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A Operação Stop está com a Rádio Observador. Mais um domingo, vamos falar de automóveis e, essencialmente, do impacto das tarifas de Donald Trump, as tarifas norte-americanas no mercado automóvel. Comigo já está em linha o Alfredo Lavrador, o nosso especialista, o nosso editor da seção Auto. Alfredo, bem-vindo.

Viva, Miguel. Obrigado.

Vamos falar de tarifas. Isto complicou.

É sempre mau.

É sempre mau. Gerou-se aqui um grande nervosismo com o anúncio das novas tarifas recíprocas, diz Donald Trump, mas o que isso tem de mau, o que isso tem de bom, se é que tem alguma coisa de bom e o que isso tem de surpreendente?

Miguel, seguindo a tua ordem de temas, de bom não tem rigorosamente nada. Toda a gente vai perder com isso, e não é uma coisa específica do Trump, é uma coisa específica de qualquer guerra comercial, e por isso é que raramente acontecem, porque toda gente perde. Não há forma de ganhar neste tipo de coisa. Os preços vão aumentar para os consumidores americanos e, caso a Europa aumente as tarifas na proporção, o que aparentemente é uma forte possibilidade, também vão aumentar para os condutores europeus. De bom também não tem nada, porque ninguém ganha com esse tipo de guerra tarifária, nem mesmo o Trump, pois ao ficarem mais caros os carros importados da Europa, vão vender-se menos, o que significa que os EU vão cobrar menos impostos. Ou seja, aquela coisa do "vamos encher os cofres do Estado com os impostos dos veículos vindos dos outros países", no caso que nos interessa, na Europa, isso não vai acontecer. De surpreendente, curiosamente, tem tudo, porque os carros importados a partir da Europa são os modelos mais luxuosos da Audi, BMW, Mercedes e Porsche. São as quatro marcas que mais vendem. Claro que em termos de volume, é basicamente a Audi, BMW, Mercedes. Todas as quatro marcas têm fábricas nos Estados Unidos. A Audi e a Porsche constroem os seus veículos nas fábricas do grupo Volkswagen, mas todos eles têm construção lá. Só que constroem um reduzido número de veículos, aqueles que vendem em maior quantidade. Contudo, aqueles que lhes interessam são os carros mais luxuosos, aqueles onde as mais-valias são mais sumarentas, digamos assim, as margens de lucro são mais interessantes, exportam-nos diretamente da Europa para os Estados Unidos. E esses vão ver os preços aumentarem em 25%. É possível que alguns destes modelos passem a ser produzidos nos Estados Unidos, não muitos, porque isso implica aumentar as fábricas, produzir novas linhas de montagem, etc. Mas por muito pouco que isso aconteça, será sempre um ganho para a equipa de Trump. Mas duvido que seja significativo, pelo que, na essência, vai obrigar os clientes locais com uma carteira mais recheada, a abrir os cordões à bolsa e a comprar mais caro o carro que até agora compravam mais barato.

Muito bem. Eu já percebi que acreditas que havia aqui uma certa injustiça na disparidade das tarifas anteriores entre os Estados Unidos da América e a Europa, que agora foi parcialmente revista, não é? Mas eu queria perceber o que está por trás desta decisão de Trump. Que leitura é que fazes disto?

Na essência, eu nunca percebi bem, aliás, já ouvi analistas do Observador defender a mesma teoria, se o Trump ganhou as eleições ou se a outra senhora as perdeu. Independentemente do resto, eu acho que é mais que óbvio que durante anos os veículos exportados dos Estados Unidos para a Europa pagavam 10% à entrada da Europa e os veículos europeus exportados para os Estados Unidos pagavam apenas 2,5%. Estamos a falar de quatro vezes menos. Não é, provavelmente, um pormenor. E os europeus sempre viveram muito bem com esta situação. De repente, veio um maluco, e acho que estou a ser simpático até, ao chamar de maluco, que resolveu que esta situação não era aceitável e resolveu invertê-la. Ou seja, com as novas tarifas, os carros americanos à entrada da Europa, se a Europa não resolver retaliar, vão pagar apenas menos duas vezes e meia do que os carros europeus à chegada aos Estados Unidos. E vamos lá ver, nós cobrarmos quatro vezes mais e eles cobrarem duas vezes e meia a mais, não é provavelmente um motivo de queixa. De maneira que eu acho que basicamente, independentemente se é possível que o Trump deseje atrair mais investimento europeu para os Estados Unidos, a verdade é que tudo isto cheirava a injusto já há muito tempo e foi pena que não se revisse em tempo útil. Talvez se tivesse evitado esta situação agora de termos que correr atrás do prejuízo.

Concentramo-nos então nos construtores europeus e na forma como podem ser prejudicados, ou não, com estas tarifas. O que tens a dizer sobre isto?

Os construtores europeus, digamos que não é bem os construtores europeus, é apenas um nicho, uma vez que quem exporta para os Estados Unidos não são as marcas generalistas, são as marcas de luxo. Mais uma vez, aquelas que mencionei há pouco, a Audi, BMW, Mercedes e Porsche. Só que estas, em alguns casos, chegam a exportar para os Estados Unidos, ou chegam a vender nos Estados Unidos, cerca de 30% do seu volume total Nenhuma empresa pode perder 30% do seu volume de vendas de uma vez, porque obviamente vai se ressentir nos seus resultados, nos seus lucros, na sua rentabilidade e, sobretudo, na sua capacidade de sobrevivência, em alguns casos. Mais grave do que isso, esta potencial redução de vendas, porque isto ainda não aconteceu, estamos só a admitir que o incremento de 25% das taxas vai reduzir gravemente o volume de vendas nos Estados Unidos, acontece depois de uma situação similar, ainda que por outros motivos completamente distintos, na China. Ou seja, as marcas europeias de luxo deixaram de vender na China, era um país que representava cerca de, também, curiosamente, 30% das vendas. Apesar de na China, a redução das vendas teve a ver com o fato da economia chinesa não estar tão forte como anteriormente e os chineses, mesmo aqueles endinheirados, porque a China é um país em que se vive mal, exceto uma magra franja da população, mas ainda assim é 1200 milhões de habitantes, a magra franja da população significa vários milhões de indivíduos. E estes passaram a ser mais conscienciosos na forma de investir. Logo, perder 30% nos Estados Unidos, depois de perder 30% na China, são duas facadas, obviamente virtuais, na contabilidade destas empresas que serão muito complicadas de ultrapassar.

E os consumidores nacionais, até que ponto é que vão ter de enfrentar preços mais elevados nos veículos norte-americanos? Como é que isto nos afeta a nós?

Curiosamente, ou até felizmente, não vão ser muitos os prejuízos para os consumidores no mercado nacional. Os principais modelos que nós importamos dos Estados Unidos é basicamente o Tesla Model S e o Tesla Model X, que convenhamos, são marginais em termos de volume de vendas. E depois alguns Model 3 topo de gama, ou seja, os Dual Motor e o Performance, que se vendem diretamente nos Estados Unidos, uma vez que aquela versão mais barata, com baterias LFP, etc., e menos autonomia, vem da China. Tirando este último, o Model 3 com dois motores, não são muito representativos. A outra marca que também é visada nesta matéria é a Ford.

Pois, era o que eu ia dizer. A Ford.

Exatamente. A Ford é um dos maiores construtores americanos, mas aqui é a parte divertida, e eu sei que tu vais se aliar a mim neste sorriso. Vou te enumerar primeiro, só para recordar aos nossos ouvintes, os modelos da Ford que vêm do outro lado do Atlântico e que nós comercializamos, e alguns deles até prezamos e gostamos imenso.

Só para perceber, tu vais dizer os que vêm de lá, porque há outros que são construídos cá, é isso?

Não. Eu vou dizer os que vêm de lá, mas que não são abrangidos nesta guerra tarifária. Vindo do outro lado, do continente norte-americano, e não necessariamente dos Estados Unidos. Não sei se já percebeste onde eu quero chegar.

Sim.

São a picape Ford Ranger.

Ok.

Que tem na Raptor a versão mais bem equipada. Mas basicamente o modelo chama-se Ford Ranger. O Ford Bronco, um parente longínquo daquele modelo em que o O.J. Simpson fugiu à polícia naquela perseguição que todos nós seguimos na televisão. E o Ford Mustang a gasolina.

Era exatamente o que eu ia dizer, se o Mustang estava incluído ou não nessa lista.

Está, sim senhor. O Mustang é o único que vai pagar impostos nessa história.

Ok.

E uma vez que tanto a Ford Ranger como o Ford Bronco são produzidos no México, logo estão isentos deste tipo de penalidades, caso a Europa decida responder da mesma forma ao aumento tarifário dos Estados Unidos.

Só para perceber, só porque estávamos aqui a falar da Ford e há muitos outros modelos que até são muito vendidos na Europa e em particular em Portugal, Focus, Fiesta que vai ser descontinuado, mas o Kuga, o Puma, vêm todos da Europa?

Não, todos esses vêm da Europa.

Exatamente.

E mais do que isso, os elétricos, aqueles dois elétricos que eles agora têm, o Ford Explorer e o Ford Capri, são feitos em Colónia e até os comerciais, as Transit e as Custom e todas essas furgões vêm da Turquia. Ou seja, nada disso está abrangido por este aumento de impostos.

Muito bem.

O único modelo da marca Ford que vai ser castigado, caso a Europa decida responder da mesma forma, é o Mustang a gasolina e vai ser uma chatice para os amantes daquele V8, eu conto-me entre eles. Não que o modelo seja extremamente identificável ou espetacular, mas tem uma mecânica muito interessante pelo preço que é proposto. Esse modelo vai efetivamente ficar mais caro. Os outros não. Ou seja, não é uma coisa assim por aí além. Por outro lado, em termos de veículos, Portugal não exporta para os Estados Unidos, logo não é um problema. Sei que há setores, sei eu e tu ainda mais que eu, sabemos que há setores que vão ser penalizados, potencialmente, os vinhos, os azeites, por aí fora, mas não os automóveis, e nós aqui limitamo-nos a tratar do mundo automóvel.

É isso mesmo, é para isso que aqui estamos.

Exatamente.

Então, para terminar, é possível prever como é que esta guerra tarifária vai terminar?

Eu acho que vai terminar como todas as guerras tarifárias. Alguém um dia vai pôr a mão na consciência, tanto mais que as vítimas, que são os consumidores, vão começar a reclamar, porque vão ver as coisas mais caras. Nos Estados Unidos, as eleições são ganhas pela carteira. E vai ser essa mesma carteira que vai limitar a abrangência desta guerra tarifária. Porque quem concebeu esta forma de taxar as importações, eventualmente privilegiando a indústria local, o que grosso modo, teoricamente até faz sentido, esqueceu-se de um pormenor: há um modelo que é de longe o mais vendido nos Estados Unidos, e tu não vais gostar, eu também não gosto, mas é uma picape, a Ford F-150 e os seus derivativos, a Ford 150, a Ford 250, consoante o comprimento, a largura e o motor que monta. O problema é que estes modelos, as picapes da Ford, são efetivamente produzidas nos Estados Unidos, mas montam peças vindas um pouco de todo o lado, do Canadá, do México, etc. E quando tu montas num veículo a bomba d'água, o motor de arranque, a caixa de velocidades que vêm de outro país qualquer, e taxas essas peças a 25%, na prática, não estás a aumentar o preço do produto em 25%, mas não andas longe disso. Tudo depende da taxa de incorporação nacional que tens. Logo, eu não estou a ver bem como é que isso vai funcionar. E vai haver muitos consumidores infelizes com o preço que vão ter que enfrentar, vão ter que pagar, para adquirir um destes modelos que, mais uma vez te digo, é o mais vendido nos Estados Unidos.

Claro. Muito bem, é a guerra de tarifas e agora vamos trabalhar com esta realidade ao longo das próximas semanas. Vamos ver.

E não vai ser bom.

Não vai ser bom, nunca é.

Não vai ser bom.

Nunca é bom. Terminamos assim esta edição de Operação Stop. Alfredo, estamos de regresso na próxima semana. Um abraço.

Abraço, Miguel.