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Este é o Som do Domínio da Guerra das manhãs, 360, sempre com o major-general Sarno Morara. Bom dia.

Olá, muito bom dia a todos.

Bem-vindo. Recordo que além da rádio, também nos pode acompanhar em direto no YouTube, Facebook ou através do site do Observador. Na semana passada, pouco depois do nosso programa, tivemos a notícia da morte de Alexei Navalny numa colônia penal a norte do Círculo Polar Ártico, para onde tinha sido transferido recentemente. General, que comentários e reflexões nos merece a morte deste ativista russo e principal opositor de Vladimir Putin?

Temos mesmo que falar de Navalny. Navalny era um advogado relativamente jovem, ele tinha 47 anos de idade e tinha ganho o seu protagonismo naquilo que poderemos considerar os círculos da oposição a Putin, através de uma enorme visibilidade. Essa visibilidade ocorria em dois campos específicos. Em primeiro lugar, naquilo que eu chamaria um jornalismo de investigação, que permitia colocar à disposição do público informação relativamente à forma como se faziam negócios nas empresas públicas na Federação Russa e a maneira como as elites, nomeadamente as elites políticas da Federação Russa, estavam a enriquecer e a ostentar um estilo de vida que era incompatível com aquilo que eram apenas os proveitos que naturalmente resultavam da sua atividade de natureza política. E, portanto, Navalny era o homem que fazia chegar à comunicação social e também ao Ocidente, os relatórios sobre esta opulência desmesurada dos círculos políticos da elite russa e que, portanto, desmascarava um conjunto de segredos do regime e que em nada favoreciam, naturalmente, Putin. E foi tornando-se cada vez mais assertivo até chegar aos relatórios sobre Putin, como Putin tinha construído o seu império e também como estava a ter um conjunto de opulências que não se conseguiam justificar de uma forma absolutamente normal. Este era um lado, era o lado do homem da anticorrupção. O outro lado era o lado das manifestações e dos comícios. É que uma coisa é ser jornalista de investigação, outra coisa é ser um homem que promove comícios e que dá a cara e a palavra nesses comícios. Navalny estava em todos os comícios e estava sempre na linha da frente de todas as manifestações contra Putin. Enquanto ele se manteve nesta esfera de natureza mais de investigação e de denúncia, o Kremlin foi aceitando esta-

Foi suportando

Foi suportando. Mas aconteceu, entretanto, em 2013, um fato de natureza política muito significativa: Navalny resolve concorrer à Câmara de Moscovo. E este fato é muito significativo, porque mostra que ele começa a sair daquilo que é uma oposição e a denúncia e começa a entrar no campo da ação política. Ora, estes resultados-

Ia competir diretamente

Exatamente, estes resultados foram surpreendentes. Navalny teve 27% numas eleições que devem ter sido manobradas e manipuladas, mas mesmo assim não conseguiram esconder os 27% dos votos. E, portanto, Navalny adquiriu aqui um simbolismo de natureza política que o colocava num outro patamar. Navalny depois passou vários tempos na prisão em períodos relativamente curtos. Acusado de quê? Como ele era um homem do denúncia das questões do enriquecimento ilícito, etc, foram desencantar um conjunto de acusações em que ele estava a desviar dinheiro de organizações ou de empresas. Era preciso manchar Navalny no mesmo tópico em que ele acusava Putin, isto é, não era acusá-lo de questões de natureza política, não. Era preciso manchá-lo com acusações de natureza de desvio de fundos para exatamente o colocar: "Afinal, ele não é o líder anticorrupção, porque ele também está manchado por estas condenações". Estas condenações não serviram para nada, porque Navalny era tão ativo dentro da prisão, como era ativo fora da prisão. E então, em 2020, tiveram que o envenenar num voo que decorria entre a Sibéria e Moscovo. Por intervenção da sua esposa, que se dirigiu diretamente a Putin, Navalny foi levado pra Alemanha. E este foi, para Putin, um erro tremendo, porque os laboratórios alemães descobriram que afinal aquele envenenamento tinha sido causado por um agente nervoso tóxico, Novichok. E portanto, de repente, caiu sobre o regime de Putin esta ideia de que ele estava também a já procurar eliminar fisicamente Navalny. Navalny foi um homem muito corajoso. Ainda hoje discutimos se ele fez bem ou fez mal em regressar à Rússia, mas depois da sua recuperação na Alemanha, ele remeteu-se num avião a caminho de Moscovo, onde tinha as autoridades à sua espera para o julgar. E ele, a partir daí, esteve sempre em prisão, foram somando os crimes, de maneira à prisão corresponder praticamente a uma prisão perpétua. Não se calou Navalny, nem durante as fases dos julgamentos, nem durante a prisão. Ele tinha, aliás, uma rede relativamente bem montada para fazer difundir a sua imagem. E, portanto, Navalny foi sucessivamente afastado daquilo que eram os seus meios de contacto, nomeadamente a sua família, os seus advogados, etc., sendo empurrado sempre para colónias penais mais distantes.

Já estava no Ártico.

Já estava no Ártico. Portanto, foi sempre empurrado para quê? Para ver se a sua mensagem, neste período eleitoral, não saía dali. As mensagens continuavam a sair e, portanto, Navalny foi morto. Não foi Putin que lá foi dar um tiro, mas Putin criou todas as condições para que Navalny desaparecesse por um acidente qualquer. E depois, até pode ter sido de morte natural, mas a morte natural no Círculo Polar Ártico é uma coisa que ocorre com naturalidade, desde que a pessoa seja exposta a um conjunto de privações e de provações naquele regime. É muito fácil matar uma pessoa naquelas condições. E, portanto, Navalny desapareceu. Desapareceu o rosto, porque os rostos são importantes naquilo que é a concentração do esforço político de oposição, e apareceu a sua esposa, num ato de grande coragem. Não nos parece, por aquilo que era o seu percurso anterior, que era um percurso sobretudo de apoio ao marido e às oposições.

E que disse que não tinha ambições políticas, mas que agora quer ter.

E que não tinha ambições políticas. E de repente, ela vai certamente transformar-se no rosto da oposição a Putin. Certamente que ela agora passou a correr riscos. É também preciso ver que a mãe de Navalny, que tem sido uma voz muito incômoda dentro da Federação Russa, porque tem exigido o corpo do filho, "Entreguem-me o corpo do meu filho".

Já foi negado várias vezes, e agora dizem que é preciso não sei quantos dias.

Que já foi negado várias vezes, é preciso mais não sei quantos dias, etc. Começam a avolumar-se as suspeitas de tentativa de encobrimento desta morte não natural. Mas há mais um dado: é que como a mãe começou a fazer muito barulho, a Federação Russa colocou na lista dos procurados também o seu outro filho. Isto é, não faltam meios, realmente, daquilo que eu chamaria de malvadez sobre aquilo que são os potenciais opositores a Vladimir Putin.

General, vamos ao terreno, à pequena cidade de Avdiivka, que estava na posse dos ucranianos desde 2014, foi finalmente tomada pelas forças russas durante esta semana. Quanto à moral das tropas, podemos imaginar, mas que outras consequências tem esta perda para Kiev?

Esta perda é muito simbólica. Há aqui três áreas, talvez, que sejam importantes debater. A questão do simbolismo, a questão tática em si e também a questão de natureza logística. Vamos começar pela parte simbólica. Avdiivka não é uma cidade muito grande. É uma cidade que tem cerca de 29 km, uma cidade sobre o comprido, teria talvez 7 km por 4 km de largura. Portanto, não era uma grande cidade. Tinha cerca de 30 mil habitantes antes do início da guerra. Mas tem um problema, Avdiivka. Avdiivka fica a 15 km só de Donetsk e, portanto, fica nas proximidades daquilo que é a maior cidade do Donbass. Ora, isto colocava um problema. É que, por um lado, era o problema do simbolismo. Os pequenos que estavam ali em Avdiivka estavam mesmo em frente dos gigantes de Donetsk. E, portanto, desde 2014 que a Ucrânia tinha conseguido resistir fortificando imensamente aquele bastião ali mesmo encostado ao gigante de Donetsk. Era simbólica porque foi um ato de resistência levado até muito longe. E, portanto, basicamente, a guerra sobre Donetsk durou estes anos todos desde 2014, mas, na verdade, a intensificação da guerra ocorreu nos últimos quatro meses. Portanto, esta cidade tinha um simbolismo especial, que era o simbolismo da resistência ucraniana perante o avanço da Federação Russa. E a queda de Avdiivka tem certamente consequências, por um lado, sobre o moral das tropas ucranianas, porque perder uma cidade que era um bastião desde 2014 tem o seu simbolismo. E tem o simbolismo também de vitória pela Vladimir Putin. Aliás, esta insistência e este esforço com milhares e milhares de mortos, por causa destes ataques, falam-se como números mínimos que terão morrido nos últimos quatro meses, cerca de 16 mil soldados russos. Mas há quem avance também com números da ordem dos 40 mil. E, portanto, houve certamente, para fazer coincidir com a campanha eleitoral, um enorme esforço da Federação Russa para dar a Putin uma vitória simbólica nesta fase da campanha eleitoral. Depois, do ponto de vista tático, é importante ver que o que aconteceu a Avdiivka foi aquilo que aconteceu a Bakhmut, que é a destruição prévia completa das infraestruturas através de incessantes bombardeamentos. Na primeira fase, eram os bombardeamentos de artilharia. Numa segunda fase, começaram a vir também os apoios aéreos intensíssimos por parte da Federação Russa. As aeronaves russas correram muitos riscos, foram abatidas sete aeronaves no espaço praticamente de uma semana, o que mostra a intensidade com que a Federação Russa arriscou também na tomada de Avdiivka. E depois há a questão logística Para manter as tropas russas fora dos limites da cidade era preciso artilharia e a certa altura, a artilharia começou a falhar e, portanto, deixou de ser possível conter fora da cidade os avanços da Federação Russa, a partir do momento em que a Federação Russa conseguiu entrar dentro dos limites da cidade, a cidade praticamente ficou perdida. As tropas ucranianas evacuaram, deixaram muitos feridos e isto é realmente de lamentar, que eles tenham sido deixados para trás.

Da Ucrânia passamos para o Médio Oriente. Esta semana os Estados Unidos exerceram o seu direito de voto no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Em cima da mesa estava uma proposta da Argélia que visava um cessar-fogo imediato na Faixa de Gaza. O mundo ocidental dividiu-se na sua votação. O que se está a passar, general? E que consequências daqui vão resultar?

Vamos um pouco para a teoria da conspiração, mas eu alimento esta teoria da conspiração há muito tempo.

Então.

Há um esforço concertado contra o Ocidente. E os peões são diversos. O mestre do jogo é a China. A China quer uma nova ordem mundial, para isso tem que destruir a que existe. Esse é o mestre do jogo. Depois há o mestre das peças, é a Federação Russa. A Federação Russa está encarregada de espalhar a confusão, a dissensão entre os aliados e também espalhar tudo aquilo que é o caos de natureza da estabilidade militar sobre todos os países da zona. Portanto, o mestre de cerimônias é a China. A China não se mete nisto. A China aguarda, apenas. Quem mexe os cordelinhos é a Federação Russa. E mexe-os quer na Ucrânia para destruir a Europa, quer no Médio Oriente para dar poder ao Irão e também poder afetar a Europa e o Ocidente. E, portanto, quem pretenda olhar para isto apenas de uma forma ingênua, de que estas coisas estão a acontecer apenas porque, não está certamente a ver, do meu ponto de vista, bem este filme. Ora, no Médio Oriente, existem outros atores também que não têm nada a ver com o Médio Oriente. A Argélia não tem nada a ver com o Médio Oriente, a África do Sul não tem a ver com o Médio Oriente. No entanto, estes são os peões que são utilizados pela Federação Russa para disfarçar a sua intervenção em todos estes processos. E a Argélia, agora trouxe outra vez para o Conselho de Segurança, ela é membro não permanente do Conselho de Segurança, trouxe outra vez um aspecto que poderia dividir o Ocidente. A Argélia sabia, porque a Federação Russa sabe, que este é um assunto sobre o qual o Ocidente não conseguiu encontrar ainda uma posição comum. E para o fazer, é preciso acionar no mecanismo das Nações Unidas, todas estas coisas que provoquem o mal-estar.

Isto é para mostrar também a divisão do Ocidente.

Exatamente. É para provocar, mostrar, tornar claro que o Ocidente não tem uma posição consensual sobre isto. E o Ocidente, em vez de se sentar à mesa e de ver como é que vai lidar com estes problemas, cada um vota para seu lado. Os Estados Unidos ficaram com o odioso, que é, tiveram que vetar. A Grã-Bretanha teve que se abster na votação. E os outros países que deviam estar no bloco ocidental votaram todos contra. Isto é, a França, a Eslovênia, a Coreia do Sul, o Japão, todos estes membros do Ocidente alargado, o que é que fizeram? Votaram a favor da China e da Federação Russa. É claro que podem dizer: "Não, nós votamos a favor da posição da Argélia". Andamos todos enganados com isto ou então andam a nos tomar por tolos nesta questão. A questão da Argélia só foi levantada porque a Federação Russa o quis, não quis ser ela a levantar essa questão. E, portanto, à medida que o Ocidente se vai deixando cair nestas armadilhas de cada um votar da sua maneira, em vez de se sentarem previamente à mesa e combinar. Muito bem, os Estados Unidos vetam, os outros abstêm-se. É uma posição possível. Agora, votar a favor daquilo que objetivamente favorece a Federação e a China, eu cada vez percebo menos destes líderes ocidentais.

Esta semana, Vladimir Putin veio reafirmar que a Rússia é a pátria dos valores tradicionais, lançando uma clara cortina de fumo para alimentar divisões entre o mundo ocidental, lá está, general. Mas será mesmo assim ou ele está sendo bastante seletivo na escolha dos seus valores?

Quando Putin começa a falar dos valores, eu ouço violinos como música de fundo. Ouço violinos, porque o seu discurso percebe-se perfeitamente. Pode haver também quem não perceba este discurso, mas percebe-se perfeitamente. Ele sabe que o progressismo woke que está no Ocidente também gera um conjunto de linhas de fratura muito grande, e o que ele procura é dividir o Ocidente, é trazer os ocidentais que estão contra os progressismos woke, trazê-los para o lado da Rússia, mostrando que a Rússia é que é a pátria das tradições. E, portanto, vossas excelências não estão no lado certo, vossas excelências têm que estar do lado da Federação Russa. Mas eu vou relembrar a Putin uma coisa aqui: é que a Rússia não é o campeão dos valores tradicionais O campeão dos valores tradicionais é a máfia siciliana. A máfia siciliana é que é a campeã dos valores tradicionais, os valores da família, da lealdade, da respeitabilidade, tudo isso é que é o apanágio da máfia siciliana. Onde é que eu quero chegar? É que esta coisa da defesa dos valores tradicionais não pode deixar de lado a questão da forma como nós chegamos lá. Toda esta respeitabilidade, a família, etc, da máfia italiana, é feita através de tiros consecutivos, da eliminação física de todos os adversários ou concorrentes. E isto não são os valores tradicionais, por muito que Vladimir Putin nos procure convencer. De maneira que eu procuro sempre deixar que estes violinos celestiais de Putin acabem como música de fundo muito rapidamente, porque não, estes não são os valores tradicionais.

E, General, essa questão dos tiros leva-nos ao nosso ponto mira.

É, leva-nos ao nosso ponto mira.

Hoje colocamos o nosso ponto mira sobre a atuação dos serviços secretos russos em Espanha, que executaram a tiro, lá está, um piloto russo que tinha desertado há alguns meses atrás. General Arno Moreira, o que é que devemos reter sobre este incidente?

Maxim Kuzminov era piloto de helicópteros na Federação Russa e em agosto do ano passado pegou num helicóptero Mi-8 repleto de peças sobressalentes para aviões de combate Su-27 e Su-30 e, numa manobra que foi coordenada com os serviços secretos ucranianos, levantou voo da Federação Russa e conseguiu aterrar em território da Ucrânia. Foi certamente compensado e entre essas compensações, algumas de natureza monetária, certamente, também lhe foi dado uma nova identidade e um novo passaporte ucraniano. A família, aparentemente, já teria sido extraída da Federação Russa e Kuzminov foi viver com uma nova identidade para Villa Joyosa, Alicante, em Espanha, onde era um cidadão ucraniano. Tinha um passaporte ucraniano, tinha uma nova identidade, tinha um novo nome. Ora bem, é preciso ver que ele desertou em agosto e foi agora abatido em fevereiro. Isto é importante, porque isso significa que os serviços secretos da Federação Russa foram capazes, num curto período de tempo, de identificar para onde ele tinha ido, identificar a sua nova residência, a sua nova identidade e montar uma operação para matar Kuzminov. Ou seja, isto para terminar, o que é daqui importante? Eles andam por aí, eles estão armados e eles têm autorização para matar. Estejamos, portanto, atentos.

General Arno Moreira, muito obrigada pela sua análise.

Muito obrigado, um bom fim de semana a todos.

O Domínio da Guerra regressa para a semana. Até lá, já sabe, pode ouvir este e todos os episódios em podcast ou através do site do Observador.