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Pedro Caldeira acorda sobressaltado a meio da noite com pesadelos e suores frios. Diz à mulher que não aguenta mais. Sente-se cada vez mais cercado. Sabe que não vai conseguir fugir eternamente e não consegue parar de pensar no impacto que os meses em fuga estão a ter nos filhos. Pensa também no pai, que está em Lisboa, cada vez mais doente. Mantém o contato com o médico que o acompanha e que um dia lhe diz que o pai tem pouco tempo de vida. É nesse momento que toma uma decisão. Chega de andar a fugir e tentar iludir o FBI. Pedro Caldeira vai entregar-se. Depois de decidir acabar com a fuga, Caldeira telefona ao advogado em Lisboa e comunica-lhe a decisão. Pede-lhe para falar com as autoridades e preparar a entrega. E o advogado entra imediatamente em contato com a Procuradoria-Geral da República. Mas a Polícia Judiciária e o FBI continuam atrás do fugitivo. Já fizeram duas tentativas falhadas para o capturar. Caldeira nunca estava no sítio onde era suposto estar. A PJ desconfia que pode existir uma fuga de informação. E é nesse momento que decide mudar de estratégia. Pedro Caldeira quer entregar-se na Embaixada de Portugal em Washington. E o corretor sai de carro com a família para fazer o percurso entre Palm Beach, onde viveram nos últimos meses em fuga, e a capital. Mas Caldeira nunca vai chegar ao destino. Este é o "Encantador de Ricos", uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos podcast Plus do Observador. É narrada por mim, São José Correia, com banda sonora original de The Legendary Tigerman. Episódio seis: A reviravolta. Esta é uma história real e é o conhecimento da história que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Nesta viagem, os podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir. O plano é fazer a viagem ao longo da costa. Caldeira vai entregar-se e não pensa voltar atrás na decisão, mas o caminho para norte é feito sem pressa. Depois de se apresentar às autoridades, terá de enfrentar a justiça e não sabe quanto tempo pode vir a passar na prisão. Por isso, quer aproveitar aquela viagem para criar algumas boas memórias para os filhos. A família vai parando em vários sítios pelo caminho. Visitam o centro espacial no Cabo Canaveral, na Flórida. Passam ainda por cidades históricas como Jacksonville e Savannah. Mas a viagem tranquila pela costa vai ser subitamente interrompida. Uma forte tempestade leva à evacuação das zonas costeiras. Caldeira e a família veem-se obrigados a ir um pouco mais para o interior. E é aí que escolhem Atlanta. Pedro Caldeira faz a reserva no hotel e, por precaução, usa um dos seus outros apelidos: Pedro Fernandes. Algumas semanas antes da família se fazer à estrada, uma mala enorme chega ao aeroporto de Lisboa, vinda dos Estados Unidos. Por essa altura, a Polícia Judiciária já estava alerta. Verificava todas as cargas aéreas e a estratégia deu mesmo resultado. A mala tinha sido enviada para Portugal por Pedro Caldeira. O plano seria mandar à frente tudo o que a família foi juntando ao longo dos últimos meses, antes de se entregar. Mas acaba por ser interceptada e dá à polícia mais uma pista para seguir o rasto do corretor. Pedro Caldeira já tinha escapado a pelo menos duas detenções iminentes. Quando o FBI chegou às moradas indicadas, não encontrou ninguém. As localizações foram sendo passadas pelo detetive privado Dominique Chagas. A informação foi enviada para Portugal, onde é emitido um mandado de detenção. A forma como a Interpol está organizada faz com que, de Lisboa, o processo tenha de seguir para Madrid, que funcionava como uma espécie de sede ibérica. É a partir daí que o mandado de detenção é enviado para os Estados Unidos. O facto de ter escapado por muito pouco a duas tentativas para o prender levanta suspeitas. A PJ começa a desconfiar que alguém pode estar a avisar o fugitivo de que foi localizado. O próprio detetive Dominique Chagas tem a mesma suspeita.
Ele não parava. Ou tinha informações especiais, era uma coisa oficial.
É a partir daí que as autoridades montam uma nova estratégia. À terceira vez que o corretor é detetado, a PJ decide atuar de forma dissimulada. Quando recebe novamente a informação sobre o paradeiro de Caldeira, Lisboa pede a Madrid para reativar o mandado de captura, mas com uma diferença. Diz que sabe a região onde está o fugitivo, mas ainda não tem a morada exata para escrever no mandado. Esse importante detalhe só seria dado, jurava a PJ, por um informador nos Estados Unidos. Alguém que sabe exatamente onde está Caldeira, mas que apenas aceita passar essa informação a polícias portugueses. Era tudo mentira, claro. Madrid resiste bastante a lançar o mandado sem a morada exata. As regras dizem que esse é um dado essencial a pôr no documento, mas a custo, acaba por aceitar e a operação avança. A PJ envia então dois inspetores para Palm Beach. Quando aterram, saem do aeroporto e vão diretos ao FBI para lhes passar a informação que têm. A partir daí, aos portugueses junta-se uma dupla de agentes do FBI. Os quatro sentam-se no carro e fazem a curta viagem até ao bairro onde fica a casa. É uma moradia numa zona calma, suburbana. Chegam, estacionam e olham em volta. Aparentemente está tudo calmo. Não se vê ninguém. Os agentes americanos saem e caminham devagar até à porta. O FBI bate. Ninguém abre. Mais duas batidas, com mais força. Nada. Não está ninguém. Não conseguem acreditar. Mais um mandado de detenção sem sucesso. Teria Caldeira percebido novamente que estava prestes a ser capturado? Será que alguém o avisou? Os agentes não abandonam o local de imediato. Batem às outras portas, falam com vizinhos, pessoas com quem Caldeira se possa ter relacionado. Ninguém parece saber de nada. Até que chegam a uma última casa. Os inspetores portugueses decidem ficar no carro. Já estão cansados. Julgam que é mais um beco sem saída. Os homens do FBI batem à porta e são recebidos por quem lá vive. Entram e os portugueses deixam de os ver durante cerca de 20 minutos. Quando finalmente regressam, os americanos entram no carro, sentam-se e dizem aos inspetores da PJ: "Já sabemos onde ele está". Os vizinhos confirmaram que a família Caldeira vivia de facto ali e dão uma informação importante. O casal e os filhos foram passar uns dias de férias. O rasto do fugitivo leva os investigadores a um hotel em Savannah, uma cidade junto à costa. Mas também aí chegam tarde demais. A família tinha saído dois dias antes. Só encontram um pacote que Caldeira tinha tentado enviar para Portugal e que é apreendido. Mas os registos telefónicos mostram que o português ligou para vários hotéis em Atlanta para fazer uma reserva. O FBI não sabe em qual deles Caldeira conseguiu marcar um quarto, mas sente que está mais perto de o encontrar. Envia a foto do suspeito para vários hotéis em Atlanta. Em poucas horas, o fugitivo é detetado. Um porteiro do Marriott, um hotel de luxo, reconhece o rosto como um dos hóspedes. A família Caldeira não se apercebe de nada, mas o FBI está a caminho. Pedro, Cristina e os dois filhos tinham chegado a Atlanta a 19 de março de 1993. É o Dia do Pai. Aproveitam para visitar a cidade e à noite vão jantar num local escolhido pelos miúdos, o Hard Rock Café. À mesa, consultam a programação no jornal e escolhem um filme para ver na televisão do quarto do hotel. O plano seria voltar à estrada no dia seguinte. Já depois das 10:00 da noite, o FBI entra no quarto 4031 e põe fim a uma fuga de oito meses. Rodolfo Lavrador, na altura advogado de Pedro Caldeira, entende que a operação aparatosa foi desnecessária. Já estava tudo acertado para o fugitivo se entregar.
Quando já está combinado com o vice-procurador-geral da República que ele se apresentaria na Embaixada Portuguesa, ele é detido porque a polícia gosta de fazer show off e mostrar que conseguiu apanhar um fugitivo, quando ele nessa altura não era fugitivo nenhum. Sim, no dia seguinte ou dois dias depois, ele tinha-se entregue na embaixada, que era aquilo que estava combinado que seria o sítio melhor para depois poder vir devidamente acompanhado.
Caldeira é o prisioneiro número 43724. Depois de passar uns dias pela prisão de Douglasville, o corretor é transferido para uma cadeia maior, a penitenciária federal de Atlanta. Por coincidência, é a mesma prisão por onde passaram os protagonistas de dois dos maiores escândalos financeiros dos Estados Unidos: Charles Ponzi, responsável pela primeira burla de investimentos em pirâmide, e Bernard Madoff, que esteve na base do maior esquema Ponzi da história. É uma cadeia violenta e o corretor teme pela vida. Por esta altura, um dos guardas prisionais diz ao semanário Expresso que Pedro Caldeira tinha sucessivos ataques de choro. O corretor passa duas semanas preso nos Estados Unidos, mas duas semanas ali são uma eternidade. Nos últimos dias, para segurança dele, será levado para uma cela subterrânea, normalmente reservada a presos castigados com o isolamento total. Em Portugal, os jornais dizem que Pedro Caldeira, nesta altura, está a desesperar por uma extradição rápida. Quando vê finalmente marcada uma audiência em tribunal, procura manter aquela que é uma das suas imagens de marca: a aparência. Surge perante o juiz de barba por fazer, mas com um pulôver de lã azul e sapatos impecavelmente engraxados. Mas não usa meias.
Deram-lhe umas peúgas brancas para ele calçar quando era para se apresentar perante o tribunal para ser ouvido. E para o sentido estético do Pedro, a meia branca era qualquer coisa de inimaginável. Ele preferiu ir sem meias do que ir com as meias brancas.
Quem também está nessa audiência é Dominique Chagas. O detetive privado recorda que o corretor, mesmo algemado e detido, continuava a ter uma personalidade encantadora.
Nos Estados Unidos, já no Tribunal Federal, quando se tratava da repatriação dele, o nosso homem tinha um savoir-faire, umas palavras tão doces para todos. Ele continuava a ser o mesmo, generoso, mas a pedir também generosidade em relação a ele. Ele dirigia-se aos agentes da Judiciária: "É pá, tenham pena de mim, pá. Não me tratem mal, pá". Já com as algemas. "É pá, vocês lá na imprensa não me tratem mal".
A 1 de abril de 1993, Pedro Caldeira é finalmente extraditado para Portugal. Voa de Atlanta para Nova Iorque e depois de Nova Iorque para Lisboa. Um carro leva-o até à pista e entra diretamente para o avião, acompanhado por três inspetores da Polícia Judiciária. Não está algemado. Durante a viagem de sete horas, os inspetores até permitem a Caldeira que vá sozinho à casa de banho a meio do voo. Só após a aterragem é que se gera algum rebuliço com os polícias a tentarem retirar Pedro Caldeira o mais rapidamente possível do avião. Há dois carros da Judiciária à espera dele na pista. Enquanto aguarda, sob escolta, Caldeira está encostado à porta de saída do aparelho. Não fala. Recusa responder às perguntas de um jovem repórter da RTP que viaja naquele mesmo avião, José Rodrigues dos Santos.
Pedro Caldeira está preocupado?
Opá, estão aqui pessoas.
Alguma sensação especial de Pedro Caldeira?
Não deixam falar? Não quer falar.
Alguma sensação especial?
Quer que eu lhe fale o quê?
Baixou a cabeça. Na imagem não se vê, mas ele estava emocionado e tinha lágrimas nos olhos.
O avião aterra às primeiras horas da manhã e o corretor é levado diretamente para os calabouços da PJ. Dois carros, em marcha de emergência, fazem a curta viagem do aeroporto até ao centro da cidade. Caldeira continua preso, mas está finalmente em Lisboa. Espera-o uma prisão que não tem qualquer comparação com a cadeia norte-americana. Pedro Caldeira fica em prisão preventiva. O advogado, Rodolfo Lavrador, diz que a medida de coação também serviu para o proteger.
E eu compreendo o Ministério Público, porque a acusação era grande. Além disso, havia boatos de que um ou dois desses clientes mais aldragões lhe queriam chegar ao papel. A própria juíza achou que era muito mais prudente deixá-lo estar lá
Uns tempinhos do que deixá-lo sair logo, podia haver problemas.
Quando o Caldeira chega, a família já estava há vários dias em Lisboa. Tinham viajado pelos próprios meios, mas não voaram diretamente para Portugal.
A mulher, a Cristina, e os filhos fizeram a viagem só até Madrid. E foi uma amiga deles, que eu não vou agora dizer o nome, que os foi buscar de carro a Madrid e lhes cedeu um apartamento lá na Candarinha. Era um T1, que eu cheguei a ir lá, para eles os três.
Libânia Bileu prefere não dizer nomes, mas o tribunal haveria de os revelar. Essa amiga da família, que vai à Espanha buscar Cristina e os filhos, é Margarida Prieto. Margarida é a mulher de Manuel Damásio, empresário mais conhecido pelos anos em que foi presidente do Benfica. É no apartamento do casal que a família de Pedro Caldeira vai ficar por algum tempo. Quando o prazo de prisão preventiva acaba e Pedro Caldeira sai em liberdade provisória, o arguido mais famoso do país não tem nenhum jornalista à espera. Há uma razão pra isso: foi libertado um dia antes da data marcada. Mais tarde, Caldeira acaba por dar uma entrevista à RTP. É uma conversa tranquila, gravada no passeio de uma rua de Cascais. Mostra o mesmo à vontade que sempre teve em frente a uma câmera de televisão. Mas já não é o corretor poderoso e figura do jet set dos anos 80. É um homem abalado pelos meses que viveu como fugitivo e na prisão. Emocionado, com lágrimas nos olhos, agradece aos companheiros de cela. Diz que não sabe ainda quem é que vai pagar a caução de cinco mil contos, o equivalente hoje a €48 mil, exigida pelo tribunal.
Ainda não sei. Eu tenho 10 dias pra apresentar a caução. O meu advogado, como deve compreender, assim que me deram a ordem de liberdade, não pensei mais nada. Eu ainda não sei, realmente tenho 10 dias pra apresentar a caução, mas pedi ao meu advogado pra tratar disso. E portanto, não sei se é ele que vai pagar, se são amigos. Alguém pagará, com certeza, mas ainda não sei.
A situação financeira da família é difícil. Os Caldeira perderam os rendimentos da corretora e a loja de Cristina fechou quando fugiram para os Estados Unidos. Alguns amigos, incluindo Manuel Damásio, ajudam com dinheiro, mas muitos viram as costas ao corretor. No final, quem acaba por pagar a caução é o advogado. O julgamento, adiado por várias vezes, só vai começar dali a seis anos. Em janeiro de 1999, quando finalmente entra na sala do Tribunal da Boa Hora, no centro de Lisboa, Pedro Caldeira enfrenta uma acusação pesada. O Ministério Público atribuiu-lhe 17 crimes de abuso de confiança e 65 crimes de burla agravada. A acusação trata-o como uma dona branca dos ricos. Criador de um esquema Ponzi que apanhava a alta sociedade de Lisboa e Cascais. De acordo com o Ministério Público, ele usava o dinheiro de uns investidores para pagar diretamente o que tinha prometido aos outros. O Ministério Público descreve Caldeira não como uma máquina de fazer dinheiro, mas como uma máquina de gastar dinheiro. Apostas arriscadas e negócios à margem da lei, grandes festas e viagens. Uma vida de luxo que, diz a acusação, seria alimentada também com dinheiro de clientes, que o corretor sabia que nunca conseguiria reembolsar na totalidade. Entre janeiro e junho de 1992, os meses antes de sair do país, a acusação, suportada numa análise às contas de Caldeira, afirma que o corretor gastou 7 mil contos em Totoloto, 20 mil contos em ourivesaria, quase 13 mil contos em roupa e moda e outros quatro mil em decoração. E isto sem contar com as despesas com carros e casas. O Ministério Público usa ainda a palavra manipulador para descrever Caldeira e diz que ele mentia sobre os lucros gerados pelos negócios e escondia as dificuldades financeiras em que vivia. Para seduzir os clientes, expressão usada na acusação, falava-lhes de grandes negócios, alguns deles, segundo os procuradores, inventados. E quando todas as fontes de financiamento se esgotaram, assegura a acusação, desviou dinheiro da corretora, levando a empresa à falência. Os procuradores garantem que Caldeira só fugiu porque percebeu que mesmo desta forma, que qualificavam como fraudulenta, não conseguia arranjar dinheiro suficiente pra pagar as dívidas. Mais, afirmam que, quando o fez, já tinha transferido valores muito elevados para contas no estrangeiro. Essas transferências teriam sido feitas em pesetas, em francos e em dólares, e algumas teriam envolvido empresas offshore em Gibraltar e nas Antilhas Holandesas, que Caldeira teria usado também pra comprar, por exemplo, uma casa em Marbella, com o objetivo de esconder esse patrimônio. Lendo a acusação, parecia que o corretor não tinha saída Pedro Caldeira e o advogado passam anos a planear a defesa. Preparam tudo para tentarem desmontar a acusação passo a passo, ponto a ponto. Mas primeiro, têm de resolver um problema grave. Um dos três juízes do processo está furioso com Caldeira.
Quem é este homem que chegou a ganhar 5 mil contos por dia e que deixou o país em estado de choque? Pedro Caldeira conta a história do maior crash da bolsa portuguesa, revela factos inéditos e divide opiniões.
Em 1996, o corretor apareceu como protagonista de uma minissérie sobre o escândalo. Era uma produção da SIC, em três episódios. Caldeira é entrevistado e também recria alguns momentos da história contracenando com atores. A série é um sucesso de audiências, mas nem todos acham uma boa ideia. Entre eles, o advogado. Rodolfo Lavrador preferia que o cliente não tivesse participado. Tinha razões para isso. Algum tempo depois da série ir pro ar, um dos juízes que iriam julgar Caldeira critica duramente o corretor por todo aquele protagonismo. Acha que é uma forma de influenciar a opinião pública.
O juiz estava perfeitamente estragado com o Pedro. Achou que o Pedro estava a brincar com a justiça e disse isso mesmo.
A partir daí, o advogado não tem dúvidas. Para Caldeira ter alguma hipótese, o juiz tem de ser afastado.
Fiz um requerimento muito difícil, porque não era só o aspecto puramente jurídico, era também o aspecto de bom senso, que era levantar o impedimento e a suspeição do juiz. A suspeição do juiz, porque um juiz que antecipadamente, antes de ouvir a outra parte, diz aquelas coisas todas, é um juiz que, pelo menos aos olhos do arguido, não é independente porque já tem uma ideia formada. E como tal é suspeito, como tal não pode julgar.
O pedido do advogado acaba mesmo por ser aceito e o juiz fica fora do caso. Mas esse era apenas um primeiro obstáculo. A próxima jogada vai ser ainda mais audaciosa. E vai surpreender a acusação. É uma cartada inesperada que deixa o Ministério Público sem reação. Logo que o julgamento começa, Caldeira aparece com dezenas de documentos. Eram acordos assinados com a esmagadora maioria dos antigos clientes. Tinha prometido pagar o que lhes devia, e eles tinham aceitado. Assim, de uma assentada, o Ministério Público perdia quase todas as potenciais vítimas do corretor. A lista inicial de 48 lesados estava agora reduzida a pouco mais de 10, que pediam a condenação de Pedro Caldeira. Em relação a esses, só havia uma coisa que o corretor podia fazer: provar que nunca quis enganar ninguém. É um trabalho minucioso. O método do advogado passa por reconstituir todos os passos dados por Pedro Caldeira nos últimos anos. O dinheiro que recebeu, os investimentos que fez e, sobretudo, os valores que pagou de volta aos clientes. Para isso, foi necessário recuperar e organizar centenas de folhas e documentos dispersos. Recorda Rodolfo Lavrador.
Eu e ele trabalhamos horas a fio a encontrar todas as operações. Foi possível reconstituir aquilo que se tinha passado com cada um dos clientes. E no julgamento, quando se levantava uma dúvida qualquer, eu logo dizia: "É apêndice tal, folha tal". Quando aparecia um cliente a dizer: "Eu dei-lhe 10". Nós íamos ao dossiê, à pasta não sei quantos, e ia-se buscar o movimento que ele tinha feito no dia 11 da compra destes títulos assim. Ele recebia o dinheiro e aplicava imediatamente na compra de títulos. Sucessivamente, o confirmar-se tudo que ele dizia, pôs o tribunal a perceber que o Pedro poderia ter feito algo mais, não era mesmo mentiroso. E, portanto, tudo o que ele estava a dizer era verdade. Agora a interpretação, isso era com o tribunal, claro.
Os acordos assinados com as pessoas a quem ficou a dever dinheiro foram importantes, mas todas aquelas pessoas tiveram um outro papel fundamental. Quando falaram perante os juízes, os testemunhos foram surpreendentes. Apesar de terem perdido milhares de contos, a maioria dos lesados afirma em tribunal manter a amizade e admiração pelo corretor. Carlos Cruz, que na altura era um dos apresentadores de televisão mais famosos do país, diz que nunca pôs a hipótese de Pedro Caldeira o ter tentado enganar.
Não há dolo, há o azar que aconteceu, porque ele perdeu o controle dos seus clientes e das ações. E, portanto, nunca senti da parte dele qualquer expressão, mesmo facial, de vendedor de banha da cobra que me estivesse a enganar. E foi isso que eu disse em tribunal, não acreditava que ele quisesse enganar as pessoas. Portanto, não houve golpe nenhum.
Hipólito Pires, representante da marca de automóveis Seat em Portugal, e naqueles anos um dos homens mais ricos de Portugal, garante manter grande confiança em Caldeira, apesar dos 37 mil contos que perdeu. Abelardo Teixeira, dono do restaurante Gambrinus, que o corretor costumava frequentar, afirma que apesar de lesado, mantém uma admiração especial por ele. E até um general da lista de lesados aparece para defender Caldeira. „Vi que ele não fugiu para levar o meu dinheiro e não me considero ofendido por ele". Os testemunhos abonatórios ajudaram e muito. Estava tudo a correr bem, mas não era suficiente. Para convencer toda a gente da inocência do corretor, faltava jogar um último e definitivo trunfo. Esse trunfo chama-se Pedro Caldeira. Em tribunal, Pedro Caldeira aparece sempre impecavelmente vestido de fato e gravata. Cabelo penteado para trás, com gel, uma das imagens de marca que não muda com o passar dos anos. E não fosse o facto de estar agora mais grisalho e parecer um pouco mais envelhecido, quase se diria que quem estava perante os juízes era ainda um corretor de enorme sucesso. O mesmo que, anos antes, dominou a bolsa e teve nas mãos as fortunas de algumas das pessoas mais ricas do país. Mas não era só a aparência, era também a atitude. E foi essa que impressionou o juiz Pedro Mourão.
Era um tipo que se apresentava como uma pessoa muito educada. A ideia que eu tinha é que ele estava sempre numa postura de colaboração, portanto, nunca se refugiou, não sei, não quero. Nunca. Procurava sempre dar resposta às questões que lhe eram colocadas.
À distância de mais de 20 anos, Pedro Mourão lembra que fez todas as perguntas possíveis e que ficou surpreendido porque obteve resposta a todas elas.
Eu tenho grande facilidade, sempre tive grande facilidade em descodificar as pessoas. Às vezes nem abriam a boca. E aquele tipo, decodifiquei-o, naturalmente, e estive sempre à espera de um grãozinho onde ele pudesse tropeçar. E ele nunca tropeçou. Ele era coerente no que dizia. Não se sentia ali aquela mafiosice encapotada do burlão. Nunca o apanhei na contramão. E estava sempre muito atento. E quanto mais seguros eles aparentam ser, mais atento eu estou. Normalmente é muito fácil tropeçarem. No caso dele, ele dava muita coerência ao que dizia e era muito consistente. E eu redobrava a atenção e nunca o apanhei na contramão. Nunca. E penso não me ter enganado. Também uma coisa é certa: sempre tinha para mim que preferia absolver um bandido do que condenar um inocente. Sempre tive para mim.
A decisão só chega na primavera do ano 2000. A leitura do acórdão está marcada para as 10:00 do dia 28 de abril. Pedro Caldeira caminha de um lado para o outro, fuma vários cigarros seguidos, parece nervoso, mas sorri, como mostram as fotografias tiradas naquele dia nos corredores do tribunal. A sessão começa pouco depois da hora marcada, mas a grande reviravolta no caso até já tinha acontecido, ainda antes de os juízes anunciarem a decisão. Para condenar alguém pelo crime de burla, é preciso provar que um arguido montou, de forma deliberada e premeditada, um plano para roubar uma pessoa ou um conjunto de pessoas. E ao longo do julgamento, a defesa tinha conseguido fazer cair essa tese do Ministério Público. Por isso, nas alegações finais, para espanto de alguns, o próprio procurador reconhece que a acusação não produziu prova suficiente para condenar Pedro Caldeira por aqueles crimes. Não lhe resta outra alternativa. Depois de ter avançado para julgamento com uma acusação demolidora, no final, é o próprio Ministério Público quem acaba a pedir a absolvição do corretor, como recorda o juiz Pedro Mourão.
Os procuradores que estão na fase de julgamento nem sonharam como é que foi a investigação e como é que aparece aquela acusação. Herdam aquilo, põem aquilo nas mãos, aquela acusação, e depois chega a fase de julgamento, onde se tem que fazer a prova-mãe, a prova-rainha, e eles concluem que a montanha pariu um rato. Algumas das vezes, naturalmente.
O tribunal acaba por destruir, um por um, os artigos fundamentais da acusação. Dá como provado que o corretor não agiu de forma premeditada e com a intenção de enganar os clientes e que nunca lhes mentiu sobre os lucros ou prejuízos dos investimentos. Diz que o corretor nunca usou o dinheiro de uns para pagar a outros, muito menos usou esse dinheiro para financiar uma vida de luxo que, garantem os juízes, estava, afinal, muito longe daquilo que a acusação e os jornais descreviam. Os magistrados dão, aliás, um exemplo. Os 7 mil contos em Totoloto citados pela acusação eram, na verdade, de muitas pessoas que se juntavam em apostas coletivas. Apareciam como despesas do corretor apenas porque era ele quem registava os boletins. Os juízes dão como provado que Caldeira nunca ocultou bens, escondeu valores ou fez transferências para o estrangeiro não justificadas. Dizem que o objetivo de Caldeira era mesmo investir o dinheiro que lhe emprestavam, pagar os juros que prometia e ficar com o resto dos lucros. Uma estratégia de alto risco que não funcionou. O saldo global foi negativo. Caldeira não ganhou o suficiente para pagar os encargos prometidos aos clientes, nem para pagar as dívidas bancárias que foi acumulando. Os juízes ficaram com a ideia de que houve um excessivo endividamento do arguido, mas garantem que Caldeira esteve sempre convencido de que o conseguia ultrapassar. E há um fator adicional que pesou na decisão. O tribunal escreve no acórdão que as pessoas que confiaram capitais a Pedro Caldeira eram, e são, na generalidade, muito ricas e altamente esclarecidas. Entre elas estavam empresários de grande sucesso, vários deles licenciados, altas patentes militares, advogados, médicos e economistas. Um argumento também invocado pelo advogado Rodolfo Lavrador.
As pessoas que entregaram dinheiro ao Pedro Caldeira, não foi para ele dar na missa ou para distribuir pelos pobres. Foi para fazer uma operação financeira de que eles pudessem ganhar dinheiro, e não correndo riscos, julgavam eles, porque o Pedro era garantia suficiente. Quer dizer, as pessoas que perderam dinheiro, perderam na ânsia de ganhar mais do que um simples depósito a prazo.
E o facto de muitos deles terem acabado por fazer um acordo com Caldeira foi mesmo fundamental. Quem o confirma é um dos juízes que o julgaram, Pedro Mourão.
Eu nunca equacinei a hipótese daquele homem ir para uma prisão, porque eu colocava-me no papel das vítimas. O que é que eu quero? Quero que ele me pague aquilo que ficou acordado em pagar-me ou quero que ele vá cumprir uma pena de prisão? Portanto, aqui a justiça tinha que se sobrepor à própria lei, se a lei impusesse uma pena de prisão. Portanto, eu sempre tive essa perspectiva em relação ao Pedro Caldeira.
Os três juízes concordam com a decisão. Pedro Caldeira deve ser absolvido. Como é que um homem descrito na imprensa como um burlão, descrito como um corretor que se aproveitou do dinheiro dos outros para viver rodeado de luxo, descrito como alguém que fugiu para não enfrentar as dificuldades, acaba ilibado em tribunal? Porque os juízes concluíram que essa imagem tinha sido criada, em parte, por algum empolamento sensacionalista da comunicação social. O juiz Pedro Mourão dá um exemplo. Nos jornais, chegaram mesmo a chamar-lhe Dona Branca dos ricos.
Este tipo tinha um dom. O tipo sabia onde é que o dinheiro era investido, no sentido de ser um bom investimento. Portanto, confiavam nele. É evidente que ele depois, quando vai pra bolsa, não vai em nome do seu cliente, vai em seu próprio nome. De vez tinha escritório aberto, a coisa estava perfeitamente legalizada. E as pessoas ficavam sempre à espera que ele cumprisse com aquilo que tinham acordado com ele. Enquanto que a Dona Branca nada a ver com isto, a Dona Branca, de facto, era esquema piramidal.
Sobre a fuga, os juízes dão como provado que Pedro Caldeira só viajou para os Estados Unidos por duas razões. Primeiro, porque estava a ser ameaçado por clientes. Depois, porque entrou em pânico quando os jornais começaram a noticiar a falência da corretora. No acórdão lê-se que quem quer fugir com o dinheiro dos clientes e da empresa não deixa, como Caldeira deixou, quase 8 mil contos depositados em contas pessoais. A dada altura, os juízes apontam para uma probabilidade irônica. A ter aguentado mais seis meses, o arguido teria, muito provavelmente, conseguido ultrapassar as suas dificuldades financeiras. Caldeira esteve sempre convencido de que a bolsa ia dar a volta. E deu. Seis meses depois de o corretor ter falido. Pedro Caldeira sai do tribunal com um sorriso e uma promessa: vai pagar tudo o que deve. Como é que se sente? Está satisfeito?
Estou satisfeito.
Acha que foi feita justiça, obviamente?
Obviamente. Sinto-me contente, alegre, aliviado. Não feliz, feliz hei de estar quando pagar as dívidas todas.
Apesar de o absolverem dos crimes de burla e abuso de confiança, os juízes decidem que Caldeira tem de devolver o dinheiro a sete clientes, os que pediram uma indenização. Mas o corretor promete pagar tudo a todos, assim que começar a trabalhar outra vez. Os jornalistas perguntam-lhe se vai voltar à bolsa. Caldeira responde: „Se Deus o permitir“. Só que Caldeira nunca irá regressar. Isso não vai acontecer depois de chegar ao fim a suspensão que lhe foi aplicada até 2004. Nem depois da absolvição ser confirmada pelo Tribunal da Relação, no ano seguinte, na sequência de um recurso apresentado por apenas dois dos 48 queixosos que entregaram dinheiro ao corretor. Não se sabe ao certo o que chegou a pagar. Nem Pedro Caldeira, nem o atual advogado, Vasco Soares da Veiga, estiveram disponíveis para esclarecer exatamente aquilo que foi e não foi pago até agora. Hoje, o antigo Príncipe da Bolsa vive longe da parte mais nobre de Cascais. Em 2013, numa entrevista à revista Visão, garantiu que vivia com dificuldades. Contava apenas com os rendimentos do trabalho da mulher, Cristina, que voltou a ter uma pequena loja de roupa num hotel de luxo. E, ocasionalmente, com o dinheiro que ele próprio fazia com o aconselhamento a clientes insatisfeitos com os rendimentos dados pelos bancos. Libânia Bileu, a secretária do advogado que defendeu Caldeira em tribunal, recorda que, mesmo depois do escândalo, muitas pessoas continuaram a entregar-lhe dinheiro para gerir
Ele, durante um tempo, ainda conseguiu andar ali. "Então, Pedro, onde é que vais?" "Hoje vou almoçar com um cliente". "Mas tu ainda tens clientes?" E ele calava-se, não dizia nada.
Pedro Caldeira chegou a escrever um livro sobre investimentos no mercado de capitais, publicado em 2009, e continua a ser convidado para eventos com a alta sociedade de Cascais. Mas o glamour dos anos dourados nunca mais voltou.
E tenho imensa pena dele, uma pessoa tão inteligente, ter chegado a este ponto. Tenho muita pena. Não sei. Desabafa muito, mas eu não vou agora contar os desabafos que ele tem comigo. Continuo a falar com ele e gosto muito do Pedro.
Ao longo dos anos, vários clientes particulares estiveram disponíveis para reatar relações com Caldeira.
Um dos clientes era o Caseiro, que tinha um restaurante ótimo, o Escondeluz. E o Caseiro me disse muitas vezes: "Olha, não vejo o Pedro há um mata-tempo, o que lá vai, lá vai. Eu tinha muito gosto se o trouxesse cá, eu ofereço o almoço, para conversarmos todos", etc.
Mas nem todos reagiram da mesma forma, garante o advogado Rodolfo Lavrador.
Eu tenho a ideia que na alta finança as pessoas falam pelo interesse. Quando o Pedro deixou de ter interesse para eles, eles arranjaram outros interesses.
Pedro Caldeira não quis participar neste podcast, mas nem sempre ficou em silêncio. Há 10 anos, numa entrevista à revista Visão, admitiu que foi um privilegiado. "Deus deu-me tudo. Até ganhei o Total Lotto aos 35 anos, mas os meus erros estragaram tudo. Que necessidade tinha eu de querer ser o número um?" O corretor admitiu que tudo o que lhe aconteceu foi por culpa própria. Olhando para a vida dele, reconheceu que três coisas o fizeram cair: o orgulho, a vaidade e, claro, a ambição. "O Encantador de Ricos" é uma série em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, São José Correia, e tem banda sonora original de The Legendary Tigerman. O guião e as entrevistas são de Edgar Caetano. A edição é de João Santos Duarte. A sonoplastia é de Artur Costa. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons do arquivo da RTP e ainda sons retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.
