Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Faça este exercício mental comigo: imagine que chega a casa, abre a porta do frigorífico e olha para o que está lá dentro. O pacote de leite, os iogurtes, o frasco de ketchup, talvez um gelado no congelador. Agora, se eu lhe disser que, muito provavelmente, há pedaços de uma árvore da floresta portuguesa dentro de quase todos esses produtos, acredita ou nem por isso? A verdade é que a floresta deixou de estar apenas na paisagem ou nos livros. Hoje, graças à ciência e à bioeconomia, os componentes da madeira estão a entrar discretamente nas nossas casas para substituir o plástico e o petróleo. Da embalagem inteligente aos ingredientes alimentares, a floresta está mais viva do que nunca no nosso quotidiano e, por isso, seja muito bem-vindo ao "Lado B da Terra", o podcast em parceria com a B Rural. Eu sou o João Costa e Silva e hoje vamos desvendar alguns dos superpoderes invisíveis das nossas árvores. Tenho comigo uma convidada em diálogo para falarmos sobre isto. Sara Pereira, diretora-geral da Biond. Muito bem-vinda aqui ao "Observador".
Obrigada, João. Bom dia.
Afinal, o que a floresta anda a fazer dentro do nosso frigorífico? Depois desta introdução, queremos todos saber.
Faz sentido. Aliás, a floresta está a toda a nossa volta, dentro, fora e até mesmo no nosso organismo, quando acabamos por comer as coisas que pomos no frigorífico.
Claro.
Porque quando fala, não é só floresta na embalagem, sem dúvida nenhuma, mas quando come um iogurte, por exemplo, muito daquilo que é a textura que sente, a espessura que tem no iogurte, é derivado da fibra do eucalipto.
É estranho pensar nisto desta forma.
A não ser que seja vegan, é sempre bom, porque, na verdade, não tem problema nenhum. Até numa situação mais caricata. A nossa indústria de salsicharia, por exemplo, aquilo que antigamente era a pele do porco, a tripa que fazia o invólucro, hoje em dia, também já pode ser a fibra de eucalipto. Portanto, no limite, até os vegans estão a comer árvores.
Pensar desta forma é, de facto, surpreendente. Ou seja, por exemplo, quando comemos um gelado ou abrimos uma embalagem biodegradável, estamos a consumir inovação florestal. Podemos mesmo chamar assim?
Ao mais alto nível.
Significa que uma árvore é uma espécie de petróleo verde dos tempos modernos.
Bem, nós não gostamos muito da palavra petróleo, até porque muitas vezes estamos aqui, neste momento, a substituir.
Mas é uma alternativa mais sustentável, não é? É isso que devemos dizer.
Sustentável, sem dúvida nenhuma. E é uma característica da nossa floresta, a floresta portuguesa, mas a floresta no mundo, como é óbvio, quando nós apostamos numa gestão responsável, numa gestão que pensa à perpetuidade, pensamos nos filhos, nos netos, nos bisnetos, tudo isso faz sentido que nós consigamos renovar e, ao mesmo tempo, aproveitar as 1001 hipóteses que nós temos. É mais do que cozinhar o bacalhau, são 1001 hipóteses que nós temos de usufruir dos benefícios dos pequenos átomos que temos dentro da nossa floresta. No limite, todos nós, todos os seres humanos, toda a estrutura física que existe tem carbono. Também as árvores limitam bem até aí. Mas as nossas árvores, concretamente a nossa árvore, que estamos aqui a falar do eucalipto, tem uma fibra muito especial e muito versátil. E essa mais-valia, nós começámos a perceber, nesta bioindústria, que só conseguiríamos explorar todos os caminhos através da inovação, da investigação, da ciência e da aposta, e até no nosso frigorífico. Todos nós gostamos da floresta verde, todos nós, acho eu, ninguém gosta de outras cores quando estamos aqui a falar de floresta, exceto no frigorífico. Se estiver verde, não é bom sinal.
Não é bom.
Não é bom.
Sara Pereira, nós já combinámos que nos íamos tratar por tu. Enquanto diretora-geral da Biond, eu fiz-lhe esta pergunta, mas qual é a reação das pessoas ao perceber que realmente a floresta está mais presente no nosso frigorífico, se calhar, aquele habitat em que nós não esperávamos encontrar?
Incredulidade, João. Basicamente, nós temos tido uma experiência em várias iniciativas que organizamos. Temos um gelado de eucalipto. Aqui nem sequer está escondido. Não é algo que está num constituinte, na textura, não faz espessamento, não é a embalagem, tem este sabor. E a primeira reação: "Não, isso não é mesmo eucalipto." "Prove." "Mas isto sabe ao que cheira." A nossa memória transporta-nos automaticamente para o eucalipto. "Mas como é que vocês fazem isto?" É tudo uma questão de química. É tudo uma questão de encontrar o componente que eu consigo transpor para dentro da nossa batedeira, vamos dizer assim, quando fazemos um gelado. Portanto, a principal reação é mesmo a incredulidade, o espanto, o não perceber que aquela madeira não é exclusivamente um tronco.
E leva àquele resultado final, não é? Neste caso, um gelado.
Muito saboroso, muito fresco.
Não sei, não provei.
Devia ter trazido, não era, João?
Está aqui uma falha. Mas tratamos disso um dia.
Ora bem, o próximo evento que nós tivermos na Biond, João, é convidado para ir comer o gelado.
Muito bem, agradeço. A vossa associação mudou de nome para Biond, Associação das Bioindústrias de Base Florestal. Esta mudança também diz muito para o futuro, para os jovens que nos ouvem, até porque este podcast é direcionado para o público mais jovem, que combate o desperdício e querem um planeta sem plástico. A floresta surge aqui como uma grande aliada. Como é que a Biond trabalha com os parceiros e proprietários florestais para garantir esta transição ecológica e que é feita realmente de uma forma sustentável para o nosso planeta?
Nós usamos muito o termo da circularidade. O objetivo, no limite, é quando eu volto ao início, e aqui falamos no início, que é na floresta, quando eu volto ao início, eu aproveitei Tudo o que estava no processo: a casca, as raízes.
Desperdício zero, nesse sentido.
Zero. Mas para isso é preciso sempre inovação. Nós temos este canal, como estamos a falar de pessoas mais jovens, normalmente associam o trabalho na floresta e mesmo na indústria, uma coisa ultrapassada, mas na verdade, é altamente tecnológico, altamente exigente do ponto de vista da literacia digital, hoje em dia, porque para podermos ter maior eficiência, para podermos ter perda zero, nós precisamos de ser muito mais evoluídos, muito mais à frente do que aquilo que estamos à espera. O nosso trabalho com os proprietários incentiva muito na lógica da parceria, isto é, nós temos uma investigação, quer na área da produção florestal, quer mesmo na área industrial, de quase 100 anos no nosso país, e isso, hoje em dia, já nos permite transmitir o que aprendemos, porque, como é óbvio, quando estamos a falar de floresta, nós não conseguimos aprender hoje e aplicar hoje. Temos aqui um intervalo de tempo muito grande. E nós já estamos na fase em que tendo começado a investir na inovação há muitos anos, vamos tendo sempre resultados. Então a nossa lógica é a partilha. Nós envolvemos os proprietários, envolvemos aquelas que são as organizações de produtores florestais. Nós trabalhamos até com os nossos fornecedores, com os prestadores de serviços, vulgarmente conhecidos madeireiros, que é um termo que tem uma conotação negativa. A palavra tem o nome mau, mas na verdade, eles são essenciais pro processo não se perder, para não termos perdas. E, portanto, nós trabalhamos sempre na lógica do envolvimento, da parceria, de uma rede efetiva de parceiros. Temos alguns exemplos já no nosso currículo, no nosso CV. Portanto, o nosso CV enquanto associação, nós começamos em 2019 a investir muito nesta relação com o proprietário. Eu não sei se quem nos está a ouvir consegue ter noção do que é ter, ou previsivelmente termos, mais de 400 mil donos de floresta no nosso país.
Número impressionante.
E nós somos um país pequeno. Nós temos mais de 400 mil donos. É muita gente onde chegar. Obviamente, eu não consigo identificar um a um, então eu vou por quem os organiza, por quem os associa. Portanto, nós temos estado a trabalhar assim e neste momento já conseguimos atingir e ultrapassar a meta dos 100 mil hectares de apoio efetivo, de intervenção no terreno, de redução daquilo que a gente chama combustível, de melhoria da produtividade. E isso só é possível porque nós continuamos sempre a trabalhar com as organizações e valorizamos essas organizações e essas pessoas.
São ótimas notícias, nesse sentido.
São.
Muitas vezes, também a geração mais jovem associa a indústria florestal apenas ao corte de árvores e é uma visão até muito negativa.
Redutora.
Sim, mas o lado B é que se não usarmos estes produtos de base florestal, vamos continuar dependentes do plástico derivado do petróleo, que é esse palavrão que a Sara não gosta nada. É preciso mudar o chip na cabeça destas novas gerações.
Sim, nós até podemos ajudar nisso, porque nós já temos chips feitos de árvores. Não está no frigorífico, mas já temos chips feitos de árvores. Até isso nós já poderíamos ajudar. É um trabalho que nós já temos estado a fazer há algum tempo, até mesmo na Biond, com aquilo que nós sempre chamamos a Missão 360, junto às escolas, porque essa mentalização foi feita com a melhor das intenções ao nível dos currículos. Portanto, nós começamos a associar que o cortar uma árvore é uma coisa negativa, tal como pescar é uma coisa negativa, tal como a produção animal é uma coisa negativa, mas isso é aquilo que nos permite, ao ser humano, sobreviver. Se nós comprometemos aquilo que nos permite comer, e lá voltamos ao frigorífico e ao tema da nossa conversa, nós não vamos ter viabilidade. E realmente existem alguns exemplos nos manuais escolares das camadas mais jovens em que dão como o que é um mau exemplo, cortar uma árvore. Mas se eu cortar a árvore e a seguir plantar, eu estou a garantir a circularidade, eu estou a garantir a sustentabilidade. E eu acho que essa parte não foi ainda interiorizada.
É preciso instruir ainda essa visão e essa perspectiva dentro da camada mais jovem.
É evolutiva. Também no ensino, eu já sou de uma geração em que nós começamos a falar de reciclagem. Não havia. Hoje em dia, as minhas filhas, que têm seis, sete e 20 anos, nenhuma delas pondera sequer a hipótese: onde é que está o caixote pra eu pôr a embalagem do iogurte. Não há, tem que haver. E isso foi feito nas escolas e foi uma coisa positiva. É um caminho que se faz, mas nós temos muito essa tradição de passar do oito pro 80. Portanto, não tínhamos nada e agora vamos ao extremo. E o extremo agora compromete a nossa própria sustentabilidade enquanto seres neste planeta.
Continuamos aqui a olhar para os jovens, Sara Pereira. Olhando para o setor hoje, que sofreu muitas transformações, que tipo de oportunidades é que existem para quem está a sair, por exemplo, das universidades?
Tantas. Quer na indústria, quer na parte florestal, nós temos uma procura imensa daquilo que nós chamamos a nossa mão de obra, as pessoas que são precisas trabalhar. Nós, por exemplo, este ano, nosso país teve aqui um chamado comboio de tempestades Cristina. E após essa altura, que foi dramática pra grande parte do nosso país, nós fizemos um levantamento naquilo que são os nossos prestadores de serviços, aquilo que nos permite garantir esta circularidade, e foram identificadas a necessidade de 140 operadores especializados, por exemplo. A nível daquela região, nem é o país todo, são as entidades que nós temos a trabalhar naquela zona. Isto é, nós temos máquinas. Imaginem o que é, não é uma máquina, uma motosserra. Estamos a falar de uma máquina que vale entre meio e 1 milhão de euros Altamente tecnológica, que não tem operadores para trabalhar. Portanto, temos a falta de pessoas nessa área, temos falta de técnicos na área de engenharia florestal e afins, porque a engenharia florestal é uma engenharia muito holística. Eu trato desde os rios e da saúde dos rios, até às pragas e doenças que nós temos na floresta, passando pelo sequestro de carbono que estas árvores fazem. Que é uma coisa curiosa que as pessoas dizem: "Ah, mas eu corto a árvore e deixo de absorver carbono". É como uma criança. Quando nós damos um pão a uma criança com quatro anos ou um pão a um adulto de 90, quem cresce é a criança de quatro anos, o de 90 já não cresce.
É um excelente exemplo.
É a comparação melhor, é o lado B que eu consigo colocar aqui. É mesmo uma questão de nós pensarmos assim: "Bola, se eu não cortar, as árvores jovens não vão alimentar-se do dióxido de carbono". Essa é uma questão. Temos muita falta de mão de obra nas nossas indústrias, que são altamente especializadas. Na engenharia, também. Eu não tenho setor na fileira florestal que não precise de gente. Portanto, oportunidades estão. Estão nas universidades, estão nos cursos tecnológicos.
Nesse sentido, Sara, vou já antecipar-me.
Quer concluir?
Não, pedir-te que deixes uma mensagem a um jovem estudante de ciências ou até mesmo engenharia, que queira trabalhar nesta vanguarda da sustentabilidade, por que motivo é que deve escolher a floresta ou trabalhar nesta área?
Além de que os nossos ordenados são acima da média nacional, que acho que é sempre um atrativo, sem dúvida nenhuma, é realmente um desafio. Não estamos dentro de um estúdio quando estamos a trabalhar nesta área. Aliás, uma das coisas difíceis foi encontrar agenda, porque nós andamos sempre lá fora. Não no frigorífico, é para garantir que as coisas venham para dentro do frigorífico, mas, na verdade, andamos sempre muito na rua. Portanto, é uma profissão, e são profissões, muito ligadas ao campo, muito ligadas à tal paisagem, à tal possibilidade de ter autonomia enquanto vamos a nossa própria gestão de tempo e de tarefas, e é pensar que estamos num setor, grosso modo, floresta, indústria associada, toda a cadeia, prestadores de serviços, que está na vanguarda da nossa vida e que está a contribuir para mantermos a nossa qualidade de vida.
Muito bem. Sara Pereira é diretora-geral da Biont. Muito obrigado por ter vindo aqui ao Observador. Abrimos os olhos e o frigorífico, e agora vamos olhar para ele de outra forma, de certeza. Eu sou o João Costa e Silva, o "Lado B da Terra" termina aqui mais um episódio. Da próxima vez que for à cozinha e pegar num iogurte ou num sumo, lembre-se que a floresta portuguesa está a proteger o seu alimento e, claro, também o planeta, que é sempre importante. Já sabe que também pode subscrever este podcast na sua plataforma habitual, assim não perde nenhum episódio. Não se esqueça de acompanhar também todas as novidades do projeto B Rural. Até à próxima semana.