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Hoje em dia olhamos para os rótulos, procuramos as palavras: bio, natural, sem aditivos e nunca a nossa geração se preocupou tanto com o impacto daquilo que ingere. Mas no meio de tantos mitos de internet, alarmismos e teorias, qual é a verdade científica? Estaremos mais em risco hoje do que no tempo dos nossos avós? A resposta pode surpreendê-lo, mas nós, europeus, temos acesso ao sistema alimentar mais seguro de toda a humanidade. Eu sou o João Costa e Silva, e para percebermos como funciona este escudo invisível que nos protege todos os dias, recebemos hoje Felizbela Torres de Campos, é presidente da CropLife Portugal, a associação que representa o setor da ciência para a proteção das plantas. Felizbela, muito bem-vinda.
Muito obrigada. Muito entusiasmada com o vosso convite.
Aqui no "O Lado B da Terra", com o apoio da B Rural. Pergunto-lhe, para início desta conversa, se é mesmo uma verdade científica, ou seja, nós podemos realmente comer sem medos na Europa, não precisamos de ter tanto alarmismo nesta questão?
Não. Eu gosto de fazer a analogia à parte da medicina. Hoje em dia, tudo começa com os alimentos e a forma como os produzimos, na Europa, deve ser a forma mais segura, porque há um processo muito grande até os alimentos serem postos nos supermercados para que nós possamos comprar e consumir. Toda a parte que diz respeito à proteção das plantas, que é a parte que me diz mais respeito, segue um rigor científico desde que as empresas desenvolvem as moléculas no mercado, até que elas vão poder ser utilizadas pelo agricultor. Há um processo a nível europeu de avaliação por entidades científicas completamente inócuas e bastante conhecidas, que passa por um processo de avaliação muito grande e depois tem outra vez um processo de avaliação a nível nacional, com as nossas condições de clima, de ambiente, uma série de parâmetros que são considerados nessa avaliação também a nível nacional. E só quando passam esses dois processos, o processo europeu e o processo depois a nível nacional dos produtos, é que os agricultores podem utilizar esses produtos mediante um rótulo, como a chamada bula dos medicamentos. Em que eles têm que seguir uma série de recomendações para uma melhor utilização desse produto, quando se faz a proteção das culturas a nível do terreno.
Essa bula é muito criteriosa, no sentido em que podemos ficar realmente descansados porque tudo é cumprido nesse sentido?
É, porque depois de eles fazerem a aplicação dos produtos, há uma série de controles na pós-utilização, são controlados. E depois também a nível de supermercados, nós sabemos que a nível de supermercados, hoje em dia, há uma série de certificações, até que o produto chegue às montras. Há muito controle no antes e no pós. É seguríssimo. Recentemente, quando foi o Congresso Internacional das Sementes, foi apresentado um estudo da Economist, em que, por exemplo, Portugal, que nos deixa muito orgulhosos, dentro de 60 países, fomos considerados o sistema alimentar e agrícola mais resiliente do mundo. Foi feito um estudo de impacto, em que foram determinados parâmetros medidos e Portugal foi considerado o sistema mais resiliente a nível alimentar e agrícola, especificamente na área da qualidade dos alimentos e na parte da segurança alimentar, porque isso para nós é um orgulho muito grande.
São boas notícias, não é?
Sim, dentro de 60 países, nós termos sido considerados assim e avaliados nesse sentido. Eu que sou agrônoma, tenho muito orgulho da minha profissão, amo a minha profissão, gosto muito do setor agrícola. Sair em montes de jornais a nível mundial, esta classificação, para mim, é um motivo de orgulho. Dizer que os nossos agricultores têm feito as coisas e têm progressado de uma forma correta.
E percebe-se esse entusiasmo também da forma como fala disso. Há aqui uma questão que é: as pessoas acham muitas vezes que se deitam químicos para a terra, muitas vezes sem critério. E eu queria que a Felizbela nos explicasse de uma forma simples o que é que acontece nos bastidores. Ou seja, como é que um agricultor pode usar um produto para proteger as suas culturas contra uma praga, ou seja, que filtro é este que se usa e como é que se aplica em determinadas situações?
Há a tal bula, que nós também devemos seguir nos medicamentos. Quando o produto é autorizado, precisamente como os medicamentos, como o Infarmed faz, quando autoriza um medicamento a nível nacional, há uma bula, aquilo que nós chamamos a etiqueta, que tem todas as condições de utilização, as boas práticas que o agricultor deve seguir, que recomenda tudo e o agricultor tem que seguir todas essas recomendações. E além disso, também há toda uma indústria, a nossa indústria, a indústria da ciência para a proteção das plantas, que desenvolve determinadas tecnologias que ajudam os agricultores a utilizar esses produtos ainda de uma forma mais eficiente e que, de alguma forma, minimiza o impacto Que possa ter a nível do ambiente, a nível do utilizador, a nível dos animais, a nível da biodiversidade, porque isso é uma questão que também é avaliada quando as substâncias ativas são avaliadas e mesmo a nível do produto também. Todos esses parâmetros são considerados e a indústria da proteção das culturas tem essa preocupação de criar ferramentas, de forma a facilitar o agricultor e torná-lo mais eficiente na utilização desses produtos, de forma a ter o menor impacto possível, quer seja na saúde humana, na saúde dos animais, no ambiente e tudo o que está à sua volta.
Vamos falar agora dos jovens. Há uma grande franja de jovens consumidores que desconfia do setor agrícola convencional, mas a verdade é que sem a ciência das plantas, metade da população mundial não teria o que comer. Como é que a CropLife Portugal comunica com o jovem que quer esta parte da sustentabilidade, que falamos muito hoje no nosso dia a dia, mas que por vezes mete a ciência um bocadinho de lado?
Eu nisso tenho uma opinião muito própria. Eu acho que, por exemplo, na minha geração, na geração da minha mãe ou dos meus pais, a base científica era muito forte. Nós tínhamos uma base científica a nível da escola muito forte. Para nós, a ciência era quase como uma bíblia. Era a base da nossa educação.
Tínhamos de seguir.
Tínhamos que seguir e acreditávamos fialmente. Aquilo para nós era uma máxima. Hoje em dia eu acho que o ensino científico não é assim tão forte como era. É mais difícil para as crianças às vezes, e é um bocado tendencioso. Nós falamos muitas vezes da forma que os manuais escolares falam da agricultura, que para nós não é a real.
Não é adaptada a estes novos tempos.
Não é adaptada a uma agricultura moderna, e é um bocado tendenciosa, e isso preocupa-me. E, por exemplo, o projeto Be Rural foi criado mesmo nesse sentido. É o setor falar a uma só voz, informar, dar a conhecer a agricultura que hoje em dia existe e aproximar mais estas pessoas que já não têm contacto nenhum com o mundo rural. Eu tinha, eu ainda ia para casa dos meus avós, que eram lavradores.
Eu próprio também tinha avós dedicados a isso mesmo.
Os meus avós paternos, os meus avós maternos, ambos se dedicavam à agricultura, eu tive esse contacto. A maior parte das crianças hoje em dia não tem esse contacto, não fazem a mínima ideia como é que os alimentos são produzidos. Há um grande distanciamento e no fundo, projetos como o Be Rural, é o que se pretende, é informar, que as pessoas depois possam fazer as suas próprias ideias e não por algumas mensagens que às vezes são menos positivas relativamente à agricultura e que não transcreve a realidade agrícola de hoje em dia.
Uma questão também muito importante. Eu creio que já falámos sobre isto, mas ouvimos muitas vezes falar de pesticidas no prato. Eu queria lhe perguntar, Felizbela, o que é que nos dizem as análises oficiais em Portugal e na Europa sobre isto, no fundo, precisar e querer saber se corremos realmente riscos?
Todos os anos, isto já é uma coisa recorrente, a EFSA, que é a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar, todos os anos publica um relatório com base nesses controlos que são feitos a nível de todos os países europeus. E eu falo dos países europeus porque é a realidade que é mais próxima, mas a nível dos outros continentes é feita a mesma coisa. Essa coisa de nós dizermos muitas vezes que o que vem de fora também não é seguro, é um bocadinho também às vezes por desconhecermos e não termos-
Noção da realidade, às vezes.
Noção da realidade, porque as mesmas entidades que avaliam os produtos a nível europeu, também há outras que avaliam fora da Europa. As coisas não são libertadas no ambiente assim, sem critérios. Mas na Europa, a EFSA todos os anos faz um relatório com base nesses controlos que são feitos a nível de todos os países, de 150 mil amostras, que eles recolhem dos mais diversos países, e todos os anos os resultados andam à volta dos 98, 99%, quase 100%, que está tudo abaixo dos limites máximos de resíduos que é permitido por lei, isso também está regulamentado, e além disso, esses limites são feitos a um nível seguríssimo, porque é considerando o mínimo risco possível, mesmo tendo-se em consideração o impacto que possa ter, por exemplo, num bebê. São limites muito rigorosos e que estão instituídos a nível mundial, através do Codex, e a nível europeu. E são seguríssimos, está tudo abaixo desse limiar, quer dizer que aquilo que nós comemos é mais que seguro. Nós estamos com uma margem de segurança muito grande. E eu acho impressionante, porque uma pessoa aceita perfeitamente os testes que se fazem a nível de um acidente no automóvel e tem dificuldade de perceber que isto é a mesma coisa. Isto faz-se também tendo em consideração que possa ter o mínimo risco possível para a pessoa. Se nós aceitamos num carro, também temos que aceitar que a nível daquilo que nós fazemos para os nossos alimentos, é a mesma coisa. Tem a mesma segurança, tem uma base científica muito forte, e custa-me às vezes que as pessoas não façam esta relação.
Este episódio vai ajudar nesse sentido. Acho que enfatizar desta forma ajuda.
É verdade, são muito crédulos às vezes com umas coisas e pouco crédulos com tudo o que diz respeito aos alimentos. É muito difícil. Mas se calhar também é um pouco a nossa responsabilidade, porque se calhar durante muitos anos não comunicamos.
E agora se calhar estamos a pagar a fatura, entre aspas.
Comunicamos muito para dentro, muito pouco para fora. Nunca transmitimos bem as nossas mensagens, que são às vezes muito técnicas, muito científicas, muito difíceis de compreender. Eu acho que com o projeto B Rural é isso que nós estamos a tentar, é aceder à sociedade em geral com mensagens mais fáceis de compreender e que consigam ter uma proximidade muito mais real à agricultura dos dias de hoje.
Felizbela Torres de Campos, queria aproveitar para falar também sobre isto, até porque o nome da vossa associação mudou para CropLife Portugal, alinhando-se com a rede internacional que foca muito na inovação digital e biológica. Qual é o futuro da proteção das plantas? Já não estamos a falar só de química tradicional ou de conceitos mais ligados a isto, pois não?
Não. Hoje em dia há um grande investimento das empresas na procura de outras soluções, mais na perspetiva de tornar a planta, desde que se põe a semente à terra, muito mais resiliente e que depois todo o programa de tratamentos que são necessários fazer, possa ser feito de uma forma mais eficiente. E também integra outro tipo de soluções como os biopesticidas, como os bioestimulantes. Tudo pode ajudar no processo e tornar todo o processo da produção muito mais resiliente. Começa-se a trabalhar logo a nível do solo, a nível da saúde do solo. Há uma série de coisas que podem ajudar e não só a química pura. E depois também toda a parte desta transformação que está a acontecer na agricultura, que é a digitalização. Foi um setor que começou mais tarde, mas que agora está a fazê-lo de uma forma muito acelerada, porque isso também permite ao agricultor fazer previsões, monitorizar as doenças de uma forma muito mais eficiente e torná-lo também mais eficiente e mais sustentável na sua atividade. Esse é o grande objetivo. Toda esta tecnologia nova que se tem introduzido, os drones, os sensores, tudo isto faz parte integrante desta proteção das culturas, porque tudo ajuda e torna todo o sistema muito mais sustentável e mais eficiente.
Para terminar, se um jovem cientista nos estiver a ouvir, quem sabe um agrônomo ou até um biólogo, e quiser hoje mudar o mundo, o vosso setor é um terreno fértil para a inovação? Eu acho que já me deu a resposta, mas gostava muito de saber.
Muito fértil. Desde a parte da investigação, porque hoje, por exemplo, a inteligência artificial é uma das coisas que nos ajuda muito a acelerar tudo o que é a investigação. Hoje em dia desenvolvemos moléculas de uma forma muito mais rápida do que desenvolvíamos há duas décadas. É tudo muito mais acelerado, permite-nos trabalhar de uma forma mais rápida. Não estamos ainda ao nível da avaliação das substâncias, mas lá chegaremos também. Há aqui muita burocracia que tem que ser simplificada, mas também acredito que chegaremos lá. E depois toda a parte tecnológica que há à volta disto. Mesmo a nível de maquinaria, que está-se a pensar nas máquinas serem autónomas, tudo o que é à volta dos drones, dos sensores, é tudo muito tecnológico. Normalmente, é disso que os jovens gostam. Pegar numa enxada, isso já não se usa há muitos anos na agricultura. O que eles gostam é pegar num monitor e trabalhar e programar tudo o que é fertilização, tratamentos, tudo numa máquina e conseguir fazer. E é isso que os atrai. Tudo o que é tecnologia é superatrativo para os jovens e realmente a agricultura hoje em dia tem essa vantagem, que se pode trabalhar na natureza, pode-se produzir alimentos, que é uma coisa muito sexy, eu acho.
Essa expressão é ótima.
É muito sexy, porque nós vamos a uma cozinha, quando está um cozinheiro preparar algo, uma refeição, é supercriativo e é bom os olhos verem tanta cor, tantos legumes diferentes. Eu acho, por exemplo, é a parte a seguir à produção dos alimentos que para mim é mais atrativa. E depois também tudo o que diz respeito à alimentação, liga de alguma forma à família, porque os alimentos reúnem as famílias ou reúnem os amigos. É giríssimo organizar um jantar e fazermos o jantar em conjunto. Eu acho que isto atrai os jovens. É uma coisa que hoje em dia vê-se mais os jovens a gostarem também, a se interessarem pela cozinha e pelos alimentos e da forma como eles são produzidos.
São mais-valias, não é?
Sim, acho que é um setor muito interessante para os jovens que saem hoje da universidade. Cada vez há mais procura, isso também é uma realidade. Temos que aumentar a oferta de jovens formados nesta área, que há muita procura e às vezes é difícil encontrar. Tem que se formar mais gente jovem e eu acho que é um setor que vai ser muito interessante em termos de futuro para os jovens que hoje em dia se estão a formar.
É preciso formar mais jovens e de certeza que depois de ouvirmos este episódio, vamos ficar mais descansados na hora de ir à cozinha neste episódio com a Felizbela Torres de Campos, que é presidente da CropLife Portugal. Muito obrigado por ter vindo ao "Lado B da Terra", com apoio da B Rural. Pode acompanhar-nos na Rádio Observador ou na sua plataforma de podcast favorita. Nós regressamos num próximo episódio.
Muito obrigada.