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Este é o Som do Domínio da Guerra, sempre com o Major-General José Ramon Moreira, que já aqui está comigo. Bom dia, General. Bem-vindo.
Olá, muito bom dia a todos.
Para além da rádio, recordo que também nos pode acompanhar em direto no YouTube, Facebook ou através do site do Observador. Vamos então olhar para mais uma semana de guerra. No final da semana passada, assistimos à presença de Zelensky, em dois palcos inesperados, na Arábia Saudita e no Japão. General, que balanço podemos fazer destas visitas?
É impressionante como o passaporte de Zelensky começa a ter muitos carimbos. Isto contrasta também largamente e tem um significado político em relação ao número de carimbos no passaporte de Vladimir Putin. Passam-se muitas páginas e não se veem carimbos. Portanto, isto tem um significado político, que é importante. E o significado grande político é que Zelensky tem capacidade, neste momento, de ir a qualquer palco, inclusivamente aos mais inesperados, como foi o caso desta visita. A sua visita a esta reunião da Liga Árabe tem, do meu ponto de vista, um simbolismo mais de natureza até política do que em termos dos resultados que ele eventualmente pretendesse obter. Ele certamente abordou dois temas na Liga Árabe. O primeiro é a questão do preço do petróleo e, portanto, da quantidade de petróleo que se pode produzir. Ele certamente alertou para a influência direta que tem na economia russa o aumento do preço do petróleo nos mercados internacionais e dessa maneira procurar sensibilizar a Liga Árabe, que é uma parte importante também dos países que compõem a OPEP, para a necessidade de alguma moderação no que diz respeito à produção de petróleo e, portanto, de alguma maneira, indiretamente, estão a alimentar também a economia de guerra da Federação Russa. E o outro, do meu ponto de vista, é alertar um excessivo otimismo que se vê em alguns países árabes relativamente ao Irão. E, portanto, também introduzir aqui alguma moderação neste relacionamento com o Irão, mostrando e procurando mostrar que o Irão tem uma parte importante naquilo que é a agressão, como aconteceu ainda esta noite, à Ucrânia. E, portanto, introduzir aqui alguma moderação para que não haja aqui um entusiasmo excessivo na aproximação ao Irão. Portanto, foi de natureza marcadamente política. Não podemos também esquecer que Mohammed bin Salman, o homem forte da Arábia Saudita, tem tido uma posição relativamente equilibrada neste conflito e que inclusivamente a Arábia Saudita já deu 400 milhões de dólares em ajuda humanitária à Ucrânia. Portanto, joga aqui uma posição equilibrada e certamente que Zelensky há de querer manter esta posição equilibrada. Relativamente à presença de Zelensky no Japão, o alinhamento político entre o G7, composto, portanto, pelas maiores economias das democracias liberais, o alinhamento do G7 com a Ucrânia tem sido um alinhamento muito forte desde o início desta guerra. E, portanto, mais do que se tratar aqui de um reforço de posições políticas, pareceu-me a mim que a presença de Zelensky teve mais a ver com a possibilidade de, numa única visita, falar pessoalmente com cada um dos líderes presentes. Portanto, em vez de fazer aqui um conjunto de viagens, ele foi ao Japão, aproveitou e teve um conjunto de reuniões bilaterais interessantes. Uma das reuniões interessantes que teve foi com o primeiro-ministro do Japão. E essa reunião é importante porque o Japão é uma grande economia mundial, mas o seu envolvimento de natureza militar no apoio à Ucrânia é relativamente diminuído. No entanto, Zelensky trouxe, para além da continuação do apoio de natureza política e certamente o reforço da cooperação do ponto de vista financeiro para os assuntos de natureza humanitária, trouxe também quase uma centena de veículos blindados do Japão, o que abriu um capítulo novo no relacionamento do Japão com a Ucrânia. Foi muito importante. Depois, teve que agradecer uma coisa a Joe Biden. É que Joe Biden, antes de Zelensky ter aterrado, já tinha anunciado que se não iria opor ao fornecimento dos F-16. E isto realmente é uma abertura completamente nova, porque a partir do momento em que os Estados Unidos acedem a isto, estão reunidas todas as condições para que os F-16, de que falávamos aqui na nossa última edição, possam finalmente chegar. E depois, tem um outro encontro, já não com o G7, porque as reuniões do G7 fazem-se sempre acompanhadas de convites a outras entidades importantes. Ora, havia uma muito importante neste convite, que era Narendra Modi, o primeiro-ministro indiano. Tem tradicionalmente uma boa relação com Moscovo, mas do ponto de vista, hoje em dia, das alianças estratégicas, está muito indeciso entre os dois lados. E, portanto, esta oportunidade de encontro com Modi foi certamente muito útil e terá sido provavelmente até um dos mais importantes encontros que Zelenskyy conheceu. E depois, há o grande acontecimento dos encontros, que é o não encontro.
Os que não aconteceram. Com Lula da Silva, por exemplo.
Nenhum deles queria encontrar-se com o outro. Naturalmente que estavam os dois convidados para a mesma cimeira e tiveram que inventar muitos subterfúgios de agenda para evitar encontrarem-se. Nenhum deles tinha interesse em que isso acontecesse e, portanto, lá conseguiram, como eu diria, harmonizar as agendas por forma a ser impossível conciliar a agenda de um com a agenda de outro. E, portanto, foi uma visita que do ponto de vista político foi também muito importante, mas também foi importante do ponto de vista das reuniões bilaterais que Zelenskyy conseguiu estabelecer com estes actores.
Falava ainda agora sobre isso, depois de muita insistência por parte dos ucranianos e de muita oposição pelos países ocidentais, parece inevitável, a Ucrânia prepara-se para receber finalmente os caças F-16. Mas, General, agora a questão é: o processo vai ser simples? Ou seja, que desafios se colocam para que estes aviões de combate possam então ser entregues?
Os desafios são grandes, mas certamente que o mais difícil era a decisão política por parte dos Estados Unidos. Ultrapassada e obtida essa decisão política, essa abertura dos Estados Unidos para, já numa primeira fase, permitir que junto dos aliados sejam recolhidas as boas vontades e sobretudo as plataformas aéreas para serem entregues à Ucrânia. Também não podemos pôr de lado que mais tarde ou mais cedo, os Estados Unidos se podem juntar a esta coligação do ponto de vista do fornecimento de uma plataforma aérea que é muito abundante nos Estados Unidos e grande parte dela até está em depósito. E, portanto, este é o primeiro passo, mas os Estados Unidos podem, se necessário, somar também aeronaves a este processo. Mas há aqui agora ainda um conjunto de questões por resolver, mas como há vontade política, certamente se vão encontrar as soluções técnicas para isto. Treinar pilotos e mecânicos. Isto está em bom andamento. Foi formada uma coligação de boas vontades, à qual Portugal também já aderiu, para treinar pilotos. Este processo será liderado pela Dinamarca e pela Holanda. Já se juntaram um conjunto de outros países, entre os quais a Noruega, Portugal, etc. Portanto, está bem encaminhada esta questão do treino de pilotos, pode começar muito rapidamente. Há uma outra fase que é mais complicada, que é: nós não estamos a ver que seja possível estes aviões ficarem estacionados na Polónia, levantarem voo, passarem a território ucraniano e depois no final do dia, com toda a segurança, voltarem para a Polónia. Portanto, estes aviões vão ter que operar a partir da Ucrânia, o que significa que vão ter que ser preparadas as bases aéreas para os receber e, por outro lado, também todo o dispositivo da defesa antiaérea para proteger estas bases aéreas. Isto não é uma tarefa imediata, porque a presença dos F-16 em uma, duas ou três bases aéreas vai tornar essas bases aéreas alvo preferido daquilo que são os mísseis balísticos ou os mísseis de cruzeiro da Federação Russa. Depois, a questão da logística da manutenção, porque isto é uma logística relativamente complicada. Um F-16 passa muitas horas em manutenção depois de cada hora de voo que faz. E isto obriga a um cuidado muito especial na sua manutenção. Contrariamente aos carros de combate, quando avariam, a gente vai lá rebocá-los, os aviões não ficam no ar quando avariam. E, portanto, todo o cuidado tem que ser feito previamente nas questões de manutenção. E depois, há uma questão também muito complexa e que envolve valores muito grandes. Tem a ver com o armamento necessário. Não basta disponibilizar as plataformas aéreas, é preciso disponibilizar também o armamento, tipo munições, mísseis, o tipo de mísseis que vão ser fornecidos, o tipo de bombas, etc. Tudo isto custa muito dinheiro. E depois, é preciso também pensar se as aeronaves que vão ser fornecidas são aeronaves do último modelo, do último bloco, ou se são muito antigas e à semelhança dos Leopard, ainda vai ser necessário intervir ao nível dos aviônicos e das eletrônicas necessárias, adotá-los com um mínimo de capacidade de combate que lhes permita ser úteis e eficazes na guerra da Ucrânia. Mas eu diria que as coisas estão muito bem lançadas agora que os Estados Unidos abriram a porta ao fornecimento dos F-16.
Entretanto, General, a renombrar. Em poucos dias, Prigozhin passou de uma declaração vitoriosa sobre a conquista de Bakhmut para uma declaração de que vai retirar de Bakhmut. Em que é que ficamos?
Nós podíamos encher um programa semanal só a falar de Prigozhin, porque Prigozhin diz tudo e o seu contrário. E tanto a cena com as bandeiras da vitória, como da derrota iminente da Federação Russa, da queda de Moscovo, enfim, Prigozhin é tudo aquilo que do ponto de vista mediático permite encher noticiários. Depois, do ponto de vista da substância, não há dúvida que Prigozhin, aos olhos Da imprensa mais nacionalista, por um lado, mas também aos olhos, certamente, de grande parte da população russa, é o herói de Bakhmut. E, portanto, Bakhmut, um dia, se ficasse na posse da Rússia, que não vai ficar.
Ia ter uma rua.
Ia ter uma rua ou isto podia ficar até Prigozhin grad. Prigozhin grad seria um nome adequado. Mas esta semana é uma semana marcada exatamente por estes altos e baixos de Prigozhin. Por um lado, anuncia a conquista de Bakhmut, mas cinco dias depois propõe-se a retirar de Bakhmut. Ora, isto não é bem uma vitória. Nós não conquistamos um pedaço de território para o largar de seguida, sobretudo quando atrás de nós deixamos um rasto de 20 mil soldados, pelo menos 20 mil soldados. Isto é, olhar para um território que não tem uma importância estratégica fundamental nenhuma que lhe seja reconhecida, que tem uma dimensão geográfica da ordem dos 40 km², que tem cerca de 7 km por 7 km, e eu preciso, para conquistar 7 km por 7 km, da morte de 20 mil soldados. Ora, isto não é para felicitação, isto é para conselho de guerra, porque a utilização descuidada pela utilização de táticas inadequadas que levam à morte de 20 mil soldados para um objetivo que não é determinante, não é de louvar por parte de Putin, é de condenar Prigozhin, porque estes elementos, não obstante poderem ser oriundos de situações e de localizações menos interessantes e menos midiáticas, como grande parte deles foi recrutado junto às prisões, não deixam de ser pessoas humanas.
Mas Putin falou em condecorações, não é?
Exatamente. Ora, cada condecoração que Prigozhin recebe é como se fosse uma condecoração de sangue, porque ele construiu, para chegar ao outro lado de Bakhmut, um tapete de cadáveres sobre os quais ele agora avança em glória. Não estou convencido que isto tenha sido uma vitória em Bakhmut. As vitórias acontecem e medem-se no final da guerra. Ora, nós não vamos ainda a meio da guerra. O que Prigozhin quer fazer aqui é beneficiar desta sua alegada vitória para agora capitalizar pela fraqueza das forças russas que o vão substituir. É porque ele ao destruir Bakhmut, e não ficou nada de Bakhmut, ele não conquistou uma cidade, ele destruiu não apenas a cidade, mas a capacidade defensiva dessa própria cidade. Ora, agora que a cidade perdeu a capacidade defensiva, ele manda para lá outros. E, portanto, ele ainda vai capitalizar, certamente a seguir, a dizer que se não aguentamos Bakhmut, não foi por causa das Forças Wagners, foi pela incompetência de Shoigu, de Gerasimov e de outros que ele utiliza para atacar. Portanto, ele vai ainda utilizar eventuais perdas em Bakhmut, atribuí-las outra vez à liderança militar e do Ministério da Defesa Russa.
Esta semana assistimos também a ataques na região russa de Belgorod, levados a cabo por dois grupos paramilitares russos hostis a Moscovo. General Arno Moreira, de quem estamos a falar e que objetivos têm estes grupos?
Foi realmente estranho e até inesperado. Porque eu reconheço que haja três tipos de oposição a Putin. Um é a tradicional oposição de natureza política. Essa está toda presa, está toda em prisão. Portanto, essa oposição, neste momento, não tem capacidade de atuação. Depois há aquilo que eu chamo a oposição silenciosa. São as pessoas que não concordam, mas que acham que ainda não chegou também a oportunidade para manifestarem a sua discordância. Haverá, certamente, muita, e também entre as elites, que é o que é importante aqui. Haverá muita gente descontente, mas acha que não estão reunidas ainda as condições para manifestar esse descontentamento. E depois há uma oposição violenta, que tem duas componentes. Tem uma componente vocal, através daquilo que são os canais de comunicação nas redes sociais dos setores nacionalistas, e agora esta nova violência militar armada através destes dois grupos, a Legião da Liberdade e o Corpo de Voluntários, de que nós sabemos pouco. Eles afirmam ser cidadãos russos, acreditamos que sim, afirmam querer derrubar o regime de Putin. Isto aqui parece claramente um nível de ambição muito grande, mas esta semana, de repente, lançaram uma operação que eu caracterizaria como uma incursão armada sem um objetivo preciso. Isto é, eles avançaram pelo território, a partir da fronteira ucraniana, pelo território russo, sem nenhum objetivo muito particular, até que foram detidos pela reação das forças de segurança russas e foram obrigados a recuar. Quando recuaram, ainda trouxeram consigo um conjunto de equipamentos militares russos que apresentam como troféus. Eu tenho aqui muitas dúvidas sobre esta atuação. Primeiro é: que tipo de utilidade tem para a Ucrânia o apoio, pelo menos teve que fechar os olhos, e eles também meteram gasolina em algum lado e foram buscar o armamento a algum lado e os equipamentos de transporte. Portanto, que vantagem retira a Ucrânia daqui? Eu, neste momento, tenho muitas dúvidas. Acho que isto é muito discutível. É muito discutível porque isto alimenta uma narrativa muito forte e que tem impacto na opinião russa, que é a da invasão do seu território. Em face daquilo que foram dois dias de presença lá, não sei se compensa agora toda a narrativa construída em redor disto. Depois, é o grau de autonomia destes grupos. A Ucrânia controla-os verdadeiramente ou estes grupos, na verdade, podem fazer o que quiserem. E nesse sentido, até podem vir a constituir um embaraço para aquilo que são as operações. E, portanto, é preciso alguma atenção em relação a estes grupos. É verdade que eles conseguiram retirar com alguma segurança e que estão disponíveis para efetuar outras operações. Mas é preciso haver algum controle sobre isto, porque se elas servem a Ucrânia, elas têm que ser de alguma maneira também monitorizadas e direcionadas pela Ucrânia para os objectivos que efetivamente interessam.
Vamos à cortina de fumo? Na sequência destes ataques a Belgorod que falávamos, o Ministério da Defesa Russo partilhou imagens de material norte-americano capturados a essas forças. General, é mesmo assim ou temos aqui imenso fumo nesta história?
Temos imenso fumo, porque as fotografias são horríveis. Isto é daqueles filmes de produção de Hollywood, mas de muito baixo nível e pequeno orçamento. Por quê? Porque são apresentadas nas fotografias duas viaturas americanas Humvee, que são viaturas blindadas relativamente ligeiras, de origem norte-americana. Só que, veja o grau disto, elas foram colocadas de maneira a parecer que foram destruídas ou a sua passagem foi impedida por uma espécie de um fosso, de uma trincheira. Só que as viaturas não têm lama nas rodas. É muito estranho como elas chegaram lá, vieram por via aérea, como é que elas não têm lama nas rodas. Um dos veículos embateu na trincheira, e é um veículo pesado, ainda assim, mas a trincheira não tem sinal nenhum de destruição do embate. E, por outro lado, não obstante, eles tiveram que chegar à trincheira, só que não há marcas dos pneus no chão. Portanto, eles foram pousados lá para darem uma excelente fotografia. Eu espero que da próxima vez haja mais cuidado na cenografia escolhida pra tirar este tipo de fotografias.
Um navio de guerra da Federação Russa terá sido atacado esta quarta-feira por um conjunto de drones navais ucranianos. General Arnaut berapa, isto é sinal de que o Mar Negro já não é seguro pra Marinha da guerra russa?
Pois é, como as coisas mudam em 15 meses. Na verdade, passam dois pipelines de gás que vão da Rússia para a Turquia junto ao Bósforo e são protegidos por navios de guerra. É claro que são navios de guerra de pequena envergadura, mas não deixam de ser navios de guerra. Neste caso, o Ivan Hurs é um navio sobretudo utilizado para vigilância e para intelligence, era quem estava com a responsabilidade de alguma maneira vigiar estes pipelines. Ora, ele foi atacado por três drones navais. Estes drones navais têm cerca de cinco metros e meio de comprimento, um baixo perfil, podem operar a 400 km de distância, uma distância muito considerável, deslocam-se verdadeiramente rapidamente a 80 km/h e têm 200 kg de explosivos, o que pode provocar uma detonação perigosa junto das plataformas navais. Ora, a Rússia veio logo mostrar, através de um vídeo, que tinha conseguido destruir, a partir desta plataforma naval, os drones. Simplesmente, passadas algumas horas, a Ucrânia veio mostrar um outro vídeo, colhido a partir de um desses drones, que mostra o embate na fragata. O que significa que cerca de 15 meses depois desta guerra se ter iniciado para impedir que a Ucrânia tivesse acesso ao Mar Negro, quem está neste momento em dificuldades no Mar Negro é a sua frota naval. É as voltas que o mundo dá num tão curto espaço de tempo.
E pra semana cá estamos para mais um Domínio da Guerra. General Arnaut berapa, muito obrigada. Bom fim de semana pra você também.
Obrigado.