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Tiago Pereira, muito bem-vindo. Boa tarde.

Olá, como é que vocês estão?

Estou bem e tu também?

Sim.

Muito atrapalhado com os Oscars. A editoria de cultura hoje deve estar-

A editoria de cultura hoje está como está sempre, altamente profissional, eficaz e comprometida.

E atarefada.

É sempre atarefada.

Olha, vamos falar de livros.

Estás a rir? Isto não tem graça nenhuma.

Não, estou a sorrir.

Estás a rir para mim.

Sim, estou a ser simpático, mas posso fazer uma cara mais carrancuda, se quiseres.

Não faças isso.

Até porque tinha isto aqui para ti.

Ora bem. Eu hoje vou fazer uma confissão antes de falar.

Força.

A confissão é: eu vou falar de quatro livros que eu não li, mas que gostava de ler. E vou explicar porquê.

Como se é um critério? É um critério como outro qualquer.

Não, Bruno, as coisas não funcionam dessa maneira. Tem dias...

Tu só ouves música.

De bandas estranhas.

Bandas... Quê?

Baleia. Muito bem, o primeiro livro que eu vou querer ler, até porque é um livro curto, tem pouco mais de 100 páginas e é logo um bom princípio.

Isso ajuda.

Chama-se "Canción".

Estás a ver? Música.

Não, não foi intencional.

Foi.

O autor é o Eduardo Halfon, é uma edição da Dom Quixote.

O que é isto, "Canción"?

Olha, repara lá uma coisa, Nelson, vê lá que isto está outra vez por ordem alfabética, não sei se já reparaste.

Mas eu não faço isto de propósito.

É o documento que lhe faz isto automaticamente, ele não mexe.

Não.

É ele.

Bom, mas deixai-me explanar o meu sentimento. Eduardo Halfon, que é natural da Guatemala.

Guatemala.

Guatemalteco.

Exatamente. O ano passado, eu julgo que foi o ano passado, foi publicado um outro livro dele que se chama "Luto".

"Luto".

E ele falava nesse livro, na verdade, o princípio é muito parecido com o que acontece aqui, porque ao que parece, e o próprio já falou disto em várias entrevistas, ele está a desenvolver aquilo que, deves adorar esta palavra, Bruno, que é um projeto literário, em que ele vai viajando pelas suas memórias e da sua família e do seu país, para construir uma espécie de história. Em vez de estar dividido em capítulos, está dividido em livros. Cada livro fala de um pedaço temporal ou de uma relação familiar ou de um episódio histórico que seja mais marcante para ele e para o país dele. Este livro anterior, o "Luto", falava muito do avô e depois tudo o que possa ter a ver com perda, com morte e com envelhecimento. Aqui também há avô e também há envelhecimento, mas é diferente, porque há mais política e há um lado mais social. O Eduardo Halfon regressa aos tempos da guerra civil da Guatemala, que foi uma guerra extensa, começou no início da década de 60 e foi até aos anos 90. Uma guerra de guerrilha, portanto, complexa de resolver. E há uma personagem que é raptada, um judeu libanês. Aqui também há uma relação com o seu passado judaico e da sua família.

E é o avô do narrador?

Exatamente, é o avô do narrador. O narrador chama-se Eduardo Halfon e vai à procura deste homem desaparecido para saber que ligação familiar é esta, o que é que se passa, o que é que ele vai descobrir sobre ele próprio e sobre o país. E no meio disto tudo, depois também há muita referência à América Latina no geral.

Aliás, esta é uma tendência também muito presente em livros de autores da América Latina, colombianos, de outros países, que é precisamente partir das memórias pessoais e depois fazer uma análise. Eu não diria que é autoficção, mas talvez seja um dos pontos de partida, seja essa autoficção. Um ponto de partida, sem dúvida, é a história pessoal e partindo daí, chega-se então à sociedade, às questões políticas e é o que ele faz neste livro. Fazendo uma outra coisa que também hoje é muito frequente em muitos autores, que é começarem a falar das suas atividades enquanto escritores, das deslocações que fazem.

O que é que fazem para alimentar a sua escrita.

Exatamente. No fundo, quando tu começas a publicar e te tornas escritor, com isso vem uma alteração dos teus hábitos.

E do teu dia a dia.

Do teu dia a dia, passas muito tempo em conferências, em festivais, a apresentar o livro, a falar com leitores, a ir para países estrangeiros. E isto começa com uma ida ao Japão, um convite que lhe é feito por ele ser um escritor libanês, que ele não é. E ele parte daí para depois chegar a essa história do avô, do sequestro do avô, e então aí depois entramos na história propriamente dita da Guatemala e da história da guerra civil da Guatemala.

Nota, Nelson, que o Bruno disse: "Quando tu escreves e quando tu te tornas escritor". E estava a olhar para mim.

Tu também tens um escritor dentro de ti, mas guarda-o aí.

Não o deixes fugir.

Olha, vamos avançar. Depois de "Canción", de Eduardo Halfon, "A Cláusula Familiar", de Jonas Hassen Khemir.

Olha, deixa-me só esclarecer uma coisa. O "Canción" do título refere-se ao nome de um dos tipos que sequestrou o avô do tal Eduardo Halfon.

Por isso é que ele foi contratado, porque ele depois sabe explicar estas coisas. E é preciso alguém para...

"Canción".

É como aqueles senhores que traduzem as jogadas de futebol.

Eu sou o Luís Freitas Lobo dos livros.

Exatamente.

Sim, isto é só para quem realmente ama profundamente os livros.

Exato.

Não sei se é assim bem a frase do Luís Freitas Lobo, mas é parecida.

Olha-

"A Cláusula Familiar", o que é?

Sim, há aqui mais uma curiosidade, pelo menos em três destes livros, é que todos eles são sobre família. O primeiro tem um lado familiar muito forte, este segundo também tem. Só que aqui é um olhar mais atual. Este autor sueco, Jonas Hassen Khemir, fico sempre sem saber como é que se faz a pronúncia destes nomes, conta a história de um pai que também é avô, ao mesmo tempo, e que não vive na Suécia, há muito deixou a sua família, regressa um par de vezes por ano a casa para tratar de deveres e questões administrativas, mais preocupado com os seus negócios do que outra coisa. E depois há o filho Que também mantém uma ligação quase burocrática com o pai, porque é preciso manter alguns laços por causa de imóveis e de coisas que estão no nome dos dois e essa questão das partilhas e tudo isso. Mas nós encontramos estas duas personagens num momento de rutura, daí o nome "A Cláusula Familiar", ou seja, em que esta cláusula de repente está em risco e há alguém nesta relação que não quer mais viver este tipo de relação. Que tipo de impacto é que isto tem? Quais são as origens de um tipo de relação familiar como esta? O que é que a sociedade atual tem a ver com este tipo de relação? Portanto, é mais um livro romance, é ficção, que procura partir de uma história particular para tentar traçar um retrato mais geral de uma realidade específica, neste caso, a realidade familiar. O livro foi originalmente publicado em 2018. Este Jonas Hassen Khemir tem apenas 44 anos e com este romance ele foi finalista do National Book Award, que eu diria que é um prestigiado prêmio literário americano. Não fica mal a ninguém. Já agora, a edição é da Elsinore, esqueci-me desse detalhe.

E agora olhamos para uma outra sugestão do Tiago, "Mortal e Rosa". É um livro de Francisco Umbral.

Sim, e é uma edição da Tinta da China. Francisco Umbral foi jornalista, foi escritor espanhol. Morreu em 2007. Escreveu ficção, escreveu ensaios, biografias. Talvez este "Mortal e Rosa" seja o livro que lhe é mais facilmente ou rapidamente associado, porque é mais um daqueles casos, ainda agora o Bruno estavas a falar de partir da biografia, da história de vida, para construir uma espécie de ficção, que não é bem ficção. Aqui acontece um bocado isto, porque o autor parte da morte do seu único filho, que morreu aos seis anos, vítima de leucemia, e escreve um livro precisamente sobre, não sei como é que lhe podemos chamar, a separação definitiva, ou a despedida, a possível despedida.

Sobre o sentido disto tudo.

Ou isso.

Quando isto tudo não faz sentido nenhum.

Exato.

E é curioso, estamos aqui a falar destas questões da autoficção, que é sempre um termo muito redutor e que hoje é colado aos livros e as pessoas já torcem o nariz. Aqui a ideia inicial do Francisco Umbral quando escreveu este livro, isto foi publicado em 1976, era escrever o que ele dizia ser um romance da vida. Ou seja, ia escrevendo com inspiração no dia a dia e das suas impressões, nos seus pensamentos. Portanto, era um romance em aberto. E então, nessa altura, acontece essa tragédia, acontece a doença do filho e ele o que faz é incorporar isso que lhe estava a acontecer.

Até porque provavelmente não conseguia escapar a isso.

Claro, se a ideia era escrever sobre a vida, o dia a dia, o que lhe acontecia.

Era inescapável.

De repente, cai-lhe isso em cima, a doença do filho e depois a morte, e era inescapável, na verdade. E ele continua a escrever e o livro acaba muito por ser um livro sobre a perda, sobre a nostalgia, esse corte com a infância, de como nós recuperamos a nossa infância através dos nossos filhos. E neste caso, depois perde-se esse regresso à infância. É um livro que nós estávamos a ver ainda há pouco, já tinha sido publicado em Portugal.

Sim, teve uma primeira edição portuguesa em 2003 pela Campo das Letras, mas agora, quase 20 anos depois, é uma bela oportunidade para revisitar esta história.

Esta edição tem tradução do Carlos Vaz Marques, que chegou a entrevistar o Francisco Umbral em Espanha. E eu no outro dia também estava aqui há pouco à conversa, estava a ler uma entrevista do jogador do Real Madrid, o Michel.

Que eu não conheço de lado nenhum.

Tu não conheces, mas é um dos maiores símbolos do Real Madrid, é treinador.

Era defesa?

Era médio.

Era médio, Nelson.

Depois eu estou confundido.

E ele conta que era vizinho do Francisco Umbral e que era um tipo muito severo.

Áspero.

Era. Aliás, tinha essa imagem pública, mas depois sabia quem ele era, sabia que ele era o jogador de futebol.

Exatamente.

É uma coisa lateral, uma história à parte.

Ora bem, fechamos as nossas sugestões literárias da semana com "The Urge: Our History of Addiction". Eu gosto como terminas sempre com as tuas sugestões literárias com um livro um bocadinho mais de autoajuda.

Sim, isto é para nos ajudar a perceber o fenômeno do vício, da adição.

De Carl Erik Fisher.

Sim, o livro é escrito por Carl Erik Fisher, precisamente. Ele, que é um médico que trabalha a adição e o vício, portanto, os seus pacientes são pessoas que têm problemas de adição e ele procura ajudar a resolvê-los. Ao mesmo tempo, é também um viciado em recuperação. Mas ele também dirá que se calhar somos todos um bocadinho, dependendo do grau. E basicamente este é um livro que explica de onde é que vem o impulso para nos tornarmos viciados em alguma coisa, o que é que determinados vícios fazem por nós, entre aspas, naturalmente, e qual a razão de irmos atrás deles, que consequências é que existem, de onde é que isto vem na história. Mas quando digo na história, é na história natural da evolução do homem, portanto, é uma coisa que não foi inventada pela sociedade do século XX ou pela revolução industrial.

Que é que há pessoas que são mais suscetíveis aos vícios.

Exatamente. É todo um tratado sobre o vício.

Tu és viciado em quê? Conta lá.

Eu sou viciado em ti.

Isso agora

Isso era a palavra música.

E agora compliquei totalmente esta emissão.

E agora ficou aqui um clima um bocado pesado.

Não, eu acho que ficou bastante bom.

Ficou amoroso o momento. Um momento bromance aqui na TSF Direta.

Precisamos todos de algum bromance de vez em quando.

Eu pensei que era em bandas obscuras.

Não, nada disso.

Está feito. O Lado Bom da Vida, às terças-feiras, com sugestões de livros trazidas pelo Tiago Pereira. A edição de hoje fica já disponível lá em podcast e também no nosso site em observador.pt. Até amanhã, Tiago. Obrigado.

Até amanhã.