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Se pudessem, Lobato, Vaz e Rosa adorariam estar ali. Ver a cara dos guardas naquele momento em que abrem as portas das celas para as encontrarem completamente vazias, só mesmo pelo prazer de os ver a passar do espanto à indignação. Como conseguiram sair daqueles cubículos? Como cometeram a proeza de transpor as portas de ferro maciço e desaparecer sem que ninguém tivesse dado conta? Sem fazer qualquer barulho? Sem deixar rasto? Naquela manhã de março de 1970, quando o alerta soa na prisão de Quindá e os carcereiros fazem buscas em todos os recantos do hexágono, Lobato, Vaz e Rosa já estão bem longe.

Em São Domingues pensa só desde o primeiro dia. É uma coisa que nunca sai da cabeça do prisioneiro, é fugir. Só que começa a olhar em volta e ver as coisas, mas fugir como? Paredes de cimento de um metro de largura, ferros, não sei quê tamanho. Mas vai pensando, todos os dias penso em fugir, até que há um dia que surge uma ideia.

Passam quase sete anos desde o dia em que o sargento António Lobato foi trancado pela primeira vez na cela número sete. Está visivelmente mais magro. Veste apenas uns calções velhos, tem o rosto atravessado por uma enorme cicatriz e as costas nuas carregam as marcas das catanadas que levou anos antes. As paredes da cela, que agora foi deixada vazia, estão cobertas dos traços que foi fazendo para assinalar a passagem do tempo com a fivela das sandálias de plástico que lhe deram no dia em que foi capturado. Esteve perto do suicídio, mas nunca esqueceu Maria dos Anjos e a promessa que lhe fez naquela última noite. "Eu voltarei." A mesma promessa que reforçou nas cartas que lhe escreveu da prisão. Agora, Vaz e Rosa, os portugueses que conhece atrás das grades, trazem-lhe mais do que notícias do mundo lá fora. Renovem a vontade de regressar e acabam por revelar-se as peças que faltavam em todos os planos de fuga que arquitetou ao longo do tempo que ali passou, em Quindá. É com eles que vai voltar a saborear a liberdade durante uns dias. Este é "O Sargento na Cela 7", uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, PP Rapazote, com banda sonora original de Noiserf.

Esta é uma história real e é o conhecimento da História que guia a onda em direção a um futuro melhor. Nesta viagem, os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir.

Episódio quatro: Em fuga pela selva. Um ou dois meses antes da fuga, no início de 1970, botes de borracha começam a dar à costa de vários países africanos, sempre a coberto da noite. Nos dias e às horas combinadas, estão dezenas de homens escondidos, que se aproximam dos barcos de forma furtiva. Só embarcam depois de dizerem a senha combinada previamente via rádio. Ao longo de vários meses, estas operações de recolha de homens sucedem-se sem problemas, sempre com Alpoim Calvão no comando, o homem que é o cérebro das operações especiais conduzidas pelos portugueses na Guiné. Depois, há uma noite em que durante um desembarque na Serra Leoa, o comandante é surpreendido por uma patrulha do exército local. Em segundos, a frota portuguesa está debaixo de fogo. É preciso abortar a missão. Na retirada apressada, há dois botes de borracha que ficam para trás, mas ninguém é ferido. Sem o saberem, os portugueses escolheram precisamente a noite em que uma tentativa de golpe de Estado está em curso no país. O incidente não impede que o objetivo final seja cumprido. Ao todo, são recolhidas duas centenas de homens na Serra Leoa, na Gâmbia e no Senegal. Todos são levados para a mesma localização secreta, de onde não vão poder sair durante os meses seguintes. E todos recebem a mesma ordem. Quem manda são os portugueses. Começou a Operação Mar Verde. Enquanto Alpuy, Calvão e Spínola fazem os preparativos para uma das operações mais obscuras da história portuguesa, Lobato, Vaz e Rosa têm os seus próprios planos em andamento na prisão. Por esta altura, o piloto está preso em Quindiá há quase sete anos. Não é a primeira vez que pensa em fugir, mas até agora, todas as tentativas que fez foram um fracasso. Uma vez, saiu simplesmente porta afora num dia em que apanhou os guardas distraídos e os portões abertos. Foi logo apanhado pelas mulheres dos carcereiros, que deram o alerta. Ao longo de meses, passou várias noites em claro a tentar serrar as quatro barras de ferro que tinha nas traseiras da cela. Usava uma pequena lâmina que lhe tinha arranjado Joseph Chambore, o prisioneiro guineense que controlava a prisão. O objetivo era cortar as grades, viçar-se pela abertura e saltar depois para o aterro a céu aberto, onde eram despejados todos os baldes e barris da prisão. Uma vez nesse espaço, a única coisa a separá-lo da liberdade seria a muralha de três metros de altura que rodeava toda a prisão. Mas esse plano também não resultou. A partir do momento em que deixa de estar sozinho, Lobato percebe que poderá haver uma saída. Vaz e Rosa estão na mesma situação. Também eles só têm um objetivo.

Não concebo que haja um prisioneiro que não pense em fugir, a não ser aquele prisioneiro que tem o caso das penas, tem que um ano ou dois, 30, 50 anos. Um gajo que não fazia ideia se era libertado hoje, se era daqui a 100 anos. Qualquer preso tem obrigação de pensar em fugir. Tem obrigação, a vida dele está em risco. Não é ficar ali assim, é quebra a todos os dias, espero que está bem.

Juntos vão finalmente desenhar o plano que acreditam que os vai libertar. Lobato passou anos e anos com mil ideias na cabeça sobre como poderia fugir. Percebe agora que só seriam precisas duas coisas: uma barra de sabão azul e branco e uma frigideira velha. Primeiro passo: identificar o ponto de fuga. Atrás da cela dos presos intelectuais, no recinto onde passam as horas de recreio, há um grande depósito de água com um tanque na base. O espaço está murado a toda a volta. Ao lado, separado por uma pequena porta de ferro, fechada a cadeado, há outro recinto que um dos guardas usa como horta. E depois dele, o muro exterior da prisão. Se conseguirem chegar à horta, também conseguirão saltar o muro. São três metros de altura, mas eles também são três. Empoleirados nos ombros uns dos outros, hão de conseguir passar para o lado de lá. Segundo passo: abrir a porta da horta. Para além do carcereiro, só um preso da sua confiança tem autorização para entrar e trabalhar a terra. Roubar-lhe a chave não seria muito difícil. O homem vai à horta quase todos os dias e enquanto lá está, deixa sempre a chave pendurada no cadeado. Mas assim que desse pela falta dela, o guarda mudava a fechadura e o plano ia por água abaixo. Vão ter de fazer eles próprios uma chave. E é aí que entra o sabão azul e branco. Agarram num pedaço que encontram junto ao tanque dos presos intelectuais e fazem um molde. Com a frigideira velha vão fazer o resto.

Apanhámos uma altura a chave metida no cadeado e arranjámos um bocado de sabão e vincámos a chave no sabão. E depois começámos a fazer a chave da tal frigideira, uma frigideira velha que estava ali.

E com aquele molhozinho de cimento e com o ase a rascar nas esquinas de cimento entre a cela, o ferro, tanto se andou, tanto se andou, até que chegou o fundinho e a chave com jeitinho dava para abrir o cadeado.

É paciência que se há de ter para fazer uma chave de um cadeado ideal, que é aquelas chaves normais, sem facas, sem limas, sem nada. É preciso ter paciência, é preciso estar preso.

Terceiro passo: escolher o momento. Durante meses, estudam a rotina dos guardas. Percebem finalmente que há uma equipa que nunca olha para as celas antes de atirar a marmita do jantar lá para dentro e de trancar as portas de ferro que estão entreabertas. Se conseguirem ficar do lado de fora sem que ninguém dê por isso, têm a noite inteira para fugir. Quarto e último passo: ficar invisível. Fora das celas, Lobato e os restantes têm de encontrar um sítio para se esconderem, até que possam pôr em marcha a fase final do plano. O que nos leva de volta ao primeiro passo. Lembra-se do depósito de água? É dentro dele que os três homens vão passar as primeiras horas da noite de 17 de março de 1970, com água pela cintura, mergulhados num profundo silêncio. Os homens que o comandante Alpuy Calvão passou meses a recolher nos países vizinhos estão todos juntos, numa ilha remota no arquipélago dos Bijagós, na Guiné-Bissau. Em comum, têm o facto de serem naturais da Guiné-Conacri e de se oporem ao presidente Sekou Touré. Desde 1966, que alguns dissidentes organizados na Frente Nacional de Libertação da Guiné, a FNLG, estão em contacto com o Ministério do Ultramar português. Querem ajuda para fazer um golpe de Estado e derrubar o homem que em 1958 conduziu o país à independência e o transformou num regime ditatorial

A Guiné era um sítio muito difícil para viver naquele tempo. A partir de 1961, 62, tornou-se num sítio muito difícil. Foi por isso que eles procuraram ajuda para fazer uma operação dessas. Falando pelo meu pai e pelas pessoas que o rodeavam, eram pessoas que tinham planos para o país e não planos para eles próprios.

Bilguissa Diallo nasceu em França, é jornalista e filha de um destes homens que se opunham a Sekou Touré. Mais do que isso, o seu pai, Thierno Diallo, veterano do exército francês com três guerras no currículo, era o militar mais graduado da FLNG. Ao contrário dos outros dissidentes, que são recolhidos de bote de borracha e levados depois para a ilha de Soga, o pai de Bilguissa acompanha tudo à distância, a partir do exílio em Paris. José Matos, investigador em história militar e especialista no período da guerra de África, explica que os objetivos da operação idealizada inicialmente por Alpoim Calvão vão crescer.

O João Pina sugere ao comandante Calvão que, em vez de irem lá a Conacri apenas destruir os barcos e libertar os prisioneiros, podiam fazer uma operação de grande envergadura em que derrubavam o próprio regime do presidente Sekou Touré. E é aí que a Mar Verde ganha a dimensão que nós conhecemos.

Quem entra, já não sai. Esta é a primeira e mais importante regra imposta pelos portugueses em Soga. Na ilha é construído um aquartelamento para acolher e dar treino militar aos cerca de 200 dissidentes da Guiné Conacri, que para ali foram levados no maior secretismo. Nos primeiros tempos, nem os militares chamados para ensinar estes homens a combater sabem ao que vão. No grupo, há antigos combatentes, mas a maior parte nunca pegou numa arma. Desta mistura de homens, que em muitos casos nem a mesma língua falam, vai ser preciso fazer um batalhão capaz de cumprir os objetivos estabelecidos pelo comando de Bissau. Objetivos que ao longo dos próximos meses não vão parar de crescer.

Os dissidentes eram de vários países diferentes. Estamos a falar de pessoas que nem sequer eram militares. Um era, por exemplo, padeiro, o outro vendia alfaces na praça e portanto, coitados, foram para ali levados. Alguns receberam dinheiro, foram recrutados dessa forma, mas eram obviamente pessoas que não tinham treinamento militar. E não era fácil em poucos meses conseguir-se ali constituir uma força coesa. E logo aí se percebe também inicialmente que vai ser necessário envolver tropas especiais portuguesas na operação, porque se essas tropas não fossem envolvidas, a operação seria logo à partida um fracasso.

Alguns homens chegam a passar seis meses na ilha, proibidos terminantemente de comunicar com o exterior. Para manter o moral das tropas, os portugueses resolvem seguir o exemplo do exército francês, criador do conceito do bordel móvel de campanha. No bairro do Copilon, em Bissau, são recrutadas várias mulheres e instaladas no aquartelamento em tendas de campanha. Também elas só vão poder sair de Soga no final da operação. A noite está prestes a cair na prisão de Cundíar. Lobato, Vaz e Rosa estão escondidos a três metros de altura, dentro do depósito de água, no recreio da prisão. Começam a ouvir os primeiros sons das orações que os presos entoam todas as noites.

A partir do momento em que fechavam as celas, toda aquela gente, são muçulmanos, começavam a rezar. Aquilo grita à noite. Aquilo enchia-se. Dizem: "É a altura ideal para a gente saltar o lado do depósito e ir embora". E assim foi. Quando eles começaram a rezar, quer dizer que as celas estavam todas fechadas, as salas estavam todas fechadas.

O modo de estar lá escondido, logo que as celas eram fechadas, era meia hora, uma hora antes de escurecer. Logo que se faz noite, foi na altura que nós pudemos à sola.

Saímos, fomos para ali, para o outro lado, e depois com a ajuda dos outros fomos para cima do muro, demos não sei o quê para puxar o último. E eu lembro-me que caí para o outro lado e fiz um mortal sem saber como, não me magoei. Era alto mesmo assim.

Cinco ou seis metros do lado de fora. Do lado de dentro dava os três metros e meio, quatro metros. Então era pôr em cima uns dos outros e puxar aquele caneto. E por cima tinha vidro, aquela brincadeira.

Pela primeira vez em quase sete anos, António Lobato está em liberdade. E não há tempo a perder. Assim que se veem do outro lado do muro, começam a correr em direção ao monte que há em frente e que durante anos tinham avistado da prisão. É a única referência que têm. Isso e uma página de um antigo livro de instrução primária, que em tempos tinham encontrado no chão do recreio e que tem um mapa rudimentar da Guiné Conacri. É com ele que tencionam chegar, a pé, até à fronteira com a Guiné portuguesa, a cerca de 200 quilómetros. Ao longo dos meses de preparativos, Vaz tinha insistido muito num plano alternativo.

Nós estávamos sensivelmente a 150, 200 km da fronteira. Segundo os meus cálculos, pelas horas que eu levei de carro. Ora, fazer aquilo a pé, com as condições de alimentação que nós tínhamos, ou a hipótese que tínhamos de ser alimentados, era muito reduzida. Quando um gajo num táxi resolveu ir aquilo numa noite.

Mas vocês não tinham dinheiro para pagar o táxi.

Meter dentro do táxi do campo para lá era fácil. Depois de estar lá dentro, ele a conduzir como conduzia eu, não havia problemas nenhuns E se tivesses o pescoço apertado, podes ter a certeza que o táxi anda. Ias lá, mandavas o gajo para trás, torcia-lhe o pescoço, mas ficavas na Guiné. Em vez de andarmos oito dias aos saltos de parede para aquelas serras acima.

Só que este plano nunca foi para a frente. Os outros dois prisioneiros não aceitaram porque não queriam matar ninguém. Vaz foi derrotado na votação.

Porque eles sabiam perfeitamente que nós só nos safávamos bem chegando à fronteira, matar o taxista, que é para o gajo não andar para o quartelamento ao lado e chamar dois turras. A gente sabia, tinha ali para o Ser Ambes, não é aquilo. O Rosa nunca viu um morto na Guiné e o Lobato também não. O Lobato andava só pendurado no ar. Mas depois no caminho, várias vezes se disseram: "Porra, a gente vinha melhor de carro".

Bem longe dali, isolados do mundo e sem qualquer contacto com o exterior, os dissidentes continuam a ser treinados na ilha de Soga. Em botes de borracha, ensaiam o desembarque em Conacri e aprendem a manobrar as armas que vão usar no ataque à capital da República da Guiné. A maior preocupação do regime é que Portugal possa, de alguma forma, ser associado à Mar Verde. Nada vai ser deixado ao acaso. Para que a dissimulação seja perfeita, vão ser usadas armas semelhantes às do PAIGC de fabrico soviético, 250 metralhadoras Kalashnikov, 12 lançadores de granadas RPG7 e dois morteiros de 82 milímetros. A compra é feita na Bulgária, através de um intermediário francês, contratado por uma empresa do norte de Portugal, habituada a trabalhar com o Ministério da Defesa. O negócio é supervisionado pelo próprio subdiretor-geral da PIDE/DGS. É Barbieri Cardoso quem dá a ordem para que o armamento seja enviado de avião de Sófia para Lisboa e vá depois de barco até à ilha de Soga. Mas os cuidados não se limitam às armas usadas.

Quando são feitos os preparativos, há, de facto, uma grande preocupação em dissimular completamente a participação portuguesa. E como? Por exemplo, os uniformes das tropas portuguesas são feitos de propósito para a operação e são uniformes completamente descaracterizados, semelhantes ao das tropas guineanas para serem confundidos. Os próprios barcos da Marinha são descaracterizados também. Portanto, há todo um cuidado na preparação para que, de facto, Portugal não apareça associado.

José Matos, autor do livro "Ataca Conacri", conta que nenhum detalhe foi descurado. Até as caixas de fósforos e os maços de cigarros que os homens vão levar para a operação, foram comprados antecipadamente na Guiné Conacri.

Vamos supor, mais uma vez uma situação caricata, que um soldado levava cigarros portugueses e depois estava lá a fumar em Conacri e metia o cigarro para o chão. Das próprias tropas especiais que participam, alguns oficiais dessas tropas eram oficiais brancos e vão pintados de negro, para parecer que é tudo negro.

O problema é não ter sido possível igualar este nível de preparação noutros aspetos, aponta o diplomata Bernardo Funchal Pereira, o que virá a revelar-se fatal para a operação.

No aspeto militar, tomam-se todos os cuidados possíveis e imagináveis, mas no aspeto das informações, há muito poucas informações. O Alpoim Calvão tem que recorrer a folhetos turísticos, para fazer tudo aquilo numa noite era difícil.

A PIDE não tem agentes em Conacri que possam fornecer informações sobre a capital e o país. Alpoim Calvão é obrigado a recorrer a todos os meios possíveis. Para além de folhetos turísticos, chega a analisar fotos impressas em capas de discos e recorre à lista telefónica para perceber a localização de vários dos objetivos da operação, entre os quais ministérios e quartéis. A Mar Verde tinha nascido inicialmente para destruir as lanchas do PAIGC e libertar os prisioneiros portugueses, mas por esta altura já está transformada numa operação megalómana com mais de 50 alvos. Para além de derrubar o presidente Sekou Toure e instaurar um regime favorável a Portugal, a operação vai tentar capturar Amílcar Cabral, o líder dos independentistas. Se Alpoim Calvão só tem folhetos turísticos para se orientar em Conacri, Lobato, Vaz e Rosa não estão muito melhor. Em fuga pelo meio da selva, contam apenas com o mapa do livro da escola que encontraram na prisão. Não estão armados. Cruzam-se com macacos, hienas, onças e cobras, mas não chegam a ver os tigres, leões, búfalos ou veados que sabem que também há por ali. Para se defenderem, cada um leva um pau. Não lhes servirá de nada para os proteger de outros perigos, como os que surgem no chão, em forma de precipícios, fendas, covas ou desníveis, que chegam a ter de transpor à Tarzan, pendurados em lianas.

Para descer dos níveis, havia uma liana enorme, não havia outra maneira de descer, encurtar caminho. Quando pus os pés lá embaixo, o que é que há? Uma almofada, não sei qual era a espessura, enorme, de bicharada toda a mexer, pareciam centopeias, aquele barulhinho, tudo a mexer. Quando pus os pés em cima, aquilo faz assim. Havia milhões de centopeias, aquilo era terra virgem. Isso não me posso esquecer, porque a sensação é única.

Passam os dias escondidos no meio do mato e caminham à noite pelas estradas. Apesar de terem apontado a fuga para a época das mangas, para que não lhes falte comida, não é assim tão fácil encontrar frutos. Estão frágeis e subnutridos e sempre que avistam alguma aldeia, são obrigados a fazer grandes desvios à rota desenhada em paralelo à estrada que liga Kindia a Cumbiar. Três brancos a deambular no mato, sozinhos, nas profundezas da Guiné-Conakry, nunca vão conseguir passar despercebidos. Percebem isso ao quarto dia de fuga, quando veem surgir no meio do mato, um ribeiro e uma horta cheia de tomates e se precipitam nessa direção. Enquanto comem e tomam banho, são surpreendidos por um miúdo, de uns seis ou sete anos, que desata a correr aos gritos em direção à aldeia. Ainda tentam fugir por uma encosta acima, mas são apanhados pelos aldeões em fúria.

E diz um deles assim: "E munye tinara?" Eu com uns anos fui aprendendo algumas coisas dos dialetos deles, quer fula, quer susu. E munye tinara quer dizer: vocês são ladrões. Eu respondi-lhe: "E munye timara de." Nós não somos nada ladrões. Ele ouviu-me falar na língua dele, teve um impacto enorme naquele sítio.

Ganha que está a confiança dos homens, Lobato passa imediatamente para francês, até porque o susu que sabe não chega para mais. No momento, inventa uma história alternativa para justificar quem são e o que fazem ali.

Expliquei, nós somos técnicos de celeste. Abriu-nos o carro lá para baixo, não sei onde. Sabíamos que havia uma estrada, que era uma das nossas referências, era uma estrada que ia de Kindia para Concuré e sabíamos que havia um rio que tínhamos de atravessar, que era o rio Concuré, justamente. Tudo por aquele mapazinho, que era deste tamanho. O indivíduo acreditava naquilo que a gente estava a dizer. Vamos para a barragem do Concuré, damos lá apoio, mas o jipe avariou lá embaixo e depois perdemo-nos pelo caminho, para encurtar caminho. "Bom, então está bem. Vamos lá para baixo para a aldeia."

O chefe da aldeia está fora e é ele quem vai decidir o que fazer com os três homens, dizem-lhes quando lá chegam. Ainda tentam ir-se embora, mas nada feito. São obrigados a passar ali a noite. No dia seguinte, assim que o sol nasce, são despertados pelo filho do chefe da aldeia. Explica-lhes que como o pai ainda não chegou, vai ele acompanhá-los até à barragem. Não leva reforços, só um rádio, mas esse passa a ser o maior medo para os três fugitivos.

E o rádio sempre a tocar. Dizemos: "Estamos lixados. Há aí uma notícia qualquer de que há fuga de prisioneiros e o que é que a gente faz?" Dizemos: "A única coisa que temos a fazer é, os rapazes têm de desaparecer." É assim, não é? Temos que ver o que é que havíamos de fazer. A não ser que na rádio não aparecesse nenhuma notícia. Felizmente, não apareceu.

Já quase a chegar à barragem, o rapaz deseja-lhes boa viagem e vai-se embora. Lobato, Vaz e Rosa nem querem acreditar. Conseguiram enganar uma aldeia inteira. Estão safos, podem seguir caminho. Da próxima vez, não vão ter a mesma sorte. Em Soga, está praticamente tudo pronto para o ataque a Conakry, mas ainda falta o passo mais importante. No governo, poucos estão a par do que está a ser preparado e os que sabem, estão contra. Concordam Bernardo Funchal Pereira e José Matos.

O ministro Sérgio Gaúcha Dias estava fora da jogada, não sabia de nada. Silva Cunha, que era o ministro do Ultramar, opôs-se. O ministro da Defesa, que era outro general, Saviana Rebelo, muito reticente. Houve muitos casos destes, de operações clandestinas, nenhuma operação com a ambição da Mar Verde, mas houve muitos casos de tentativas de conspiração, etc., que depois foram abortadas à última hora. Neste caso da Operação Mar Verde, certamente que quem sabia, que eram muito poucas pessoas, havia muitos que estavam contra.

A nível do poder político, o próprio presidente do Conselho, Marcelo Caetano, não sabia de nada. Aliás, o professor Marcelo Caetano é abordado uma semana antes da operação decorrer. E por quê? Porque o João Spínola, obviamente, para desenvolver uma operação desta envergadura, precisava de alguma cobertura política, não podia executar de qualquer forma.

A poucos dias da data prevista para a operação, a Mar Verde não tem autorização para avançar. Numa corrida contra o tempo, o comandante Alpoim Calvão apanha um voo em Bissau rumo a Lisboa. Leva uma carta de duas páginas assinada pelo general Spínola e dirigida ao presidente do Conselho, Marcelo Caetano. Spínola dramatiza a situação. A operação é a última oportunidade para Portugal conseguir inverter o rumo dos acontecimentos na Guiné e não perder a guerra.

Encontramo-nos no momento crucial da vida da província e em tal conjuntura, ou empenhamos todos os meios para neutralizar o potencial de guerra do inimigo nos seus santuários ou perderemos irremediavelmente a Guiné.

Marcelo Caetano acaba por dar luz verde à operação. Faz apenas uma exigência: que não seja deixado qualquer vestígio que implique os portugueses. Dentro de poucos dias, a realidade vai encarregar-se de comprovar que essa pretensão era muito ingênua. Nunca houve dúvidas sobre quem estava por trás da Mar Verde. Sem saberem de nada disto, Lobato, Vaz e Rosa estão há vários dias em fuga e só têm um pensamento: chegar à fronteira com a Guiné Portuguesa. Tentam ao máximo evitar povoações. Até aqui conseguiram sempre safar-se dos raros encontros que tiveram, mas agora o caminho está a chegar ao fim. É noite. Estão em plena cordilheira do Futa Djalon, uma região montanhosa no norte da Guiné. Já percorreram uns 130 km, mas ainda estão muito longe da fronteira. Seguem por uma estrada quando, de repente, dão de caras com um grupo de homens.

Isso surge na nossa frente, subitamente, meio dos irvultos, todos vestidos de branco da cabeça aos pés, muito mais altos que nós. Cumprimenta-nos em fula, a gente cumprimenta-os também e a seguir a primeira palavra que eles dizem: "E portugueses?" "Não, somos técnicos." "E portugueses." E é pronto, estamos feitos. Estes não os enganamos.

E não, não os enganam. Após tantos dias em fuga pelo meio da selva, percebem que todo aquele esforço não valeu de nada. Tudo falhou. Mas é mês de Ramadão. Depois de fazerem o caminho de volta para a aldeia, os homens que os apanharam hão de rezar. Vão quebrar o jejum com um faustoso banquete em que se junta toda a aldeia e os portugueses são convidados.

Quando fui apanhado pelos gajos, esperava ser maltratado e não fui. Eu comi uma feijoada que me deram no dia que apanharam a gente. A fome com que eu andava.

Só depois de comerem é que são entregues ao comandante da polícia. Vão ser recambiados de volta para a prisão de Kindiá. No regresso, Lobato encontra a cela número sete ocupada. No seu lugar, está agora o diretor da prisão. Um homem que antes da independência tinha chegado a ser chefe de Sékou Touré nos correios da Guiné Conakry. Agora, tinha recebido ordens do próprio presidente para se trancar no lugar do piloto português. De lá só poderia sair quando ou se os fugitivos aparecessem. No dia em que isso acontece, tudo muda. Lobato é fechado na cela número três e volta ao regime de isolamento. Ao longo de um mês e meio, quebra-se o elo entre os três portugueses. Apesar de não serem castigados fisicamente, são mantidos afastados e perdem o direito ao tempo de recreio. Só voltam a reunir-se no pátio de Kindiá, na manhã em que três guerrilheiros do PAIGC os metem num jipe em direção a Conakry. Depois da fuga que quase foi bem-sucedida, os independentistas não querem correr riscos. São levados para uma casa-prisão que o próprio movimento controla na capital. Um edifício que foi adaptado para receber prisioneiros, por causa do aumento do número de militares portugueses capturados ao longo dos anos. Ali vão juntar-se a outros 23 homens capturados na Guiné Portuguesa e transferidos para aquele país. E vão também reencontrar Geraldino Marques Contino, o operador de criptologia preso na primeira e única missão em que participou e que também tinha passado por Kindiá como prisioneiro de guerra, antes de ser transferido de prisão. Lobato sente-se revigorado pelos mais de 10 dias que passou em liberdade, mas está de novo na prisão e agora com segurança reforçada. Sozinhos, aqueles homens nunca vão conseguir sair dali. A única hipótese está em algo que eles nem sequer imaginam. Uma operação que tem tanto de arriscada como de controversa. Aliás, à última hora, haverá quem se recuse a embarcar na aventura e ponha tudo em risco. Mas essa é uma história para o próximo episódio.

E eu percebi que aquilo lá dentro fiava fino, os rebeldes. Portanto, eles estavam preocupados com o seu futuro.

E o tipo entra lá dentro de rompante e punha a ponta à metralhadora, mas o tipo reteve-se. Disse assim: "Se não fosse o Cabral, já estavas morto há muito tempo."

O filho da puta do tenente fugiu com 20 dos meus homens. Traiu-me miseravelmente. "O Sargento na Cela 7" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast+ do Observador. Pode ouvir no site do Observador e subscrever nas plataformas de podcast habituais. É narrada por mim, PP Rapazote, e tem banda sonora original de Noiserf. O guião é de Tânia Pereirinha e João Santos Duarte. As entrevistas de Tânia Pereirinha, a sonorização e pós-produção áudio de Diogo Casinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Podcast+ do Observador. É mais do que um podcast.

Os Podcast+ do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.