Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Olá, seja bem-vindo ao "Valor da Floresta", o podcast do Observador e da Navigator que nos faz olhar para a floresta de uma forma que muitos de nós não estávamos habituados. Um organismo vivo que contribui das mais variadas formas para a sustentabilidade e para o futuro do planeta. Eu sou Maria João Simões. Hoje é meu convidado José Luís Carvalho, é o coordenador de inovação e fomento florestal da Navigator. Bem-vindo, José Luís.
Muito obrigado pelo convite.
Obrigada nós.
É um prazer estar aqui com vocês.
O gosto é nosso. Neste episódio vamos falar sobre tecnologia e como esta está a transformar a forma como gerimos, como protegemos e valorizamos a floresta. José Luís, o título deste episódio é: "A floresta também é digital". Mas o que significa, na prática, digitalizar a floresta? Quais são as tecnologias que fazem parte desta mudança?
Talvez não haja muita gente a saber, mas, de facto, a atividade florestal iniciou a digitalização há muitos anos, por exemplo, com os sistemas de informação geográfica. Todo o mapeamento é digital. O que vemos hoje no Google Maps, ou no Google Earth, ou no Waze, os florestais foram, de facto, dos primeiros setores a utilizar esses sistemas de mapeamento. E hoje continuam, claro, com outros métodos. Mas a digitalização, eu acho que talvez importe falar de digitalizar, mas também de inovar. E um senhor chamado Steve Jobs dizia que a inovação é a capacidade de ver a mudança como uma oportunidade e não como uma ameaça. E esse é um ponto importante, porque digitalizar, reproduzindo apenas em digital, a anterior realidade, vemos muitas vezes, mas pouco acrescenta. O importante é inovar nos processos através da digitalização. Poder simular, ser mais rápido, mais preciso. Na floresta, por exemplo, usamos imagens de satélites para detetar áreas de floresta que têm doenças ou outros fenômenos. E isso fazemos com muitos sensores de imagem, também. Usamos muitos outros sensores digitais que recolhem dados na floresta, por exemplo, temperatura, da umidade do solo, sensores nas máquinas, nos equipamentos que andam na floresta. E toda essa imensidão de dados ajuda-nos a fazer uma floresta melhor. Por exemplo, coisas simples para ser um pouquinho mais palpável. Saber o local exato onde uma planta foi plantada e depois podermos ir lá, voltar lá, saber o que é que aconteceu-
O desenvolvimento. Exato
...na vida daquela planta. Pronto, é isso. E também podemos controlar, por exemplo, toda a saída dos produtos florestais. Por isso, acompanhar desde o momento em que são recolhidos os produtos florestais, até às fábricas, por exemplo, todos esses processos que são digitais e precisam de muita digitalização. Também temos um sistema interessante, que são dendrômetros digitais, que registam hora a hora, pode ser minuto a minuto, o crescimento de uma árvore. Por isso, estamos constantemente a acompanhar o crescimento, a ver como é que ela reage aos fatores ambientais.
Isso pode ser fascinante.
É! São coisas que são, de facto, um novo mundo de possibilidades. Mas é preciso pensar que é a inovação que dá sentido à digitalização, que lhe dá um propósito.
Nos últimos tempos, não pelos melhores motivos, mas muito se tem falado sobre drones. Estes podem ter, aqui neste caso, um papel essencial no acompanhamento das áreas florestais.
Sem dúvida, nós usamos primeiro os drones como um pássaro. O que é que um pássaro consegue ver? E hoje usamos, de facto, os drones para ver, mas também para ver até o que é invisível. Invisível no sentido em que há comprimentos de onda, imagens que os nossos olhos não conseguem ver, mas que sensores específicos, de infravermelhos ou outro tipo de sensores, conseguem ver. E isso serve para ver a floresta por cima, mas também por dentro. Há sensores que penetram na floresta e, por isso, permite ver se há árvores mortas, se há árvores doentes, se há problemas no solo, de encharcamento ou outros incidentes, e sem ter que fazer os difíceis caminhos de toda a floresta. Subir e descer montes que não é fácil. Mas isso é possível e, mais recentemente, tem sido, de facto, possível outro desenvolvimento, que é o transportar e aplicar produtos. Todos já ouviram falar dos usos militares, mas aqui não é nessa lógica. É na lógica de transportar produtos que são aplicados nas árvores com precisão e com segurança. Dou apenas um exemplo do que já temos feito, que é disseminar bactérias fixadoras de azoto, que servem para substituir os adubos de síntese, adubos que têm origens em combustíveis fósseis, e que são aplicáveis muito facilmente através de drones. Os drones são relativamente fáceis de usar.
De operar, sim.
Há regras bem definidas. Ou seja, não é possível, para o uso normal, nós voarmos em zonas de restrição aérea. Por isso, eu entendo os drones, sinceramente, como cada vez mais é um animal doméstico que está à mão de cada florestal e que por isso vai acompanhar o florestal como um bom animal doméstico e por isso é essa a minha lógica e a minha percepção.
E em termos de inteligência artificial, como é que está a ser usada para prever riscos como incêndios ou doenças das árvores?
A inteligência artificial também já está incorporada nas aplicações da floresta. Por exemplo, na análise de dados, tudo o que tem a ver com imagem de satélite ou por drone, é com a inteligência artificial, os algoritmos aprendem a identificar aqueles bytes, os dados que estão a ler, e a relacionar com, por exemplo, qual é a espécie que lá está, qual é o tipo de arvoredo que lá está, a densidade do arvoredo. Ver zonas, por exemplo, com menor ou maior risco de incêndio, combinando fatores diversos. Pode-se também usar nesse sentido, combinando níveis de biomassa, níveis de perigosidade pelos dados climáticos, associando vários dados. E em tudo isso a inteligência artificial é fantástica. Também identifica muito bem padrões associados, por exemplo, a doenças ou pragas, ou falhas nutricionais. Também são muito interessantes essas aplicações. Há outro capítulo também mais recente da inteligência artificial, que é a sua aplicação nas máquinas, diria que quase transformar máquinas inteligentes. Por exemplo, um operador faz um primeiro movimento com uma escavadora, com a lança da escavadora, e o sistema de inteligência artificial entende, vamos dizer assim, o ambiente em que está, a função que está a ser feita e pode repetir essa função sem que o operador já necessite de intervir. E por isso diminui, obviamente, toda a questão da fadiga, melhora a qualidade do trabalho. Hoje já há equipamentos que trazem todos esses sistemas. Por isso eu acho positivo, é bom podermos ensinar a inteligência artificial a ser ainda mais inteligente, e eu acho que esse é o papel que nós temos.
Desde que não ganhe vida própria.
Pois.
Esse é o perigo. José Luís Carvalha, todas estas tecnologias, estas mais modernas, substituem ou complementam o conhecimento humano e o trabalho tradicional dos técnicos florestais? Ou melhor, perguntar também que competências novas são, nos dias de hoje, necessárias para quem trabalha na floresta?
Pois, esse é um receio natural. Eu quando falo com os meus colegas do norte da Europa, que estão muito avançados nestes temas das tecnologias digitais, do digital twins, da realidade virtual, na simulação digital, enfim, técnicas que hoje estão aí a ser utilizadas, uma coisa eles dizem sempre: nada substitui as botas. E isto é importante ter esta noção, que é sem estarmos no campo, sem realizarmos observações no terreno, sem perceber a qualidade dos dados e perceber a sua inter-relação, os sistemas inteligentes são simplesmente idiotas. Vou fazer aqui uma analogia: muitas vezes a gente vê pessoas que por lerem umas coisas, já acham que podem falar delas como especialistas. E até falam bem.
Não se podem evitar fundo.
Pois, é isso, mas nada substitui a experiência. E a experiência, no caso da floresta, também inclui ouvir as pessoas que vivem no campo. Vai para além, obviamente, da tecnologia. Quando leio, muitas vezes, essas questões sobre inteligência artificial, das profissões que repetidamente são assinaladas como não substitutivas por inteligência artificial, são os florestais e os operadores de equipamentos agroflorestais, por isso das máquinas. Eu diria mesmo que é mais fácil substituir o gestor da banca por inteligência artificial que um florestal do campo.
E o que é que falta ainda desenvolver?
Da competência. Tinha-me feito essa pergunta também. Eu também lhe vou responder. Eu acho que a principal competência é ter a humildade, e essa é velha, de reconhecer que sabemos pouco, mas podemos aprender, e aprender muito com os outros, e não ter medo de fazer essa aprendizagem, de inovar e de mudar. Dou um exemplo, assim, se calhar, mais ajuda a perceber. Se colocarmos uma jovem habituada a jogar nas PlayStations, se a colocarmos num simulador digital de um forwarder. Um forwarder é um trator carregador de madeira, uma máquina grande, pesada, mas com ótimas condições, super moderna. Sem ela nunca ter conhecido, ela nesse simulador, vai começar a carregar madeira, à vontade, ao fim de meia hora, porque está muito habituada àquele ambiente da PlayStation. E hoje as máquinas são quase PlayStations. Ao fim de uma semana, eu diria que pode entrar numa máquina real e a trabalhar, enfim, pode não ter a eficiência desejada, mas já muito bem. E claro, faltará a rotina do dia a dia, mas a competência técnica está lá. A aprendizagem é que foi nova. Estas novas competências também se ganham com formas de aprendizagem novas e é preciso que as escolas estejam preparadas para estes novos modelos e que as empresas acompanhem. E isso é que temos, de facto, que nos adaptar. Ou seja, sabermos dar novas competências, mas de forma nova. E volto à minha tecla, ao meu mantra, se quiser, que é inovar. É preciso inovar. E é da inovação que nasce, de facto, esta geração de novos profissionais e a perceberem que estar na floresta é moderno, é fantástico.
E o que é que ainda falta para que a tecnologia chegue a toda a fileira florestal, incluindo aos pequenos produtores?
A tecnologia tem que ser fácil de usar.
Pois, exato.
Nós hoje, quando guiamos um carro destes novos, ele está carregado de tecnologia. Nós é que nem sabemos bem o que está lá dentro.
Às vezes não sabemos fazer uso com tanta tecnologia.
Às vezes ele até nos faz coisas que a gente nem percebe bem o que está fazendo. É toda essa tecnologia embarcada, como dizem os brasileiros, eles usam esse termo que se percebe bem. Na Navigator, o que tentamos fazer também é disponibilizar as tecnologias e os dados da forma mais fácil possível para que seja utilizável. Por exemplo, hoje é possível medir árvores e saber o volume de madeira, um proprietário ou quem quiser, com um simples telemóvel, desde que tenha a aplicação respectiva. E isto aprende-se em um quarto de hora.
Impossível.
Uma pessoa fica habilitada com o telemóvel a medir as árvores e a fazer a sua estimativa de volume. Isto é importante, porque muitas vezes as pessoas nem sabem bem o patrimônio que têm.
Exatamente.
Também identificar plantas, eu acho que há muitas apps, por exemplo, para dar exemplos concretos, que as pessoas apontam para as plantas e aquilo diz o nome, de onde é que a planta é originária. Há um conjunto destas ferramentas que são fáceis de usar. Haverá outras que, claro, têm que ser mais aplicadas por especialistas. Mas para que esses especialistas possam estar próximos dos proprietários, também é preciso que haja aqui modelos de agregação, de gestão e de uma gestão conjunta que permita ter esse ganho de escala. Ou seja, não vale a pena cada proprietário comprar um drone de milhares de euros com sensores sofisticados para utilizar 10 minutos de um ano e depois nem sabe bem o que retira dali. Por isso é preciso unir esforços e introduzir essa tecnologia na gestão, mas numa gestão partilhada e agrupada. E são esse processo, que é um processo também inovador e que vai permitir chegar mais tecnologia às pessoas, que a Navigator também está empenhada, por isso, em apoiar esses esforços da gestão partilhada, agregada, conjunta, há várias palavras que podem significar a mesma ideia.
Não sei se lhe podemos chamar revolução tecnológica, mas com estes avanços e contributos tecnológicos, como é que o José Luís imagina a floresta portuguesa daqui a 10, 20 anos?
Essa pergunta é um bocadinho arriscada.
Pois é. Astrologia, não é?
Pois, é um pouco difícil, mas respondendo de uma forma simples, eu imagino robôs na floresta. E por isso imagino que, assim como hoje é comum ver robôs a aspirar uma casa, será comum ver robôs a plantar, a adubar, a preparar o terreno, a limpar o mato, a podar as árvores e muitas outras coisas. E esses robôs irão trabalhar, e estarão a trabalhar para pessoas comuns, que de uma forma inteligente perceberam que de fato podiam tirar partido dessas máquinas que agregam inteligência artificial e computer vision, enfim, um conjunto de tecnologias, mas que a maior parte das pessoas nem precisa de perceber exatamente o que é. Precisa é perceber que elas fazem o que a gente quer que elas façam. E são capazes de aprender. Por exemplo, os robôs de cozinha não acabaram com os chefs.
Exato.
Nós temos é mais tempo.
É boa essa analogia.
Temos é mais tempo para desenvolver outras tarefas.
Claro, e outras competências.
É, e outras competências. E uma delas, diga-se, que é simplesmente conversar uns com os outros, como estamos a fazer aqui. É do mais importante que podemos fazer.
A partilha.
É, essa partilha, essa troca de experiências, alinhar ideias ou confrontarmo-nos também, não devemos ter receio disso, mas sermos humanos. Vamos ter robôs, seguramente, mas vamos continuar a ser humanos, eu acredito nisso, e que vamos compreender-nos melhor e vamos ter mais tempo e mais disponibilidade para trabalhar melhor na floresta. E isso vai ser uma grande revolução. Estou desejoso de chegar lá.
José Luís Carvalho, muito obrigada por esta conversa desta hora. Foi um gosto. Obrigada por ter se juntado a nós. Eu sou Maria João Simões, espero por si no próximo episódio do "Valor da Floresta", para continuarmos a descobrir juntos o que torna este patrimônio natural tão essencial para o nosso futuro. Marcamos encontro daqui a 15 dias. Espero por si. Até lá.