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Pense nos objetos mais tecnológicos que conhece. E se eu lhe disser que a tecnologia mais avançada do planeta pode estar escondida na palma da sua mão, dentro de um grão que mede apenas escassos milímetros? A ideia-chave de hoje é bastante simples, mas pode ser poderosa. A tecnologia agrícola não começa no trator, nos drones ou no campo, começa dentro da semente. Seja muito bem-vindo ao "Lado B da Terra", o podcast em parceria com a B Rural. Eu sou o João Costa e Silva e hoje vamos mostrar o cérebro invisível da agricultura, com a ajuda de alguém que conhece muito sobre isso, que sabe muito, o Pedro Pereira Dias, presidente da ANSEM, a Associação Nacional de Comerciantes de Sementes. Pedro, seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Vamos conhecer melhor este cérebro, é esse o objetivo. Até porque uma semente pode ser interpretada como uma cápsula de alta tecnologia, é assim?

Bom dia, muito obrigado pelo convite para estar aqui. Sim, eu acho que sem dúvida, nós quando olhamos para uma semente, vemos apenas algo muito pequeno.

E que realmente é muito pequeno.

Mas, na realidade, estamos a ver um dos produtos mais tecnológicos que existe no mundo agrícola. Porque dentro daquela semente, estão anos de investigação, estão ensaios de campo, estão seleções genéticas, estão testes de qualidade, e portanto, há um conhecimento enorme acumulado dentro daquele pequeno objeto. E por isso eu gosto de dizer que uma semente é uma cápsula tecnológica, mas é uma cápsula tecnológica que tem uma coisa que é tipo uma pilha, que lhe dá energia, porque se não tiver isso, é uma pedra. E, portanto, a semente tem lá dentro aquilo que nós costumamos dizer, o chip, onde vão estar alocados os vários componentes que nos vão permitir depois ter a planta e que nos vai dar a resistência, que nos vai dar a produtividade na planta, que nos vai dar as resistências que temos às doenças, que nos vai dar a capacidade de adaptação ao clima que estamos a viver. E, portanto, esta cápsula traz várias camadas. Eu costumo dizer que na agricultura nós temos uma coisa que é fundamental, que a primeira camada é alimentar a população toda. Depois, temos uma segunda camada, que é diversificar, porque se estivéssemos a comer sempre a mesma coisa, ficávamos chateados.

Sabemos todos bem disso, não é?

E depois temos uma outra camada em cima, que é dentro dessa diversidade, nós também temos que ter diferentes texturas, diferentes coisas. Se nós pensamos rapidamente, esta cápsula há alguns anos não era feita desta forma. Não havia tomates cherry, não havia floretes de brócolos, não havia bananas. E, portanto, nós temos aqui um potencial muito grande, que é vindo da natureza, que depois com o desenvolvimento tecnológico que o homem incorporou, temos aqui produtos diferenciados e uma capacidade de alterar certas coisas para nos darem aquilo que nós precisamos, que é alimentos.

Claro.

Porque a semente é exatamente isso. A semente é uma coisa que muitas vezes o consumidor não se apercebe, que tudo começa na semente. Quando temos tomates que são com melhor sabor, que têm mais tempo de prateleira, que têm resistência ao transporte. Isto tudo vem dentro desta cápsula.

E com certeza vamos passar a olhar para ela de uma forma diferente, não é?

E é aqui que nós temos que perceber que cada cápsula tem que ser minimamente semelhante à outra para que nós consigamos fazer alguma coisa delas.

É esse o grande objetivo. Pedro, quanto tempo de ciência, cruzamentos e testes são precisos para desenvolver também uma nova variedade adaptada aos desafios das alterações climáticas, que temos vindo a falar imenso ao longo destes últimos anos?

Uma variedade nova não chega por acaso. Uma variedade, normalmente, com as técnicas atuais permitidas na Europa, porque temos aqui outro grande problema, que é a Europa gosta muito de legislar e gosta muito de pôr aqui alguns travões, algumas coisas. Neste momento, pode levar entre oito a 12 anos para conseguirmos estabilizar a variedade e conseguirmos chegar àquilo que nós queremos. Portanto, há aqui um trabalho de melhoradores vegetais, há aqui um trabalho de investigação, há aqui um trabalho de produtor de semente e há aqui um trabalho muito grande, porque como quando nós estamos a desenvolver um medicamento, um automóvel, nós temos que fazer testes.

E há aqui uma questão importante, que é: num país que enfrenta secas cada vez mais frequentes A semente é a primeira linha de defesa contra a escassez de água. Podemos, por exemplo, programar uma cultura para sobreviver com menos recursos? Isso hoje em dia já é possível?

É seguramente uma das primeiras linhas. A agricultura hoje tem desafios de temperaturas mais elevadas, tem secas mais prolongadas, temos fenómenos climatéricos, como ainda tivemos este ano, a Christine que-

O comboio de tempestades

...que devastou uma grande área e que deu cabo de culturas que estavam instaladas. Mas mesmo assim, nós conseguimos tirar dali produto, nós conseguimos rapidamente restabelecer e pôr as linhas a funcionar. O melhoramento vegetal pode ajudar a desenvolver as variedades que utilizem a água de forma mais eficiente, que tenham maior tolerância ao estresse, quer climatérico, quer hídrico, quer estresse de problemas de campo culturais. Ainda este ano tivemos aqui um tratamento de uma parcela ao lado, impactou o trabalho que estava a ser feito na outra parcela. E de repente tivemos que ajudar a planta, porque ela estava com um estresse atípico, porque estava a ser tratada alguma coisa que ela não tinha. Este estresse hoje, a capacidade da planta ter algumas resistências a determinadas coisas, permite-nos saber com a alta tecnologia, como dar resposta a isto e rapidamente, como é que nós podemos atacá-la, entre aspas, para conseguir ter aquilo que desejamos no fim, que é a segurança alimentar e conseguir produzir alimentos.

Nós hoje em dia ligamos muito aos rótulos, se calhar passamos demasiado tempo no supermercado também a olhar para isso mesmo. Quando se compra um produto tecnológico, procuramos, claro, a garantia de qualidade. Na semente acontece o mesmo. Qual é o papel dessa certificação, até mesmo para a questão da segurança alimentar?

A certificação é o garante de que aquilo que nós vamos ter, tenha homogeneidade. Imagine que nós hoje, estamos a querer fazer uma cultura de tomate e no meio aparecerem-nos outras culturas. Ou dentro do mesmo tomate, temos tomates diferenciados e que um tem o ciclo mais curto, outro tem o ciclo mais longo e que têm exigências diferentes de água. Se nós não tivermos esta certificação, que é para nos garantir uma homogeneidade do lote, para nos garantir uma germinação, porque caso não germine é tal pedra, temos que criar capacidade do agricultor perceber que apesar da semente ser o custo mais barato que tem em toda a cadeia, poderá ser o que vai impactar mais no resultado final e pode comprometer a seara. A certificação é também o rigor que nos podem dar quando nós, por exemplo, eu faço aqui uma comparação rápida com aquilo que as pessoas possam ver hoje em dia. Se nós não tivermos os quatro pneus iguais no carro, o carro anda na mesma, mas anda pior, se não, mais. Se nós não tivermos a certificação e não tivermos as sementes todas dentro do mesmo parâmetro, do mesmo código, elas vão nascer na mesma, mas nós não vamos ter o mesmo rendimento e o agricultor não vai ter o mesmo tipo de atuação, porque não consegue ser homogêneo dentro do campo.

E esse é um belo exemplo também para todos aqueles que nos ouvem, perceberem a importância de tudo isto. Um carro, nós conseguimos facilmente entender esta analogia. Há quem tema que tanta tecnologia, Pedro Pereira Dias, possa apagar a diversidade na natureza. Como é que a Ansem também e o setor equilibram esta inovação tecnológica com a conservação da biodiversidade? E falamos aqui de um palavrão, quando estava a preparar este guião para esta conversa, bancos de germoplasma. O que é que é isto?

O banco de germoplasma é uma verdadeira biblioteca viva. Para a biodiversidade, nós temos três contributos que são necessários. A primeira é as variedades tradicionais que continuam a ser feitas em cada região. E com isso permitimos não só estarem em banco para memória futura, mas continuar, até mesmo fazer um melhoramento, conseguir que as variedades se vão adaptando às alterações climatéricas e as variedades tradicionais muitas vezes são bastante importantes, porque eu acho que a inovação e a biodiversidade não são conceitos incompatíveis, elas têm que estar juntas. Por quê? Porque nós precisamos de recursos genéticos para fazer melhoramentos. E quando há estes ataques climatéricos, nós temos que ir buscar, se calhar, plantas mais rústicas, mais antigas, porque o mundo é redondo e os ciclos estão cada vez mais curtos. Se calhar, nós já tivemos em tempos variedades que tinham aquelas condições e que tinham aquelas características. Se calhar não tinham outras, por exemplo, eu dou aqui um exemplo Antigamente as melancias eram muito grandes, a casca não tinha grande resistência, mas hoje as melancias são mais pequenas e são mais resistentes ao transporte. Mas fomos buscar variedades, se calhar antigas, para dar esta rusticidade, esta capacidade ao transporte. Mas, por outro lado, nós conseguimos, com inovação, dar a tal necessidade de aprimorar a semente para os dias de hoje. A biodiversidade tem que existir, porque sem ela nós não temos matéria-prima. Este é um conceito que eu acho que cada vez mais nós temos noção no setor que é preciso ter inovação, mas que é preciso preservarmos a matéria-prima genética que a natureza nos oferece, porque senão deixamos de ter soluções e nós precisamos sempre de soluções e estas são chaves que não podemos deitar fora.

Pedro, este podcast, "O Lado B da Terra", é muito dirigido para os jovens que possivelmente nos estão a ouvir e podem estar agora a ingressar no ensino superior ou estão a acabar o curso. Para aqueles que gostam de genética, bioinformática, biotecnologia, que tipo de carreiras é que estão a emergir nesta área em Portugal e também na Europa?

Este é, sem dúvida, um setor que eu acho que oferece as maiores oportunidades aos jovens. Primeiro, porque podemos trabalhar tanto dentro de portas como fora de portas.

Isso é uma grande vantagem.

Depois, porque não há dois dias iguais.

Para quem não gosta de rotinas, vai ter sempre um dia diferente.

A agricultura tem sempre desafios, a agricultura tem sempre coisas diferentes, porque o clima não é sempre igual, porque há um fungo no solo que nós temos que tratar. Nós hoje precisamos de genetistas, precisamos de melhoradores de plantas, precisamos de biólogos, precisamos de agrônomos, precisamos de gestores, precisamos de inteligência artificial, porque a agricultura hoje é de precisão. Hoje, neste momento, eu estou a tentar trazer para Portugal um projeto que está a ser agora feito em piloto em Espanha, que através dos drones, nós podemos perceber se a planta está em stress hídrico, se a planta está com algum ataque, se está com alguma doença que seja preciso tratar.

Ainda mais tecnologia.

E nós, sentados atrás de um visor, estamos a fazer um scan em não sei quantos hectares e claramente a perceber o que nós vamos ter que fazer para que aquela planta consiga crescer saudável e tirar o máximo potencial da planta. Eu acho que o desafio hoje para os jovens é trabalhar numa área que simultaneamente é o futuro da agricultura, mas também é o futuro do planeta. Eu acho que é muito desafiante nós conseguirmos hoje ter os jovens no setor, que é um lugar onde a ciência de ponta encontra os maiores desafios da humanidade, que é alimentar o futuro. Quem trabalha com sementes, trabalha com genética, trabalha com tecnologia, trabalha com inovação, trabalha também com o futuro do planeta. Precisamos de jovens que olhem para a agricultura, não como uma atividade do passado, mas como um dos grandes laboratórios ao ar livre, tecnológicos, que nós temos.

Uma oportunidade também para reinventar, não é?

A agricultura do futuro é um agricultor que, para mim, continua a ser essencial, a pedra essencial para existir. Precisamos de pessoas jovens aqui, que ao seu lado, cada vez vão ter mais ciência, vão ter mais capacidade de ter dados, de gerir dados e de tomar decisões com dados que hoje, às vezes, parece-nos impossível ter, mas que cada vez são mais evidentes que nós vamos tendo.

Pedro Pereira Dias, mesmo para terminar, se tivesse de resumir a importância deste setor a um jovem que se preocupa com a sustentabilidade, o que é que lhe diria?

Eu acho que diria que a ANSEM e o setor não trabalha apenas com sementes. Estamos a trabalhar com o futuro da agricultura, com a sustentabilidade do planeta e com a segurança alimentar das próximas gerações. Se quisermos resumir ainda mais isto numa ideia, eu diria que a semente é uma pequena cápsula de ciência, tecnológica e de futuro, e que dentro dela está concentrado um conhecimento que permitirá produzir mais alimentos com melhor qualidade e de forma cada vez mais sustentável.

Uma mensagem simples e que ao longo deste episódio também fomos aqui desconstruindo. Pedro Pereira Dias, presidente da ANSEM, muito obrigado por ter vindo aqui ao "O Lado B da Terra"-

Obrigado eu

...na Rádio Observador, no fundo, abrir-nos os olhos para o poder gigante que habita em algo tão pequeno como uma semente. "O Lado B da Terra" de hoje fica por aqui, mas da próxima vez que olhar para o campo de trigo ou até para um tomateiro, lembre-se que tudo começou com uma cápsula de alta tecnologia desenhada pela ciência ao serviço da natureza. Siga este podcast, "O Lado B da Terra", todas as semanas na Rádio Observador, todas as quintas com um novo episódio, e acompanhe também as novidades do projeto B Rural. Até à próxima semana.

Obrigado.