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Bem-vindos ao Sofá do Parlamento. Amanhã Eça de Queiroz recebe honras de Panteão Nacional, depois de um longo processo que até foi unânime entre os partidos, mas gerou divisões entre os descendentes do escritor. Hoje recebemos o deputado do PS que em 2021 apresentou a proposta para trasladar os restos mortais de Eça de Queiroz pro Panteão. Bem-vindo, José Luís Carneiro, obrigado pela disponibilidade para se juntar a nós. Este processo fica manchado por este diferendo entre os descendentes que só foi resolvido pelos tribunais.

Boa tarde. Julgo que se consuma agora a vontade expressa de uma maioria da família que devemos respeitar. Na altura, fui contactado pelo atual presidente da Fundação Eça de Queiroz, o escritor Afonso Reis Cabral, dando-me conta dessa vontade da família e portanto, cumpre respeitar essa vontade. Posteriormente, o que fiz foi tratar de elaborar a proposta de resolução da Assembleia da República e de poder articular e dar conhecimento dessa intenção a vários dos responsáveis a quem queria deixar ficar uma palavra, nomeadamente ao então presidente da Assembleia da República, Dr. Ferro Rodrigues, ao seu substituto, também o Dr. Augusto Santos Silva. Pude também na altura informar outros responsáveis institucionais e promover o diálogo com os partidos políticos que veio a culminar numa unanimidade nessa decisão. Claro está que quando foi colocada a questão, estávamos longe de vir a saber que havia uma parte da família que discordava dessa decisão.

Ficou surpreendido?

Em certa medida, sim. Contudo, veio a verificar-se que uma maioria, julgo que dos dois terços, veio confirmar essa vontade e julgo que se consuma uma vontade expressa da maioria da família e, por outro lado, também julgo que o Estado português e a sociedade portuguesa cumprem o dever de reconhecer Eça de Queiroz com honras de Panteão, o mesmo é dizer, reconhecer o Eça como uma das maiores referências literárias do nosso país, onde figuram Camões ou Fernando Pessoa. Portanto, é sempre um orgulho para o país e também para um município, uma região com a qual teve uma relação muito profunda, ver um daqueles que teve uma profunda relação com o território, que lhe é reconhecido este estatuto por parte da sociedade portuguesa e do Estado português.

No entanto, os descendentes que discordam dessa trasladação apontam alguns textos e excertos de Eça de Queiroz que indiciam que o escritor queria ficar em Santa Cruz do Douro, a terra que inspirou o Tormes. Não faz também essa interpretação?

Não me competem essas análises, são assuntos que dizem respeito estritamente à família.

Mas o trabalho da Fundação Eça de Queiroz não fica menorizado com a saída do escritor da região?

Não, no meu entender, não. Aliás, em momento algum o trabalho de promoção literária, de defesa e promoção da obra, da herança e do próprio espólio do Eça de Queiroz, que está preservado na Fundação Eça de Queiroz, toda a sua atividade cultural, as atividades de formação, as atividades didáticas e pedagógicas realizadas com as escolas de todo o país, foi sempre um trabalho que fundamentalmente dependeu muito da liderança de quem esteve à frente da instituição. Aqui cabe uma recordação com muita saudade da dona Maria da Graça Salema de Castro, ela que foi casada com o seu neto, que chegou a ser presidente da Câmara Municipal de Baião, e ela foi de facto uma líder da instituição que permitiu, na altura com os autarcas Artur Borges e Manuel Pereira Cardoso, na Câmara Municipal, erigirem uma obra material em torno de uma dimensão imaterial da literatura e da cultura, que foi obra desse espírito criativo e desse espírito maior que foi o Eça de Queiroz. Portanto, todo o trabalho de promoção cultural, de promoção da língua, da cultura, da promoção literária, de criação de cursos de formação na própria fundação, mas também de formações que são realizadas em termos internacionais, estiveram sempre muito relacionadas com a própria dinâmica da direção e da liderança da fundação e do seu conselho de administração e claro, com o apoio primeiro da Câmara Municipal, mas também de muitas instituições públicas, privadas e sociais, onde estão alguns mecenas. Há nomes, eu gostaria que pudessem depois ver os nomes que pude sublinhar, não os tenho agora todos aqui de memória, mas na altura, quando fiz a intervenção na Assembleia da República, pude agradecer a todos esses nomes, mas há alguns que merecem ser lembrados: a Isabel Pires de Lima, o Carlos Reis, o Guilherme Oliveira Martins, mas também outros mecenas, nomeadamente, que ajudaram a financiar os esforços, onde está, por exemplo, o engenheiro António Barros, que foi presidente da AEP. Enfim, houve um conjunto de parceiros públicos, privados e sociais e de personalidades que emprestaram o seu tempo, a sua vida, para erigir aquele patrimônio, aquele espólio e aquele projeto. Esse projeto está muito associado à defesa e promoção da cultura queirosiana e vai continuar agora com a liderança do Afonso Reis Cabral.

Que é o presidente da fundação. Deixe-me só perguntar porque tendo sido também presidente da Câmara de Baião, acha que a região e a população entendem estas honras de Panteão Nacional como um agradecimento de Eça de Queiroz, ou mais uma vez entra naquela lógica de estamos a retirar algo a uma terra mais pequena para colocar em Lisboa?

Para resolver essa questão que naturalmente e eu diria que muito legitimamente se coloca a muitos dos habitantes do concelho de Baião, eu coloco em regra uma pergunta: vamos imaginar que agora o nosso escritor António Mota vive e a quem desejamos uma vida longa, mas que um dia vinha também a ser reconhecido como uma personalidade com distinção de Panteão Nacional ou outras personalidades cujo percurso, cuja história, cujo contributo para o país se venha ainda a descobrir. Ora bem, veja se isso acontecer, acho que é sempre algo que enaltece um território, que enaltece uma cultura, que enaltece uma comunidade, que enaltece uma região. Ver aqueles que com essa região tiveram uma parte da sua vida, ver esse valor, essa distinção reconhecida pelo conjunto do país e pelo conjunto da sociedade portuguesa, porque é essa manifestação de apreço que é feita com esta-

Com as honras de Panteão.

Com as honras de Panteão Nacional.

Aqui na nossa reta final, deixe-me só ir aqui a uma outra questão sobre a atualidade política. O país acelerou o calendário presidencial, já são muitos os nomes apontados. José Luís Carneiro foi próximo de António José Seguro, que está abertamente a refletir. É um nome que merece o apoio do PS?

Permita-me uma nota adicional sobre o tema anterior, porque queria deixá-lo ficar. Uma das matérias que estava em curso, agora o Ministério da Cultura decidiu apoiar a fundação e as suas atividades culturais com €75 mil por ano, o que vai dar um impulso à capacidade de programação e de projeção nacional e internacional à fundação, que já tinha, como digo, vinham estudantes, investigadores, especialistas da Itália, da França, da Espanha, do Brasil, dos Estados Unidos, enfim, todos os anos aos cursos de verão, mas agora ficará com outra capacidade. E deixe-me esta nota, que esta nota é bastante importante. Estava em curso um diálogo que ainda chegou a ser desenvolvido com o presidente da Câmara, Fernando Medina e também com o presidente da Câmara Municipal de Sintra, a possibilidade destas duas autarquias poderem tornar-se membros fundadores da Fundação Eça de Queiroz, uma vez que o Eça de Queiroz teve uma parte da sua vida, da sua obra, muito relacionada com estes dois municípios. Era algo que eu gostaria muito que pudesse acontecer no futuro, que estes dois municípios, a par com outros que já são hoje sócios fundadores, Vila Nova de Gaia, Póvoa de Varzim, Amarante, pudessem vir também a tornarem-se associados da Fundação Eça de Queiroz, bem como também Aveiro, onde tinha a casa do avô, a Casa do Vermelho.

E fica esse desejo.

Sim.

Sobre a questão das presidenciais e de António José Seguro.

Eu diria que agora o mais importante é deixar que se forme a vontade daqueles ou daquelas que querem e sentem ter um apelo íntimo e uma vontade própria para se habilitarem às funções de presidente da República. Depois dessa formação de vontade, naturalmente que cumpre aos próprios mostrar essa disponibilidade, avançarem, e diria que haverá um tempo para apreciar o perfil das candidaturas e depois, naturalmente, que o Partido Socialista e o seu secretário-geral terão que apreciar e certamente discutir o assunto nos órgãos do partido.

Não se deve antecipar, secretário-geral?

Tem a ver muito ao perfil. Do meu ponto de vista, é muito importante, mais do que discutir as personalidades, que são importantes, conhecer também aquilo que é o pensamento dessas personalidades, ou seja, conhecer o perfil e aquilo que defendem no plano político sobre questões que se colocam ao futuro do nosso país. O desafio da demografia, como vencem as questões da pobreza e das desigualdades, como é que o país, na sua política externa, vai cumprir os compromissos internacionais, nomeadamente no quadro do reforço da defesa comum europeia, dado que está previsto um reforço muito forte do financiamento dessa dimensão da segurança europeia.

E o secretário-geral devia se antecipar para tentar evitar uma divisão no partido, como aconteceu no passado?

Isso não me compete a mim estar agora a pronunciar-me sobre os tempos e sobre os modos da decisão, particularmente num momento em que há dois grandes desafios com que estamos confrontados: as autárquicas e também as presidenciais. Portanto, tenho para mim a firme convicção de que o secretário-geral está a fazer a sua avaliação, a fazer a sua ponderação em relação a estes dois desafios estratégicos e, portanto, aquilo que eu posso reafirmar é a minha total disponibilidade para cooperar, para colaborar no objetivo de termos um grande resultado nas eleições autárquicas, termos a ambição para termos um grande resultado nas eleições autárquicas e também vencermos as eleições presidenciais. Isso é o contributo que posso dar da minha parte.

Sobre presidenciais, deixe-me só colocar-lhe aqui esta questão muito específica. Se Seguro avançar, José Luís Carneiro será um apoiante declarado?

Deveremos evitar precipitarmo-nos relativamente a hipóteses. Primeiro é preciso que as hipóteses se confirmem e depois das hipóteses se confirmarem, será o momento para avaliarmos e tomarmos decisões. Mas sempre também em respeito por aquilo que sejam as orientações do Partido Socialista.

Falou aí de autárquicas. Recentemente Pedro Adão e Silva desafiou em jeito provocador Pedro Nuno Santos a ser candidato em Lisboa. O PS está a atrasar-se a apresentar candidatos.

Olhe, por aquilo que eu tenho visto, estamos até adiantados em relação a outros. No caso de Lisboa, parece-me que há neste momento uma avaliação das diferentes possibilidades, mas, por exemplo, já foram apresentados os candidatos no Algarve. Julgo que no sábado que vem serão apresentados os candidatos no distrito de Braga e, portanto, há um timing e um modo, um modelo, um método que compete ao secretário-geral, sobre o qual não me quero estar a pronunciar.

José Luís Carneiro, nós temos só aqui uma última pergunta.

Que foi que antes da escolha e do anúncio dos candidatos, deveríamos ter convenções autárquicas. Se não for antes, pode ser depois, mas termos convenções autárquicas de nível regional para estabelecer as grandes orientações políticas do partido para as eleições autárquicas e também aquelas que venham a ser orientações políticas que sejam construídas com os próprios intérpretes dessa dimensão, dessa visão programática, que tem que se articular com as prioridades políticas do país e que tem também que se articular com as prioridades políticas da União Europeia.

Nós temos aqui uma pergunta final a que chamamos a defesa da honra. Vamos a ela.

Pede a palavra para que efeito?

Para a defesa da honra, senhor presidente. É sobre autárquicas. Mostrou a disponibilidade para ser testado como candidato ao Porto. Agora que a decisão é Manuel Pizarro, fica magoado por não ter sido considerado pelo PS?

Eu já disse o que tinha que dizer sobre essa matéria, ou seja, julgo que a decisão está tomada. Mais nada me cumpra dizer nesta fase e aquilo que formulo são votos das maiores felicidades para a escolha que foi formulada e para o meu camarada Manuel Pizarro.

Mas a porta está aberta, José Luís Carneiro, para outra autarquia?

Como digo até hoje, sobre eleições autárquicas, não houve qualquer diálogo comigo e, portanto, não posso estar a pronunciar-me sobre uma matéria que compete estritamente aos órgãos e à direção do partido.

José Luís Carneiro, muito obrigado pela disponibilidade para se juntar a nós neste Sofá do Parlamento. Eu sou o Miguel Viteiro Dias, comigo esteve o Luís Soares.