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Não gostei nada do último filme dele.
O quê?
Parece que atirou três dúzias de temas diferentes para dentro de uma misturadora e filmou a mistura que saiu de lá dentro.
Guigas, como é que podes dizer isso? O filme é muito bom, a história é ótima e é supercomovente. Estás a gozar?
Perdeste-me. Eu quero ver uma comédia romântica. Aliás, uma comédia parva.
Olha, Guigas, não fosses tu a mulher mais linda deste mundo, eu dizia-te que não. Está bem, a comédia parva.
Yes! Eu sabia que ia ganhar esta batalha. Essa conversa da mulher linda, tu achas mesmo isso ou estás só a tentar ganhar pontos?
Queres a notícia boa ou a notícia má?
Cala-te.
Claro que queres. Mas não é por isso que eu estou contigo. Não é só por isso que eu estou contigo.
Então?
Então é porque além de gira, és decidida e corajosa.
Não.
E esperta.
Muito.
Tens bons princípios e valores. Sabes ler bem as pessoas. E não comes merdas quando tens de aturar alguém que não gostas.
Verdade.
Não fazes fretes. Eu gosto disso. És brava.
Pronto, agora é que me perdeste. Agora é que foi. Estavas a ir tão bem.
Não, mas é tudo verdade. Eu percebi logo desde que te vi pela primeira vez na faculdade, mesmo tendo sido nas praxes. O que é mesmo impressionante é que mesmo com um irmão atrasado mental como o teu, saíste uma miúda incrível.
Obrigada. Acho eu. Nunca sei como responder aos teus elogios.
Então aceita só.
Se tu não fosses tão querido como és, isto também não fluiu assim tão bem.
Somos uma boa dupla. Olha, como o casal daquele pôster ali em cima, num dos filmes mais aguardados do ano.
Para, vou vomitar. Pronto, está bem, vamos ver esse. Pronto, ganhaste, vamos ver esse, mas eu quero pipocas doces.
O que tu quiseres, meu amorzinho.
Eu não disse?
O quê?
Que esta cama era incrível.
É mesmo. A cama, o quarto, a casa toda. E tu também não vais nada mal.
Eu não acredito.
Quem é? Temos de bazar? Calma, Guigas, quem é que chegou?
Adivinha. Foda-se, Zé, tu não sabes bater à porta?
Que nojo! Estão nus. Maninha, estás cá?
Sim, como eu já tinha dito, seu otário.
Mister Delgado apanhado em pleno ato com a minha irmã. Isso merece um castigo.
Olá, Zé.
Olá. Toda descascada. Arranca, meu. Bem, não há cerveja em casa. Eu até pedi ao teu amigo para ir buscar mais, mas como estão ocupados e eu sou um querido, vou lá eu. Protejam-se, está frio. E cuidado com a tua semente, caloiro. Podes molhar a sopa, mas não deixes cair o pão dentro da malga. Ainda te queimas. Até já.
Guigas, tu sabes que este gajo é um escroto com pernas, não sabes?
O Delgado?
Eu não conheço ninguém que seja tão filho da puta como ele. Eu sei que ele é teu irmão e tu não tens nada a ver com as merdas maradas que ele faz, mas tu não devias ter de aguentar isto. Tu não mereces um irmão assim.
Não se escolhe a família. Tu estás a dizer isso por causa do que aconteceu ao teu amigo, Dino.
Estou a dizer isto porque é verdade. E tu sabes que é verdade. Pelo que ele fez ao Dinho, mas também por meter o milho a mim, ao Rafa e a todos os gajos que ele obriga a fazer as cenas mais maradas à frente de toda a gente, só para mostrar que tem poder. Para não falar das caloiras todas que ele e os amigos obrigam a foder só porque é tradição. É uma vergonha, o que é. E tu sabes que é.
Claro que eu sei que ele é um porco nojento.
Um cão desprezível que merece ser abatido.
Um verme detestável. Um pulha que não tem onde cair morto. Só que é o irmão que me calhou na rifa. Eu não posso fazer nada.
Só não fazes se não quiseres.
"Happy birthday to you. Happy birthday to you. Happy birthday. Happy birthday to you." "O Zé faz 25" é um podcast de ficção para ouvir em oito episódios. Uma coprodução com a Io Tavinho e Observador, da autoria de David Neto e Manuel Pureza. Com as vozes de Paulo Calatré, Vicente Vallenstein, Madalena Almeida, Helena Caldeira e a minha, Tiago de António Pereira. A música do genérico é de Artur Costa. Último episódio: rebobina.
Agora a sério, podem dizer de uma vez por todas o que aconteceu mesmo ao Zé? Enquanto a investigação avança, é a Citroën quem vos conduz por esta aventura. Afinal, sabemos bem como tornar a aventura numa realidade ao alcance de todos. Foi por isso que criámos o novo Citroën C3 Air Cross, um SUV desenhado a pensar no conforto e na liberdade. Citroën C3 Air Cross. Ninguém resiste ao conforto.
Estou? Então, tudo bem?
Estou bem e tu?
Ótima. Acabei de mandar uma cerveja de pé novo.
Espetáculo!
E tu, que tal?
Tudo bem. Já cá estou, já tenho as pipocas e tudo.
Boa. O que é que vais ver?
Uma merda qualquer de ação. Era isso ou uma comédia romântica.
Eu vou voltar para o pé da malta. Bom filme.
Volto a ligar quando houver novidades.
Não, eu é que ligo a ti. Não te esqueças.
Certo. Beijo. Até logo.
Até já. Bye.
Até já. Boa.
Então, já se comeram quantas vezes? Desculpa? Tu e o Zé. Não me digas que era segredo, Luísa? Meu Deus. Anda lá. Quatro. Guigas? Cinco. Seis. Sete? Muito bem. Desde o início do ano. Eu gosto de ti. Acho que és uma miúda fixe. Acho que acabas mesmo bem com o meu irmão. Só que ele tem namorada, como tu sabes. Sim, e desde quando é que isso é um impedimento para alguma coisa, Luísa? Além do mais, aquilo está mau. Te garanto que vai acabar em breve. Diz-me, há alguma altura melhor para terminar uma relação do que uma festa de anos? Quem é que disse isso? Mas tu achas que eu não conheço o meu irmão? Ele conta-me tudo. E não para de falar de ti, como se tu já não soubesses. Olha só, o gajo está a te comer com os olhos. Achas que ele vai dizer alguma coisa?
Olá. Então, miúda.
Estúpido. Estava aí uma miúda que tu procuras no hall dos quartos.
Levanta-te.
É melhor ires rápido antes que ela mude de ideias.
Quem?
Quem? Quem será que é?
Esquece. Eu vou lá. Espera aí, não vás. Tu estás cheio de tonturas.
Que tonturas?
Bebe uma água.
Tu andaste a fumar alguma merda dentro de casa? Já não basta tudo o que temos para limpar antes de eles virem. É amanhã.
Cala-te, idiota. Sai-me da frente. Está tudo uma merda.
O que estavas a fazer na casa de banho com a namorada do meu irmão?
Hã?
Ya. Tu e ela estavam na casa de banho ao mesmo tempo, não dá por acaso?
Ela queria fazer ciúmes ao teu irmão.
Eu perguntei o que estavas a fazer. Não perguntei por que estavas a fazer.
Não se pode fumar dentro de casa.
Os meus pais chegam amanhã, portanto, dava jeito que não. Usa essa janela que dá para o terraço.
Arranja-me um cigarro.
Toma.
Até já.
Só espero que este cabrão não micha. Guedes, o meu irmão?
Se eu te disser, vou ter que te matar, Guigas.
Onde é que está o Zé?
Se eu te disser, vou ter que te matar, garoto.
Guedes, concentra-te. Onde é que está o Zé?
Passou mesmo agora, foi no corredor, foi em direção aos quartos.
Com quem?
Com a Luísa.
É o telefone dele.
Foi isso mesmo. Ele tem que voltar lá para baixo.
Mau. Tem de te amarrar a cama.
Estava a ver que nunca mais. Então?
Já lá estão os dois. A chave não está no trinco, mas um deles deve ter trancado a porta.
Ok, melhor ainda. Vai pra sala e fica a dançar. Faz com que sejas vista por várias pessoas. Sei lá, trepa para cima de uma coluna, uma merda assim. Estamos a dois minutos. E se o gajo se vira? Ou pior, se algum dos amigos deles vê. Estão ali umas 100 pessoas, se formos canados, não temos qualquer hipótese. Cala-te, Rafa! Temos isto planeado ao milímetro, não vai falhar nada. Estamos há três anos à espera deste momento. Tu é que estás há três anos à espera deste momento. E o Edinho, caralho? Achas que ele esperava ter ficado como ficou? Achas que o gajo estava à espera de quase morrer às mãos deste cabrão? Tens razão, Rafa. Temos que fazer isto. Bora. Assim aqui. Por aqui, pelos traseiros. Calma! Ajuda-me a levantá-lo. Devagar. Para aqui não, que quando voltar a si vai ficar na mesma. Vamos. Leva a carrinho, nós os dois seguramo-lo cá atrás. Já sabes por onde é que é.
Olá, sou a Joana. De momento não posso atender, mas mal veja a chamada devolvo sem hesitar. Obrigada.
Estou a tentar ligar desde hoje de manhã. Perdeste a cabeça? Deixaste-nos cheiros todos do caso. Por quê? Esta história é tua, Joana, não me lixes. Tu sempre quiseste isto e agora desistes assim? E deixas-me a papa toda feita a mim? Bem, eu só espero que ouças esta mensagem a tempo de reverter tudo isto. Eu não quero agarrar neste caso, percebes? Eu não quero escrever nada sobre isto. Aliás, quero é que sejas tu a fazê-lo, do fundo do meu coração. Não podes ceder perante um esbulho de merda. Tens a história toda e só tens é de fazer que está lá fora. Vá, volta para trás. Então e gosta de ir ao cinema?
Quem é que não gosta?
Alguma coisa de jeito em cartaz. Segundo o seu depoimento, estava no cinema do centro shopping na noite da festa de aniversário do José. O que é que viu?
Vi um filme de ação.
Não diria que era o seu tipo de filmes, explosões e pancada.
E não é, mas não havia nada melhor para ver. E assim, sempre dá para descontrair um bocado.
E ligou à sua namorada na noite da festa?
Sim, uma ou duas vezes.
Por que não foi?
Não é o meu grupo de amigos. E também não me apetecia estar a olhar pro aniversariante e os amigos dele a ficarem bêbados e a fazerem merda.
Filipe, o que acha do Zé?
Acho que é uma besta, um gajo mal-educado.
Portanto, incomoda-o ele ser o irmão da sua namorada.
A Guigas não tem nada a ver com o Zé. Além disso, não se escolhe a família.
Mas sobre os amigos já temos poder de decisão, não é? Nós podemos conhecer as pessoas com quem nos identificamos, com os mesmos interesses, até com os mesmos valores que nós. Por exemplo, o Luís Godinho. Será que ele também descontrai a ver filmes de explosões e pancada?
Sim, mas prefere coisas mais realistas como eu.
Há quanto tempo é que não fala com ele?
Há muito.
O Filipe foi ter ao hospital no dia do incidente, não foi?
Incidente.
Quando a vossa praxe correu mal e ele entrou em paragem cardiorrespiratória.
Sim.
Vai ter sido uma, uma experiência traumática, ver ali o seu amigo quase a morrer depois de uma humilhação frente a tanta gente. Na primeira semana de aulas da faculdade, quando ainda estamos a apalpar terreno.
Morreu.
Como?
Ele morreu mesmo. No hospital disseram que esteve clinicamente morto durante um minuto e tal.
Sim, sim, nós temos isso no relatório. Diga-me uma coisa, nunca se quis vingar do Zé por causa disso?
Claro que sim. Mas daí a fazê-lo, vai uma grande distância.
Tem mesmo a certeza de que não esteve na festa?
Inspetor, se a sua tática é repetir outra vez todas as perguntas, ou se lembra das respostas que eu já lhe dei, ou eu durmo aqui um bocado, ou então eu ligo pra um advogado.
Um advogado? Como nos filmes, não é? É, se calhar não é má ideia, sabe? Mas eu, se fosse a si, antes disso ligava primeiro ao seu primo Vasco. Afinal de contas, foi ele que alugou a carrinha a seu pedido, não foi?
A carrinha?
Sim, a carrinha. Uma carrinha de carga alugada por um tal Vasco Delgado e que curiosamente na parte de trás tinha estilhaços de vidro da janela partida na festa e, e tinha sangue do José. Para além da sua namorada, também enfiou o seu primo até ao pescoço nisto, não foi?
Deixa a Guigas fora disso, por favor. Ela, ela só fez aquilo que eu lhe pedi pra fazer.
Ela também sabe onde é que está o Zé?
Não, ninguém sabe.
Não brinque comigo, como assim?
Isto saiu completamente ao lado. É bom o ar da serra, não é, seu otário?
Quer saber? Quem é que são vocês?
Somos amigos de longa data.
O quê? Mas por que estão a fazer isto?
Isto é um jogo ridículo pra te humilhar sem razão nenhuma.
Malucos das cordas, caralho. Levem a minha carteira e telemóvel, mas desatem e deixem-me ir.
É o que vamos fazer. Voltamos amanhã de manhã e soltamos-te. Ou hoje passas aqui a noite a pensar na vidinha. Depois fazes o que quiseres.
Mas por quê?
Porque mereces. Bora.
Tem alguém? Estão aí, caralho? Tem alguém? Por Deus, por Deus, alguém pode tirar esta merda. Alguém? Desatem-me, caralho. Socorro! Ajuda! Socorro!
Nem duas horas foram. Saímos da serra, fomos comer um hambúrguer e quando voltámos pra ver dele, ele tinha desaparecido.
Tinha desaparecido como?
Não estava lá. Eu tenho a certeza que era o mesmo lugar. As cordas estavam no chão, junto à árvore. Ele só pode ter fugido
Onde é que ele se meteu este tempo todo? Você sabe que o Zé continua desaparecido.
Sim, a Guigas disse-me. Eu não sei se ele foi a algum lado, se ainda não apareceu porque percebeu quem nós éramos e está a planear uma vingança. Sei lá.
Ouça lá, e porque é que vocês não vieram logo à polícia quando viram que ele não estava lá no local onde o deixaram preso?
E vínhamos dizer o quê? Que rebentámos uma janela para raptar um colega da faculdade, que o amarrámos a uma árvore na serra de Sintra e que quando voltámos ele tinha desaparecido?
Precisamente. Talvez assim o juiz considerasse aligeirar a sua sentença. Bom, eu vou precisar que me indique o local para onde o levaram em Sintra e o contacto dos dois colegas que estavam consigo.
Eles nem queriam fazer isto. Fui eu que os convenci. Por favor, tenha isso em consideração.
Olhe, guarde isso para o juiz.
Carro sete, chamo carro sete. Carro sete à escuta, base. Carro sete, código 1020. Qual é a sua localização? Estou no quilómetro 11 da IC19, sentido Lisboa-Sintra. Carro sete, possível desaparecimento de jovem em Sintra. Precisamos de confirmação. Prossiga até ao estacionamento do Santuário da Peninha, ocorrência a um quilómetro para oeste. Envio a localização exata de seguida. 10-4, base. A caminho.
Estou? Estava a ver que não ias atender a chamada.
Olá, João.
Como é que estás?
Olha, estou viva. É a melhor resposta que te posso dar.
Podes crer.
Já acabou isso aí?
Por agora, mas pelo que ouvi dizer, pode ser que se abra aqui uma nova caixa de Pandora.
Alguém andou a assediar os meus colegas de trabalho.
Bem, já consegui uma piadinha tua. Fraquinha, mas para quem está toda combalida, não está nada mal.
Olha aí que ainda vou te coser toda por dentro. E a tua mulher?
Está bem. Quer dizer, há de estar. Joana, eu queria agradecer-te.
Ok. Por quê?
Porque formámos uma bela dupla de investigação. Contra todas as probabilidades, e principalmente contra todo o código deontológico das nossas profissões. Mas sim, acho que fomos uma bela equipa.
Obrigada também, João.
Por quê? Pela carga de porrada que levaste?
Não. Isso não teve nada a ver contigo. Obrigada pela ajuda, por ouvir os meus devaneios e por seres um gajo fixe. Sobretudo por seres um gajo fixe.
Não tens que agradecer. Aliás, sabes como é que tu me podes agradecer?
Hum?
Vais escrever e vais publicar o artigo que ficou pendurado. É isso que vais fazer.
João, deixa-me estar. Tu também! Não quero, já sofri demasiado à custa disto.
Então vais fazer o quê? Vais deixar que isto seja tudo em vão? É isso?
Tem a certeza de que quer fazer isto, engenheiro? Nós podemos sempre remarcar.
Não. Já estão aí todos à espera para o direto, portanto eu leio a declaração e respondo às perguntas dos jornalistas e fica despachado.
Muito bem. Se não estiver com cabeça para isto, mais vale não fazer.
Vamos lá a isso. +359? Que indicativo é este?
Pai, é o Zé. Eu consegui arranjar este telemóvel. Desculpa, eu não queria preocupar. Eu estou bem. Eu estou bem, mas eu preciso de ajuda, pai. Eu preciso de €2 milhões, senão eu nunca mais vou sair daqui. Pai, eu sei que é um porradão de dinheiro, mas, pai, eu quero ir para casa. Eu tenho de desligar, pai. Por favor, pai.
O "Zé faz 25" é um podcast de ficção para ouvires em oito episódios, produzido pela Coyote Vadio e pelo Observador. Escrito por David Neto e Manuel Pureza, com realização de Manuel Pureza, direção de elenco de Rita Tristão da Silva e direção de som de Jonathan Costa. A sonoplastia e a música do genérico são de Artur Costa. Paulo Calatré é João Durães. Beatriz Gudinho é Joana Magalhães. Tiago Teotónio Pereira é Zé Valbom. Madalena Almeida é Guigas e José Raposo é Vicente Valbom. Sara Matos é Inês, Vicente Wallenstein é Delgado e Helena Caldeira é Luísa. Rafael Medrado é Guedes e Cristóvão Campos é Pedro. Carla Maciel é Sofia. Miguel Pires é Cândido. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A coordenação do projeto é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. Obrigada por ouvirem. Se quiserem voltar a ver o Zé, por favor avisem. Este podcast de ficção tem o apoio da Citroën.
