar: "E o povo chinês está do lado certo da história". Tudo isto é falso. Temos que começar por isto. Todas estas afirmações são falsas. A humanidade está perante a escolha da paz ou da guerra? Não. E a China sabe perfeitamente que não. Entre a paz e a guerra, existe uma multiplicidade de ações de natureza mais ou menos violenta, que torna esta dualidade falsa. Por exemplo, quando os barcos da marinha chinesa vão embater contra os barcos das Filipinas, não é a paz ou a guerra. Encontraram aqui uma forma de violência que não é a paz ou a guerra. A China pratica-o todos os dias. Primeiro, é falsa esta dicotomia entre termos que escolher entre a paz ou a guerra. Há muito tempo que entre a paz e a guerra existe uma multiplicidade de soluções que os países utilizam para fazer valer os seus direitos. Isto começa logo pela parte da falsidade deste dilema. Depois, era só o que faltava é que o presidente da China tivesse legitimidade moral em assuntos de guerra e paz. Primeiro, o seu desfile militar foi, pelo contrário, a demonstração de que a China está numa fase de militarização crescente e essa militarização crescente não é para a paz. Essa militarização crescente é para fazer valer aquilo que ela pensa que são os seus interesses no Mar do Sul da China e na invasão de Taiwan. A China vem com este discurso de cordeirinho enquanto vai procedendo a uma militarização crescente e muito sofisticada do seu equipamento militar. Além disso, há 97 empresas chinesas identificadas como fornecedoras de material de duplo uso. A China está a matar os ucranianos. Este discurso da China, que é agora o grande arauto da paz mundial, não corresponde àquilo que são as ações concretas da China. E depois, terceiro, é uma coisa que mexe comigo. É a China armar-se agora em o grande arauto moral das relações internacionais do mundo. O presidente Xi apareceu vestido de Mao Tsé-Tung, que é um líder responsável pela morte de dezenas de milhões de chineses que morreram de fome, de perseguições, de trabalhos forçados, de execuções, todas de natureza ideológica, porque nada disto correspondia à ideia daquilo que era o Partido Comunista Chinês e a necessidade de fazer triunfar uma determinada ideologia. Vestir de Mao Tsé-Tung era a última coisa que Xi deveria ter feito quando veio para esta parada armar-se no grande defensor dos valores morais da humanidade.

O nosso ponto de mira de hoje foca-se no general Zamir, chefe de Estado-Maior das IDF, e no crescente desacordo com as decisões políticas tomadas pelo gabinete de Netanyahu. General Arnobrara, o que é que se está a passar?

Estão se a passar duas coisas. Por um lado, do ponto de vista da ação militar sobre a cidade de Gaza, as IDF estarão perto de controlar entre 30 e 40% da cidade. Mas enquanto, do ponto de vista operacional, esta manobra se vai fazendo, vão crescendo, tornando-se cada vez mais públicas e notórias, as diferenças de visualização do estado final da guerra entre aquilo que é o chefe do Estado-Maior das IDF, o general Zamir, e aquilo que é o governo de Netanyahu. A última reunião do gabinete de segurança foi de domingo para segunda-feira, prolongou-se pela madrugada de segunda-feira, mostrou exatamente aqui uma clivagem muito grande. Parece haver uma voz sensata no meio disto tudo, daquela reunião do gabinete, que é a voz do chefe de Estado-Maior das IDF, do general, que está isolado naquilo que parece um salto cada vez mais para frente e isolado de Netanyahu. E, portanto, a voz neste momento que é a voz mais moderada, que lembra para os riscos que são as intervenções militares em ambientes urbanos de elevada densidade populacional. Zamir está a ganhar credibilidade dentro daquilo que são os setores moderados, mas pode acabar despedido das suas funções.

Como já aconteceu com outro.

É um assunto que certamente merecerá a nossa atenção em próximos programas.

Nos próximos episódios. General Arnobrara, muito obrigada por mais um "Ponto de Mira da Guerra". É sempre um bom fim de semana.

Obrigado. Bom fim de semana para todos.