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O sonho, aquele sonho se calhar um pouco infantil, mas na altura muito em moda, de ser yuppie, trabalhar com dispensários, foi o que eu queria fazer e acabei por fazer. Lembro-me de ir para o Terreiro do Paço e ser gozado lá em minha casa pela minha mãe, pelos meus irmãos, por pôr uns dispensários, mas era o que um miúdo na altura como eu gostava de fazer e foi o que eu fiz e diverti-me imenso. Foi uma forma de começar a minha carreira por, na altura, uma grande escola de corretagem que era Pedro Caldeira. Pelo menos era essa a perceção que havia no mercado.
Nuno Fernandes Thomaz chegou a ser vice-presidente da Caixa Geral de Depósitos, mas no início dos anos 90 é apenas um miúdo a começar a carreira com um estágio ao serviço do corretor Pedro Caldeira. Não é o único no escritório que vem de boas famílias. Caldeira contrata e dá estágios a vários jovens com apelidos sonantes. Nuno Fernandes Thomaz é filho de um empresário com o mesmo nome, que viria a ser vice-presidente do CDS-PP. O estagiário é bem tratado. Caldeira dá-lhe oportunidades e até o chama um dia para perguntar se gosta de estar ali. Ao jovem Fernandes Thomaz e ao resto do país, tudo parece estar a correr bem. Acaba por deixar a corretora porque recebe outra oferta de emprego, mas continua a falar com vários antigos colegas. Um dia, poucos anos depois, acorda e liga a televisão.
Vejo uma notícia na televisão, já não me lembro bem, na televisão, acho eu. E de facto, fui completamente apanhado de surpresa. A notícia era que o Pedro Caldeira tinha fugido.
Pedro Caldeira tinha fugido do país. Nada daquilo fazia sentido. Pedro Caldeira está em todas as festas da alta sociedade, está em todos os jantares com ricos e poderosos, está nas fotos das páginas cor-de-rosa de todas as revistas de social, como a Hola, a Hola portuguesa. Transforma-se num símbolo do Portugal de sucesso dos anos 80. O cabelo cuidadosamente penteado para trás com gel, a roupa feita à medida, o sorriso permanente, o cigarro aceso entre os dedos e uma calma que transmitia confiança. Durante anos foi mesmo assim. Depois, transformou-se tudo numa grande ilusão. Parecia que continuava a acumular uma enorme fortuna, mas aquilo que ninguém via era que, na verdade, Pedro Caldeira estava já a acumular uma dívida de milhões. É essa dívida que o vai derrubar. Este é o Encantador de Ricos, uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, São José Correia, com banda sonora original de The Legendary Tigerman. Episódio dois: O Grande Estouro.
Esta é uma história real e é o conhecimento da história que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Nesta viagem, os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir.
Em 1985, em Portugal, o dinheiro não é um problema. E o sítio onde está esse dinheiro é a Bolsa de Valores. Todos ganham. Ganham as empresas, que conseguem dinheiro vendendo as próprias ações, que pela primeira vez são postas no mercado. Ganham os bancos, que dão crédito fácil para a compra dessas ações, e é depois com esse dinheiro que as empresas pagam o que devem à banca. E numa fase inicial, ganha o governo, que incentiva esta euforia. Quando Cavaco Silva chega a primeiro-ministro, em 1985, o ministro das Finanças, Miguel Cadilhe, desafia as empresas a entrar em bolsa e dá incentivos fiscais tentadores aos dois lados: a quem vende e a quem compra. Empresas, acionistas, bancos, investidores, até o Estado. A todos interessa que as ações sejam vendidas em bolsa a valores elevados É quase um casino no meio da rua. As ordens são canalizadas para a bolsa através dos corretores, mas os negócios também se fazem cá fora. Até na pastelaria da esquina. São trocas diretas de ações, sem intermediários ou supervisão. Neste período de adesão à CEE, o pequeno investidor volta em força, com filas que dobram o quarteirão à porta dos corretores. Há até quem leve cadeirinhas para se sentar, à espera de ver para dar ordens de compra e venda. A bolsa negoceia durante o dia, mas os negócios não param nem à hora de jantar. Gente sentada em restaurantes e bares é chamada a atender telefones fixos e do outro lado da linha, ouve dicas para, no dia seguinte, dar ordem de compra disto e ordem de venda daquilo. À noite, no Bananas, um bar em Alcântara, trocam-se informações por copos de uísque. Uma delas provoca um alvoroço. As ações de uma seguradora que vai entrar em bolsa serão vendidas a oito contos cada uma, mas em pouco tempo, garantem, estarão a valer 50 contos ou mais. Problema: só os reformados é que as podem comprar. E apenas 10 ações cada um. Rapidamente se percebe que vai haver muita procura. A empresa responsável pela operação de entrada em bolsa decide fazer uma lista de interessados. É um processo penoso. Quem quer comprar ações tem de se inscrever e ficar à porta, à espera, durante a madrugada, até que o chamem pelo nome. Para contornar as regras, alguns grupos de jovens montam um esquema que envolve muitas notas e várias carrinhas de transporte. Primeiro, procuram idosos por toda a cidade e prometem cinco contos a cada um que se inscreva. Depois, arranjam maneira de ter acesso à ordem de chamada. Com essa informação preciosa, sabem a que horas têm de ir buscar os reformados a casa. Quando é colocado à porta da empresa, cada idoso recebe a comissão combinada e os 80 contos com que vai pagar as 10 ações a que tem direito. Minutos depois, está feito. À saída, o reformado entrega as ações aos jovens e ainda tem uma boleia para ir para casa dormir o resto da noite. A dica era ótima. Umas semanas depois, aquelas ações vão valer seis vezes mais. Na febre da bolsa dos anos 80, valia tudo. Pedro Caldeira é jovem. Ao contrário dos outros corretores, fala inglês sem dificuldades e tem ideias novas. Pouco tempo depois de herdar o escritório do antigo patrão, viaja pela Europa. Dá-se a conhecer aos bancos e aos banqueiros. Rapidamente conquista como clientes grandes fundos internacionais que injetam quantidades nunca vistas de dinheiro na bolsa portuguesa. O movimento é tanto que um dia decide que o escritório tem de estar sempre a funcionar. Os outros também trabalham até de madrugada, mas o escritório de Caldeira funciona 24 horas por dia. Jorge Godinho trabalhou para Pedro Caldeira nesses anos de loucura. Recorda como o negócio cresceu a um ritmo que era quase impossível de controlar.
Começaram por ser 100 transações por dia. Passámos para um volume de milhares de transações, o que acabou por criar um caos totalmente impossível de gerir. Não havia meios informáticos para o fazer. Era caótico. Chegou a uma altura, em 87, que era um caos.
Quando Caldeira mete a chave à porta, ao chegar ao escritório, sente ali alguém a fazer barulho. Parece um escadote a ser movido de um lado para o outro. No chão, há papéis por todo o lado. São folhas de jornais velhos, mas estão misturadas com cautelas e ações que valem muito dinheiro. Só quando abre uma segunda porta é que percebe o que se passa. É hoje que começam as obras de pintura das paredes e dos tetos do escritório. E o pintor, sem ter noção, está a usar títulos valiosíssimos para proteger o chão dos salpicos de tinta. O episódio ilustrativo do caos no escritório foi usado várias vezes por Caldeira, até mais tarde em tribunal. Há papéis de ações por todo o lado, até mesmo na casa de banho, por vezes empilhados até ao teto. No escritório de Pedro Caldeira, é impossível controlar tudo o que se passa. A dada altura, uma funcionária leva para dentro do cofre um homem com quem se envolve e que, por sinal, é um importante cliente da corretora. Por sorte, a única consequência é que nove meses depois, Caldeira ganha um afilhado.
Um dos clientes, para não dizer nomes, era uma pessoa conhecida na altura, que era um investidor e acabou por ter um caso amoroso com uma colega nossa e dessa relação penso que nasceu uma criança e o Pedro acabou por ser o padrinho, não só do ponto de vista de patrocinar a criança, como também acabou por ser nas instalações que eram do Pedro, que era ali na Rua de São Julião, 138, recordo perfeitamente.
No meio do caos, os erros são inevitáveis. E não apenas no supermovimentado escritório de Caldeira. Há gente a dar ordem para comprar 10 ações e, em vez disso, por lapso, compram-se 100. Há clientes a receber na conta o dobro ou o triplo daquilo que tinham de receber. Alguns, os mais sérios, avisam o corretor. Outros fingem simplesmente que não veem. Em meados dos anos 80, não há loja de roupa mais na berra em Cascais do que a Surprise. Os vestidos são de alta-costura, comprados nas melhores casas de Paris e assinados por alguns dos estilistas mais famosos do mundo. A dona da loja não perde as maiores feiras de moda europeias, por vezes acompanhada pelo marido. A Surprise fica no mesmo sítio da Tara, a loja onde Cristina, a mulher de Caldeira, começou a trabalhar e onde conheceu a amiga que lhe passou a agenda telefónica, de onde tirou o número de Pedro, ao acaso, e lhe ligou para marcarem um primeiro encontro que acabou em casamento. Mas agora, Cristina Caldeira já não é a empregada, é a dona da loja. E as clientes são da alta roda de Cascais e de Lisboa, muitas vezes casadas com os homens com quem Pedro Caldeira faz negócios. Os Caldeira misturam-se com as grandes famílias do Estoril e de Cascais, como os Espírito Santo e os Melo. O casal é uma dupla imbatível. Pedro Caldeira percebe logo que para enriquecer a sério na bolsa, não pode olhar para aquele trabalho como o antigo chefe, Abílio de Sousa, e a velha geração de corretores. É preciso aparecer, estar nas festas e jantares onde se fala de negócios entre a sobremesa e o café. Sair à noite para os lugares certos, ter os amigos certos e aparecer nas revistas certas, sobretudo a Olá Semanário, onde as fotografias do casal Caldeira surgem frequentemente.
Mais do que glamour, era uma revista que mostrava como é que vivia a alta sociedade portuguesa. Aquela alta sociedade da Foz do Porto, de Cascais e do Estoril. O Pedro Caldeira em Cascais, via-se numa certa área da alta sociedade e, portanto, a entrada era por aí.
Maria João Vieira, que foi editora da revista, recorda que aparecer naquelas páginas não era para qualquer um.
O sonho de imensa gente era um dia ter a fotografia publicada na Olá. Lembro-me que recebíamos imensos pedidos de publicação de casamentos, imensos telefonemas de pessoas a perguntar quanto custava publicar a festa de anos, porque não tinham sequer a noção de que não era uma coisa paga.
Outro nome bem conhecido da imprensa cor-de-rosa daqueles tempos é Maria da Luz Bragança, fundadora e diretora da revista Eles e Elas. Esta revista era mais aristocrática. Pedro Caldeira e a mulher demoraram um pouco mais a aparecer, porque não vinham propriamente de boas famílias.
Como eu conhecia as famílias antigas de Portugal, é natural que não ligasse tanto ao nome dele. Eram as pessoas minhas amigas, ou eram tias, ou eram primas, mas também foram poucos.
Mesmo sem ter o nome aprisionado, Pedro Caldeira aparece nas festas onde Maria da Luz Bragança também está, por vezes como a organizadora, e não é difícil ver o que é que o corretor lá vai fazer.
Procurava sentar-se ao pé de pessoas que interessavam e depois conversava. Depois daria a entender que sabia muito, e que era fácil, e as pessoas aderiam. Por isso eles apareciam lá nas minhas festas, porque estavam lá os outros todos também.
Era assim. Mesmo quando se está a divertir, Pedro Caldeira está a trabalhar. Sempre que se cruza com alguém numa festa, vê um potencial cliente. Maria João Vieira nunca teve dúvidas.
Acho que era negócio. Não me pareceu nunca que eles andassem à procura de promoção social por promoção social. Acho que eles se relacionavam com as pessoas certas, portanto, aparecer na Olá
Seria interessante para ele como uma possibilidade de chegar a mais pessoas, mais pessoas conhecerem o nome dele, saberem o que ele fazia e, portanto, ter mais clientes.
É por esta altura que Caldeira também ganha o jackpot no Totoloto. De acordo com o que o corretor disse à imprensa, é com os 12 mil contos do prêmio que compra uma moradia em Birre, Cascais, mesmo à beira da Quinta da Marinha. Passa a ser visto como um homem de sorte e vários amigos querem juntar-se a ele nas apostas. Pedro Caldeira já era um corretor de sucesso e já era um dos convidados mais cobiçados das festas do social. Agora, transformou-se num talismã. Mas a sorte estava prestes a virar. Caldeira sabe que é agora, nestes anos dourados, que tem de dar o próximo passo. Em 1986, o corretor ainda não fez 37 anos quando decide que quer ser banqueiro. A primeira coisa necessária para fundar um banco é, claro, dinheiro. Mais precisamente, três milhões e meio de contos, o que hoje equivale a 67 milhões de euros. Pedro Caldeira consegue o dinheiro sem dificuldade. Tem o apoio de acionistas como a família Melo, Américo Amorim, Ilídio Pinho, António Champalimaud, Manuel Damásio e também de empresas estrangeiras como a American Express. Mas esta prova de força não seria suficiente. Faltam poucos dias para o Natal. Estamos em dezembro de 1987. Caldeira tem um voo marcado para ir ao Porto a uma reunião com Belmiro de Azevedo. Mas na aproximação à pista, o avião tem uma avaria no altímetro. O piloto decide voltar para Lisboa, onde consegue aterrar com maior segurança. Como conta o corretor no livro "Tempo de Ser Claro", a reunião no Porto fica adiada e Caldeira decide então ir para Cascais para um almoço mais tardio no restaurante Beira Mar, no centro histórico da vila. Por coincidência, naquele dia, há um outro cliente habitual que vai ali almoçar. Jorge de Brito, banqueiro, empresário, colecionador de arte e que viria a ser, um pouco mais tarde, presidente do Benfica. Os dois conhecem-se bem. Conversam um pouco enquanto esperam pelos filetes com arroz de marisco, que são a especialidade da casa. Até que Jorge de Brito diz algo que deixa Caldeira apreensivo. O corretor não devia levar a mal Brito dizer-lhe aquilo, mas Caldeira anda a dar demasiado nas vistas. Hoje aparece na televisão, amanhã nos jornais. Nesta fase, o banco idealizado por Caldeira está à espera de aprovação. Mas Jorge de Brito diz-lhe que o projeto é demasiado poderoso. E ele é uma personagem demasiado popular. Pela informação que o empresário diz ter, o dossiê já chegou mesmo ao primeiro-ministro. Os filetes com arroz de marisco ainda não chegaram. Portanto, Pedro Caldeira engole em seco quando Jorge de Brito lhe deixa um aviso em forma de palpita. Cavaco Silva vai chumbar a criação do banco. Para Pedro Caldeira era um enorme problema. Mas, de momento, o corretor não teria tempo para lidar com este obstáculo à criação do novo banco que idealizou, porque, entretanto, a bolsa tinha acabado de sofrer um grande estouro. E isso estava a ameaçar tudo aquilo que Caldeira passou anos a construir.
O primeiro-ministro começava a medidas administrativas capazes de controlar esta euforia. O que eu lhe pergunto é: está o governo preparado para tomar alguma medida administrativa que valha a conta?
Depende das medidas administrativas. Tomou agora uma correta, que foi a abolição da regra dos 20%.
Bastou uma frase, no meio de uma entrevista. É certo que não foi apenas isso. Mas quando um primeiro-ministro vai à televisão avisar que há especulação excessiva na bolsa e que se está a vender gato por lebre, vai ser ouvido até pelo investidor que leva o banquinho para esperar na fila.
Há razões para alguma euforia, mas também há casos em que se está a vender um pouco, desculpe que lhe diga, gato por lebre. Temos que ter cuidado quanto a isso.
Cavaco Silva dá a entrevista à RTP a 13 de outubro de 1987. Nos dias seguintes, a bolsa derrapa 4%, o que parece muito, mas ainda assim é apenas uma pequena parte da valorização que se tinha verificado nos meses anteriores. Nuno Valério, professor de História Económica, lembra-se da declaração do primeiro-ministro e fala do dilema que sentem os responsáveis políticos em situações de entusiasmo excessivo.
Se eles chamam a atenção para isso, estão a correr o risco de desencadear o rebentar da bolha Se não chamam, estão a correr o risco de encher o balão, que depois quando rebentar ainda vai ser pior.
Gato por lebre. As palavras ficaram para a história. Ainda hoje há quem culpe essa declaração por ter causado o colapso na Bolsa de Valores, mas não foi bem assim. Na verdade, com o que sabemos hoje, o alerta de Cavaco até pode ser visto como um aviso muito oportuno. Quem ouviu o Primeiro-Ministro e decidiu vender as ações naqueles dias, conseguiu escapar ileso ao que seria uma das maiores derrocadas da história das bolsas mundiais.
Business correspondent Ray Brady looks at this devastating day for the market.
They're calling it the Monday massacre, the worst drop in Wall Street history.
A 19 de outubro de 1987, menos de uma semana depois das palavras de Cavaco Silva, dá-se a segunda-feira negra. A Bolsa de Nova Iorque sofre as maiores perdas desde o crash de 1929. Em Lisboa, nesta altura, a Bolsa não abre às segundas-feiras, mas o colapso chega logo no dia seguinte. Muitos investidores deitam as mãos à cabeça, sobretudo aqueles que se endividaram para investir, confiantes de que o mercado nunca cairia. Os corretores também ficam aflitos. Há até quem sugira fechar a Bolsa de Lisboa durante 15 dias. Mas Caldeira parece não entrar em pânico. Pelo contrário, garante que o mercado não vai descer durante muito tempo, que Lisboa vai recuperar logo que as bolsas mundiais façam o mesmo e até vê vantagens no desastre. O crash pode ser um susto pedagógico para os investidores. Caldeira estava duplamente enganado. Por um lado, a Bolsa portuguesa não voltará a ser o que era. Por outro, mesmo as melhorias hão de ser muito mais lentas do que o corretor previa. Pior, enquanto tudo isto acontece, é apanhado por outra crise. Uma crise tão grave que o vai afastar da Bolsa. Nada acontece em tempo real. Entre o momento em que são dadas as ordens de compra e venda das ações e o momento em que o dinheiro entra ou sai das contas, passam dois ou três dias. Em condições normais, isto não é um grande problema, mas quando há um crash súbito, pode ser um desastre. Ao contrário do que acontece hoje em dia, em que o dinheiro passa por uma entidade independente, nesta altura, todos os fundos relacionados com a compra e venda de títulos passam pelas contas individuais dos corretores. É como se alguém que compra uma casa tivesse de transferir o valor total para a conta do mediador imobiliário antes de chegar ao vendedor. E com tantas operações, os erros sucedem-se. Às tantas, já não se sabe que dinheiro entrou, quanto dinheiro saiu e quanto falta pagar. É exatamente isso que vai acontecer a Pedro Caldeira. Em 1987, o corretor tem várias contas bancárias, mas o problema vai estar apenas em duas: uma no BCP e outra no Pinto & Sotto Mayor, um banco grande que era do Estado. A dada altura, Caldeira tenta transferir 690 mil contos do Sotto Mayor para o BCP, mas o cheque vem para trás. Para surpresa do corretor, a conta no Sotto Mayor não tem dinheiro suficiente. Caldeira não compreende por quê. Entende que a conta tem dinheiro que chegue e até bastante mais. Segundo ele, o Sotto Mayor tem em atraso o pagamento de valores altíssimos referentes a várias operações na Bolsa. Para forçar esse pagamento, passa um cheque referente ao valor do dinheiro que entende que tem a receber do Sotto Mayor: um milhão e 400 mil contos. Esse cheque acaba por ser aprovado e a verba é mesmo transferida para o BCP. Aparentemente, está tudo resolvido, mas, na verdade, é apenas o início do problema que irá atormentar Pedro Caldeira durante anos, ao ponto de arruinar a carreira. Em dezembro de 1987, no mesmo almoço em que é alertado por Jorge de Brito de que o projeto do banco vai ser chumbado, Caldeira é avisado que tem de atender uma chamada no telefone fixo do restaurante. É do escritório. Dizem-lhe que acabam de ligar do Sotto Mayor para uma reunião urgente na sede do banco. A viagem de Cascais até Lisboa é feita a grande velocidade. Quando chega, entra numa sala de reuniões acompanhado pelo diretor financeiro. Comunicam-lhe que, segundo a análise do banco, a conta não tem, mais uma vez, dinheiro suficiente para pagar uma nota de débito, que entretanto caiu no valor de um milhão e 400 mil contos. Caldeira tem uma leitura oposta. Insiste que é o banco quem lhe deve dinheiro. A discussão dura três horas. Os participantes levantam-se da mesa e fazem vários telefonemas. O corretor tenta usar todos os contactos que lhe podem valer naquele impasse. Procura demonstrar que há operações por executar e que o banco vai ter de pôr esse dinheiro na conta. O Sotto Mayor dá-lhe razão. Mas, dias depois, tudo muda. O banco volta atrás e avisa Pedro Caldeira que há mesmo um buraco e que, desta vez, não existe nenhum crédito pendente que o possa cobrir. São dois milhões de contos. É uma fortuna. Hoje em dia, seria qualquer coisa como 35 milhões de euros. O assunto é tratado com o máximo secretismo. Na imprensa não há uma única linha sobre um problema que, caso viesse a público, seria um enorme escândalo. Internamente, o banco fica em polvorosa e são abertos vários processos disciplinares a quem esteve envolvido na aprovação inicial do cheque. Caldeira está encostado à parede. Aquela dívida, se confirmada, significa que o corretor está falido. E há um pormenor importante. Está escrito assim na lei: a falência do corretor presume-se sempre fraudulenta. Em teoria, um corretor não tem como falir. Vive de comissões, poucas ou muitas. Nunca investe o próprio dinheiro. É apenas um intermediário. Por isso, se Caldeira está falido, presume-se que houve fraude. Nos primeiros dias de 1988, o corretor multiplica-se em reuniões com o Sotto Mayor, com o Banco de Portugal e até consegue chegar ao Presidente da República. Depois de garantir um encontro com Mário Soares, o advogado Daniel Proença de Carvalho aconselha-o a não pedir uma reunião com o Primeiro-Ministro, mas apenas com o Ministro das Finanças. Já toda a gente sabe, nesta altura, nos corredores do poder, que Cavaco Silva não aprecia o estilo de Caldeira. E acaba por ser o ministro Miguel Cadilhe quem decide. Para se apurar o que aconteceu, é preciso fazer uma auditoria à atividade do corretor mais poderoso da bolsa. A auditoria a Caldeira termina em junho e o resultado vai surpreender o corretor. Estava à espera de uma pequena multa, simbólica. O corretor assegura que era o que lhe tinha garantido Álvaro Damaso, o presidente da bolsa. Mas não é isso que acontece. A decisão é muito mais dura. Informam-no que vai ser suspenso da atividade de corretor. A suspensão é de seis meses, por irregularidades contabilísticas e também por ter títulos em nome próprio, algo que estava proibido aos corretores. É aconselhado a ter calma e cuidado com a reação pública àquela decisão. Considera a suspensão injusta, mas aceita-a, até porque recorrer demoraria certamente muito mais tempo. Caldeira cede em toda a linha. Além de aceitar a suspensão, aceita também a responsabilidade pela dívida ao Sotto Mayor, contabilizada numa outra auditoria. O corretor fica sem saída. Não tem documentos que lhe permitam provar que aquela dívida não existe. A própria consultora que fez a auditoria reconhece que faltam documentos que ajudem a confirmar o valor a que chegou. Mas o banco não tem contemplações. Caldeira deve-lhe 1.943.000 contos. Ponto final. Jorge Godinho, que trabalhava com o corretor, diz que Caldeira ficou encurralado.
Eu recordo que o peso das instituições financeiras à época, nomeadamente o Banco Pinto & Sotto Mayor, que era dos bancos mais proeminentes do tempo, tinha um ascendente sobre os corretores muito grande e, portanto, o corretor era um indivíduo. Eu acredito também que possa ter havido alguma pressão sobre o corretor e partiu-se aquilo que era o elo mais fraco para justificar, provavelmente, até um problema que não tinha sido originado por ele.
Seja como for, Pedro Caldeira tem agora de arranjar quase dois milhões de contos. Quando se tem uma dívida deste tamanho, não há muitas saídas possíveis. Pedro Caldeira começa por entregar ao banco os 400 mil contos em investimentos que tinha com a mulher e hipoteca as quatro casas que tem. Depois, negoceia um plano de pagamentos a 10 anos, com prestações anuais que começam em 18 mil contos, mas crescem até 200 mil. Para conseguir pagar o que deve e manter o nível de vida a que estava habituado, nos próximos anos, o corretor vai precisar de fazer muito dinheiro. Caldeira acredita que é possível, sobretudo se a bolsa tiver uma recuperação. Mas enquanto essa recuperação não chega, o corretor precisa urgentemente encontrar uma escapatória. O encantador de ricos vira-se para conhecidos e desconhecidos que sabe que têm muito dinheiro. Vai sentar-se com empresários, médicos, arquitetos, um general, um futebolista e até um apresentador de televisão. E faz-lhes uma proposta irrecusável. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio.
A bolsa está viva, vale a pena investir nela, vale a pena a pessoa estar interessada e manter-se informada na bolsa, ao contrário do que alguns querem fazer crer.
Não notei nada, de tal maneira que no dia a seguir fiquei tão surpreendida. Fiquei muito espantada, não encontro outra palavra.
"O Encantador de Ricos" é uma série em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, São José Correia, e tem banda sonora original de The Legendary Tigerman. O guião e as entrevistas são de Edgar Caetano. A edição é de João Santos Duarte. A sonoplastia é de Artur Costa. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.
Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.
