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Está no ar o Domínio da Guerra da Rádio Observador, sempre com o Major-General Arnaut Moreira. Bem-vindo!

Olá, muito bom dia a todos.

O Natal foi bom?

Foi ótimo, muito obrigado.

Major-General, estamos a chegar ao final do ano, este vai ser o último de 2025. Talvez fosse interessante passar em revista os grandes acontecimentos que marcaram estes 12 meses e que foram recebendo a atenção semanal do Domínio da Guerra. Em jeito de balanço, o que nos trouxe de significativo este ano de 2025?

2025 foi o ano de desconstrução do sistema internacional. Se quiséssemos caracterizar logo no início com uma frase poderosa: desconstrução do sistema internacional. E eu escolhi cinco momentos que me parecem relevantes para marcar este ano. O primeiro é a tomada de posse de Donald Trump. Isto foi logo no início do ano, 20 de janeiro. Ele já tinha sido eleito em novembro e tinha sido eleito pelos americanos. Donald Trump não foi eleito pelos europeus, nem foi eleito pelos outros povos do mundo.

Muitos gostariam.

Foi eleito pelos americanos para mudar a América. Esse era o seu programa, mudar a América. E esperava-se de Trump, uma grande ênfase em cinco ou seis questões de natureza interna: custo de vida, a questão da imigração, as questões de gênero, a energia, o regresso à energia fóssil, o combate aos mídia tradicionais, que ele via como veículos especialmente usados pelo wokeismo e por um liberalismo social que era contrário ao seu programa, ao seu encargo eleitoral. E estes primeiros meses de mandato, mais do que alterações muito profundas em cada uma destas áreas, na verdade, foram marcadas por uma polêmica constante, por desafios às instituições tradicionais da América, procurando de alguma forma anular aquilo que eram os checks and balances que constituem a América institucional, tal e qual como nós a conhecemos. Para isso, ele, contrariamente ao primeiro mandato, desta vez cercou-se apenas de gente fiel. Esse foi o seu critério. Algumas das pessoas que escolheu nem tinham um perfil de natureza técnico muito adequado para as funções para as quais foram nomeadas. Aqui a questão da fidelidade política e pessoal a Donald Trump pareceram critérios essenciais. E na política internacional, o que estávamos à espera? Nós estávamos à espera de três coisas, com base naquilo que tinham sido os discursos de Trump, o seu programa eleitoral, a base de apoio MAGA, estávamos à espera de três coisas no sistema internacional. Estávamos à espera da questão das tarifas, porque tarifas era uma palavra mágica e sabíamos que tarifas era uma coisa que ia sobrar para o resto do mundo e para nós europeus também, em particular. Estávamos à espera de uma ênfase numa maior divisão de custos do ponto de vista das organizações internacionais. Os Estados Unidos achavam que andavam com o mundo às costas e que era preciso distribuir este fardo pelos outros, por todos. Estávamos também à espera de que Donald Trump provocasse uma divisão dos custos na área da defesa. E estávamos à espera de uma diminuição do multilateralismo, porque o Make America Again era contrário a que o mundo fosse governado por um conjunto de instituições onde cada um tinha o seu voto. Eram estas as três grandes áreas que estávamos à espera. O que nós não estávamos à espera? Não estávamos à espera das dúvidas que Donald Trump tem hoje em dia sobre a NATO. Nós achávamos que se houvesse uma repartição justa dos custos destas organizações, que os Estados Unidos continuariam fiéis aos seus compromissos multilaterais com organizações tão importantes como a NATO. Agora temos dúvidas. Depois também ficamos um bocadinho admirados com a sua admiração por Putin. Pareceu extravasar largamente aquilo que era razoável para uma potência como os Estados Unidos. Depois, também ficamos surpreendidos, agora já nestes últimos meses, com a sua intenção de reformatar politicamente a Europa. Os Estados Unidos querem transformar também a Europa. Nós pensávamos que ele queria transformar o mundo, mas a Europa parece ser um dos seus alvos prediletos, porque ele já descreveu a Europa recentemente como uma civilização decadente, liderada por gente fraca. Mostra bem a consideração que tem pelos europeus.

Transformar a Europa, até intervindo.

Exatamente. E depois, o seu apetite territorial, que era uma coisa que nós estávamos habituados a ver exclusivamente num conjunto de ditadores à volta do mundo. O seu apetite territorial também é uma das grandes surpresas. Primeiro grande momento de 2025, a tomada de posse de Donald Trump em 20 de janeiro. Segundo momento O momento da discussão na Sala Oval com Zelensky. Isto ocorreu a 28 de fevereiro. Zelensky foi inocentemente à Casa Branca achando que, no recato da conversa com Trump, poderia mostrar aquilo que acreditava serem os trunfos que a Ucrânia tinha, e o cenário que lhe foi imposto foi completamente diferente. Foi um cenário de armadilha, com perguntas combinadas entre jornalistas e políticos. Foi sentado perante os jornalistas para ser humilhado publicamente. Foi-lhe dito que não tinha cartas nenhumas na mão para jogar.

Foi criticado até na forma como vestia.

Foi um cenário de terror. Aquilo que os mídia americanos definiram como uma coisa sem precedentes na relação entre um presidente norte-americano e um presidente estrangeiro convidado para a Casa Branca para ser humilhado em público. Isto marcou também o ano de 2025. O terceiro momento foi quando Putin é recebido em Anchorage. Isto é um momento de grande viragem no sistema internacional. Primeiro, porque não foi um encontro qualquer. Foi um encontro de alguém que tinha invadido um país europeu e que utilizava a força de natureza militar para resolver questões que poderiam, eventualmente, ter um enquadramento de solução de natureza político-diplomática. Foi recebido com pompa e circunstância, muita pompa e muita circunstância. Houve um entusiasmo claro de Donald Trump em receber Vladimir Putin. E Anchorage foi um momento de viragem na relação entre os Estados Unidos e a Rússia. Aliás, Putin e o Kremlin nunca se cansam de recordar o que foi acordado em Anchorage, que nós não sabemos, na verdade, o que foi acordado em Anchorage. Há uma coisa que nós sabemos: o Trump que entrou em Anchorage não foi o Trump que saiu de Anchorage. O Trump que entrou em Anchorage era um Trump que tinha uma estratégia, e a estratégia era forçar um cessar-fogo da Federação Russa e depois resolver a questão territorial. E com isso tinha os europeus e os ucranianos do seu lado. O Trump que sai de Anchorage não é o mesmo Trump, é um Trump com uma outra estratégia. Não, afinal, o cessar-fogo não é importante, o que é importante é o tratado de paz. Isto é, a Rússia pode fazer a guerra o tempo todo que quiser, desde que não se comprometa a assinar um tratado de paz. Isto mudou completamente a estratégia e mudou a relação com os europeus. E daí os europeus terem, três dias depois, Anchorage foi a 15 de agosto, no dia 18 de agosto, estavam os europeus todos com Zelensky na Casa Branca, que também não tem precedentes. Do ponto de vista da pressa diplomática, como é que em três dias se conseguiu levar uma multidão, Ursula von der Leyen, Keir Starmer, Alexander Stubb, Volodymyr Zelensky, Emmanuel Macron, Giorgia Meloni, Friedrich Merz, Mark Rutte, todos na Casa Branca três dias depois de Anchorage, por causa do susto que foi Anchorage. Quarto momento: Xi reúne-se com os líderes antiocidentais. Marcando aquilo que era o aniversário do final da Segunda Guerra no Pacífico, Xi convidou 26 chefes de Estado e reúne-se com eles. Reúne-se não num sítio qualquer, reúne-se perante uma parada militar, que é uma verdadeira demonstração de força de natureza militar. E elegeu dois convidados de honra. Daqueles todos, que já havia ali muitos antiocidentais, escolheu os dois mais antiocidentais de todos para serem os convidados de honra. Vladimir Putin e Kim Jong-un. Mensagem clara: atenção que estes dois, que são os alvos das maiores sanções ocidentais, estão protegidos por mim, fazem parte do meu círculo de amizade íntima. Mensagem clara. Leitura, que é uma leitura complexa para nós, Ocidente, que é enquanto nós vemos os líderes dos países autocratas cada vez mais próximos e coordenados político e militarmente entre si, o que nós assistimos é a guerras cada vez mais difíceis de explicar dentro do mundo ocidental, em que cada aliado parece puxar para seu lado, quando não mesmo atacar os mesmos aliados que deveria defender. Quarto momento. Quinto momento: a União Europeia perdeu a coragem. Este é o final do ano, estamos a falar do último Conselho Europeu, agora em dezembro, em que fomos por aquilo que era uma solução que não afrontava Moscovo. E essa é que é a questão da coragem. Isto é, a solução que nós escolhemos não é nem mais fácil, nem mais difícil que a outra. É a solução que não afronta Moscovo. E portanto, nesse sentido, nós saímos em final de 2025, a Europa, pela porta dos fundos, com uma assertividade muito baixa. Vamos ver 2026 o que é que nos reserva, mas 2025 teve, do meu ponto de vista, estes cinco grandes momentos.

Muito rico. Precisamente no último Conselho Europeu, na sequência desse último Conselho Europeu, em que a França e a Itália votaram contra a vontade alemã de utilizar os fundos russos congelados para financiar a Ucrânia, Emmanuel Macron veio surpreender tudo e todos ao manifestar a sua intenção de negociar com Vladimir Putin. O Kremlin pareceu, enfim, obviamente, bastante satisfeito com esta declaração do presidente francês. Major-General, o que pretende Macron com esta iniciativa?

O que Macron disse foi: "Seria útil voltarmos a falar com Putin." O Kremlin ficou satisfeitíssimo. Eu espero que Macron, se for lá presencialmente, leve muitas garrafas de champanhe, porque parece-me que o estoque de champanhe em Moscovo já está bastante debilitado. Isto é, têm sido tantos os presentes de Natal que nós temos dado ao Kremlin, que o estoque de champanhe tem que ser reforçado no Kremlin. Ora bem, isto não está desenquadrado da reunião do Conselho Europeu, porque na verdade, o que aconteceu no Conselho Europeu foi gravíssimo. Na minha leitura, haverá certamente outras leituras também úteis sobre o sistema. Foi gravíssimo que se quebrou o eixo franco-alemão. Quebrou-se com estrondo, porque o chanceler Merz defendia uma solução muito diferente daquela que Macron veio a apoiar no final, que foi a emissão da dívida conjunta. Isto foi um choque tremendo entre Merz e Macron. E Macron, ao apontar também do ponto de vista político, não a militarização como a Alemanha está a fazer, mas uma solução de diálogo com Putin, o que vem fazer é cindir aquilo que é uma estratégia europeia comum para fazer face a Vladimir Putin. Macron volta outra vez a estender uma toalha a Putin. Portanto, Macron deixou-nos cheios de dúvidas agora. Primeiro, a União Europeia tem sido construída com base na solidez do eixo franco-alemão. Ora, se sobre um assunto tão importante como o futuro da Europa e das suas relações com Moscovo, Merz e Macron não podiam estar mais afastados, que estratégia europeia podemos nós definir quando cada um está num campo que parece não conciliável? Segundo aspecto, o apoio à Ucrânia tem sido feito através de três capitais, basicamente, tem sido centralizado: Londres, Paris e Berlim, aquilo que chamávamos o grupo E3. Ora, o grupo E3 mandatou Macron pra ir falar com Putin? Ou isto foi feito à revelia do E3 e dos consensos que se tinham gerado internamente sobre a forma como lidar com o problema ucraniano? Portanto, Macron não só deu cabo do eixo, ou está a dar cabo do eixo, como está a dar cabo do E3, que era o grande grupo consolidado que prestava apoio à Ucrânia. Macron já esteve duas vezes com Putin. Esteve em 2022, naquela célebre reunião da mesa de sete metros.

Isso. Cada um na sua ponta.

Cada um na sua ponta. E depois teve o telefonema de 1 de julho. O formato agora ainda não está definido, mas o Kremlin não se importa com o formato. O que o Kremlin quer é destruir a União Europeia. E é ótimo que haja um elemento da União Europeia, com o peso da França, que esteja disponível para romper com os outros parceiros da Europa e da União Europeia para estabelecer um diálogo com Putin. Portanto, Putin está satisfeitíssimo. Vai haver certamente muito champanhe novamente a correr em Moscovo, e eu temo que este tenha sido um golpe do qual a União Europeia tenha muita dificuldade em recuperar.

Vamos à cortina de fumo. Primeiro foi Putin a exigir eleições na Ucrânia, depois veio Trump exigir eleições na Ucrânia e agora veio Zelensky mostrar abertura para a realização de eleições. Todos falam em eleições, mas todos querem coisas diferentes. Major-general, que cortina de fumo é esta?

Isto é uma cortina de fumo extraordinária, porque todos estão de acordo numa coisa, mas nenhum quer a mesma coisa. A única coisa comum é a palavra eleições. Essa é a única palavra. Agora, o que cada um quer das eleições é completamente distinto e arriscamo-nos mesmo também a não ter eleições, na verdade, porque o que cada um quer é uma coisa muito distinta. Putin tudo fará na sua vida para que a sua assinatura não esteja junta da assinatura de Zelensky. Desde o início que é assim, as primeiras horas da invasão da Ucrânia foram marcadas por uma tentativa de afastar Zelensky do poder e fazer com que Zelensky saísse de Kiev e deixasse espaço para um novo regime político em Kiev. Isto foram logo as primeiras horas. E portanto, pensar que Putin quer um tratado de paz em que ele assina de um lado e Zelensky assina do outro, que a assinatura de Putin esteja junto com a assinatura de Zelensky, é uma coisa que Putin certamente não quer, porque seria uma derrota. Seria uma derrota aos olhos de toda a gente assinar um tratado de paz com a pessoa que afinal ele quis derrubar desde a primeira hora. Trump não tem nenhum problema filosófico com as eleições na Ucrânia. Não tem, nem com o sistema constitucional ucraniano, não tem nenhum problema com isso. O problema é que ele percebeu que é mais fácil afastar Zelensky do que afastar Putin. E portanto, se a Rússia lhe dá a esperança que talvez eleições na coisa possam afastar Zelensky, Trump concorda. Trump concorda é com a Federação Russa. O resto não há nenhum problema filosófico entre os Estados Unidos e o sistema democrático ucraniano. E Zelensky Zelensky não tem pressa em realizar eleições em tempo de guerra. O que Zelensky quer é: já que falaram eleições, então vamos fazer um cessar-fogo e arranjar condições de paz suficientes para que possa haver um processo eleitoral. Zelensky também foi à boleia de tanto se falar em eleições pra dizer: "Sim, pronto, muito bem, então vamos fazer, mas pra isso precisamos garantir condições de segurança para que o escrutínio possa decorrer de forma correta." Há aqui um aspecto final que me parece que é importante: a questão técnica da viabilidade disso. Vamos lá ver. Há milhões de ucranianos deslocados no interior da Ucrânia e no exterior da Ucrânia, alguns dos quais em territórios ocupados pela Federação Russa. Estas pessoas votam ou não votam? Os cadernos eleitorais estão atualizados? É claro que não estão. Houve milhões de deslocados no interior da Ucrânia, é preciso refazer outra vez os cadernos eleitorais. Que regiões votam? As regiões de Zaporíjia, de Kherson, do Donbass vão votar? Então a Federação Russa vai dizer: "Mas essas não podem votar, porque essas regiões pertencem à Federação Russa, portanto nós não reconhecemos." Nós estamos todos aqui à espera de eleições na Ucrânia, mas isto é muito mais complicado. E eu acho que estamos a ser aqui um bocadinho anjinhos, porque a Federação Russa não quer eleições nenhumas na Ucrânia. O que quer é armar a maior das confusões com isto e no final dizer assim: "Então e os candidatos pró-russos foram autorizados a concorrer? Não foram? Então isto não são eleições democráticas, eu não reconheço os resultados se Zelensky for reeleito." Se Zelensky não for reeleito, as eleições foram transparentes e fantásticas. Nós não podemos ser demasiado anjinhos aqui. Eu lembro, só para terminar, o seguinte: durante a Segunda Guerra Mundial, entre 1935 e 1945, não houve eleições naquilo que é o país mais democrático, talvez do mundo na época, que era a Grã-Bretanha. Não houve eleições entre 1935 e 1945. Houve 10 anos em que não houve eleições. E no dia em que houve eleições, Churchill foi derrotado. Foi no dia 5 de julho de 1945.

Vamos ao Ponto de Mira. E o Ponto de Mira desta semana foca-se em Jeff Landry, um desconhecido pra maioria de nós, europeus. Por que traz hoje o governador do estado norte-americano da Louisiana para o Ponto de Mira, major-general?

Aposto que ninguém tinha ouvido falar nunca no governador da Louisiana. É que ele foi nomeado como enviado especial de Donald Trump para resolver o problema da Groenlândia, um aspecto que nós achávamos que já tinha sido ultrapassado ao longo do tempo e que agora retoma um novo vigor com a nomeação de um enviado especial de Trump para resolver o problema da Groenlândia. E o que diz Jeff Landry? Diz: "A Groenlândia tem que ser integrada no território dos Estados Unidos." Voltamos agora outra vez àquilo que eu tinha dito, ao apetite territorial, que era característico dos autocratas. Agora também temos em Washington um apetite territorial. Era um assunto que nós achávamos que estava já desvanecido, mas que não está. Voltou outra vez em força. É preciso ver o seguinte: a Groenlândia é uma ilha que tem cinco vezes o tamanho de Espanha, e habitantes, 57 mil. Não se consegue construir um exército, nem há recursos pra assegurar a defesa. Esta ideia muito moralista europeia da autodeterminação, é preciso ver se estes territórios têm condições para poderem viver independentes, porque não geram recursos suficientes para assegurar a sua defesa, nem têm uma população suficiente para assegurar a soberania de uma ilha daquele tamanho. O que diz Frederiksen, que é a primeira-ministra da Dinamarca: "Os nossos aliados de sempre estão a colocar-nos numa situação muito difícil." E é com esta dificuldade que nós temos em perceber a América, que talvez se possa terminar este Domínio da Guerra 2025. Boas entradas para todos.

O próximo Domínio da Guerra já será em 2026. Boas entradas. Até pra semana.

Obrigado.