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Há uma claque feminina em todos os treinos da seleção, com um cartaz onde se lê: "Portugal, las chicas de Saltillo te apoyan". O apoio, ou algo mais do que isso, manifesta-se também regularmente fora dos treinos, com a presença de mulheres mexicanas a circular no hotel dos jogadores. Paulo Futre é o mais jovem da seleção. Tem apenas 20 anos. Arranja uma namorada mexicana polícia, que o deixa conduzir o carro dela e se limita a mostrar a identificação policial para não parar nas operações stop.
Senti eu o rei de Saltillo.
Paulo Futre, o rei de Saltillo, recordou esse mundial numa entrevista à Agência Lusa em 2016. Não é o único jogador a apaixonar-se no México, mas graças aos relacionamentos dos seus companheiros de equipa, acaba por ganhar muito ouro. Sim, ouro.
Algumas mexicanas que se apaixonaram por companheiros meus. Eu não sei o que aconteceu entre eles, começaram a dar prendas de muito ouro. Algumas eram ricas, muito ricas, e as prendas que davam a esses meus companheiros era ouro de todo o tipo. Claro, na parte final, os meus colegas voltaram a Portugal e alguns eram casados e não podiam levar aquelas prendas pra casa. Tiveram que negociar com os solteiros. Eu era um dos solteiros, então aquilo parecia, entre aspas, uma feira. "Isto é muito!", fazendo negócio. Ainda trouxe um saco cheio de ouro pra casa, que eu não tinha nenhum problema, e depois fui vendendo pouco a pouco as peças, umas bonitas, outras horríveis.
Durante o dia, entre os treinos, os jogadores passam quase todas as horas que têm livres junto à piscina. Durante a noite, Rui Águas diz que a situação é diferente.
À noite não havia grande disciplina. Não me lembro que houvesse grandes restrições. Por exemplo, nós jantávamos e podíamos dar uma volta, sair.
É comum encontrar alguns futebolistas ainda acordados em plena madrugada. E acompanhados, para espanto de Augusto Inácio.
Sinceramente, juro por tudo que não sei quem, mas começou a saber, gente estranha dentro do hotel, que não eram habitués no dia a dia. Eram mulheres.
O hotel devia estar controlado por polícias e seguranças, mas a presença de mulheres mexicanas nos corredores e espaços comuns torna-se demasiado evidente.
Dentro da pouca disciplina, da pouca organização que havia, por certo, que havia pessoal que não era suposto estar num hotel de uma equipa.
Jorge Martins, o terceiro guarda-redes na equipa portuguesa, lembra-se perfeitamente de quando começou a existir presença feminina no hotel La Torre.
Meninas, iam lá algumas. Na primeira semana não havia meninas pra ninguém, depois numa festa que fizemos é que elas começaram a aparecer.
A presença de mulheres no hotel da seleção é notada por todos. Algumas são prostitutas. Outras são raparigas que conheceram membros da comitiva na cidade ou nas aldeias das redondezas. José Carlos Freitas, jornalista enviado ao México pelo jornal O Jogo, diz que ao fim de semana esta agitação é mais evidente.
Ao fim de semana, 22 meninas e um menino que entravam à sexta-feira, à hora do almoço, e saíam ao domingo, para a seleção. Não havia mais ninguém naquele hotel.
A entrada de mulheres mexicanas no hotel La Torre parece ser até consentida pela federação.
Havia um consentimento tácito por parte dos responsáveis da federação, que sabiam que aquilo acontecia, passava à frente deles, quando eles estavam na escadaria da entrada do hotel, sentados à sombra, a beber um café ou qualquer coisa do gênero, e essas funcionárias de sexo entravam por ali e ficavam duas noites no hotel, mas toda gente sabia o que se passava. Não havia ali inocentes.
A presença regular de tantas mulheres mexicanas junto dos jogadores da seleção mostra que o caos de Saltillo não está apenas nas condições de treino, na luta pelas compensações financeiras e na guerra de comunicados que expõe a relação crispada entre os atletas e a federação. A 25 de maio de 1986, os 22 jogadores fartam-se da recusa de qualquer negociação sobre os valores dos prémios, das diárias e das percentagens de publicidade. Acreditam que têm razão, mas a tomada de posição pública vai colocar quase todo o país contra os atletas. "O Escândalo que Destruiu a Seleção" é um podcast especial do Observador em quatro episódios, em que reconstruímos a participação portuguesa no Mundial de 1986. Eu sou a Carla Jorge Carvalho e este é o episódio três. Malditos mercenários.Lamentável. Prejudicial à imagem de Portugal. Um problema de prestígio internacional. São duras as palavras do comunicado emitido pelo Presidente da República, Mário Soares. O chefe de Estado diz que segue com apreensão o agravamento das divergências entre a Federação Portuguesa de Futebol e a seleção no México. João de Deus Pinheiro, o ministro com a tutela do desporto, que fala pelo governo liderado por Cavaco Silva, é ainda mais brutal. Acusa os jogadores de terem uma atitude antidesportiva e desprestigiante para o país que representam. É domingo, 25 de maio de 1986. Nesta manhã, uma decisão unânime dos 22 jogadores da seleção que estão há duas semanas em estágio em Saltillo, torna-se um assunto de Estado. No país, não se fala de outra coisa. O tema também é notícia lá fora, levando jornalistas estrangeiros ao hotel La Torre, chamados pelos próprios jogadores. Querem ter impacto. Mais seria difícil. Os jornalistas que enchem a sala reservada para os jogadores da seleção não esperam muito. Um a um, todos os convocados da equipa portuguesa entram. Bento, o guarda-redes capitão, é o primeiro. Senta-se ao centro. Ao lado, também sentados, ficam Carlos Manuel, Jaime Pacheco, Diamantino e Fernando Gomes. Os que não têm cadeira, ficam de pé. Toda a equipa está presente. Os jornalistas das rádios e televisões esticam o braço e apontam os microfones. O capitão lê o comunicado. O que vai dizer levará a uma guerra de comunicados que se estende pela madrugada adentro.
Mercenários, sujaram a bandeira portuguesa, só pensaram no dinheiro em vez de pensarem no resultado. Claro que me custa, porque a maior honra que um jogador pode ter é embarcar a camisola da seleção nacional. É a maior honra.
Augusto Inácio nunca vai esquecer as reações que chegam a Saltillo. Apesar de ser um jogador experiente, não está à espera de tamanha condenação. O comunicado apresentado à imprensa pelos futebolistas cai em Portugal com estrondo. É referido em vários jornais como a bomba de Saltillo. Em Portugal, os portugueses são agressivos com os futebolistas. Álvaro Magalhães, outro jogador da equipa portuguesa, sente que os atletas são um alvo fácil.
Se nós fizermos qualquer coisa, somos logo mercenários. O jogador de futebol é mercenário, os treinadores são mercenários, é o chamado das más línguas. E a imagem que fica é que os jogadores só pensam em dinheiro. E às vezes não é bem assim.
Estão há meses a tentar resolver o problema e não conseguem falar com o presidente da federação. Mas agora são vistos como os vilões da história. Rui Águas, um dos avançados da equipa portuguesa, teme represálias.
A mim preocupou-me. Nós percebemos qual era o ambiente que existia e aquilo que nos esperava. Embora não havia redes sociais, não sofríamos por esse lado. Imagino hoje, se tal se tivesse passado, o que teria sido. Mas foi preocupante, para mim foi preocupante. Uma pessoa de repente está naquilo que sempre sonhou e vê-se num problema nacional.
Mas é quando sabem do comunicado de Mário Soares, o presidente da República, que todos percebem a dimensão do que acabaram de fazer. O assunto não é apenas conversa de café. Passa a ser um problema ao mais alto nível.
Quando isso lhes chega aos ouvidos é que eles percebem que realmente as coisas não estavam a ser muito boas na perspectiva da imagem que eles deixavam para o português comum, para o português da rua, para o português adepto do futebol.
José Carlos Freitas, enviado do jornal O Jogo ao Mundial de 1986, confessa que grande parte dos jogadores fica a saber das reações em Portugal pelos jornalistas. Estão no mesmo hotel, partilham os mesmos espaços e como são poucos os que conseguem ligar para Portugal, passam o dia a fazer perguntas aos jornalistas.
E a ideia que as pessoas tiveram foi que os malandros dos jogadores só queriam era dinheiro e não fazer o que lhes competia. Foi complicado.
O escândalo em Saltillo é notícia nos outros países. David Borges, enviado especial do jornal Record ao Mundial do México, lembra-se do interesse da imprensa estrangeira.
Nessa altura, o escândalo já era global. Já se falava por todo o mundo. Lembro-me de um jornalista brasileiro que estava: "Os caras estão se a passar, né?" Porque de facto era uma coisa inaudita, em cima do início do Campeonato do Mundo, uma seleção que estava revoltada.
O comunicado lido por Bento revela que a seleção portuguesa vai mesmo fazer alguma coisa45 minutos depois desta comunicação pública, os jogadores recusam-se a entrar em campo para o jogo treino marcado com a equipa amadora do Tigres, em Monterrey. É a primeira retaliação à falta de resposta da federação às suas reivindicações. Em causa, principalmente, os valores dos prémios e das diárias, mas também a rejeição de um outro pedido dos atletas para terem acesso a um cartão vitalício de entrada gratuita nos estádios portugueses. Os jogadores sabem que a equipa técnica está com eles. José Torres, o selecionador, nunca se posiciona contra os atletas. Aos jornalistas, explica que um treinador tem de estar com os futebolistas para ter a aceitação da equipa. Mas José Torres também não se atravessa a hostilizar a federação. Diz apenas que tem de existir um diálogo com os jogadores para que se possa ultrapassar o problema. Depois de os futebolistas lançarem a tal bomba, todos ficam à espera. O suspense prolonga-se até às 22h30, quando Amândio de Carvalho, o diretor da federação, reune a imprensa. Explica aos jornalistas que recebeu ordens do presidente da federação para não negociar as exigências financeiras dos jogadores. Explica que tomaram duas decisões. Primeira: enviar para Lisboa um telex com as propostas que tinham sido entregues. Segunda: contactar o presidente da federação, Silva Resende, que estava em Frankfurt e que ia a caminho do México. Mas este contacto esbarra na intransigência de Silva Resende. Não aceita alterar as condições dos prémios de jogo em quaisquer circunstâncias. A terminar, Amândio de Carvalho diz que a direção da Federação Portuguesa de Futebol considera, a partir daquele momento, o assunto encerrado. David Borges, do jornal Record, sente que Amândio de Carvalho fica encurralado e sem saída.
Cavou mais fundo a separação entre os jogadores e a federação, isso foi notório. E aliás, era perceptível também a forma como o César Grácio e o Amândio de Carvalho estavam absolutamente entalados numa questão que não podiam resolver, embora fossem dois tipos excelentes do ponto de vista humano, nomeadamente o Amândio de Carvalho. O Amândio de Carvalho era uma joia de pessoa, mas não tinha claro nem competência para agir, nem conhecimento da realidade específica do futebol internacional para poder funcionar como um elemento que impulsionasse algum tipo de acordo.
Os diretores da Federação Portuguesa de Futebol que estão no México têm as mãos atadas. Cumprem as ordens de Silva Resende. Três horas e meia depois de Amândio de Carvalho falar aos jornalistas, já de madrugada, os jogadores reagem. São duas da manhã em Saltillo, madrugada de segunda-feira, 26 de maio. Mais um comunicado. Primeiro entrega à imprensa, depois Manuel Bento dá novamente a cara e a voz pela equipa. Com uma folha na mão, o capitão da seleção diz que os jogadores repudiam a resposta, considerando que é prepotente, contraditória, confusa e de má-fé. A seguir, alerta para as condições psicológicas em que os jogadores estão a trabalhar. Não se responsabilizam por eventualmente não serem capazes de dar um bom rendimento em campo. O guarda-redes da seleção diz que a ruptura entre os jogadores e Amândio de Carvalho é inevitável. Os futebolistas lançam um ultimato. Exigem a presença em Saltillo do presidente da federação para poderem dialogar. A data limite é terça-feira, 27 de maio. Se isso não acontecer, a equipa vai deixar de treinar.
Se nós reivindicamos alguma coisa, foi porque achamos que era justo. E não é pelo valor, que o valor nem era assim grande coisa. Não é o valor, é o simbolismo daquilo que nós achamos que, como costumo dizer, eles querem tudo e não nos dão nada.
Augusto Inácio fala numa questão de honra. Os futebolistas sentem que a situação está a passar todos os limites e acham inaceitável que não haja ao menos uma negociação. Mas a guerra de comunicados continua e a federação volta a recusar qualquer revisão dos valores. É então que o governo de Cavaco Silva emite o comunicado assinado por João de Deus Pinheiro, o ministro com a pasta do desporto. É um ataque direto a todos os jogadores da seleção que estão no México. O governo diz que tomaram uma atitude desprestigiante e acusa os futebolistas de não estarem a dignificar o nome de Portugal, nem compreenderem o carinho que os portugueses têm pela seleção. Vítor Serpa, enviado especial do jornal A Bola, conta que no Hotel La Torre, durante estes dias de conflito, todos os desenvolvimentos podem ser seguidos nas paredes.
Como havia duas grandes colunas de sustentação no hall do hotel
Uma era a coluna da direção da federação, outra era a coluna dos jogadores. E na coluna dos jogadores iam circizando todas as manifestações favoráveis de solidariedade aos jogadores. Na outra, todas as manifestações de solidariedade à direção da federação e de ataque direto à falta de profissionalismo dos jogadores.
O comunicado do governo é afixado na coluna do apoio à direção da federação e é o texto com mais impacto. Os jogadores percebem a mensagem, voltam a reunir-se e escrevem um novo e derradeiro comunicado. É um texto muito longo, o maior que já escreveram. Os jornais mostram fotografias de Carlos Manuel sentado à secretária, a teclar numa máquina de escrever. Na noite desta terça-feira, 27 de maio, termina o prazo dado ao presidente da federação sem que tenha havido qualquer avanço. Os futebolistas convocam a imprensa e todos os dirigentes da federação, mas os dirigentes não estão em Saltillo. Viajaram para a Cidade do México depois de terem sido chamados por Silva Resende para estarem presentes no congresso da FIFA. Nesta mesma sala em que os jogadores tinham feito o primeiro comunicado há dois dias, estão novamente dezenas de jornalistas, incluindo os repórteres de sete estações de televisão. Quatro canais brasileiros, a televisão mexicana, a BBC e a RTP. Numa altura em que ainda faltam seis anos para nascerem as televisões privadas SIC e TVI. Manuel Bento, o guarda-redes do Benfica e capitão da seleção, é novamente o porta-voz. Revela que no Europeu de 84 receberam quase o dobro do que lhes prometeram agora. Queixa-se que são obrigados a usar diariamente roupa de uma marca desportiva sem qualquer compensação financeira e utiliza frases de impacto: "Os profissionais de futebol não são crianças às quais se dão reguadas e se impõem castigos, não são mentecaptos manejados a bel-prazer de quem ocupa cargos diretivos." Fala num caso de violentação que se arrasta ao longo de cinco meses. Frisa que não é a questão financeira que os perturba, mas sim o facto de não os tratarem como pessoas, com cabeça para pensar e coração para sofrer. E diz que ficariam tristes se fossem obrigados a pedir dispensa da equipa nacional se a situação se mantiver no futuro. Augusto Inácio está entre os jogadores que receiam represálias no regresso a Portugal.
Não, eu estava ciente, depois de ter sido lido o comunicado, da maneira como ele foi lido, de que estamos perante o julgamento do resultado. Eu fiquei logo ciente disso, porque para mim bastava se falar, porque a natureza do nosso povo é assim. Eu não sei se os outros povos é assim. Eu sou português, estou a falar do meu povo.
O comunicado lido por Bento tem ainda um recuo na ameaça de deixarem de treinar. Diz que consideram o assunto encerrado por agora e a ele vão voltar na hora própria e no local próprio. Assinam os 22 jogadores.
Não é desistir da luta. Nós víamos que não havia interesse em resolver o problema da parte de quem deve ser resolvido.
A Federação Portuguesa de Futebol ainda responde no dia seguinte, quarta-feira, com um último texto na guerra de comunicados que dura desde domingo. Diz que os contratos publicitários são semelhantes aos que são assinados com outras federações e que servem para arrecadar receitas para suportar as despesas. E sublinha que há grandes prejuízos se esses contratos não forem cumpridos. Apesar da falta de acordo e das ameaças, a preparação para a participação no mundial não é interrompida.
Nós todos os dias treinamos. Apesar dos jogadores terem dito: "Não treinamos", todos os dias houve treino.
Não só treinam, como de acordo com o preparador físico Monge da Silva, estão em excelente condição física.
Eu fiz cá uns testes. O que eu fiz? Teste de Cooper, correr 12 minutos, ver a distância. Marquei dentro de um campo de futebol um perímetro de 240 metros, podia fazer também lá em Monterrey, e uma prova de velocidade, de 60 a 40 metros, uma coisa dessas. Comparei os resultados cá com os de altitude e todos melhoraram.
Mas se fisicamente os jogadores estão em condições, ao nível de comportamento, a situação é bem diferente. E tudo conta negativamente para a imagem dos jogadores do caso Saltillo.
"Oi, Verasto, o nosso bacalhau. Calma que já vem. Já vem, já vem, deve ser ao jantar. Já vem, deve ser amanhã. E já vem, e já vem." Até quando chega o bacalhau, vou dizer uma coisa, aquilo foi uma festa. Foi uma festa, a gente brindou. "Ao nosso bacalhau! Parece que estamos em Portugal."
Bacalhau à mesa da seleção nunca faltou. De 66, passando por Saltillo, até aos dias de hoje. O problema é que nos anos 80, quando o Inácio fala em brindar, é mesmo com álcool.E esse é outro dos problemas conhecidos da seleção no México.
Combinava com os empregados que se eram amigos. "Quer uma Coca-Cola, colega?" Abria aquilo, tirava a Coca-Cola e enchia o vinho.
Monge da Silva, preparador físico, deixa passar. Nos anos 80, não é assim tão estranho os futebolistas beberem um copo de vinho de vez em quando, mesmo em período de estágio. O cozinheiro da seleção é Evaristo, fundador do restaurante Solar dos Presuntos, em Lisboa. É ele que confecciona todos os pratos. Há comida portuguesa para todos. O bacalhau é que só chega mais tarde que a equipa e, por isso, nesse dia, organiza-se um banquete. Augusto Inácio lembra-se perfeitamente da festa e das fintas para beber mais vinho.
"Doutor, o bacalhau, nós vamos beber sumo e água, porque o bacalhau." E então ia ali falar com o treinador e dizia: " Um copo de vinho." "Ei, é um copo de vinho por ano", já estás a imaginar. Um copo de vinho. Tu não bebes. Bebes, bebes. Não bebes. Deixa estar aí o copo. Tu não bebes. Bebes, bebes. Era uma garrafa logo pra quatro. Depois trocávamos os copos. Quem bebia vinho, bebia o dele e bebia o do colega.
Fora das refeições, é também comum alguns jogadores beberem um copo de uísque à noite, muitas vezes com a companhia de um cigarro. O álcool às refeições é, aliás, um dos problemas referidos pela Federação Portuguesa de Futebol no relatório sobre o Mundial no México. Como exemplo, Camacho Vieira, médico da seleção, decide impedir o consumo de bebidas alcoólicas. Mas Jaime Pacheco levanta-se da mesa, atira o guardanapo para o chão e diz que se não há cerveja, não come. Portugal está no grupo F com a Inglaterra, a Polônia e Marrocos. O primeiro jogo dos portugueses no Mundial é logo frente à poderosa Inglaterra. Em 1966, tinham sido os ingleses a eliminar a seleção de Eusébio. Há um desejo de vingança e em Saltillo cria-se uma certa rivalidade. As duas equipas estão instaladas nesta cidade, no deserto mexicano. Os ingleses têm muito melhores condições e treinam sempre num estádio. O encontro frente aos ingleses está marcado para 3 de junho, no Estádio Tecnológico, em Monterrey. A Inglaterra é treinada por Bobby Robson. Entre os jogadores, a principal estrela é Gary Lineker. O avançado chega ao Mundial com 39 gols marcados pelo Everton. Na equipa portuguesa, José Torres escolhe Bento para a baliza. É o capitão de equipa. A defesa tem Oliveira, Frederico, Augusto Inácio e Álvaro Magalhães. No meio-campo jogam António André e Jaime Pacheco, com Sousa à esquerda e Diamantino à direita. Mais à frente está Carlos Manuel e lá na frente, Fernando Gomes. Augusto Inácio diz que a confiança supera o medo do adversário.
Devíamos estar com algum receio aqui ou acolá, disso ou daquilo, mas quando o árbitro apita para começar o jogo, esses receios desaparecem completamente. Nós integramos ali e só estamos a pensar naquilo que é o jogo, nas tarefas que cada um tinha que fazer, consoante aquilo que era a estratégia do selecionador. Nós éramos muito unidos, nós éramos uma equipa.
Vinte anos depois, Portugal volta a pisar o relvado de um mundial de futebol. As bancadas não estão cheias. Apenas meia casa num estádio com capacidade para quase 50 mil pessoas. As equipas entram em campo. Portugal de vermelho, Inglaterra de branco. Alguns jogadores emocionam-se quando ouvem o hino. Álvaro Magalhães guarda para sempre este momento.
Para já, é o orgulho. E a adrenalina aumenta, porque aquilo dá alma. Estamos a defender o nosso país. É Portugal que está ali dentro daquele campo. Tive o privilégio de ter lá a minha mulher e o meu sogro a verem esse Campeonato do Mundo. Portanto, isto é uma alegria. Isso é muito mais importante na carreira de um jogador. Vestir uma camisola de Portugal, do nosso país, num Campeonato da Europa e Campeonato do Mundo. Até a lágrima aparece com mais facilidade.
O jogo começa sob forte calor, quase 30 graus às 16h no México, 23h em Portugal. Os ingleses dominam, mas Portugal resiste com coragem. A principal preocupação é defender bem. Ao intervalo, zero a zero. Os jogadores entram no balneário cansados, descansam poucos minutos e preparam-se para a segunda parte da batalha. Augusto Inácio sente que conseguiram encontrar uma fragilidade dos ingleses e uma vantagem na equipa portuguesa.
Nós sabíamos que o nosso meio-campo era melhor que o dos ingleses, desde que a gente conseguisse ter a bola no chão e jogássemos
Percebemos também que os ingleses avançavam muito o terreno e que não olhavam muito para trás.
É com esta ideia na cabeça que entram novamente no relvado. Seguem num esforço constante para travar as investidas dos ingleses, até que ao minuto 74 tudo muda. Bento agarra uma bola rasteira à entrada da área e dá início a um contra-ataque ao fazer um lançamento poderoso com o braço direito. A bola vai diretamente para a linha divisória do meio-campo, à direita do ataque português. Álvaro Magalhães recebe, levanta a cabeça e faz o passe para Diamantino, que está mais à frente. Do outro lado do relvado, Augusto Inácio vê todo o lance.
O Diamantino faz uma grande jogada, dá a bola para o Carlos Manuel, que encostou e fez um a zero.
Golo de Portugal. Carlos Manuel volta a ser herói. O homem que marcou o golo que valeu o apuramento para o Mundial, marca novamente frente a uma equipa poderosa. É uma explosão de alegria. Neste instante, toda a luta dos jogadores, todos os problemas de Saltillo e toda a ansiedade do jogo desaparecem da cabeça dos portugueses. Agora, a seleção tem de resistir.
Eu diria que nós fomos aqueles guerreiros. Demos a vida para segurarmos aquele um a zero. Nós demos a vida, demos tudo.
Augusto Inácio vê os minutos a passar lentamente e só Paulo Futre é que consegue, por vezes, levar a bola para a frente. Está fresco. Tinha entrado um minuto antes do golo para render Fernando Gomes. Portugal resiste e segura a vitória.
Nós com o nosso espírito de conquista, com a nossa raça, com a nossa agressividade, com a nossa concentração e com a nossa humildade, conseguimos ganhar à Inglaterra. Foi um feito único. O primeiro jogo ganhar à Inglaterra foi fantástico.
Álvaro Magalhães fala com orgulho desta vitória. Apesar do caos que rodeia a seleção em Saltillo, Portugal começa o Mundial a derrotar uma das principais candidatas à conquista do título. O resultado é festejado em Portugal. Todos os que apontaram o dedo aos jogadores durante a guerra de comunicados estão agora rendidos e radiantes com a vitória contra os ingleses. O jornal A Bola escreve: "Sorry, Old England. Portugal espantou o mundo." O Record diz que a inteligência portuguesa venceu a força inglesa e o jornal O Jogo conta que Monterrey continuou Estugarda. Mas ainda no estádio, o jornalista José Carlos Freitas nota que os jogadores deixam um recado à federação através da imprensa.
Há um jogador que diz: "Ganhámos contra 12, contra os 11 da Inglaterra e contra a Federação Portuguesa de Futebol." E esse sentimento foi importante para eles, porque mostraram aos dirigentes da federação que eles não estavam ali pelo dinheiro, estavam ali para jogar futebol e tinham ganho à poderosa Inglaterra.
Silva Resende, presidente da federação, está no estádio e não gosta do que ouve. Os problemas da seleção não acabam. O jogo contra a Inglaterra serve apenas para disfarçar o caos que se vive em Saltillo. Bento vai lesionar-se com gravidade. Portugal vai perder com a Polónia e José Torres vai arrepender-se de recusar uma proposta tentadora do selecionador de Marrocos.
Houve uma tentativa de entendimento por parte do selecionador de Marrocos, que terá proposto aos José Torres o tal empate que daria a qualificação dos dois para chegar à fase seguinte.
"O Escândalo que Destruiu a Seleção" é um podcast da Rádio Observador assinado pelos jornalistas Miguel Cordeiro, Carlos Pedro, João Lourenço, José Rafael Lopes e Martim Madeira. O guião é do jornalista Miguel Cordeiro. A sonoplastia é de Bernardo Almeida, Pedro Oliveira e Rafael Pego. Eu sou a Carla Jorge de Carvalho. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira.